Vulnerável
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Lily
Surpreendentemente a neve começou a cair. Sentada na velha poltrona com as pernas encolhidas e os cabelos bagunçados encaro os flocos de neve e lembro-me de Hugo me dizendo que são todos diferentes, nenhum floco de neve é igual ao outro. Meu primo está na cozinha com nossa avó. Ele sempre fica por perto para experimentar as comidas antes de todos. Eu costumava ficar junto com ele, nós dois éramos inseparáveis quase como irmãos siameses. Mas quando chegou a nossa vez de ir para Hogwarts alguma coisa mudou, e fomos separados cirurgicamente por outros interesses e outros amigos.
— Querida, por que está tão quietinha? – Vovó me entrega uma caneca com a melhor bebida do universo. – Não quer me ajudar junto com seu primo?
— Acho que vou aproveitar um pouco mais dessa poltrona. – Forço um sorriso. Não sei se Hugo quer minha ajuda.
— Hugo está a cada dia melhor com os preparativos natalinos, não é? – Vovó parece muito orgulhosa do neto. – Gostou? – Ela aponta para a bebida em minhas mãos.
— Uma delicia como sempre. – Respondo satisfeita.
— Que bom. – Ela virá para a cozinha mesmo que não dê para enxergar nada que acontece lá. – Finalmente alguém de quem me orgulhar.
— Vovó, não é porque o Hugo gosta de comida que precisa dizer que somos todos incompetentes. – Rose diz levantando-se do tapete, tinha até me esquecido que minha prima estava ali.
— O mesmo temperamento do Roniquinho. – Vovó Molly sorri nostálgica.
Bebo mais um pouco da minha bebida e penso quais são todas as novidades sobre Hugo que eu não faço ideia de que existam. Como poderia saber afinal?
O sexto ano está sendo um ano letivo bem perturbador, e não só por causa da quantidade absurda de trabalhos e exercícios. Hugo e eu temos discutido por bobeira o tempo todo. Seja quando formamos duplas na aula de Poções e ao invés de eu mexer em círculo eu mexo em meia lua ou quando ele suja a Sala Comunal de barro depois de voltar do campo de Quadribol.
É Natal.
O clima deveria estar alegre. Vivo.
Quero dizer, claro que todos na cozinha dA'Toca estão animados. Meus pais, tios, primos e avós irradiam felicidade e tudo parece vibrar ao redor deles. Mas eu não me sinto assim — por mais que a caneca quente em minhas mãos esteja me ajudando.
— Por que está aqui sozinha?
Hugo está parado a alguns centímetros da minha poltrona. Apenas dou de ombros.
— Vovó está terminando aquela torta de caramelo. — ele se aproxima. — sei que é sua favorita.
E era mesmo.
— Tia Hermione trouxe Mince Pies¹ — Hugo se senta no sofá a minha frente. — com frutas secas e aveia. Sei que prefere assim.
E prefiro mesmo.
— Vovó mandou você vir aqui? — arqueio a sobrancelha direita e Hugo faz uma careta. Ele odeia quando faço isso.
— Sim. — ele responde, e retoma a fala logo em seguida, quando percebeu que eu abriria a boca. — mas você bem sabe que mais cedo ou mais tarde eu viria. Eu sempre venho, Lily.
Senti uma ardência em meus olhos ao lembrar que sim, costumava ser verdade, ele sempre vinha, mas ultimamente não estava sendo assim. Estamos sentados de frente um ao outro. Quando foi que nos tornamos isso? Adolescentes cansados e mal humorados? Na verdade, quando Hugo começou a me deixar tão vulnerável?
Hugo
O cheiro da cozinha invade o espaço inteiro e me deixa feliz. Sei que é estranho um adolescente confessar que gosta de cozinhar com a vovó Molly e aprender a fazer melhor a comida do mundo — que me desculpem os elfos de Hogwarts. Uns dois anos atrás, Lily estaria comigo e não afundada na poltrona da sala olhando pela janela como uma pessoa triste e anti-social que na realidade ela não é.
Quando vovó me pegou observando a cena, fez com que eu resolvesse ir conversar com minha prima. É claro que eu já iria. Se existia uma pessoa que não consigo ignorar por completo, essa pessoa é a Lily.
Então mesmo com toda a pressão, e com todas as brigas que não compreendo, eu não consigo ficar mais tempo longe dela. O sexto ano está sendo complicado. Temos constantes treinos de quadribol, porque já está na hora da Lufa-Lufa ganhar a copa das casas e temos trabalho sobre milhões de novas plantas, novas poções...a modernidade chegando a Hogwarts. Eu sei que nos afastamos. Não somos mais a dupla Hugo e Lily que costumávamos ser. Somos Lily Potter, a popular ruiva do sexto ano que puxou os cabelos da Weasley e o temperamento do Potter e Hugo Weasley, tão parecido com o pai. ''Os mesmos olhos, o mesmo temperamento, ainda bem que herdou a inteligência da mãe.'' É o que todos dizem quando fico nervoso e acabo brigando com meus amigos, incluindo com ela.
— Vamos fazer uma trégua? — Lily diz me encarando esperançosa.
— Trégua? — Questiono porque não estava prestando atenção nela ou na conversa. Estava apenas divagando sobre a minha vida. Nossa vida.
— Nada de brigas durante o Natal. — Lily suspira. — vamos brincar na neve?
— Primeiro vamos roubar uma tortinha de abóbora? — Dou uma sugestão.
— Brilhante! — Ela ri alto.
Nós éramos melhores amigos. Cúmplices. Não sei o que aconteceu comigo para ficar sempre tão irritado com Lily. Quando ela me deixou tão vulnerável?
Em qual momento eu deixei de relevar todas as brincadeiras. Quando suas histórias começaram a me deixar nervoso e incomodado? Como que tudo passou de leve e amigável para sufocante e angustiante? Como eu me deixei cair na mesma armadilha que todos os outros?
Lily.
Enquanto seguíamos até o Jardim gelado, contei cada passo que dávamos até lá. Parecíamos cúmplices de novo, como nos velhos tempos, indo em direção a uma nova aventura.
Dei duas mordidas terminando de comer minha tortinha de abóbora ao mesmo tempo em que sinto meu pé deslizar na neve. Minha primeira ação é esticar os braços, tentando desesperadamente agarrar em algo sólido e Hugo, que estava logo a minha frente, acabou sendo esse algo — pena que nem tão sólido assim. No segundo seguinte caímos em cheio no chão, com ele por cima de mim.
— Eu não sei não, Lily. — Hugo ria, as bochechas vermelhas pelo frio e talvez pela proximidade. — mas antigamente você tinha maneiras mais sutís de me chamar.
Acabei rindo também.
— Desculpe. — e eu iria falar mais, até que um pensamento cruzou minha mente tão rápido quanto uma estrela cadente.
Será que em cada tombo da minha vida eu também era assim? Procurava me agarrar em algo mais próximo e esse algo era Hugo? Será que eu acabei enchendo-o tanto com meus tropeços que ele se afastou?
— Lily? — Hugo ainda estava por cima de mim, não havíamos nos mexido nenhum centímetro. Ele me encara com aquele olhar perspicaz que por vezes me lembrava Rose. — tudo bem?
— Claro. — pisquei.
Hugo se jogou para o lado, deitando ao meu lado.
— Anjo de neve? — perguntei, tentando afastar esses pensamentos da minha cabeça.
Nada de brigas durante o Natal, repetia.
Meu primo sorriu e esticou os braços, tomando assim uma distância de mim. Fiz o mesmo e começamos a mexer para cima e para baixo. Encarei o céu negro sem estrelas e Lua a vista, não facilitando meu costumeiro pedido de Natal.
Desejei uma oportunidade de pedir um desejo.
— Onze e meia. — Hugo encarou o relógio trouxa em seu pulso. — já fez seus pedidos?
Olhei assustada para ele. Parece que a nossa conexão jamais mudaria afinal.
— Sem estrelas? — virei o rosto para fitá-lo. — sem lua?- suspirei. — não tem graça.
— Isso seria um desserviço com o céu. — Hugo girou a cabeça a fim de me fitar também. Sorriu de lado. — ele que recebe a lua e as estrelas. Se elas não podem estar aqui hoje, faça o pedido para ele.
Sorri.
Ele sempre sabia dizer a coisa certa na hora certa.
Fechei os olhos.
Três pedidos simples e ao mesmo tempo urgentes.
Abri os olhos e olhei para Hugo — ele tinha os olhos fechados. Com nossos braços junto ao corpo, deslizei para o lado até ficarmos com os ombros colados. O toque fez com que ele abrisse os olhos.
— Você também faz pedidos? — olhei enviezada para ele. — essa é nova.
— Digamos que ultimamente há coisas que preciso bastante. — ele sorriu.
E der repente senti uma raiva por ele ainda fazer isso tão naturalmente.
— Por que nos afastamos tanto, Hugo? — questionei em sua direção. — e quando ficamos perto um do outro o clima fica tão...tão...eu não sei! Cansei das discussões.
Ele arregalou levemente os olhos, aparentemente não esperava por aquilo.
— Eu continuo o mesmo, Li-
— Não me venha com essa! — me sentei de súbito.
— Sem brigas no Natal, lembra? — ele fez o mesmo que eu e adquiriu uma expressão mais séria, porém ainda doce. — eu também cansei das discussões, Lily.
Acabei analisando mais do que devia cada sarda das bochechas de Hugo. Eram idênticas as minhas mas em maior quantidade. Eram perfeitas. Seus olhos pareciam melhores que ontem e ainda sim tinha certeza que não tão lindos quanto ficariam amanhã.
O que estava acontecendo mesmo!?
Hugo
Por fim deixamos os anjos na neve. Lado a lado, porém sozinhos. Como eu. Estou ao lado de Lily, mas é como se estivéssemos em mundos diferentes. Sempre distantes. Normalmente estou tentando ser o Hugo legal que sei que posso ser, que na maior parte do tempo sou, mas no meio do caminho existe um ruivo que sente falta de ter Lily só pra ele, alguém que não consegue entender todas as mudanças. E é sempre cansativo ficar balanceando essas duas pessoas.
Caminhamos de volta para casa. O silêncio deixa a noite mais fria e sei como aqueles anjos de neve se sentem.
— Agora estamos quebrando promessas? – Lily resmunga insatisfeita.
— Quais dela? – pergunto na defensiva.
— Sem brigas. – ela repete a mesma frase das últimas horas.
— Sem brigas. Sempre juntos. Amigos para sempre. Minha pessoa. Nada vai nos separar. – respiro fundo. – Nas minhas contas já se foram cinco promessas.
Aumento a velocidade dos passos e a deixo para trás. Não deveria ser tão sensível, mas não consigo evitar.
O que está acontecendo comigo?
Lily
Conseguimos passar algumas horas tranquilas. Poucas devo admitir. Quando entramos na sala já estavam todos prontos para comemorar. Feliz Natal, era o que ecoava pelas paredes da casa inteira. E nós dois apenas ignorando a ultima crise, fingindo que os ultimos minutos não existiram. Apenas aproveitamos as pessoas em volta, as risadas, e brincadeiras típicas. Nos juntamos para irritar Rose e sua paixão secreta pelo Malfoy, rimos de James e Alvo e em como eles precisam trabalhar o ciúmes um do outro. Nossos primos são os melhores para aprontar com todos. Abrimos presentes. Comemos biscoitos.
Por um momento quase me esqueci do tanto que é cansativo ficar ao lado de Hugo. O quanto eu me esforço para não corar ou não tocar seus cabelos sempre que possível. Ele é meu primo. Era meu melhor amigo. E agora o que eu quero que ele seja?
Ele estava certo. Quebramos todas as promessas. Como posso cobrar as estrelas se nem mesmo eu faço o que prometo? Tenho raiva de mim.
Sinto meus olhos se arregalando quando me dou conta de que todos estão me encarando. Provavelmente estava bufando como um animal raivoso.
― Qual é o problema? – questiono a todos, mas falo em sua direção. Afinal ele é o problema. Ele é o responsável por esse comportamento descompensado.
― O que fiz agora? – e é a sua vez de bufar.
Ignoro todas as interrogações que surgem nos rostos dos que ainda estão por perto. Rose balança a cabeça negativamente e dá de ombros enquanto pega um livro e sai de vista o lendo.
― Talvez seja esse o problema. Você não faz nada. – Victorie é quem fala como se estivesse em minha cabeça. Repetindo exatamente as palavras que meu cérebro gritava.
― Como? – Hugo sempre foi inteligente, mas nunca muito esperto. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
― Lily L. – ela coloca a mão em meu ombro. – Um dia ele vai perceber, mas não espere muito tempo é bonita demais para isso.
Acabo sorrindo. Quando Victorie diz que alguém é bonito é impossível não se sentir feliz, porque de beleza minha prima entende muito bem.
― Não esperarei. – respondo.
Mas ele me deixa sempre tão vulnerável. E provavelmente vou esperar mesmo que leve uma vida inteira.
Hugo Weasley.
Eu nunca consigo acompanhar as garotas. As atitudes, conversas, e as mudanças de humor. Gostaria de saber se alguém além delas consegue.
Lily estava sendo a Lily de sempre. Feliz. Sorridente. Animada. Perfeita. O que não durou muito tempo. Porque ela ficou pensando em algo e depois de alguns minutos de silencio e de ficar bufando como um animal raivoso descontou tudo em mim.
Não entendo o que faço para que ela sempre jogue tudo em mim. Todos podem entrar no salão com os sapatos sujos de barro, mas é comigo que ela implica. Todos podem usar roupas velhas mas eu que escuto suas broncas, e quando uso as roupas novas ainda assim levo bronca.
― O que fiz agora? – questiono esperando pelo menos uma explicação justa.
Minha irmã sai de perto. As outras meninas riem e também nos deixam. Quando somente Victorie está por perto obtenho uma resposta, tão enigmática quanto Lily.
― Talvez seja esse o problema. Você não faz nada.
Não entendo o que devo fazer. Eu já tentei ser carinhoso, já tentei ser irritado, ser misterioso, ser até invisível. Sempre acabo deixando Lily brava. E eu sempre acabo sozinho pensando no que está acontecendo comigo e com ela.
Não percebo quando nossa prima sai de cena.
― Estou tão cansada. – Lily diz deitando-se no tapeta do chão. – desejos que não se realizam e promessas que são quebradas.
Eu também me sinto assim.
― Me desculpe. – falo enquanto ela olha para o teto.
Seus olhos se fecham e ela respira fundo.
― Você não fez nada. Eu que estou em uma montanha russa. – Lily fala e volta a fechar os olhos.
Deito-me no tapete. Nossas cabeças ficam lado a lado apesar dos corpos ficarem em direção oposta. Faço ela se virar e ficamos com as cabeças de lado.
Nos encaramos.
― Provavelmente estamos na mesma montanha russa. – falo e encosto meu nariz ao dela.
Nossas mãos se entrelaçam.
Provavelmente estamos no ponto mais alto e o carrinho em breve irá despencar lá de cima. Mas a vista por enquanto é a mais bonita.
Ela me deixa sempre tão vulnerável.
Lily e Hugo/ Hugo e Lily
― Feliz Natal Lily. – ele diz e sinto sua respiração bem perto de mim.
― Feliz Natal Hugo. – ela diz sua respiração toca minha pele doce e quente.
Nossas mãos continuam juntas enquanto a montanha russa faz piruetas em nossos sentimentos. Estamos vulneráveis. Estamos sendo Lily e Hugo. Sendo Hugo e Lily.
― Que tal uma promessa? – Hugo deixa seus olhos decorarem cada pinta e sarda no rosto da prima.
― Mais uma a ser quebrada? – Lily questiona.
Hugo junta seus rostos o mais próximo possível. Seu nariz amassa o dela. Seu lábios quase juntos. Quase se tocam. Quase viram um só.
Então ele sussurra.
― Eu prometo que apesar de quebrar as promessas jamais vou quebrar isso...
― Isso? – Lily questiona.
― Nós. Lily e Hugo. – os olhos dele se fecham. E a respiração fica mais pesada.
― Hugo e Lily. – Lily diz em um sussurro, vendo o ruivo ao seu lado cair no sono.
Então encosta seus lábios nos lábios dele. E promete a si que não irá mais pedir as estrelas, irá fazer por conta própria.
― Você me deixa tão vulnerável e inconsequente.
Os olhos de Lily também se fecham lentamente.
Quem sabe o Ano Novo seja menos complicado.
¹ — Na Inglaterra trouxa, são tortas recheadas com carne moída, mas no Natal, a carne é substituída por frutas secas e aveia.
Notas finais
E claro, MUITO obrigada, Anny, sem vc a fic n seria possível.
Comentem gnt, nós gostaríamos muito, n tenham medo hahaha
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