WSU's Padre
8 VII
Bairro da Renascença, Cidade do Corsário
Mais uma vez o Chevette torna a parar na peculiar casa de cerca baixa e uma esquina que não formava um ângulo de noventa graus entre as ruas, mas um arco circular. Ironicamente, Wellington saira dali numa noite e no final da tarde do dia posterior, já estava a gritar no portão:
— Mathias!
Enquanto procurava outra pedra largada ao chão, o padre ordenado colocara a apenas a cabeça para fora.
— Ah! — aliviou-se, ao vê-lo. — Aí, está você! — Sorriu, desajeitado e recompondo-se. — Eu preciso muito falar contigo, cara!
Mathias ergueu as sobrancelhas, desconfiado.
— É sério? — indagou, com um sorriso malicioso no rosto. — Achei que não queria ver — levou a mão ao queixo e coçou com o indicador —; o que mesmo? —
Levou os olhos aos céus, enquanto o outro coçava tirava o chapéu da cabeça para coçá-la.
— Ah, é! — entusiasmou-se. — A minha cara de cu novamente!
— Vai se foder! — rebateu o exorcista.
A resposta foi a porta batida bruscamente, seguida do som metálico da fechadura sendo trancada. Porém, Wellington sabia que aquilo era mais do que uma briga de egos entre um jovem padre e outro excomungado há anos.
— É o Lineker! — tentou um último apelo. — Algum tipo de demônio pegou ele e...
Era muito difícil para ele digerir tudo aquilo. Seu olhar para baixo resumia sua sensação de impotência.
— Um demônio pegou ele. — Procurou arrumar melhorar as palavras. — Um defunto possuído na área, um tal de Funes.
O silêncio estabelece-se sobre o lugar. Certo de que não teria ajuda do clérigo, o homem deu as costas e saiu andando. Isto até ouvir a fechadura se abrir e ele olhar para trás novamente.
— Entre aí — chamou o jovem padre.
Com um controle remoto na mão, Mathias destrancou o portão da frente e Wellington pôde entrar em sua casa. Mais calmos, sentaram-se no sofá da sala e o exorcista percebeu uma pasta de cor mostarda em cima do centro de vidro.
— Como disse que o possuído se chamava? — indagou o clérigo.
— Funes — respondeu. — Nome meio incomum, hispânico.
Foi então, que Mathias abriu a pasta e mexeu em seus arquivos. Retirou uma fotografia em preto e branco do tamanho de uma folha de papel ofício e mostrou ao homem à sua frente.
— É esse aí mesmo — confirmou.
— O nome é hispânico porquê ele é espanhol — continuou o padre. — É um agente do vaticano e está desaparecido há um mês.
O exorcista soltou uma risada forçada e sarcástica.
— Quando eu penso que já vi de tudo — apontou para o padre mais jovem —, o Vaticano me impressiona com seu próprio MI-6.
Foi então que Mathias o interrompeu sacando um distintivo reluzente com os dizeres bordados:
Sanctæ Romanæ Alianza
— Bacana — elogiou. — Devem ter até minha lista criminal, não?
— Temos, Wellington Agostino — respondeu, arregalando os olhos do exorcista instantaneamente. — Mas você não é o caso agora.
Logo, lhe passou pela cabeça sua formação nas artes ocultas da Ordem dos Faustinos e da relação desta seita com o caso.
— Sabe o que é engraçado? — comentou, tirando um cigarro do maço de seu bolso. — O Vaticano ter um serviço de inteligência seu e não saber um terço do que se passa na Igreja.
— Se estiver falando da Ordem dos Faustinos, que você até foi membro — rebateu, sério —, o agente Funes foi enviado para obter informações sobre o ritual da chegada do anticristo.
— Ah, tá — disse Wellington, desconsertado. — Então o bebê do tinhoso está chegando?
Ignorando a piada, Mathias tirou um gravador de dentro da pasta e ligou-o no ponto de reproduzir a fita.
— Esta é uma ligação do canal especial da Aliança — explicou, enquanto o som de chamada reproduzia-se no fundo.
Foi então, que a voz preocupada e ofegante tomou o local.
— Não sei quando o senhor vai ouvir esta mensagem, mas coisas saíram do controle, Santo Padre — as palavras em latim eram emitidas pelo aparelho. — Eu não deveria ter deixado chegar a esse ponto.
O som do choro abafado tomou conta da gravação.
— Ele ligou para o papa? — perguntou Wellington. — Que sortudo, meu sonho é falar com o Santo Padre.
— O último contato com o Vaticano.
— E depois disso, ele foi morto — acrescentou Wellington.
— Eu me envolvi com poderes que eu não posso dimensionar. — Pigarreou, produzindo um ruído. — Eu já sei o que fazer, vou consertar tudo — De repente, um sinal de obstinação. — Com a sua benção, Santidade.
Dois bipes agudos sinalizaram a interrupção da ligação, seguida pela música de espera.
— I swear, by the moon and stars in the skies — a melodia foi o último som, antes do jovem padre desligar o gravador.
Olhando para o padre caubói a sua frente, o homem levantou-se e disse.
— Seja o que for — disse, estendendo a mão na direção do outro —, vou esquecer as nossas diferenças e fazer isso por Lineker e pela Igreja.
Wellington levantou-se com um sorriso e apertou a mão de seu agora aliado.
— Então, vamos — disse o exorcista, ao desatar as mãos.
— Para onde? — indagou, Mathias.
— Caçar — respondeu, quando partiu obstinado a encontrar seu filho.
Ambos foram na direção da saída, até que Wellington parou por um instante.
— Só uma dúvida. — O exorcista parou um instante. — A música de espera do papa é I Swear, de Elvis Presley?
Casa de Julia, Bairro do Éden
Enrolada em meu edredom e com um taco de beisebol de precaução ao meu lado, eu observava Tuller prestar atenção na janela do meu quarto. Enquanto o contemplava, vestido apenas com as roupas de baixo, sentia que havia mais alguém ali, ou alguma coisa.
Meu amante virou-se e pousou seu olhar sobre mim.
— Não é à toa que dizem que essa porra de construção é amaldiçoada — comentou, sobre o futuro presídio que se erguia. — Isso parece o clipe Thriller do Michael Jackson.
— E você tinha medo de Thriller? — Não contive o riso, ao perguntar.
— Não é que — titubeou um segundo —, dizem que era aí que os escravos rebeldes do Barão de Corsário eram executados.
— É, eu também ouvia as histórias — concordei, juntando meus pés. — Ele tirava os dentes, depois os dedos, depois os olhos e, se o escravo não morresse no decorrer do processo, ele matava decepando a cabeça.
Horrorizado, ele cobriu o rosto e respirou fundo.
— Que tipo de demônio faz uma coisa dessas? — perguntou, vindo em minha direção.
— Eu sei, três tiros no peito já eram mais do que o necessário.
Ao deitar-se na cama, ele olhou de lado para mim e franziu o cenho.
— Qual o motivo de dizer isso, Julia? — Parou um instante e após um breve arquejo, se deu conta de onde eu queria chegar. — Meu Deus, foi você!
Apenas acenei com a cabeça. Um silêncio constrangedor pairou sobre o quarto, enquanto um arrepio subia pela minha coluna.
— Eu não queria isso. — Senti como se uma compressora apertasse o meu peito. — Ele ia me matar e... ia te matar, eu não podia deixar acontecer.
Tuller olhou para frente e passou os dedos de sua mão direita entre os cabelos.
— Que caralho de mundo é esse? — indagou-se, incrédulo.
Não havia mais o que eu fazer. A partir dali, meus amigos, se ele quisesse ir, era uma decisão dele. Mas eu não queria. Foi por isso que repousei minha cabeça sobre seu peito.
— Eu estou grávida, Tuller — falei, quando uma lágrima escorreu sobre minha face. — Eu estou com muito medo.
Ele beijou o topo de minha cabeça e ergueu meu rosto pelo queixo, para que eu pudesse olhar em seus olhos.
— É o meu filho e eu não vou te deixar sozinha.
Foi nesse instante que um barulho intenso de panelas no andar de baixo estrondou por toda casa. Meu amante ouviu atento e rapidamente reagiu, pegando o taco ao meu lado e levantando-se da cama.
Quando ele deixou o quarto, uma voz sussurrou em meio ouvido:
— A arma — disse, incessante e repetidamente. — A arma.
Era como a minha própria voz, mas não como aquela em nossos pensamentos. Não me fazia sentido nenhum pensar em me defender, àquela altura eu tinha medo por mim e pela vida que eu carregava.
— A arma, pegue a arma.
Só que ela queria que eu sobrevivesse e eu também. Foi o que eu fiz. Levantei-me e desci a escada. Fui ao pequeno bar e ao abrir a gaveta, me deparei com o revólver.
— Recarregue — sussurrou alto e imperativo.
Quando peguei o pente carregado na gaveta, ouvi aquele estrondo. Era o corpo de Tuller sendo arremessado da cozinha na parede ao meu lado. Senti um pingo cair na minha cabeça.
Ao meu lado, meu amante gemia de dor e acima de mim várias e contínuas gotas de um líquido negro caíam em meu rosto. Limpei os olhos e pude ver o sangue preto escorrendo da boca de meu marido agarrado com uma tarântula no teto. Apavorada, gritei.
Ele saltou, me fazendo fechar os olhos e recolher minha cabeça entre meus braços achando que aquilo poderia me defender. Percebi que nada aconteceu comigo, mas ele tinha Tuller estendido em suas mãos que abriam sua arcada dentária. Foi então que aquela coisa arrancou brutalmente a cabeça dele pela mandíbula.
— O peito — disse a voz, me fazendo olhar para a luz negra que saía dos próprios ferimentos que causei.
Consegui recarregar a arma, mas eu estava apavorada. Minhas mãos não respondiam o meu cérebro, tremiam como uma britadeira e tudo o que eu queria era chorar vendo aquela piscina de sangue. Tuller estava morto e fez isso tentando me proteger. Aquilo não poderia ser em vão.
O arrepio na minha coluna voltou, senti como se duas mãos firmes sustentassem às minhas e minha mira fosse exatamente no peito da criatura. Eu só tive que puxar o gatilho. Uma, duas, três vezes. E o demônio caiu.
Suspirei aliviada e soltei a arma no chão.
Talvez o propósito daquela presença tenha sido sempre me proteger.
— Julia? — alguém me chamou, mas não era nada como a minha voz. Era uma infantil e inocente.
Olhei para a porta da sala e novamente suspirei, era o filho do padre.
— Graças a Deus, Lineker! — agradeci, correndo para abraçá-lo.
Avenida Verde
As janelas abertas do Chevette eram o escape da fumaça do cigarro numa das mãos do motorista, a outra segurava o volante.
— Posso perguntar uma coisa? — indagou o exorcista, tirando os olhos da estrada um instante.
— Desde que não seja um pedido para falar com o papa — respondeu, Mathias —, ou sobre o gosto musical dele.
Wellington deu mais um trago e expeliu a fumaça de seus pulmões pela sua janela.
— Disse que você e a Loucademia do Vaticano tinham minha ficha criminal. — Tocou rapidamente o indicador no cigarro por três vezes, o bastante para as cinzas caírem pela janela. — O que tem lá?
— Você já sabe — falou, desviando o olhar para sua janela.
O gesto foi assistido pelo motorista.
— Tem algo mais, não é? — perguntou, irritado.
O silêncio foi a resposta.
— Fala logo, porra! — esbravejou, arremessando o fumo para fora do carro.
Mathias virou-se para frente, não conseguia encarar o homem ao seu lado.
— Eu fui o médico legista do Vaticano no seu caso — disse, com o pesar na voz. — Os laudos apontaram que o garoto que você exorcizou já estava morto há três dias.
Wellington virou bruscamente o volante e pisou firme no freio, parando o carro quase instantaneamente no acostamento. Virou-se para o passageiro com os olhos vermelhos e levemente mareados com lágrimas de raiva.
— Está me dizendo que todo esse tempo a Igreja me usou como bode expiatório?! — gritou, cerrando os punhos.
O padre olhou para as mãos raivosas e estremecidas de seu companheiro.
— Wellington, acha que a justiça acreditaria nessa história? — tentou acalmar a situação.
— Eu tô pouco me fodendo pra isso porra! — bradou, choroso. — Depois de todos esses anos fugindo e me escondendo, ninguém quis me ajudar!
Mathias suspiro e levou as mãos ao rosto.
— Pare para pensar melhor, Wellington — apelou uma última vez. — Um demônio possuindo um morto, a resposta desse caso pode ser a sua.
Wellington desceu do veículo e apontou para frente. Diante de uma estrada de terra ao lado do Chevette, estava a construção e sua bizarra névoa e a casa.
— Então é melhor descer do carro.
Ambos foram até residência caminharam sujando o sapato de lama. Ao chegarem o padre bateu à porta e, para sua surpresa, ela abriu-se. Adentraram na casa, onde havia um estranho silêncio acompanhado de uma poça enorme de sangue.
— Ah, meu Deus! — pasmou, Mathias.
Logo, viram a fonte de todo carmesim na sala. A cabeça do garçom separada do resto do corpo pela mandíbula.
— Puta que pariu, Tuller! — lamentou Wellington, cobrindo a boca com o mau cheiro.
Mathias percebeu uma poça de um líquido grosso e negro, a fonte do forte odor e não pode evitar a cusparada de nojo.
Foi então que a porta dos fundos se abriu e ambos se entreolharam. O mais jovem tomou a frente, chamando o outro num gesto com a mão esquerda.
Ao chegaram, depararam-se com a dona da residência parada entre eles e o nevoeiro bizarro da construção do presídio.
— Julia! — chamou Wellington, indo em direção da mulher.
No entanto, a mão de Mathias o impediu.
— Não é ela — afirmou, apontando.
Ambos perceberam os olhos dela acesos como um farol verde. Julia virou-se e correu, desaparecendo em meio a névoa.
— Bem — disse Wellington, partindo na direção da construção —, não temos escolhas.
Mathias negou com a cabeça, achava loucura. Porém, era o que tinha de ser feito.
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