Rotina. Essa palavra define a minha vida.

Eu era uma adolescente quieta, com uma vida monótona, prestes à me formar no colegial. Minha aparência era normal, aparência de quem não liga muito para a aparência. Sem maquiagens, sem alisamento nos cabelos ruivos e desgrenhados e sem um pingo de cuidado com o corpo que naturalmente era magro. Sem muitas expectativas futuras com a vida, e quem dirá com o amor.

Mais um intervalo normal, numa escola normal, e eu indo para o mesmo lugar normal, onde normalmente eu leio algo normal, e escuto uma música anormal para poder passar o tempo.

Eu estava concentrada no livro, -onde mergulhava em mundos totalmente diferentes da minha realidade — que nem percebi que alguém havia se sentado ao meu lado naquele vasto lugar aconchegante com árvores e grama.

Quando percebi a presença de alguém, levantei os olhos para observá-lo. Era uma moça, linda, de cabelos escuros e óculos delicados. Eu sorri, e voltei à minha leitura.

Nos dias que seguiram depois desse, eram todos iguais, com a presença da menina de óculos ao meu lado, me observando misteriosamente.

Passaram-se algumas semanas, e percebi que naquele dia, a moça de cabelos escuros que todo dia me observava ler e cantarolar músicas nada normais, havia se sentado ao meu lado, no mesmo horário como nos outros dias, porém, com um violão em mãos.

Continuei minha leitura como sempre, e quando estava concentrada cantarolando uma música aleatória, a menina começou a tocar algumas notas no seu violão, que coincidia com a música que eu estava cantarolando. Quando chegou no refrão, ela me acompanhou na cantoria, e assim que a música terminou, começamos a conversar sobre músicas.

Estranhamente ela era como eu. Talvez não tão quieta e tímida quanto eu, mas tinha os gostos estranhos, como eu.

A cada dia que passava, conversávamos mais e mais, durante aqueles vinte minutos de intervalo. Desde que eu tinha chegado naquela escola -três anos atrás- nunca havia feito uma única amizade. Mas aquela menina me cativava de um jeito um tanto quanto estranho.

Eu não me lembro de alguma vez ter me apaixonado por alguém, e nem sabia como era a sensação de estar 'apaixonada', mas eu me sentia tão bem perto da menina, que no qual eu nem sabia o nome, mas que indiretamente mexia comigo.

Nossas conversas e cantorias duravam apenas vinte minutos, mas nos outros 1420 minutos do dia eu pensava no jeito de ela se expressar.

Em um dia indo para o colégio, passei diante de uma floricultura, e ao ver rosas amarelas, lembrei dela, que no dia anterior havia me dito que adorava rosas, de cores diferentes, exóticas. Não pensei duas vezes, comprei a tal rosa, e fui correndo para escola, esperando ansiosamente o intervalo para surpreendê-la.

Eu não sabia onde essa minha vontade toda de estar com ela ia me levar, mas eu só queria surpreendê-la e fazê-la sorrir, pois seu sorriso era o mais lindo que eu já vi.

Sentei-me no mesmo lugar de sempre, e esperei ela chegar. Escondia a rosa atrás de mim, e assim que a vi chegar, instintivamente dei um beijo em sua bochecha. Não sei porque exatamente fiz isso, porém, eu gostei e queria repetir. Sorri encabulada, e dei-lhe a flor.

Observei seu rosto ficar corado, e então puxei ela para sentar-se comigo.

No dia seguinte, eu havia a desenhado durante a aula, e mal esperava para mostrar à ela. Quando eu cheguei no local, ela já estava lá me esperando com seu violão. Eu corri sorridente e abanando o desenho sobre o ar. Eu acho que ela adorou, e até cantou uma música que havia composto para mim.

Depois do episódio da rosa, notei que cada vez ela foi ficando mais próxima de mim. Assim como a minha formatura. Durante nossas rápidas conversas no intervalo, descobri muito sobre ela, e eu realmente não queria deixar aquela escola. Ela estava no primeiro ano, e estava tentando uma vaga numa escola particular, onde o foco principal -além da grade curricular padrão- era a música. Ela era boa no que fazia, e eu a admirava por isso.

Meu coração acelerava só de olhá-la de longe. E eu desejava-a comigo sempre.

No último dia de aula antes da minha formatura, eu a convidei para cabular a aula. Ela logo não aceitou, mas com jeitinho eu a convenci. Foi o melhor dia da minha vida.

Nós fizemos de tudo, desde dançar no fliperama até correr perto do lago. Tomei coragem e segurei sua mão enquanto estávamos indo para o metrô para voltar pro colégio. Eu não sei se ela sentia o mesmo que eu, ela nunca me disse ou deu indireta sobre isso, mas eu me sentia tão bem fazendo essas coisas, que eu não consegui evitar.

Quando paramos em frente à escola, ela me abraçou, e quando ela ia se virar para ir para sua casa, eu segurei seu braço, colei seu corpo no meu, e encarei seus lábios finos e brancos, os desejando muito. Me segurei, sabia que aquilo era proibido. Sabia que meus sentimentos eram proibidos, então dei um passo pra trás, e a vi sorrir.

Ouvi ela balbuciar um "o sinal" ou algo do gênero e depois só me lembro de ela colar nossos lábios em uma fração de segundos depois. Seu beijo era leve, quente e devagar, era tudo o que alguém deseja. O beijo se aprofundou, e eu cheguei a ficar sem fôlego. Mordi seu lábio e a abracei forte, tão forte que não conseguia respirar.

Ela foi embora depois disso, e eu pensei que nunca mais ia a ver.

No dia seguinte, o dia da formatura, eu estava rezando para que ela aparecesse lá, e me fizesse sentir bem como no dia anterior. Mas eu tinha quase certeza que isso não ia acontecer.

Ao chegar no local da festa, fiquei a procurando. Em vão. Ela não estava em lugar nenhum.

Seguiu-se pela cerimônia, e eu cada vez mais desanimada, sentei numa mesa, e deitei minha cabeça sobre meus braços, fazendo minha última reza, quando senti braços me envolverem. Eu conhecia aqueles braços. Me arrepiei e levantei a cabeça. Era ela. Linda, num vestido preto, longo, cabelos presos e seus óculos engraçadinhos e delicados como sempre. Ela sorriu, me entregou uma espécie de pulseira, com sua inicial, uma rosa amarela e um cartão. A encarei maravilhada com tudo aquilo, e a questionei o porque disso tudo. Ela me respondeu com um singelo "você merece" me deu um selinho e virou-se para ir embora.

Sem entender, corri e a abracei por trás. Eu precisava dela. Ela me deu um último beijo, como o da tarde passada, se virou novamente e foi embora.

Fiquei pensando naquilo o resto da noite.

Ao ler o cartão, as três da manhã, no meu quarto, ainda de vestido e bebendo um café, vi seu número escrito e logo abaixo um coração desenhado, ao lado de um enorme "Parabéns pela formatura".

Nas três horas seguintes, eu tentei ligar para ela, mas sem resposta.

Dormi com o telefone numa mão e com a caneca na outra.

As férias passaram, eu entrei para faculdade de engenharia da computação, e nunca mais tive notícias dela. Tentei ligar, tentei achar seu endereço por meio do telefone, mas sem sucesso.

Procurei a matrícula dela no meu antigo colégio, e então descobri que ela havia conseguido a vaga para a tal escola de música. Fiquei feliz, porém triste, ao descobrir que a escola ficava no outro lado do país.

Frustrada de tanto ligar e não obter respostas, pensei em rasgar o cartão, mas ao virá-lo, vi algo mais escrito.

A caligrafia era horrível, mas dizia algo como "eu prometo te visitar, no mesmo lugar onde eu te conheci". A partir desse dia, todos os dias, antes e depois de ir pra faculdade, eu passo na minha antiga escola, com um livro nas mãos e fones no ouvido, esperando ela.

Notas finais
Espero que tenham gostado!
Pretendo postar mais fanfics yuri/shoujo-ai, então me deem um feedback! Custa nada deixar uma review sobre o que achou, ou sobre o que tem que ser melhorado.
Muito obrigado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!