Notas iniciais
Inspirada nessa imagem:
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Londres era uma cidade linda. Ela tinha o ar antigo que os grandes mestres do passado lhe proporcionaram em seu devido tempo, mas ela ficava interessante mesmo com as pessoas que vivam por lá nos dias de hoje.

Cada uma de um canto diferente do mundo, levando sua cultura e sua vivência para a cidade, tornando-a a cidade mais cosmopolita do mundo.

Mas nada disso animava John Watson. Havia dois anos, onze meses e trinta dias que ele não se animava mais com as coisas ao seu redor. Não escrevia mais em seu blog. Não morava mais em 221b da rua Baker.

Havia todo esse tempo que ele sentiu perder dentro de si algo que pertencia a ele. Que fazia parte dele. Que havia se entranhado em seu coração como uma erva daninha. E que mesmo que o tempo passasse, essa erva nunca seria arrancada de lá.

Havia todo esse tempo que Sherlock Holmes dissera adeus a esse mundo.

E John Watson dissera adeus a tudo o que esse mundo oferecia. Não achava mais graça nas cores avermelhadas dos blocos das casas, que antes o deixavam maravilhado. O grande relógio no prédio do parlamento não mexia mais com sua noção de tempo. O relógio só servia pra contar às horas que ele passava sem Sherlock.

As horas que sofria em agonia, acordando no meio da noite com a imagem do amigo caindo num abismo infinito.

Quantas vezes John acordou no meio da noite, chorando em desespero, e em seu quarto a única coisa que ouvia era seu próprio grito de amargura?

Havia parado de contar.

Agora ele havia decidido ser mais simples. Ele respirava, tomava seu café da manhã, respirava, ia trabalhar no hospital, respirava, voltava tarde da noite com dor em todos os ossos do corpo devido à alta carga horária de trabalho, respirava, comia algo quando lembrava, respirava e por fim, dormia.

E acordava no outro dia, bem cedo, e repetia todo o processo.

E não foi diferente nesse dia de quinta feira. Pensou em ir ao cemitério, mas não teria tempo. Naquele dia faria três anos que em sua vida havia um buraco dentro do seu peito. E cada ano que passava, ficava pior; o buraco já estava se transformando em uma cratera.

John refez toda a sua rotina nesse dia. Tomou seu café da manhã e foi trabalhar. Ele gostava de trabalhar, manter a mente ocupada era como uma terapia, assim as lembranças não vinham perturbar sua mente.

Atendeu seus pacientes, como de costume. Mas ao invés de chegar em casa de madrugada, foi liberado um pouco mais cedo, ao entardecer.

− John, vá para casa. Descanse. Durma um pouco. Sua fisionomia me preocupa.

− Não há nada de errado comigo, Drª Scully. Eu estou bem – afirmou. Mas era mentira. E sua chefe sabia disso.

− Só faça o que te falei. E amanhã não precisa vir, Dr. Wilson vai cobrir o seu turno.

John ia protestar, mas viu o semblante sério da drª e desistiu. Voltou para seu consultório, colocou o jaleco pendurado no cabideiro, pegou sua maleta e saiu.

Resolveu ir andando para casa. No meio do caminho comprou algo para comer no Tapas Brindisa Soho Restaurant, estava com fome. Caminhou mais algum tempo e chegou em casa.

Colocou as chaves na mesinha próxima a porta e se encaminhou a cozinha, colocando a sacola com a comida em cima da mesa. Foi até a pia e lavou as mãos. Em seguida foi até o balcão que separava a cozinha da sala, para pegar uma toalha limpa, e viu um embrulho em cima do balcão.

− Estranho, como isso veio parar aqui? Eu me lembro de ter fechado a porta. Aliás, ela estava fechada quando eu entrei.

Ficou curioso, o que poderia ser?

O embrulho tinha o formato de coração. Era na cor vinho e tinha um laço preto prendendo as duas partes. Desfez o laço enquanto puxava uma cadeira e se sentava a mesa. Abriu e viu que havia um celular dentro.

O celular estava ligado.

O celular era branco e tinha uma capa rosa. A capa ele não conhecia, mas o celular sim. Era dele mesmo. Havia comprado poucos meses antes de Sherlock falecer e achou que havia perdido quando foi atropelado pela bicicleta.

John sentiu seu coração bater um tantinho mais acelerado.

O aparelho vibrou na mão do doutor, revelando a sétima mensagem recebida. Acessou a pasta de mensagens.

E sua respiração falhou.

“Eu vi você no ponto de ônibus ontem. SH.”

“Não compre essa roupa, a marca é ruim, a qualidade é péssima. SH.”

“Sinto falta do seu café, John. SH.”

“A senhora Hudson tem limpado meu apartamento corretamente? SH.”

“Nenhuma atualização recente no seu blog. SH.”

“Jantando sozinho? SH.”

“Você sente a minha falta? SH.”

John não sabia o que fazer. Ele havia desaprendido a respirar. Não sentia nada exceto o coração, que batia feito um louco. Essa era a única prova de que estava vivo. Que sentia.

Lágrimas começaram a cair de seus olhos, molhando a pequena tela do telefone celular em suas mãos.

− Mas... como... – Era a única coisa que conseguia repetir.

Ele queria acreditar que tudo não passava de uma piada de mau gosto, que alguém muito sacana estava brincando e remexendo seus sentimentos.

Como podiam ser insensíveis a esse ponto?

John apertou o celular contra as mãos, querendo esmagá-lo. Ele queria sentir dor, queria gritar. Queria saber por que estavam fazendo isso com ele.

Primeiro a vida lhe tira aquele que mais amou e agora era assim que ela lhe retribuía? Enviando-lhe mensagens do além, para mexer com ele?

John queria saber quem era a pessoa, o ser infeliz que se extasiava com o sofrimento alheio. Sim, porque ele só se manteve vivo porque acreditava. Acreditava em Sherlock. Acreditava no que viveram juntos. E porque Sherlock era real ele vivia. Ele vivia porque seu amigo, que depois ele descobriu ser seu amor, havia vivido uma vida sem arrependimentos e havia se sacrificado por ele.

John sabia.

Agora a única coisa que ele queria era saber se aquilo que lia era real, se não era fruto da loucura de sua mente ou de alguém perverso.

E sua mão tremeu novamente.

“John, eu estou aqui. Sou real, sou seu milagre. Abra a porta, por favor. SH.”

Não havia mais incerteza. Era verdade. A campainha tocou na porta da frente e John secou as lágrimas do seu rosto. As lágrimas da angústia, incerteza e da solidão.

Com o celular na mão, caminhou até a porta. Respirou fundo. Ele tinha que acreditar que estava acordado. Que era real. Que podia sentir.

Abriu a porta. Foi como se tivesse finalmente parado de andar no deserto, sem encontrar um oásis.

Ele estava ali.

Ele existia.

Ele olhava para John, seus olhos num tom azul escuro, acompanhando a cor do céu, que já era noite.

Ambos sabiam.

Ambos sentiam.

Ambos tinham certeza que a ausência fora demais e eles simplesmente precisavam um do outro.

− Desculpe ter demorado, John. – Sherlock disse, sem desviar o olhar do loiro.

John queria bater nele. Queria esmurrar a cara do moreno. Queria até atirar nele. Todos esses pensamentos passaram por sua mente numa fração de segundo.

O que fez realmente foi vencer a pouca distância e abraçá-lo com força, sentindo cada músculo se contraindo, cada espasmo do corpo do moreno contra o seu.

− Nunca mais faça isso. Você me ouviu, nunca mais faça isso. – disse John, se afastando um pouco para olhar para Sherlock. O moreno ia dizer algo, mas foi impedido pela profundidade do olhar do médico – E nem ouse dizer que “foi preciso”. Não faça isso.

Sherlock sorriu de lado. Não, ele não iria dizer nada. Porque ele não precisava mais.

Trouxe John para mais perto, e beijou o pescoço dele. Agora ele tinha certeza. O coração do médico pertencia a ele. Mas mais que isso, Sherlock sabia, John havia roubado seu coração.

Notas finais
Gente, mais uma Johnlock sejam felizes.

Ok ela não é necessariamente feliz... mas eu gostei dela.

Espero que gostem.

Bjo Sherlockians, até a próxima ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!