Vulnerável Coração
1 Capítulo Único
Robb Stark tinha quatro anos e alguns meses quando a senhora sua mãe teve a sua segunda criança com o senhor seu pai. No mês em que o bebê iria vir ao mundo o clima de aflição reinou em toda Winterfell. Ninguém sabia dizer se essa pessoinha que iria nascer era um menino ou uma menina. Robb não sabia o que queria. Ele já tinha um irmão da mesma idade que ele, apesar de Jon ser um bastardo de seu pai e ter o sobrenome Snow. Ele amava o irmão de todo o coração, mesmo que Jon possuísse a personalidade e a aparência bem distintas da sua.
O primogênito dos Stark podia ainda ser bem novo, contudo conseguia enxergar claramente o norte em seu meio-irmão em contrapartida com suas características sulistas. Robb só percebeu este detalhe através das más línguas dos criados de seu pai, que secretamente declaravam que Robb era o bastardo e Jon o filho legítimo.
A única coisa que o garoto herdeiro daquela fortaleza desejava de todo o coração era que a próxima criança a vir ao mundo fosse parecida consigo e como se os Deuses Antigos pudessem ouvir as suas preces, naquela manhã de primavera Sansa Stark veio ao mundo, com olhos azuis e cabelos rubros como os seus. Ela era a chave para o Norte e o Norte um dia pertenceria à Robb.
Em silêncio Robb amou sua irmã no momento em que ela veio ao mundo. Ela tinha o seu sangue, os seus traços físicos e mais para frente desenvolveu uma personalidade digna de ser amada.
A garotinha era uma lady, não apenas por título, mas também por comportamento. Conforme Sansa foi crescendo, ela tomou gosto pelas coisas de garota, como Robb definia a afinidade com a agulha e a música.
Conforme ela foi crescendo, Robb tornou-se a sombra da irmã e muitas vezes obrigou Jon a acompanhá-los para colher flores e brincar aos arredores da árvore coração.
Sua mãe teve outros filhos ao longo dos anos, mas nenhum com quem Robb gostasse mais de estar do que com Sansa. A terceira criança que sua mãe pariu, por outro lado, foi especial para Jon Snow. Enquanto Robb entretinha Sansa, seu meio-irmão se tornou o protetor de Arya, que assim como ele herdou os cabelos castanhos e os olhos acinzentados de Eddard Stark.
Robb e Jon encontraram os seus iguais dentro de sua própria família e eles acreditavam que nada no mundo poderiam separá-los já que estavam ligados pelo sangue. Porém, os demônios são atraídos pelo cheiro da felicidade e no ano em que os dois rapazes completaram quinze anos o Rei Robert I Baratheon e a sua Corte vieram à Winterfell provar que eles estavam errados.
Aquela visita da realeza dos Sete Reinos era promissora para a sua família, pois vinha junto com o convite para Lorde Eddard Stark se tornar a Mão do Rei, no entanto, o pesadelo foi instaurado quando Robb conheceu Joffrey Baratheon e soube que era a intenção de seu pai e o Rei unir as duas famílias em um casamento com o primogênito dos Baratheon com a mais velha de suas irmãs.
O pivete filho da Rainha Cersei com o Rei Robert iria ser o seu cunhado e tinha uma personalidade terrível. Ele afrontou Robb em suas habilidades de esgrima por este utilizar uma espada de madeira e não uma de aço e acima de tudo sua irmã Sansa demonstrou ter sentimentos pelo loiro.
Até aquele momento Robb não havia visto Sansa como uma mulher por ela ser sua irmã e ter somente onze anos de idade e quando a viu desta forma, seu mundo desmoronou. Ele não se dera conta da profundidade de seus sentimentos até ser posto a prova.
Para Robb, Sansa era apenas uma criança e acima de tudo tinha o mesmo sangue que ele, então como ele podia se permitir ter aquele sentimento destrutivo crescendo dentro de si? O rapaz queria tirar aquele sorriso desprezível do rosto de Joffrey e trancar a sua irmã nas profundezas de seu castelo para que sua doçura não fosse dedicada a mais ninguém que não ele próprio.
Sentindo-se indigno por ter estes pensamentos, Robb não mais participou dos banhos em conjunto com os irmãos na sala de banho de Winterfell. Era estranho demais para ele perceber as mudanças no corpo da irmã que somente agora ele se dava conta. Sansa estava crescendo e o seu corpo era a prova desta mudança. Ela é só uma criança, dizia a si mesmo. Sabia que Joffrey não se casaria com ela até que o primeiro sangue da lua descesse, todavia isto não demoraria muito tempo para acontecer.
Robb repudiava os Targaryen pelo mal que causaram aos seus tios e avô, mas como ele invejou os costumes daquela família dos dragões que casavam irmãos com irmãs. Se os Stark adotassem esta prática, então Sansa seria dele e talvez o seu coração estivesse mais tranquilo neste momento.
Por mais que quisesse por um fim neste tormento, não havia nada que pudesse fazer ou dizer para obter o que queria. Tomando toda a coragem que possuía, ele foi visitar a irmã no quarto dela na noite anterior a partida prevista para a Capital.
— Você está feliz? – Ele perguntara ao sangue de seu sangue, tomando o máximo de cuidado possível para não deixar transparecer os seus pensamentos obscenos.
— Muito. Eu sempre soube que me casaria com um príncipe – A irmã confessara.
É isto o que ela quer afinal das contas, Robb lamentou em silêncio.
Sansa tinha uma educação invejável e mesmo se os costumes Targaryen retornassem e fosse adotado pela sua Casa, ele seria apenas um Lorde e sabia que a sua irmã merecia algo há mais do que alguém com um título que ela já possuía pelas condições de seu nascimento.
Se eu fosse um Rei, eu faria o que eu quisesse e a manteria ao meu lado mesmo que todos dos Sete Reinos me proibissem, decidiu mentalmente o seu sonho praticamente impossível.
Com o pesar guardado em seu coração, na manhã seguinte ele se despediu das irmãs e de Jon Snow que partiria para a Muralha com o seu tio Benjen Stark para se tornar um membro da Patrulha da Noite.
Durante meses Robb sentiu o peso do comando sobre os seus ombros. Com a ausência do pai em Winterfell agora ele era o Senhor daquela fortaleza e tinha que atender as necessidades da vida pessoal e a de governante.
Era estranho admitir que ele se dera melhor sendo um Senhor do que um irmão e filho presente. Com a queda de Bran na velha torre, o irmão ficara aleijado da cintura para baixo e a senhora sua mãe entrara em um estado de paranoia contra os Lannister, apesar de ela ter uma forte razão para estar daquele jeito.
As intuições de Lady Catelyn se mostraram reais quando os Lannister atacaram Correrrio e o senhor seu pai, antiga Mão do Rei Robert I fora preso na Capital por traição real contra o Rei Joffrey, que fora coroado após a morte do monarca Baratheon durante uma caçada.
Robb dominado pelo espírito do Senhor convocou os vassalos de Winterfell e partiu para Correrrio na intenção de afastar as tropas de Tywin Lannister das terras de seu avô materno e adquirir mais vassalos para atacar Porto Real e resgatar os seus familiares lá presos.
Se ele fosse honesto consigo mesmo, admitiria que sua maior preocupação era o bem estar de Sansa naquela cova de leões. Com o pai sendo acusado de traição, nada de bom esperava pela sua irmã. Provavelmente Joffrey se livraria do casamento arranjado e a Rainha Cersei a manteria prisioneira na Fortaleza Vermelha junto com Arya.
Robb defendia a inocência de Sansa com tanta veemência que teve o espírito esmagado quando um corvo lhe entregou uma carta da Capital com a letra de sua irmã exigindo que ele fosse para Porto Real jurar lealdade perante o Rei Joffrey.
O rapaz sentiu a fúria percorrer as suas veias e amassou aquela carta a ponto de ela se transformar em uma bola de papel amassado e caber com perfeição na palma de sua mão.
Ele lera naquelas poucas linhas os sentimentos que a irmã ainda possuía pelo jovem Rei. Robb conhecia por demasiado a irmã para saber que ela esperava continuar sendo digna do cretino real se ele esquecesse o que aquela família fizera ao senhor seu pai e dobrasse o joelho em sinal de lealdade.
Robb não iria fazer o que lhe era pedido. Agora que ele era Senhor, cabia a ele tomar decisões cruciais.
Ciente do peso de sua decisão, ele caminhou ao lado da mãe e de seus vassalos para Correrrio, tendo de atravessar As Gêmeas para cortar caminho e firmar um contrato de casamento com uma das filhas de Lorde Walter Frey em seu nome e com um dos filhos daquele senhor em nome de Arya. Se aquele era o preço para resgatar a sua família, que fosse pago.
De todas as batalhas travadas, Robb sempre obtinha sucesso, mas a guerra em si ele estava perdendo. Ficou sabendo disso quando o anúncio de que a cabeça de Lorde Eddard Stark fora arrancada de seu corpo pelo carrasco real nas escadarias do Septo de Baelor.
Robb chorou como uma criança longe dos olhos de todos, menos dos de sua mãe que o acolheu em seus braços como o seu filho querido. A viúva também estava abalada com a perda do marido.
É culpa de Sansa, o seu coração vulnerável gritava para ele. Aquela menina egoísta que era a sua irmã o havia traído no momento em que escolhera Joffrey e partira com o pai para a Capital. Rumores de Porto Real lhe informaram que fora ela quem contara a Rainha os planos de Eddard de deixar a cidade.
O rapaz se repreendeu mentalmente por atribuir a culpa das circunstâncias na garota. Sansa era ingênua no fim das contas, mesmo que tivesse uma parcela de responsabilidade pelo desfecho da situação, ela não agiu de má fé e sabia que sua irmã deveria estar sofrendo tanto quanto ele agora.
Lorde Eddard podia estar morto agora, no entanto ele não iria desistir daquela guerra tão fácil assim. Graças a sua determinação, os seus vassalos o intitularam Rei do Norte, exigindo liberdade daquele território dos Sete Reinos.
Agora eu sou um Rei..., a realidade o encheu de coragem. O seu sonho deixara de ser uma ilusão. No fim das contas, Sansa podia ser sua como ele desejara um ano atrás. Ele só tinha que continuar a ganhar as batalhas.
Não foi fácil e nem rápida a sua vitória. Demorou mais quatro anos para que o Rei do Norte atingisse a sua meta. Neste meio tempo ele perdeu um amigo; Theon Greyjoy se voltou contra ele na primeira oportunidade de liberdade que teve e atacou Winterfell, tomando a fortaleza em nome dos Greyjoy e no processo matou os seus dois irmãos mais novos. A respeito de Arya, a sua irmã caçula, a menina desaparecera no dia em que o senhor seu pai fora aprisionado e era bem provável que nesta altura já estivesse morta. No processo de atacar Porto Real, Robb fizera alianças vantajosas. Ele se aliara à Renly Baratheon que se declarava herdeiro do irmão Robert e juntos conquistaram a Capital, massacrando os Lannister para tal.
Robb teria resgatado a irmã naquele momento se ela ainda tivesse permanecido por lá. Após a morte do Rei Joffrey no segundo ano da vinda de sua família para Porto Real, sua irmã que fora casada com Tyrion Lannister, o Duende, fugira da Corte sob a proteção de Petyr Baelish, que a escondeu no Ninho das Águias como sua filha bastarda chamada de Alayne Stone. Foi somente no último ano de sua luta que ele obtivera estas informações de Mindinho, que jurara a entregar em segurança para a família desde que a mão de Catelyn Tully lhe fosse dada. O Rei do Norte não hesitou em aceitar esta proposta. Sua mãe ainda era relativamente nova para continuar solteira e Petyr mostrara-se um aliado de valor, embora Robb duvidasse da moral do homem.
Com os seus objetivos alcançados e tendo enfim a independência de seu território, ele marchou para a casa com o que restara de seus homens.
Seguindo as suas ordens, Winterfell que fora destruída pela tropa de Theon estava sendo reerguida em um processo lento. Enquanto Robb voltava a se acostumar em ser um Senhor, ainda que agora o seu título fosse de suserano, ele mandou Petyr Baelish aparecer em sua Corte com a sua irmã.
O Jovem Lobo, como fora apelidado pelos seus vassalos, sentia-se eufórico mediante a perspectiva de reencontrar Sansa. Muitas coisas haviam mudado desde que ela a vira pela última vez, exceto os seus sentimentos por ela que nem por um instante morrera em todos esses anos.
Ele havia se tornado um Rei e com isso era digno do amor dela, se ela assim o quisesse. Robb estava determinado a expressar os seus sentimentos desta vez sem sentir-se envergonhado ou menosprezado por tal. Ele era um monarca e como Rei podia fazer o que quisesse. Não tinha que honrar a memória de ninguém que não a dele mesmo, aprendera isso a duras penas na guerra que ganhara. As Terras Fluviais faziam parte de seu reinado e se ele quisesse quebrar o pacto de matrimônio com os Frey, ele assim o faria e os recompensaria de outra forma. Ele tinha a sua própria Mão, Roose Bolton, para lidar com esta situação.
Robb amava Sansa e agora o seu coração não seria mais vulnerável aos caprichos da irmã. Seu coração era de ferro, assim como era o coração de todo Rei e o ferro não se dobra a nada, mas talvez o fizesse para o amor correspondido.
Notas finais
Espero que tenham gostado e se ainda não leram, leiam a continuação dela chamada O Rei do Norte, retratando sob o ponto de vista da Sansa o reencontro entre ela e o Robb.
Comentários são sempre apreciados por esta autora carente, rs.
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