Vítimas
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Saí de casa com a sensação de estar sendo perseguido, olhei para os lados assim que fechei a porta silenciosamente para meus pais não acordarem. Me inclinei sobre a luz verde florescente do relógio em meu pulso. Dez e meia, eu estava meia hora atrasado.
Andei pelas ruas desertas do meu bairro, havia chovido aquele dia e a calçada estava úmida e escorregadia sobre meus pés. Escutei o barulho de algo caindo e virei para trás, assustado, então percebi que era apenas um gato que havia saltado da lata de lixo ali perto, sorri nervoso, tentando me acalmar, por que eu tinha a sensação de que algo daria errado?
Voltei a caminhar, prestando atenção no eco que meus pés faziam nas pedras escuras.
Cheguei ao parque onde iríamos nos encontrar, estava vazio e silencioso, sendo farfalhar das folhas guiadas pelo vento o único som que se ouvia.
Procurei-a por entre as grandes árvores que protegiam o centro do parque, mas ela não estava em lugar nenhum.
Me sentei em um dos gélidos bancos de pedra e observei os faróis dos carros que ainda corriam pela rua, quando percebi uma figura que não estava ali antes, olhei para o lado e lá estava ela, com seus longos cabelos pretos e uma icógnita em seu sorriso que eu adorava.
Ela se aproximou até chegar ao banco em que eu estava, sentou ao meu lado e ficou observando a cidade que começava a dormir comigo.
- E então, o que você queria tantro me dizer na escola? — perguntou ela, agora olhando para mim, ainda com o sorriso no rosto e a diversão nos olhos azuis.
Olhei para minhas mãos, não conseguindo dizer nada, por que o discurso que eu havia ensaiado tantas vezes agora estava preso em minha graganta?
- Rodrigo, não precisa ter medo, você sabe que pode me contar qualquer coisa. — disse ela, segurando minhas mãos unidas nervosamente sobre o colo.
- Eu queria... Lhe dizer uma coisa... Que acho que sinto há muito tempo mas não havia entendido como agora... — comecei, cauteloso.
Olhei para ela por um instante, apenas para comprovar que seus olhos estavam fixos em mim e voltei a encarar o chão, pena não ter percebido que, naquele instante, seus olhos haviam tomado um leve tom de vermelho que desaparecera depressa, revelando seu verdadeiro objetivo. Se eu soubesse disso meu fim poderia ter sido diferente.
Em um flash repentino, me lembrei daquele primeiro dia no colégio, ela vindo em minha direção com sua timidez inocente, me perguntando em um fio de voz qual era a sua sala, dali em diante tudo acontecera muito rápido.
- Eu te amo. — disse em um impulso de coragem, dando o que ela queria sem saber.
- Quanto você me ama? — perguntou ela, estranhei o tom de sua voz.
Avaliei todos aqueles meses em que estávamos juntos, e entreguei-lhe o que precisava para completar seu plano.
- Eu sou capaz de morrer por você — disse, olhando nos olhos dela.
Ela sorriu para mim, o sorriso da morte com seus dentes ligeiramente mais afiados que o normal, em seus olhos o estranho vermelho se apoderara por completo do límpido azul que estivera antes. Ela me beijou, o primeiro e último beijo da minha vida, depois senti a pontada de dor quando o fluxo de meu sangue começara a sair, em menos de 30 segundos, eu já não apresentava defesa.
Sim, eu fui um alvo fácil.
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