Vínculo
29 Capítulo 28
Hermione encarou Sophie comendo tranquilamente a torta de maçã que Marie havia, gentilmente, deixado pronta no dia anterior. Vê-la tão tranquila apertava seu coração pelo que estava prestes a fazer. Não queria alimentar falsas esperanças na menina, Draco não poderia ser seu pai e levantar a hipótese à uma criança de 7 anos era cruel, ainda mais se levasse em conta o fato de que Sophie adorava o loiro.
Era melhor deixar que coletassem o DNA de sua saliva — tanto o garfo quanto o copo que ela usava no momento serviriam, segundo os especialistas do laboratório que haviam escolhido -, pois, quando esse pesadelo tivesse fim, não lhe restaria nenhuma cicatriz. Pelo menos alguém não se machucará com tudo isso, pensou, sua pequena tinha tanta sorte por ter o privilégio de ser preservada dessa história.
As coisas entre elas andavam um tanto tensas, já que Sophie insistia em querer Draco por perto, mesmo que não fosse como namorado de sua mãe. Ainda se lembrava claramente da resposta que ele enviara à menina quando a mesma lhe mandara uma carta pedindo que fosse vê-la.
"Também sinto sua falta, Sophie, e de sua mãe, mas as coisas estão se complicando e eu não quero deixá-las mais difíceis, para nenhum de nós. Chegará o dia em que poderemos nos ver sempre, sem restrições, e talvez não demorará. Enquanto isso, obedeça Hermione, ela sempre sabe o que é melhor para você."
Sophie chorara muito ao saber que ele não apareceria e Hermione não tinha o direito de culpar nenhum dos dois por isso. A menina, é claro, não entendia todos os motivos que os levaram até onde estavam no momento e Draco tinha consciência de que não responder seria muito pior para todos. Havia sido claro e objetivo, mas Hermione, obviamente, podia ler nas entrelinhas, claro como água, ele queria tanto que Sophie fosse mesmo sua filha.
Suspirou, encarando a janela lá fora. Deus, deveria parar de ser tão grifinória, colocar todos em primeiro lugar. Entendia Draco e Astoria e gostaria tanto que não fosse assim. Queria enxergá-los como as pessoas que queriam lhe tirar sua filha, tomá-la de si, e simplesmente não conseguia, não quando era mãe também e só poderia imaginar a dor dos dois por perder Gwen. Seria muito mais fácil agir como uma leoa irracional defendendo a cria, mas não conseguia ser tão... Egoísta. Ignorar os sentimentos alheios não fazia parte de sua natureza.
Lembrava-se perfeitamente do dia que segurara Sophie pela primeira vez e, agora, o fato de Astoria ter sequer pegado Gwen no colo parecia martelar em sua cabeça sempre que essa lembrança se fazia presente em sua mente. Todas as sensações, a alegria, o medo, a insegurança, tudo de uma só vez. Sorriu, fechando os olhos.
A enfermeira adentrou o quarto com um sorriso no rosto, carregando um pequeno embrulho rosa nos braços. Hermione sentiu o estômago revirar apenas por saber que ela estava tão perto, sua Sophie.
Durante todo o período da gravidez, não pensara em nenhum nome que se encaixasse na imagem que tinha de sua menininha na cabeça. Entretanto, ainda anestesiada no pós-parto — já que não havia sido um processo fácil -, o nome veio em sua mente, tão perfeito, tão conveniente."Sabedoria". Não havia nome que mais combinasse com sua filha.
Agora, segurando-a com tanto cuidado, admirando seus traços finos, tão lindamente esculpidos, não pensava em mais nada a não ser que aquela era a maior responsabilidade de sua vida, que faria tudo para protegê-la. A apertou com cuidado contra seu corpo, sentindo todas aquelas sensações inundá-la.
A enfermeira lhe avisou que haviam tentado colocá-la para amamentar enquanto dormia, pois estava na hora da menina se alimentar, mas não havia saído leite algum. Hermione ficou um tanto decepcionada pelo fato de não poder vivenciar essa experiência, mas não abalou-se até o momento em que alguém deu duas batidas na porta e adentrou o apartamento sem esperar resposta.
O fato de Harry estar ali a surpreendeu, a briga entre eles no dia anterior havia sido muito tensa. Os vasos quebrados em sua casa poderiam comprovar se não tivesse resolvido consertá-los com magia. Discretamente, a enfermeira saiu dos aposentos com a intenção de lhes dar privacidade.
– O que está fazendo aqui? — Perguntou, inconscientemente, ajeitando Sophie em seus braços. Harry percebeu imediatamente o gesto protetor e maternal.
– Ainda me sinto responsável por você.
– Quando vai entender que não é? — Harry suspirou, irritado. — Não sou uma criança, Harry, estou farta de vê-los discutindo minha vida como se eu fosse incapaz de decidir por mim mesma!
– Hermione, em todo esse tempo, só queremos te ajudar.
– Não foi o que me pareceu. — Disse, friamente, mas respirou fundo e o olhou, corajosamente, antes de continuar. — Agora estou começando uma nova fase da minha vida e, sinceramente, Harry, não os quero por perto.
O silêncio que dominou a sala foi sepulcral, o moreno não parecia acreditar no que acabara de ouvir, mas Hermione havia decidido que Harry e Ron não estavam lhe fazendo bem. Desde que fora internada à força, a relação entre eles não era a mesma e não queria que isso se estendesse à Sophie.
– Eu... Posso vê-la? — Perguntou ele, ainda atordoado, referindo-se à menina. — Apenas uma vez.
Resignada, meneou a cabeça, e apenas observou enquanto ele se aproximava da cama hospitalar, parecendo um pouco nervoso. Porém, a curiosidade mal disfarçada no rosto bem delineado era era evidente, afinal era a primeira do trio que tinha um bebê. Não podia negar, sempre imaginara que seria a última a querer ter filhos. Harry e Ron, assumidamente, queriam uma família grande, enquanto Hermione nunca sentira essa necessidade, muito pelo contrário, aliás. Entretanto, ao ter Sophie em seus braços, percebera que estaria cometendo um grande ao ignorar o instinto de ser mãe.
– Ela é linda, não? — Simplesmente, não aguentou admirar sua filha por tanto tempo, todos os seus traços perfeitos, sem verbalizar o que estava pensando, mesmo que fosse para Harry.
– Tão perfeita. Nem parece... — Ele se refreou, antes que falasse algo que pudesse ofendê-la. — Er... Acho que está na hora de ir.
Hermione o acompanhou com os olhos enquanto tomava o caminho da saída. Não houve despedida e o olhar que trocaram significava muito mais que isso. Naquele simples olhar, havia entendido que a amizade que cultivaram ficara no passado morrera quando Harry não respeitara seus limites.
– Mamãe? Mamãe!! — Sophie estalou os dedos na frente de seu rosto e jogou a carta sobre a mesa. — A coruja estava quase quebrando a janela da cozinha.
A menina largou algum resto de torta no prato e saíra da cozinha, certamente para brincar com suas bonecas na sala. Hesitante, segurou o garfo e o colocou no saco plástico esterilizado que o laboratório disponibilizara. Respirou fundo, contou sua respiração e apenas então voltou para a carta, mas assustou-se com o remetente. Quase rasgou a carta ao abri-la, as mãos trêmulas e nervosas.
Granger,
Sei que posso estar parecendo abusada, inapropriada e um tanto egoísta, mas gostaria que levasse em consideração minha situação. Draco sempre fala de como Sophie é bonita e inteligente, muito avançada para sua idade. Como pode imaginar, isso me deixa cada vez mais curiosa e agradeceria se concordasse em me deixar conhecê-la. Sem compromissos, sem toda essa história de DNA, apenas um encontro para que eu possa vê-la.
Esperando que entenda minhas intenções, A. Greengrass
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