Waitress
6 A Torta de Quem Fica
Algumas semanas passaram e Edward começou a aparecer todos os dias no Diner Cleawater.
No começo, ele disse a si mesmo que era coincidência. Depois, conveniência. E então… parou de tentar justificar. Porque a verdade era simples demais para ser ignorada: ele queria vê-la. E isso, por si só, já era perigoso o suficiente.
Naquela manhã, o sino da porta do diner tocou cedo, mais cedo do que o movimento habitual. Bella nem precisou levantar a cabeça imediatamente, ela já sabia. Havia algo na repetição, no ritmo, na forma como aquele som agora parecia familiar demais.
Quando seus olhos finalmente encontraram os dele, foi como se o mundo, mais uma vez, perdesse um pouco da pressa.
— Preto. Forte. Sem açúcar.
Ela já colocou a xícara na frente dele antes mesmo que ele pedisse. Edward observou o gesto, arqueando levemente a sobrancelha, enquanto se acomodava.
— Eu estou previsível? — perguntou, apoiando os cotovelos no balcão.
Bella cruzou os braços, inclinando-se levemente na direção dele.
— Muito. E isso pode ser um problema.- disse ela provocando
— Por quê?- ele a encarou sorrindo.
Ela sustentou o olhar por um segundo a mais do que deveria.
— Porque eu começo a gostar de previsibilidade.- confessou com um sorriso tímido.
O silêncio que se formou não era desconfortável. Nunca era, não mais. Havia algo ali que crescia sem pressa, mas com força suficiente para ser sentido em cada pausa.
— Isso é tão ruim assim? — ele perguntou, mais baixo.
Bella desviou o olhar por um instante, como se organizasse os próprios pensamentos.
— Depende de quem está do outro lado.
E aquilo ficou, entre eles, sem nome.
Mas impossível de ignorar.
— EU SABIA!
A voz de Emmett atravessou o diner como um trovão, quebrando o momento sem pedir licença. Ele apareceu como sempre, grande, barulhento e completamente alheio à delicadeza de qualquer situação.
— Eu sabia que tinha alguma coisa acontecendo aqui!
— Bom dia pra você também, Emmett.- Bella fechou os olhos por um segundo.
— Não muda de assunto — ele disse, apontando diretamente para Edward. — Você.
— Eu?- Edward inclinou a cabeça, curioso.
— Sim, você. Médico misterioso que aparece todo dia no mesmo horário, pede o mesmo café e olha pra mesma garçonete como se ela fosse sobremesa.
Bella quase deixou a bandeja escorregar.
— EMMETT!
— O quê? Eu só estou sendo observador.- diz ele com sinceridade.
— Você está sendo inconveniente — Leah comentou ao passar por eles com uma bandeja.
— São sinônimos — ele rebateu sem hesitar.
Alice surgiu logo em seguida, como se tivesse sido convocada pela palavra “romance”.
— O que eu perdi?- ela disse sorrindo
— Bom dia meu raio de sol, você perdeu a tensão romântica entre esses dois — Emmett respondeu sorrindo.
— EU SABIA! — Alice praticamente saltou, os olhos brilhando.
Bella levou as mãos ao rosto, completamente sem paciência.
— Eu vou embora.- disse corando
— Você trabalha aqui — Leah lembrou, seca.
O riso de Edward veio baixo, quase contido, mas real o suficiente para chamar a atenção de todos, principalmente de Bella. Era raro. E, por isso, significativo.
Emmett, no entanto, não havia terminado.
Ele olhou para Bella com mais atenção dessa vez, menos brincalhão, mais… atento.
— Espera.- disse a analisando.
O tom mudou.
O ar também.
Bella sentiu.
— Você tá diferente.
Alice imediatamente ficou em alerta. Leah cruzou os braços. Edward ficou imóvel.
— Diferente como? — Bella tentou manter o tom leve.
Emmett estreitou os olhos, analisando.
— Não sei… você tá…
O olhar dele desceu.
Parou.
E então...
— Você tá grávida?
O silêncio caiu como um peso.
Pesado.
Inesperado.
Inevitável.
Bella não se mexeu.
Alice prendeu a respiração.
Leah fechou os olhos como quem já esperava aquilo.
E Edward… Edward apenas a observava.
— Parabéns — Emmett disse de repente, quebrando a tensão de forma quase desarmada. — Sério. Você vai ser uma mãe incrível.
A reação foi tão sincera que ninguém conseguiu responder imediatamente.
Bella piscou algumas vezes.
Surpresa.
— Obrigada, eu acho — disse, baixo.
E algo naquele momento… se suavizou.
— Isso merece comida — Emmett declarou, recuperando sua energia habitual. — Sempre merece comida.
— Claro que merece — Alice concordou revirando os olhos.
Bella respirou fundo, sentindo a tensão ainda ali, mas agora misturada com algo mais leve.
— Eu fiz uma torta.- disse sorrindo
— Eu amo quando você diz isso.- Alice se animou imediatamente.
— Nome? — Emmett perguntou, já se inclinando para frente.
Bella hesitou, por um instante.
E então respondeu:
— Torta de fuga.
— Dramático — ele comentou.
— Perfeito — Alice corrigiu dando um tapinha do braço do grandão.
Bella colocou a torta sobre o balcão. Simples, mas bonita. O cheiro quente se espalhou rapidamente, preenchendo o espaço com algo que parecia conforto… mesmo que o nome não sugerisse isso.
Emmett pegou o primeiro pedaço sem cerimônia. Deu uma mordida e congelou no lugar.
— Meu Deus.- ele gemeu.
— Lá vem.- Leah arqueou uma sobrancelha.
— Isso é… ilegal.- diz Emmett pegando mais um pedaço da torta.
Alice riu.
Edward pegou um pedaço também, mais devagar. Observou, como fazia com tudo. E então provou.
E, por um segundo, tudo nele ficou em silêncio.
— É boa? — Bella perguntou.
— É perigosa.- Ele levantou o olhar para ela.
— Por quê?- Ela franziu levemente a testa.
— Porque faz você querer ficar.
E ninguém riu dessa vez.
A noite chegou devagar, e o movimento do diner diminuiu até desaparecer quase por completo. As luzes ficaram mais suaves, o som mais baixo, o ambiente mais íntimo.
Bella estava sozinha quando a porta se abriu novamente.
Ela não se assustou.
Já sabia.
— Você fecha tarde — Edward disse, entrando.
— Você aparece tarde.- disse sorrindo enquanto guardava os copos no armário.
Ele se aproximou, sem jaleco e sem pressa.
Mais humano, sempre mais humano ali.
— Eu precisava ver você.- confessou.
A frase veio simples, mas carregada.
Bella parou por um segundo.
— Isso está virando um problema.- ela disse o encarando.
— Eu sei.- ele suspirou
— Então por que você continua vindo?- perguntou
Ele parou diante dela, perto demais.
— Porque eu não quero e nem consigo parar.
O ar mudou.
De novo.
Sempre.
— Edward…
— Bella…
Os nomes saíram baixos, íntimos demais para serem seguros.
— Isso não pode acontecer — ela sussurrou.
— Eu sei.
Mas ele não se afastou e nem ela.
O espaço entre eles diminuiu lentamente. Respirações misturadas, olhares presos, tempo suspenso.
Ela sabia.
Ele também.
E, ainda assim…ninguém se movia para impedir.
Os olhos dela caíram para os lábios dele e os dele…para os dela.
Mais um centímetro.
Mais um...
A porta abriu com força.
O som foi alto demais.
Os dois se afastaram como se tivessem sido queimados.
Bella virou e o mundo, dessa vez…não desacelerou.
Ele desabou.
Rosalie estava parada na entrada.
Impecável, perfeita e completamente furiosa.
O silêncio tomou conta do espaço imediatamente, pesado o suficiente para sufocar qualquer palavra.
Ela caminhou, devagar. Cada passo calculado e com olhar preciso.
Primeiro em Edward.
Depois em Bella.
— Então é aqui.- A voz era baixa, mas cortante.
Edward não respondeu.
— Você é a Isabella — Rosalie disse, sem perguntar.
— Eu…-Bella engoliu em seco.
— Não precisa explicar.- Ela sorriu friamente — Eu sou Rosalie. Esposa do Edward.
O impacto veio imediato, Bella sentiu mas não recuou.
Rosalie a analisou de cima a baixo e então parou no ventre pequeno, mas visível e algo dentro dela… se rompeu.
— Claro — murmurou. — Claro que você está grávida.
O tom mudou, mais duro e muito cruel.
— Isso é algum tipo de piada?- perguntou encarando o marido.
— Rosalie...- Edward deu um passo à frente.
— Não.- Ela ergueu a mão.— Agora eu falo.
Os olhos voltaram para Bella.
— Você acha que é especial?
Cada palavra carregada de veneno.
— Acha que ele vai escolher você?
Bella não respondeu.
Não precisava.
— Você é só uma fase.
Rosalie se aproximou mais.
— E vai passar.
Edward segurou o braço dela.
— Chega.- A voz dele veio firme e diferente.
Rosalie olhou para a mão dele, depois para o rosto dele e algo ali…acabou.
— Você já escolheu.- disse a loira — Aproveita enquanto pode.
Silêncio.
Ela se afastou.
E saiu.
A porta bateu e o silêncio que ficou…foi pior.
Bella permaneceu parada e Edward também.
O mundo parecia suspenso.
— Isso não pode continuar — ela disse, finalmente.
Baixo.
Quebrado.
Mas firme.
Edward assentiu.
— Eu sei.
Mas nenhum dos dois se moveu.
Porque, no fundo…eles também sabiam que já era tarde demais.
E, naquela noite, não foi o beijo que mudou tudo.
Foi o fato de que ele quase aconteceu.
E agora…nenhum dos dois conseguiria esquecer.
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