Vício M(eu)

7 Capítulo 6 - Castigo.


Notas iniciais
Demorei muito? Me desculpeeeeeem, mas aqui está mais um capítulo! Espero que gostem! Boa leitura e nos vemos lá em baixo! ^^

Capítulo 6 – Castigo.

Sinto as grandes mãos do Despertador me sacudindo.

“É hora de acordar.” –– grita ele incansavelmente.

“Já estou indo.” –– aviso com a voz a sonolenta e aborrecida. Despertador esboça um sorriso sem mostrar os dentes, mas animado o suficiente para deixar transparecer sua satisfação com a sua eficiência. Mal sabia ele que quem na verdade fez o seu trabalho foi o Frio, que chicoteava meu corpo, que em forma de defesa se encolhia em posição fetal, tentando inutilmente produzir calor humano.

Abro os olhos e meu Sonho vem me trazer o seu relatório matinal, ele traz consigo a tira colo, a Culpa. Ela late e abana o rabo, fazendo a corrente de sua coleira vibrar, tamanha era a empolgação em me ver outra vez. Sonho é feito de nuvem, se parece com algodão, às vezes doce, às vezes sem consistência, em outras horas é mensageiro de tempestade, e aparece por aqui com seu corpo nuvemtício pintado de preto, ele sim tem as mais variadas formas. Hoje está meio gótico e carrega uma rosa vermelha ressecada com espinhos. Culpa mais parece um cachorro infernal, mas mesmo assim tenho afeição por ela.

Pego os papeis das mãos de Sonho, agradeço e o libero. Culpa não quer ir embora, ela se debate para demonstrar seu desejo de ficar.

“Será que não posso deixá-la aqui e passar depois para pegá-la?” –– Sonho pergunta vendo a agitação de sua cadelinha.

“Ah, mas é claro. Eu e Culpa somos velhas conhecidas!” –– sorrio com simpatia.

“Não é mesmo garota?” –– falo afagando suas orelhas negras e peludas.

Sonho me acena e deixa meus aposentos. Eu e Culpa nos entreolhamos e ela entende a troca de olhares como uma permissão para subir em minha cama. A cachorra e eu começamos a ler a primeira frase, meus olhos correm, saltitando por cada palavra e quanto mais ganhava velocidade, mais a Culpa se aproximava de mim.

Levanto os olhos do papel, a cadela está confortavelmente deitada nas minhas coxas nuas. Levo as mãos à boca, mostrando meu espanto, meus olhos lacrimejam, mas nenhuma de minhas lágrimas pensa que sou digna de sua morte.

“Você não é importante para nós para nos jogarmos daqui de cima!” –– gritava uma, talvez a líder da rebelião.

“Você não é importante.” –– em coro todas as outras berravam repetidamente.

Saio correndo e me tranco em meu banheiro. Encaro meus pequenos seios arrepiados no espelho. Eu estava com borro de batom vermelho repousando na região de meus lábios. Passo os olhos por mim novamente, vejo marcas em formas de bocas definidas e cheias com coloração escarlate desbotada. Isso estava no relatório de Sonho, mas eu estava acordada naquele momento. Me belisco para constatar se de fato não estava dormindo. Uma dor leve percorre meu corpo e nada se sucede. Sonho havia mentido.

Entro para o banho e só saio de lá depois de 15 demorados minutos. Antes de sair do banheiro seco meu cabelo e já o prendo no meu rabo-de-cavalo-de-todo-o-dia. Quando saio vejo John brincando com um papel em cima de minha cama. Arranco-o dele.

“Passei para pegar a Culpa, tenha um bom dia, Emily.

Abraço, Sonho.”

Leio as palavras daquele cretino e sinto um pouco de raiva.

Com passos grossos e precisos cruzo meu quarto até meu roupeiro, pego uma regata azul-marinho, uma jeans básica e um casaco leve preto, nos pés, meu eterno all-star. Jogo minha mochila nas costas e desço para tomar café, John me segue abanando o rabo.

–– Bom dia, mãe. –– digo um pouco ríspida e me sento à mesa.

–– Bom dia, Emily. –– ela fala com um sorriso e se serve mais café.

–– Emi, –– Sra. Sheron diz docemente e eu arregalo os olhos, lembrando de meu “sonho” –– hoje a noite eu vou dar um jantar, não vai ser nada de mais, mas você me deixaria muito orgulhosa se colocasse aquele vestido lindo que eu te trouxe da Rússia. –– ela fala e sorri com seus olhos azuis. Seu cabelo está impecável, alisado e com as pontinhas viradas, mamãe usa uma blusa social branca com uma saia de cintura alta preta.

“Apenas confirme com a cabeça.” –– sua pele sem nenhuma ruga cochicha para mim.

“Está bem, mamãe.” –– digo e sorrio sem mostrar os dentes. Lembro-me do sorriso de Zack e corro para pegar o seu moletom.

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–– O jantar será às 21 horas. –– mamãe me avisa enquanto desço e fecho a porta do carro.

–– Não se preocupe, estarei pronta na hora. –– ela me entrega um sorriso, o guardo perto do peito, me despeço e sigo para a escola.

Era sexta-feira e os alunos estavam aparentemente felizinhos, provavelmente ansiosos pelas festas, bebidas e orgias do fim de semana. Peguei minha monotonia que estava o tempo todo ao meu lado e a fiz de escudo. Passei por entre todos eles e cheguei sã e salva à minha aula de sociologia.

Meu lugar é sempre aquele que ninguém gostaria, primeira classe da primeira fileira, a que fica colada a parede, a que te exclui do resto da sala toda.

Uma meia-dúzia de adolescentes entram depois dois jogadores do time de futebol adentram a sala. Um é negro com cabelo curto, mal se percebe sua raiz encaracolada e lindas esmeraldas verdes enfeitam seu olhar. O outro é branco e têm cabelo e olhos castanhos. Um é Call e o outro é Zack.

Quando o reconheço viro a cara pro outro lado e tendo a todo custo esconder meu rosto. No entanto, mesmo com todas as minhas táticas ele me vê, curva o lado direito do lábio, numa espécie de um talvez sorriso, mas nem a outra metade de sua boca, nem seus olhos acompanhava o seu ato. Zack segue Call e os dois se sentam no fundo a sala, território predestinado para os populares.

Um grupo de alunos entra na sala e se acomoda nos seus mais variados lugares, com os seus respectivos grupinhos. Logo após o professor entra, ele é alto, têm traços alemães, loiro escuro, olhos verdes e está um pouco acima do peso ideal. O professor direciona seu corpo para fechar a porta, mas uma mão com unhas bem feitas e pintadas de rosa o impede, a dona das unhas murmura algo que não consigo ouvir e recebe um “Tudo bem, entre.” direto e grosseiro do alemão.

Um corpo vestido com um vestidinho vermelho e branco, com cabelo loiro, longo e liso adentra o local. É uma líder de torcida, ela passa entre as classes e se encaminhas para região central-sul da sala.

Em seguida vejo sapatinhos pretos de boneca entrando apressadamente, subo o meu olhar e me deparo com pernas nuas com uma minissaia rodada azul-marinho com duas listras branca na parte inferior, depois vejo uma camiseta de manga curta, com listras em azul-marinho enfeitando o fim das mangas e uma gravata de mesma coloração. Cachos loiros caem sobre os ombros da menina.

Emi está com um clássico uniforme estudantil com ares de marinha.

Arregalo os olhos ao vê-la, ela por sua vez faz sua boca vermelha se moldar num sorriso espontâneo.

–– Por que diabos não me esperou? Tive que seduzir um cara para conseguir uma carona. –– Emi fala enquanto se senta na classe ao meu lado e ao mesmo tempo em que o professor começa a falar com a turma.

–– Cala a boca! –– falo revirando os olhos e noto um repentino silêncio na sala de aula. Pela segunda vez sinto que sou o foco das atenções.

–– O que disse? –– meu professor para na frente de minha classe e fala num tom de “Não posso acreditar no que estou ouvindo.”.

–– Nada, senhor. –– digo automaticamente em defesa.

O alemão não diz mais nada, mas me lança um olhar fuzilante. Seu olhar para exatamente no centro de minha mesa e como uma bomba, explode. A fumaça se dissipa um pouco e assim me mostra um pequeno papel, um bilhete.

“Na próxima, diretoria.

Abraço, seu querido professor que agora te odeia.”

–– Tá vendo, se você tivesse me esperado, eu não iria reclamar e você não teria acidentalmente faltado o respeito com o seu professor. –– Emi diz com voz ingênua e provocativa.

–– Mimimimimimimi. –– falo num tom fino de deboche acompanhado por uma careta e por minha mão direita abrindo e fechando em direção à Emi.

–– Senhorita, por favor, me diga o seu nome. –– ouço a voz grossa do alemão, que por uma coincidência do destino, estava atrás da classe da menina idêntica a mim.

–– Emily Fox. –– as palavras escalam minha garganta com dificuldade.

–– Stra. Fox queira, por favor, se encaminhar à diretoria. –– sua voz veste luvas de pelica e me dá um tapa na cara. Nunca fui mandada à diretoria. Nunca fui sequer enxergada para ser mandada para lugar nenhum. Recolho minhas coisas e vou honrosamente sofrer as consequências de meus atos.

Ouço os pequenos saltos de Emi ecoando pelo corredor bege deserto.

–– Será que pelo menos agora você pode me esperar? –– ela grita e eu paro por: A) Me apavoro pensando que alguém poderia escutá-la. B) Não estava ansiosa para ser expulsa do colégio.

–– Não seja dramática, não seremos expulsas. –– Emi diz se aproximando.

–– Agora você lê meus pensamentos? –– pergunto perplexa.

–– Estranho seria se eu não conseguisse lê-los, baby. Mas a propósito, vamos ser mandadas no máximo para a detenção, isso é, se nós não seduzirmos o diretor, obviamente também temos essa opção. A gente podia chegar bem quie... –– ela falava “nós” com naturalidade, mas a palavra chegava enfatizada aos meus ouvidos. Não existia nós. Sequer sabia se ela existia.

–– Nós não vamos seduzir ninguém! –– falo cochichando e com raiva. Ela ri.

–– Não precisa cochichar, –– ela fala cochichando, entre alguns risos –– se eu posso ler seus pensamentos, nós podemos bancar as telepatas. –– Emi me dá uma piscadela –– E está bem, então só eu o seduzo. –– ela dá uma voltinha e depois ergue o joelho até quase o seu quadril e faz biquinho, ficando numa pose sexy. –– Que tal?

–– Ninguém vai seduzir ninguém! –– faço um teste com minha telepatia e sua expressão murcha.

–– Ok. –– ela bufa.

Dirigimos-nos para a sala do diretor.

–– Desistiu do emprego de bibliotecária? –– ele me fita com seus olhos negros banhados em arrogância.

Emi e eu nos sentamos nas duas cadeiras nem tão confortáveis assim, na frente de sua mesa de vidro enfeitada por um computador preto, papeis bagunçados e uma xícara de café preto saindo fumaça.

–– Na verdade, fui mandada para cá. –– admito, envergonhada. O diretor ri.

–– Isso é sério? –– eu confirmo com a cabeça. –– Você, mandada para a minha sala? Onde é que esse mundo vai parar? –– ele volta a rir.

Emi o encara com expressão incrédula. Grosseiramente ela limpa a garganta e no mesmo momento o diretor finaliza o seu ataque de risos. Fico com medo que ele ou qualquer um consiga vê-la ou ouvi-la. No entanto, o profissional não esboça nenhuma reação quanto a isso.

–– Muito bem, o que a senhorita fez? –– ele pergunta seriamente.

–– Faltei com o repeito com meu professor de sociologia. –– o diretor coça o queixo.

–– Fique na detenção hoje que já está de bom tamanho, agora pode ir. –– não espero para ser escorraçada igual à outra vez, então saio apressadamente de sua sala.

Como eu não seria deixada entrar na aula de sociologia novamente, vou para a biblioteca e Emi me segue. Destranco a porta, entramos e a fecho outra vez. Os livros empoeirados me acolhem com um sorriso triste. Aqui não sou invisível. Minha mesa de bibliotecária é meu palácio e os rapazes de páginas amareladas são os meus súditos. Aqui é o meu reinado do colegial.

–– Não acredito! Você é bibliotecária? –– Emi fala com os olhos arregalados e brilhantes de encantamento. –– Se tivesse me dito eu teria vindo com uma roupa mais apropriada, não com um uniforme estudantil. ––ela diz num tom frustrado, fecha as mãos e as bate na lateral de suas coxas.

–– Apropriado? Você viria como uma bibliotecária de filme pornô. –– digo com desdém e em voz alta, ali ninguém poderia me ouvir.

–– Bem, o apropriado é relativo. –– ela diz e um sorriso sacana surge nos seus lábios acompanhadamente de seus olhos marcados pelo delineador. Eu rio de seu comentário.

–– Quem é você? –– pergunto numa voz monótona e anestesiada.

–– Pensei que já tínhamos passado dessa fase, Emily. Já te disse meu nome.

“Então vou mudar a pergunta” –– falo telepaticamente e ela cruza os braços esperando o questionamento.

–– O que você é? –– falo num tom estável e sério. Emi se aproxima de mim a ponto de eu conseguir sentir sua respiração calma, natural.

–– Não é óbvio? –– ela fala enrugando levemente sua testa.

–– Não. Não é. –– olho-a fixamente nos olhos.

–– Bem, o que você acha que eu sou? –– Emi diz retribuindo meu olhar.

Uma conexão inexplicável se forma ali. Nossos olhares e olhos iguais estabelecem uma corrente energética, por ela fluem todos os seus pensamentos que chegam até mim como um sentimento, uma certeza, uma resposta.

–– Você é uma outra eu. –– sussurro sem me dar conta de que estou falando, ainda presa ao seu olhar. Ela me dá um sorriso sem mostrar os dentes.

O sinal soa, eu não tenho vontade de ir para a próxima aula, quero ficar ali com Emi e com meus súditos. Com Emi e com nossos súditos.

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As aulas voam em meio às minhas conversas com Emi. Apesar de tudo, gosto dela, mas isso não impede que eu tenha flashes de nossa noite a todo o momento, isso acaba me constrangendo e obviamente ela percebe sem nem precisar olhar para mim.

A hora do castigo chega e nós duas vamos para a sala em questão, a sala ainda estava vazia, o que fazia eu me perguntar se era realmente a sala correta, já que eu nunca havia entrado lá. O local era branco, com várias mesas grandes e redondas, uma mesa para o professor e um quadro-negro médio pendurado na parede acompanhado de gizes e um apagador. Eu me sento no primeiro lugar que vejo, mas Emi continua andando até a última mesa.

–– Essa está boa, venha Emily. –– ela me chama e eu não tenho argumentos para discutir, então apenas levanto e caminho em direção à mesa que ela escolheu.

Um professor baixinho, gordo, careca de óculos quadrado e olhos verdes entra e traz consigo uma dúzia de alunos. Não conheço nenhum deles, com a exceção de Zack.

Ele me vê, sorri e caminha em minha direção. Emi está distraidamente brincado com seus cachos, que apesar de iguais aos meus, são mais bonitos. Zack puxa a cadeira que minha outra eu está sentada para trás, aparentemente para ele o lugar está vazio, então despudoradamente se senta no colo de Emi.

Ela arregala os olhos, foi pega de surpresa e não entendeu o que estava acontecendo. Zack se ajeita na cadeira, de modo que seu corpo se volta para mim e dá a oportunidade de Emi ver o perfil de seu rosto.

–– Eu ia reclamar que tinha um folgado sentado em mim, mas com um rostinho desses, pode se acomodar a vontade, baby. –– ela fala fazendo biquinho e eu preciso me segurar para não rir.

–– Então quer dizer que valeu a pena eu ter me arriscado. –– Zack fala mais como uma reflexão que era pra ter sido apenas mais um pensamento.

–– Como assim? –– falo confusa.

Zack abre a boca para falar algo, mas é interrompido pelo professor.

–– Vocês dois aí no fundo, nada de conversas. Isso aqui é o castigo. –– ele diz.

O leitor de poesias faz sinal com as palmas das mãos dizendo que era para eu esperar. Ele tira de dentro da sua mochila preta um caderno aleatório e uma caneta preta, recorreu às últimas páginas, não a última de fato, porque essa já estava toda rabiscada.

“Eu queria falar com você, achei que fosse mandada para cá, então eu dei um jeito de vir também.” –– ele me explicou escrevendo, sua letra não era a das mais bonitas. Peguei um de meus cadernos e uma caneta azul, ao contrário de Zack pude usar minha última página.

“O que fez para se mandado para cá?” –– escrevo na primeira linha.

“Arrumei uma confusão, nada de mais.” –– a tinta pregada no papel me conta e eu sorrio. Não acreditava que ele tinha vindo propositalmente para o castigo apenas para falar comigo.

“Você não precisava ter vindo para cá, era só me procurar na biblioteca depois.” –– faço a caneta deslizar sobre o papel.

“Na verdade, precisava. Depois tenho treino e vou ter que ir correndo para a casa, resolver um problema familiar.”

Penso em escrever algo como resposta, mas não sei o que dizer, então apenas retiro de minha mochila seu moletom e o entrego. Zack pega sua caneta e volta a escrever.

“Espero que você tenha trazido isso apenas como uma segurança para não passar frio, senão vou pensar que é retardada.” –– faço uma expressão confusa ao ler e ele escreve novamente.

“Dois meses, lembra?” –– repousa a caneta sobre o caderno e empurra sua peça de roupa de volta para mim. Balanço a cabeça em sentido negativo, dobro o moletom e o coloco em seu colo. Ele o pega, guarda em minha mochila e me dá um risinho. Suspiro, mas aceito ficar com o moletom.

“Ótimo, assim tenho uma conversa diária garantida com você pelos próximos dois meses.” –– Zack escreve e eu pego minha caneta.

“Você não precisa falar comigo.” –– digo com honestidade.

“Não preciso, mas quero.” –– ele escreve rapidamente e eu fico sem saber o que fazer. Vendo que não vou responder ele volta a sua escrita.

“Não posso simplesmente chegar e dizer “oi, eu quero falar com você, então vamos conversar”“.

“Talvez você possa.” –– escrevo e ele sorri.

Emi, que acompanhava tudo atentamente me um lança um olhar risonho e depois me mostra o polegar em sentido positivo, seguido de uma piscadela.

Sorrio também.

Notas finais
O que acham da Emi como uma nova personagem da fic? Por favor, me contem a opinião de vocês! Estou a ponto de ter um ataque aqui.