Notas iniciais
Espero que gostem.

22:01

Marcelo

O trajeto até a escola demorava quarenta minutos, nenhum de nós falou durante o percurso, eu só conseguia pensar em como salvar meus amigos, não conseguia imaginar o que estava se passando na cabeça da Thainara, que no momento estava checando o celular.

— Pare o carro, tenho que descer.

— O que? — Ela me mostrou uma mensagem que havia acabado de chegar.

Hora de se separar, vá até esse local ou seu irmão morre

— Porra! — Parei o carro — Onde ele está te mandando?

— Para nossa escola infantil.

— Eu não entendo, porque ele faria isso?

— Eu não sei, mas é perto uma da outra, posso ir a pé até lá quando chegarmos no seu destino.

As escolas de ensino fundamental, infantil e médio que frequentamos ficavam muito próximas umas das outras, realidade apenas algumas ruas de distância, enquanto crescia achava isso estranho, mas naquela situação estava grato por poder ficar relativamente perto dela.

— Okay, assim que acabar... — Não sabia o que falar porque não sabia o que iria acontecer — vou até você o mais rápido possível.

— Tudo bem.

O resto do trajeto também foi em silencio, só que agora tudo o que conseguia pensar era em um bom motivo para ele separar a gente, será que os outros estão separados entre as duas escolas? Chegamos na esquina da rua que dava acesso à escola infantil, parei o carro, Thainara não se moveu, depois de alguns segundos ela começou a falar.

— Estou com muito medo.

— Eu também, mas vai ficar tudo bem.

— Como sabe disso?

— Lembra quando éramos crianças e você caiu da arvore? Eu não falei que ia ficar tudo bem e que você não tinha quebrado nenhum osso, não foi isso o que aconteceu?

— Foi.

— Então, você tem minha palavra.

— Tudo bem. — Ela saiu do carro e eu fiquei observando enquanto ela descia a rua.

22:11

Thainara

Descer do carro foi a coisa mais difícil que eu fiz em toda minha vida, estava tremendo, todas as casas no caminho até a escola estavam com as luzes apagadas, quando cheguei a escola não sabia se devia entrar ou esperar na frente. A entrada era um portão antigo que estava sem cadeado, abri e vi uma caixa de papelão com um papel em cima.

Leia as instruções.” Abri a caixa e dentro havia um celular antigo e uma folha de papel.

1- Desligue o seu telefone e jogue o mais longe possível

2- Você vai usar apenas esse celular que está na caixa

Joguei o meu celular no bueiro que ficava em frente à escola, assim que liguei o segundo celular percebi que ele era diferente, não conseguia fazer ligações, o único aplicativo desbloqueado era o WhatsApp, os outros precisavam de senha, além disso só a lanterna funcionava e o só tinha 20% de bateria.

— Perfeito. — Coloquei o celular no bolso e comecei a caminhar em direção das salas de aula.

Era muito estranho voltar ali, passando pelo portão você tinha uma entrada que era um corredor sem paredes, só uma cobertura, a esquerda ficava os parques, que naquele momento pareciam assustadores, do lado direito ficavam duas salas que eram usadas para as crianças menores, paralelo a essas salas ficava o prédio principal com mais seis salas, o refeitório, a diretoria e algumas salas de funcionários. A escola havia passado por reformas, haviam mais dois prédios praticamente do mesmo tamanho que o principal, não sabia o que ia encontrar lá dentro então resolvi começar pela primeira sala da direita, assim que abri a porta dei de cara com um corpo no chão, coloquei a mão sobre a boca para não deixar o som do grito escapar, não era ninguém que conhecia. Cheguei mais perto do corpo e percebi que era um homem usando uniforme de segurança, sua garganta tinha sido cortada, me apoiei na parede tentando não vomitar ou desmaiar. Respirei fundo, precisava de um plano, precisava procurar os outros. O celular vibrou com uma mensagem.

Hora de comer

Só agora tinha percebido que o aparelho estava conectado a uma rede Wi-Fi, provavelmente o da própria escola, liguei a lanterna e fui em direção ao refeitório.

21:49

Vinicius

Acordei em um quarto escuro, depois de apagar no estacionamento me lembrava vagamente de ser colocado no porta-malas de um carro, me levantei, mas não consegui andar, minha perna estava presa em uma corrente que estava presa na parede.

— Socorro! Tem alguém aqui?

Senti um celular no meu bolso, mas não era o meu, era mais antigo, com 25% de bateria e praticamente só funcionava a lanterna.

— Porra. — Sentei no chão e fiz a única coisa possível, esperei.

22:15

Thainara

— Tem alguém aqui? — Gritei assim que cheguei no refeitório.

— Thainara? — Era a voz de Vinicius.

— Vini? — Olhei em volta e ele estava sentado perto da parede, quando cheguei mais perto vi que ele estava acorrentado.

— O que está acontecendo? — Ele perguntou.

— O assassino, ele planeja acabar com tudo hoje.

— Merda, precisamos sair daqui, viu alguma coisa para quebrar essas correntes?

— Não prestei atenção.

O celular dele vibrou e ele me mostrou a mensagem: “Chaves”.

— Você precisa checar esse cômodo, aliás que lugar é esse? Parece tão familiar.

— É a escola infantil, Marcelo foi para a escola fundamental. E eu não gosto da ideia de ficar procurando essa chave, tenho só 18% de bateria.

— Se acabar pode usar o meu.

— Ele não deu esses celulares sem motivo, precisamos deles com bateria, pense, onde ele guardaria as chaves?

— Na diretoria? — Vinicius sugeriu.

— Pode ser, vou verificar, já volto.

— Espera, e se ele voltar antes de você?

— Grite o mais alto possível.

12:38

Ana

Assim que cheguei em casa vi o pacote na sala, ele tinha entrado ali, era uma caixa com um celular, uma chave e um folha de papel com instruções.

1- Desligue o seu telefone e deixe na sua casa

2- Só deverá ligar esse celular quando chegar no local marcado

3- As 21:10 você vai até esse endereço, entrar no prédio e esperar por ordens na sala 6, não esqueça a chave

O endereço era da antiga escola fundamental que estudamos, atualmente abandonada.

21:10

A rua estava completamente deserta, liguei o celular, praticamente inútil, tirando as mensagens e a lanterna. Desci do carro e entrei na escola, a sala seis ficava no final do corredor, comecei a caminhar na direção esperando o ataque dele a qualquer momento.

10:11

Alecsandra

O pacote continha um celular e uma folha com instruções.

1- Desligue o seu telefone e deixe na sua casa

2- Vá para o hospital, para eles não tem nada de errado.

3- Descarte seu celular, só deverá ligar esse quando chegar no local

4- As 21:30 você vai até esse endereço, entrar no prédio e esperar por ordens na sala 4

Reconheci o endereço na hora e comecei a ficar mais preocupada, ninguém iria escutar nossos gritos de socorro naquele lugar.

21:30

A primeira coisa que vi foi o carro de Ana estacionado na rua, será que todos estavam aqui? Aquele pensamento me deu um alivio no peito, desci do carro, entrei no prédio e fui em direção a sala quatro.

22:12

Marcelo

Assim que cheguei na rua vi o carro de Ana e Alecsandra, será que já tinha começado? Cheguei no portão e tinha uma caixa com meu nome, dentro dela havia um celular, uma folha com instruções.

1- Descarte seu telefone.

VAMOS TERMINAR ISSO

Voltei até o carro e coloquei meu celular do porta luvas, enquanto voltava para a escola percebi que a caixa não estava mais ali, respirei fundo e continuei andando. A escola foi abandonada dois anos depois de ter me formado ali, assim que passava o portão do lado direito ficavam os banheiros, do esquerdo a cozinha e o refeitório, seguindo em frente um local coberto, usado para jogos quando estava chovendo, depois o corredor com as salas de um a seis, um corredor externo que saia no pequeno espaço externo onde havia um gol, usado para educação física, seguindo até o final do corredor interno ficava uma porta de acesso ao espaço externo e descendo ficava a diretoria, três salas conectadas por várias portas, não entendia muito bem quando criança e não gostava daquilo agora.

Assim que cheguei na área coberta, o portão bateu, me virei e era ele, meu corpo se arrepiou por um segundo.

— Já era hora. — Comecei a correr na direção dele.

— Concordo. — Ele sacou uma arma.

Meu cérebro demorou alguns segundos para entender o que estava acontecendo e quando entendi só consegui me jogar para a direita, felizmente fui parar atrás da parede da cozinha, ele disparou e acertou um dos pilares, não podia ficar ali, mas não podia correr, entrar na cozinha estava fora de questão, poderia tentar correr até a primeira sala, mas corria o risco de ser atingido.

— Achei que o assassino só usava a arma como último recurso. — Falei.

— Não sou igual os outros, acho que já devia saber disso.

— Como pude esquecer.

— Vou te desculpar dessa vez. — A voz estava mais perto.

Não podia lutar com ele, olhei em volta procurando algo que pudesse me ajudar e percebi algumas pedras soltas no chão, peguei elas, jóquei o mais longe possível, torcendo para desviar a atenção dele e corri, quando cheguei na primeira sala ele disparou, continuei correndo, outro disparo, a porta da terceira sala estava meio aberta, me joguei nela, cai dentro da sala, fechei a porta o mais rápido possível, não havia nada para impedir que ele tentasse abrir.

—Merda! — Gritei.

— Marcelo? — Era a voz da Alecsandra.

— Le? — O apelido parecia estranho agora, depois de tanto tempo sem usar.

— Meu Deus é você mesmo? O que está acontecendo?

— O assassino, ele tem uma arma e está vindo na nossa, minha direção.

— O que vamos fazer?

— Não sei. — Com exceção de algumas peças de roupas de moradores de rua, a sala estava vazia.

— Marcelo?

— Espera, como estou escutando você tão bem? — Olhei para cima e vi que um pedaço do teto estava sem forro, que por ser um prédio antigo ainda era de madeira. — Tem forro na sua sala?

— Só em alguns pedaços.

— Perfeito.

Quando criança não conseguiria chegar até ele, mas agora conseguia, só precisava de um impulso e que ele não quebrasse. Me afastei um pouco e corri, o buraco que escolhi estava perto da parede, peguei um pouco mais de impulso apoiando o pé nela e consegui agarrar um pedaço. Fazer aquilo com toda adrenalina deixava tudo mais fácil, assim que metade do meu corpo já estava dentro do forro escutei a porta se abrindo, puxei minhas pernas o mais rápido possível, logo em seguida mais um disparo.

— Boa jogada. — Ele falou.

Fui me arrastando em direção a próxima sala, o buraco não ficava tão próximo a parede, mas não precisei chegar até lá, o forro cedeu antes. A queda não era tão alta e sala estava vazia também.

— Marcelo! — Alecsandra gritou.

— Corre!

Saímos correndo, assim que passei pela porta vi Ana abrindo a porta de uma das salas, em segundos ela pareceu entender tudo o que estava acontecendo.

— Diretoria! — Ela gritou e começou a correr, mas parou com um grito de dor. Ele tinha disparado outra vez e acertado ela no ombro.

— Ana! — Gritamos em uníssono.

— Continuem! — Ela gritou e gemeu de dor.

Nós três chegamos na diretoria, por algum milagre ainda haviam mesas e cadeiras aqui, coloquei tudo na porta, Ana tinha se sentado em uma cadeira, sua camiseta estava encharcada de sangue, Alecsandra só conseguia repetir “Meu Deus” sem saber o que fazer?

— Temos que estancar isso. — Foi a primeira coisa que veio a minha mente.

— Não — Ela respondeu — A bala ficou alojada no meu ombro.

— Como sabe disso?

— Não importa agora, temos que sair daqui.

— Que barulho foi esse? — Alecsandra perguntou.

Foi então que lembrei das outras portas, devíamos ter checado elas, agora era ele, ele estava ele já estava ali.

— Precisamos sair. — Falei.

— Acho que não. — Ele falou — Deviam ter checado a porta dos fundos.

Alecsandra gritou, fiquei sem reação, Ana se levantou e usou a cadeira que estava sentada para jogar nele, antes de atingi-lo ele disparou e acertou Ana no estomago. Seguindo o exemplo dela também joguei uma cadeira, como ele estava ocupado desviando da primeira não conseguiu ver a segunda que acertou no braço e tronco, a arma caiu. Peguei Alecsandra pelo braço e sai correndo em direção a porta dos fundos. Dessa vez passamos pela porta que ia para o corredor externo, não gostava da ideia de correr em um local fechado ou ter que me esconder em outra sala. Em tempo recorde chegamos a calçada.

— Ana. — Ela choramingou.

— Eu sei, mas não podemos ficar aqui, temos que encontrar a Thainara.

— Ou podemos pegar o carro e ir para a delegacia.

— Não podemos deixar nossos amigos para morrer, você vem?

— Tudo bem.

Começamos a correr em direção a próxima escola, sempre olhando para trás, esperando ele aparecer.

Ana

Hora da morte: 22:27

22:20

Thainara

Andar naquele lugar era assustador, para piorar a situação, a diretoria não era mais no mesmo prédio que o refeitório, tentei no prédio novo que ficava à esquerda, não consegui ver tudo, mas parecia haver bastante salas ali, pensei em voltar e tentar o outro, mas percebi a placa de “diretoria” em cima de uma porta. Coloquei a mão na maçaneta, respirei fundo e abri. Quase gritei mais uma vez quando vi algo no chão, achei que era outro corpo, mas esse se mexeu.

— Quem está aí? — Ele perguntou.

— Detetive Kauan? — Coloquei a luz da lanterna na direção dele.

— Fique onde está.

— O que? Porque? — Por um segundo achei que havia outra bomba na sala.

— Não sei se foi você que me drogou e colocou nessa sala.

— Isso é ridículo. — Se a situação não fosse tão estressante, teria rido.

— O que está acontecendo? Onde estão os outros?

— Eu não sei, mas tudo acaba hoje, ele me separou do Marcelo, nos deu esses celulares antigos, me mandou para essa escola e acorrentou meu irmão aqui.

— Isso explica esse celular no meu bolso e as mensagens.

— Que mensagens?

Kauan tirou o celular do bolso e me mostrou a primeira que era apenas “Ache a chave” e a segunda era o endereço da escola do ensino médio onde estudamos.

— Já procurei nessa sala e não está aqui.

— Merda, e agora?

— Ele está jogando com a gente, provavelmente deixou alguma pista para você em algum lugar.

— Não posso ficar andando pela escola, minha bateria está acabando e ele pode aparecer a qualquer momento.

— Eu sei, tem certeza que não viu diferente ou que chamou a sua atenção?

— Está muito escuro para ver qualquer coisa, precisei chegar muito perto do guarda para perceber que estava morto.

— É isso, a chave está com o guarda.

— Você está brincando, certo?

— O guarda tem todas a chaves, é uma péssima piada.

— Não vou tocar em uma pessoa morta, só de pensar nisso tenho vontade de vomitar.

— Thainara — O tom de voz dele ficou mais sério — Eu sei que não quer fazer isso, mas se não fizer eu e Vinicius vamos morrer com certeza, eu iria se não estivesse preso em uma corrente.

— Tudo bem. Ele não vai ganhar.

— Não mesmo.

Fui em direção ao cadáver, todo meu corpo estava tremendo, cada passo meu estomago embrulhava mais; o morto estava caído de bruços, ia ter que virar o corpo; me apoiei na parede, respirei fundo e me ajoelhei ao lado dele, na mesma hora senti os meus joelhos e pernas ficarem úmidos com a calça absorvendo o sangue, em algum momento comecei a chorar, por impulso tentei limpar a lagrima, mas desisti quando vi minha mão cheia de sangue. Depois de algumas tentativas e muito esforço consegui vira-lo, a camisa era de botões só que sem bolso, a chave tinha que estar em um dos bolsos da calça, para minha sorte estava no primeiro bolso que procurei; levantei e quando sai do cômodo dei de cara com Marcelo e Alecsandra, nós três gritamos. Marcelo deve ter visto o sangue no meu corpo e surtado, um segundo depois ele estava segurando o meu braço e me perguntando se estava bem ou se estava ferida.

— Estou bem, o sangue não é meu. — Não tirei o braço da mão dele.

— De quem é? — Alecsandra perguntou.

— Do guarda — Apontei para dentro do cômodo — Precisava pegar a chave, Vinicius e Kauan estão presos aqui.

— O que? — Marcelo me encarou com a maior cara de surpresa e preocupação que já vi.

— Resumindo, depois que nos separamos eu encontrei os dois acorrentados em lugares diferentes, o que aconteceu com você?

Alecsandra e Marcelo trocaram um olhar, como se algo estivesse os correndo por dentro, depois de alguns segundos em silencio, Marcelo falou.

— Cheguei na escola, e encontrei ele, depois encontrei Ana e Alecsandra.

Quando ele falou o nome da Ana tudo fez sentido, o sentimento era pior do que ter virado um corpo, claro que sofri com as outras mortes, mas tinha algo de pior saber que um dos nossos amigos morreu faltando tão pouco para esse pesadelo acabar.

— Não. — Foi a única coisa que consegui falar.

— Temos que ir, ele deve estar chegando. — Alecsandra colocou a mão no meu ombro.

— Só precisamos vigiar a entrada. — Falei.

— Não podemos ficar de olho nelas.

— Nelas?

— Depois da reforma a escola ficou com três portões de entrada.

— Então ele pode estar aqui.

— Exato.

Meu celular tocou e sabíamos que só poderia ser ele.

— Alô.

— Boa noite. — Ele estava usando a voz da Ana. — Como foi brincar com os corpos?

— Vou matar você.

— Acho que não, vamos ao que interessa. Vocês têm uma chave e duas pessoas acorrentadas, quem vai salvar?

— Vou salvar os dois.

— É aí que se engana, assim que escolher um, vou matar o outro. Nunca vão conseguir chegar a tempo.

— Seu doente! — Ele desligou.

— O que ele queria? — Marcelo perguntou.

— Temos que escolher quem salvar, o outro vai morrer.

— Merda.

— Não podemos deixar isso acontecer. — Alecsandra falou.

— Precisamos fazer alguma coisa, rápido. — Marcelo estava olhando ao redor.

— Vamos nos separar, vou até meu irmão e vocês vão com o detetive, levem a chave.

— E se dermos de cara com ele, ou pior, se ele encontrar você.

— A gente ataca. — Alecsandra confirmou minha ideia.

— Sim — Respondi.

— Não, isso é loucura! — Marcelo protestou.

— Não temos tempo para isso! Vamos! — Sai correndo em direção ao meu irmão.

22:31

Marcelo

Eu e Alecsandra corremos até a diretoria, para chegar até lá, precisava passar por uma espécie de corredor, fiquei esperando ele aparecer a qualquer momento, um lado meu estava com medo, mas o outro de uma forma estranha queria brigar com ele. A porta estava aberta, e conseguimos ver o Detetive sentado no chão.

— Marcelo, Alecsandra. — Ele parecia confuso — Onde está a Thainara?

— Foi com o irmão, temos que ser rápidos. — Mostrei a chave.

Quando abri o cadeado da corrente, percebi que a perna dele estava bem marcada pela corrente, pensei em perguntar se ele conseguiria andar, mas preferi deixar quieto, mesmo se ele não estivesse se sentindo bem não iria falar.

— Onde eles estão? — Kauan perguntou.

— Segue o corredor e entra na primeira porta a esquerda. — Respondi.

— Fiquem juntos, prestem atenção ao redor, estejam prontos para correr, ou lutar.

— Tudo bem. — Respondemos.

No meio do caminho, escutamos o barulho de um disparo e lascas de uma arvore que estava do nosso lado voaram para todos os lados.

— Abaixem! — Kauan gritou.

Outro disparo.

— Temos que nos esconder.

— Onde? — Alecsandra perguntou.

— No prédio novo.

Começamos a correr e ele disparou outra vez, Alecsandra continuou em direção do prédio e Kauan me puxou para trás quando ia começar a correr.

— O que está fazendo? — Gritei. Outro disparo.

— Precisamos voltar, nos esconder na diretoria.

— E a Alecsandra? — Ela já tinha sumido do nosso campo de visão.

— Vamos dar a volta, senão vamos morrer aqui mesmo.

Corremos para a diretoria.

22:36

Alecsandra

Corri em direção ao prédio novo, era basicamente um corredor com várias portas que davam acesso as salas de aula, fui até a ultima delas, tirando as mesas e cadeiras feitas para crianças, tinha uma mesa e um armário de alumínio com um adesivo na porta escrito “livros e materiais” arrastei a mesa até a porta, fazendo um ângulo diagonal com a parede, caso ele tentasse abrir, não parava de olhar para as duas janelas do lado oposto ao armário, não era possível alguém passar por elas, mas ele poderia colocar a arma ali. escutei uma porta sendo aberta no corredor. Ele estava chegando. Alguns segundos depois a porta da sala onde eu estava se abriu, mas com a mesa impedindo era difícil passar a mão por ali, tinha me afastado até o fundo da sala e ainda sim estava com medo dele escutar minha respiração. Outra tentativa de abrir a porta, dessa vez parecia que ele jogou o peso do corpo nela, a mesa mal se moveu.

— Alecsandra — Ele falou com a voz da Ana — Vamos acabar logo com isso.

Três disparos contra a porta, gritei involuntariamente e me encolhi no canto da sala e comecei a chorar, depois disso não escutei nenhum barulho, mas não tive coragem de me mover.

22:31

Thainara

Assim que cheguei no refeitório, Vinicius sabia que não ia sair dali, tentei fazer uma expressão de que estava tudo bem só que ele me conhecia muito bem, antes de falar algo comecei a chorar.

— Está tudo bem. — Ele falou.

— Não, — Me aproximei dele — isso não é justo, você não merece morrer assim.

— O importante é que você sobreviva, então tem que sair daqui antes que ele chegue.

— Você está louco? Não vou te deixar aqui, não importa o que aconteça. — Ficamos abraçados, não sei por quanto tempo.

— Thai, — Ele se afastou — você precisa ir. Por favor.

— Não consigo deixar você aqui, sabendo que vai morrer.

— Um de nós precisa terminar isso, e acabar com esse idiota mascarado.

— Que momento tocante. — O assassino estava atrás da gente.

— Corre! — Vinicius gritou.

Além da entrada, havia a porta de saída que dava acesso ao exterior da creche e uma porta que dava acesso a cozinha. Corri em direção a saída exterior. O som de disparos me seguiu, por instinto, ou sorte, me escondi atrás de um dos pilares e cascalho voou onde a bala acertou o concreto.

— Ei! — Vinicius gritou. — Não encoste na minha irmã.

O assassino apenas riu.

Não sabia o que fazer, estava com medo de correr até a porta e ser atingida por um disparo.

22:41

Vinicius

Não poder fazer nada além de assistir, era horrível, estava segurando o choro, Thainara estava escondida atrás de um pilar, precisava criar uma distração.

— Ei! — Gritei tentando desviar a atenção dele. — Não encoste na minha irmã. — Ele me ignorou.

Thai tentou correr, mas assim que uma parte do seu corpo estava visível ele disparou, e então aconteceu, no calor do momento nem me lembrava daquilo, ele tentou atirar e apenas o som do clique saiu, ele descarregou a arma.

— Ele precisa carregar a arma, corre! — Gritei — Thainara correu e sumiu pela porta.

Ela estava segura, era tudo o que importava. O assassino não parecia irritado, calmamente ele colocou a mão por baixo da capa e pegou um cartucho de balas, colocou na arma e disparou.

Vinicius

Hora da morte: 22:47

22:36

Marcelo

A diretoria tinha uma porta dupla com duas maçanetas, o assassino enrolou uma corrente nas duas e trancou com um cadeado, a porta era de madeira e parecia ser bem resistente, não conseguiríamos quebrar e Detetive Kauan estava machucado.

— Não vamos conseguir quebrar. — Ele falou — Como se tivesse lido minha mente.

— Vamos fazer o que? Precisamos ajudar os outros.

— Achar outra saída.

— Você acha que tem outra? — Perguntei já olhando em volta.

— Tudo que ele fez até agora foi bem pensado, não acho que ele nos trancaria sem no mínimo um meio de escapar.

— Bem pensado. — Comecei a olhar nas gavetas procurando por algo. Qualquer coisa.

22:38

Kauan

A ansiedade de Marcelo era clara, já vi aquele tipo de comportamento em policiais que deixam pessoas morrerem e sabem que poderiam ter feito algo.

— Não vamos conseguir quebrar. — Falei para ele, tentando afasta-lo da porta.

Tinha que fazê-lo focar em outra coisa, sugeri que o assassino poderia ter deixado outra saída, não acreditava muito naquilo, mas Marcelo precisava da distração, alguns segundos depois escutamos três disparos. Tentei levantar e senti uma fisgada na perna, o disparado parecia ter vindo do prédio ao lado, Alecsandra.

— Merda. — Marcelo agora estava jogando papeis das gavetas no chão.

— Não é sua culpa. — Falei.

— O que?

— Isso que está acontecendo com seus amigos, o assassino quer que você pense isso, mas nada disso é culpa sua e sim do psicopata que mata pessoas.

— Esse é o problema. A culpa é minha. Isso aqui não é um filme onde nada importa, todas minhas decisões levaram meus amigos até a situação de morrer ou chegar próximo disso.

— Se você se culpar, ele ganha e todos morrem.

— Eu poderia... eu devia ter parado o Daniel na primeira vez e não fiz nada, então por favor não venha com esse papo de que não é minha culpa, eu sei que é e vou arrumar isso. — Ele foi até o fundo da diretoria, revirar mais gavetas de arquivos.

22:45

Alecsandra

Escutei uma sequência de disparos longe dali, levantei e fui até a janela, conseguia ver a parte de trás da diretoria, vi Marcelo pela janela corri até a porta, tirei a mesa de trás, respirei fundo tomando coragem e sai da sala, em direção a diretoria, quando cheguei no pequeno corredor quase desisti pensando que ele iria aparecer e atirar por trás, a porta da diretoria estava com uma corrente nas maçanetas e um cadeado. Não estava trancado, apenas ali.

— Marcelo? — Sussurrei.

— Leh! Graças a Deus.

Tirei a corrente da porta e entrei na diretoria.

— Como abriu o cadeado? — Marcelo perguntou.

— Não estava trancado, apenas no meio das corretes, se vocês tivessem forçado um pouco mais talvez ele caísse, não sei.

— Temos que ir, Thainara e Vinicius estão no refeitório.

— Você escutou os tiros, certo? — Perguntei.

Marcelo ficou em silencio por alguns segundos.

— Sim, mas temos que checar, é o mínimo.

Kauan foi na frente, ele estava tentando esconder a machucado na perna, mas se prestasse atenção conseguia ver que ele evitava tocar totalmente o pé da perna ferida no chão. Quando chegamos no refeitório vimos o corpo, Vinicius estava caído com uma marca de tiro na cabeça, seus olhos ainda estavam abertos, Marcelo foi até ele e fechou. Depois de alguns segundos eu percebi que Thainara não estava ali.

— Thainara. — Falei para mim mesmo e eles escutaram.

— Será que ele fugiu? — Marcelo perguntou esperançoso.

— Ou talvez ele pegou ela de refém, sei que não é otimista, infelizmente é uma possibilidade.

— E agora? — Perguntei.

Na mesma hora nossos celulares tocaram com uma mensagem.

“Agora as coisas ficam interessantes” e um local no mapa em anexo.

Notas finais
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