Vórtice do Amanhã

1 O pacote na chuva


A chuva caía como se o céu estivesse chorando por algo que ainda nem havia acontecido. As gotas batiam nas folhas da floresta com força, transformando galhos em chicotes e o solo em lama pegajosa. Entre as árvores retorcidas, um homem corria com o corpo ferido e os olhos arregalados pelo medo. Tinha a respiração curta, o rosto coberto de sangue seco e terra, e carregava nos braços um embrulho apertado contra o peito, como se fosse a única coisa no mundo que ainda valia a pena proteger.


Não era um pacote comum. Era uma criança.


O pequeno rosto, meio oculto por mantas velhas, permanecia em silêncio, como se até o choro tivesse medo de nascer. A menina tinha olhos dourados, olhos que pareciam brilhar mesmo sob o céu cinzento. E mesmo naquele caos, ela o olhava com uma tranquilidade que beirava o impossível.


Ele tropeçou numa raiz exposta, caiu de joelhos e quase soltou o bebê, mas apertou-a ainda mais forte. Um gemido de dor escapou-lhe dos lábios, e ele se forçou a levantar. Estava perto. Precisava chegar. Mais uma colina, mais um campo, e encontraria a casa. Aquela casa.


Atrás dele, o som de estalos secos se misturava a uivos distantes. Não eram lobos. Não de verdade. O que o perseguia era mais antigo que qualquer lenda, mais cruel que qualquer fera – e tinha o cheiro da magia selvagem. Aquela magia que os sábios juravam estar extinta, enterrada com os ossos dos que ousaram brincar com o Tempo.


Um raio roxo cortou o céu, iluminando por um instante a clareira à frente. E lá estava ela: a casa de madeira isolada, com a varanda torta e as janelas embaçadas pela neblina. As luzes internas tremeluziam, hesitantes, como se a própria casa soubesse que algo impossível estava prestes a acontecer.


Ele subiu os degraus da varanda aos tropeços, deixando pegadas de sangue nos tábuas molhadas. Com as mãos trêmulas, pousou a criança bem diante da porta, envolvendo-a com cuidado. Depois tirou do bolso um broche dourado, antigo, partido ao meio. Prendeu-o na manta, como se fosse uma proteção, um lembrete, ou talvez uma despedida.


A bebê, que até então estava calma, soltou um leve choramingo. Seus olhos fixaram os dele por um último segundo, e o homem sentiu as lágrimas subirem aos olhos. Ele tocou a testa da criança com os lábios e sussurrou algo que só ela ouviu.


– Me perdoa. Você nunca deveria ter nascido assim... mas agora é a única chance que temos.


Antes que pudesse bater à porta, ela se abriu. Uma mulher apareceu – expressão confusa, vestida com um roupão puído e segurando uma lanterna velha. Seus olhos encontraram o embrulho no chão. Depois, subiram até o homem diante dela.


Mas ele já estava se afastando.


– Cuide dela. – Ele disse, com a voz fraca, mas firme.

– Proteja-a. Não diga quem ela é. Nem mesmo para ela.


E então desapareceu na chuva, como um fantasma empurrado pela tempestade.


A mulher hesitou, mas se agachou e pegou a criança nos braços. O broche rachado caiu da manta e ela o segurou por instinto, observando seu brilho estranho sob o raio que riscava o céu. A bebê olhou para ela e, por algum motivo inexplicável, a mulher sentiu um calor no peito, como se estivesse diante de algo que mudaria tudo.


Ela olhou em direção à floresta, mas não havia mais sinal do homem. Apenas a escuridão. Apenas o silêncio.


– Lysel... – murmurou, sem saber de onde tirara aquele nome. – Seu nome vai ser Lysel.


E então a porta se fechou.


Por um instante, o mundo pareceu suspender o fôlego. Em algum lugar distante, um relógio estilhaçou sozinho. No topo de uma torre esquecida pelo tempo, um ponteiro deu uma volta ao contrário. E no fundo da Terra, onde o Tempo dorme sob pedras antigas, algo abriu os olhos.



A primeira Ruptura havia começado.