Waitress

4 Entre o Toque e a Queda


Edward não dormiu, não de verdade.

O corpo até tentou, pesado, cansado, afundando no colchão macio demais daquela casa perfeita demais , mas a mente… a mente se recusava a parar.

Isabella Swan.

O nome vinha fácil, insistente e repetitivo.

Como um pensamento que não pede permissão para existir.

Ele abriu os olhos antes mesmo do despertador tocar.

O quarto ainda estava escuro, envolto naquele silêncio confortável que deveria trazer paz, mas não trazia.

Ao seu lado, Rosalie dormia, impecável até nisso.

Respiração controlada, postura perfeita e sempre distante.

Edward ficou observando por alguns segundos, tentando sentir algo que deveria estar ali, mas não estava ou talvez estivesse… e ele apenas não conseguisse mais alcançar.

Ele virou o rosto para o teto.

E, inevitavelmente... Isabella veio em sua mente.

O olhar dela, silêncio, o som do batimento.

Ele fechou os olhos com força, aquilo não era certo.

Não deveria ser nada, mas já era alguma coisa.

⸻

— Você vai sair cedo de novo?- A voz de Rosalie veio antes mesmo que ele terminasse de abotoar a camisa.

Edward parou por um segundo.

— Tenho plantão.- disse tranquilo

— Você sempre tem.- ela reclamou como sempre.

Ele não respondeu.

Rosalie se levantou da cama, caminhando até ele com passos firmes, controlados e calculados.

— Nós precisamos tentar de novo.- disse ela cariciando seu peito e mordendo os lábios.

A frase caiu no ar, pesada, familiar e cansativa.

— Rosie...- Edward respirou fundo.

— Eu sei que vai dar certo dessa vez — ela interrompeu, aproximando-se. — Eu sinto.

Ele não queria dizer, mas sabia.

Sabia que sentimento não mudava biologia, que aquilo não estava acontecendo. Mas também sabia que destruir aquela esperança ali, naquele momento…seria cruel.

Ela levou a mão ao queixo dele segurando.

— Hoje à noite — disse, firme. — Sem desculpas.

Edward assentiu, automático, mas vazio.

E isso…ela não deixou de perceber.

⸻

A estrada estava molhada, a chuva fina ainda caía, constante, como se Forks estivesse presa em um único estado de espírito.

Edward dirigia sem pensar muito no caminho ou talvez pensando demais.

O hospital estava à sua frente, mas ele não entrou.

O carro passou direto, só quando percebeu o letreiro do Diner Clearwater à distância…foi que entendeu.

Ele precisava de ar, de algo diferente, de algo que não fosse…aquilo.

Ele estacionou, ficou alguns segundos dentro do carro com as mãos no volante.

O coração… estranhamente acelerado e então saiu.

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O sino da porta tocou.

O som foi simples.

Comum.

Mas, para Bella…foi suficiente.

Ela levantou o olhar automaticamente.

E o mundo...parou.

Edward.

Ele estava ali, sem jaleco, sem a distância clínica.

Mais humano, mais próximo e ainda assim…igualmente perigoso.

Bella ficou imóvel por um segundo a mais do que deveria.

A bandeja em sua mão quase esquecida.

Edward também não desviou o olhar, não imediatamente.

Algo silencioso passou entre eles.

Reconhecimento.

De novo.

— Café? — ela perguntou, finalmente.

A voz saiu mais baixa.

Mais controlada.

Do que ela esperava.

— Sim — ele respondeu, aproximando-se do balcão. — Preto.

— Forte?

— Muito.

Ela assentiu.

Virou-se.

Mas sentiu o olhar dele ainda ali.

Ela serviu o café.

Tentando manter as mãos firmes.

Tentando ignorar o que estava acontecendo.

Tentando e falhando miseravelmente.

Quando voltou, colocou a xícara diante dele.

Os dedos deles quase se tocaram....Quase.

E ainda assim…foi suficiente.

— Você trabalha aqui todos os dias? — Edward perguntou.

— Quase todos.- disse ela sorrindo.

Silêncio.

Curto.

Mas diferente do hospital.

Mais leve.

Mais… possível.

— E você? — ela perguntou. — Sempre salva vidas antes das seis da manhã?

Um pequeno sorriso surgiu.

Sutil.

Mas real.

— Tento.

Bella observou aquilo e algo dentro dela… cedeu.

— Deve ser difícil — disse.

— É.

Ele a encarou.

— E você? — perguntou. — É fácil?

Ela soltou uma pequena risada.

Sem humor.

— Nada na minha vida é fácil.- confessou ainda com um sorriso no rosto.

Silêncio.

Mas agora…um silêncio que dizia coisas demais.

— Você parece… — Edward começou.

Parou.

— O quê?- Bella inclinou levemente a cabeça.

Ele hesitou.

O que era raro.

— Distante.- ele disse de uma vez

Ela sustentou o olhar.

Por mais tempo do que deveria.

— E você parece cansado — respondeu ainda sorrindo.

Aquilo o atingiu, mais do que deveria.

Eles ficaram ali, se olhando, sem precisar de mais palavras e sem precisar de explicação.

— Bella! — a voz de Alice surgiu do outro lado do salão.

Ela apareceu ao lado dela, analisando Edward de cima a baixo.

— Interessante — murmurou.

Bella revirou os olhos.

Edward quase sorriu.

— Cliente novo? — Alice perguntou.

— Médico — Bella respondeu rápido demais.

— Ah… pior ainda.

— Eu deveria me preocupar?- Edward arqueou uma sobrancelha.

— Definitivamente — Alice respondeu, séria.

Depois sorriu e saiu.

O momento quebrou, mas não desapareceu.

⸻

A noite caiu pesada, completamente diferente do que foi o dia.

Mais escura, silenciosa e muito perigosa...

Bella abriu a porta de casa devagar.

Algo estava errado, oar parecia diferente, talvez mais denso que o normal e muito carregado.

— Mike?

Silêncio.

Ela deu mais um passo e então sentiu.

O cheiro.

Álcool.

Forte.

Inconfundível.

— Finalmente — a voz dele veio da sala.

Arrastada e muito alterada.

Bella travou.

— Onde você estava?- ele disse com a voz embriagada.

— Trabalhando.- ela deu os ombros.

— Mentira.- ele disse rindo.

Ela respirou fundo.

— Mike...

— Você acha que eu sou idiota?- ele perguntou gritando e derrubando coisas no chão.

Ele se levantou instável, mas ameaçador.

— Eu vi você hoje.- ele disse apontando o dedo.— No hospital... Você tá gravida?

O coração dela disparou, a pergunta veio como um golpe direto e sem preparação.

Silêncio.

Pesado.

Perigoso.

Bella não respondeu, não conseguiu e isso foi resposta suficiente.

— Você tá grávida — ele repetiu rindo.

Mas não havia felicidade ali.

Só raiva.

— De quem?- ele perguntou irritado

O mundo parou.

— Do meu marido — ela respondeu, firme.

Pela primeira vez.

E isso…foi o erro.

Mike riu, gargalhou alto e descontrolado.

— Você acha que eu acredito nisso?- acusou.

Ele se aproximou rápido demais.

— Você anda estranha.- completou.

— Eu só estou cansada...

— MENTIRA!- O grito explodiu no espaço.

E então... o impacto.

Rápido, seco.

Bella nem viu.

Só sentiu.

O corpo sendo jogado para trás.

A dor, o chão e o ar saindo dos pulmões.

E então o medo.

Ela levou a mão ao ventre.

Desesperada.

— Não… não…

Algo estava errado.

Muito errado.

⸻

O hospital parecia ainda mais frio naquela noite, as luzes fortes.

O cheiro limpo e o caos controlado.

Edward caminhava pelo corredor quando ouviu.

— Doutor Cullen!

Ele se virou.

— Temos uma paciente...

E então ele viu.

Bella.

Na maca, pálida, machucada e completamente quebrada.

Algo dentro dele...quebrou também.

— O que aconteceu? — perguntou, a voz já diferente.

Mike apareceu ao lado.

— Ela caiu da escada.- disse ele com o tom de voz arrastado e o cheiro de bebida barata exalando.

Silêncio, pesado e denso.

Edward olhou para Bella, depois para Mike e soube na mesma hora.

— Não minta pra mim — disse, frio.

Mike riu.

— Eu acabei de te contar...

Edward avançou, rápido e sem pensar duas vezes a mão fechando na camisa dele e mike estava no ar.

— Eu disse pra não mentir.

O ar mudou e a tensão explodiu.

— Dr Cullen— uma enfermeira tentou intervir.

Mas ele não soltou, seus olhos continuaram fixos, frios e perigosos.

— Sai de perto dela — disse, baixo.

— Você é só um médico.- Mike empurrou.

— E você é só um covarde.- disse ele entre dentes.

Silêncio, absoluto e Bella observava complemente atordoada, mas consciente o suficiente para entender.

Aquilo.

Aquela reação não era profissional, muito menos era racional.Era… pessoal.

Pela primeira vez alguém, além das amigas, estava do lado dela.

⸻

Edward a acompanhou até a sala, mais calmo...por fora.

— Eu preciso te examinar — disse preocupado.

Bella assentiu, as mãos ainda tremendo.

Ele se aproximou.

Dessa vez…com mais cuidado, mais atenção.

Mais… algo.

— O bebê… — ela sussurrou.

Ele parou.

Olhou para ela.

— Vamos verificar.

O aparelho foi ligado.

Silêncio.

Respiração presa.

E então...um som.

Fraco, mas presente.

— Está tudo bem.- Edward soltou o ar lentamente.

Bella fechou os olhos e chorou.

Não de dor, mas de alívio.

E, naquele momento…tudo mudou.

Porque agora não era mais só sobre fugir.

Era sobre sobreviver.

E talvez…pela primeira vez…ela não estivesse sozinha.

O corredor parecia mais silencioso quando Edward saiu.

Mas dentro dele…tudo fazia barulho.

E, pela primeira vez em muito tempo…ele não queria ignorar.

Porque agora…não era só uma paciente.

Era Bella.

E isso…mudava tudo.