Vulcão e Tornado

1 Machuque-me se puder.


Notas iniciais
Reviews. Pra mim e pra você, boa oferta, hm?
Divirta-se.

Por favor, não julguem. Nenhum de vocês têm o mínimo direito de tal. Muito menos têm idéia do que realmente é. Não sabem de nada sobre o que realmente acontece. Entre aquelas paredes, debaixo daquele teto, vocês não existem, ninguém existe. Somente nós.

Aquela pequena casa é um santuário, onde somente nós dois podemos entrar. No início, ao menos, era. Era meu refúgio do mundo real. Da minha família, de tudo. E lá eu tinha um amparo, tinha alguém pra me apoiar. E, por incrível que pareça, isso não mudou.

Tivemos noites lindas, maravilhosas. Verdadeiros oasis nos desertos das nossas vidas. Ali, finalmente, não tinhamos que dar satisfação para ninguém. Não precisávamos ter medo. Eles que viessem apontar o dedo para nós. Não podiam mais nos impedir de voar.

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Vocês nunca vão entender. Jamais. Não quero perder meu tempo explicando à pessoas de suas estirpes algo que vai além da monotonia de suas vidas. É demais para os intelectos de vocês. Não. Não tem nada a ver com seus cérebros. Mas sim com seus espíritos, esses jamais aguentariam. Mesmo assim, sinto que é necessário fazê-los ouvir.

Foi com esforço, mas a tirei de lá. Daquele lugar onde ela passou a vida, daquelas pessoas que ela odiava tanto, o que era recíproco. Não aguentaria vê-la jurar ódio a eles mais vezes. E mais ainda mais, não aguentaria ficar sem ela. Pois ambos sabiamos, isso aconteceria se ela continuasse com eles. Não a suportavam, mesmo tendo o mesmo sangue, imaginem o que achavam de mim.

O sorriso nos nossos rostos quando entramos naquele que seria nosso lar, foi maior que todo o raiar do sol. Aquela pequena sala, quarto, banheiro. Momentos incríveis se passaram com a casa como palco. E nós somos os protagonistas. Protagonistas, diretores, figurinistas e autores daquela tragédia.

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Durante um tempo, tudo correu bem. Melhor impossível. O sonho de construir uma vida conjunta realizado. Era tudo que eu sempre quis. Ele tinha o emprego dele, eu tinha o meu. Tudo ia como devia ir. Mas não aguentariamos ficar sem emoção durante muito tempo, não é?

Num dia qualquer, encontrei uma uma marca de batom na camisa dele. Um batom que não era meu. Com um perfume que não era meu. E aí, o sangue me subiu à cabeça que nem um foguete.

Imaginei outras mãos segurando as dele. Outros lábios tocando os dele. Outro corpo contra o dele. Como ele podia? Filho de uma égua.

Fui até a sala, onde ele estava confortavelmente sentado. Joguei a camisa na frente dele. E com um olhar inocente, ele perguntou o que houve. Meu Deus, eu realmente tentei matá-lo. Bati nele com toda minha força, o arranhei até minhas unhas quebrarem. E cuspi. Gritei tudo o que queria. E ele também. A diferença, é que ele é muito mais forte que eu.

Quando ele me acertou o primeiro soco, ficamos ambos pasmos. Ele até tentou me ajudar, mas aquilo só me deixou mais nervosa. Continuei aquela luta perdida, mas como eu queria que ele morresse!

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Não sou perfeito. Sim, eu andei com outras mulheres, sempre andei. Só que ela descobriu. Nossa primeira briga foi horrível. Nosso paraíso estava desmoronando. Ela me batia, me machucava e eu não fiz nada de grave até ela falar que eu não prestava pra nada. Então eu a acertei em cheio.

Eu não queria. Nunca quis ferí-la. Não acreditei no que tinha feito. Tentei tirá-la do chão, mas isso só a enfureceu mais. Pareceu que estávamos no mesmo patamar, e precisei me defender.

Quando aquilo acabou, ambos estávamos machucados. Eu sangrava, ela sangrava. Ela simplesmente foi para o quarto, trancou a porta. Eu fiquei parado, vendo o sangue no meu corpo. Não sabia onde o meu acabava e se misturava com o dela.

Fui comprar uns curativos, mas não consegui colocar nenhum deles em mim. Sentei e chorei.

Sabe o que é amar alguém tanto que você não consegue respirar? A primeira vez que senti ela se afastar, que foi na nossa primeira briga, me faltou ar. Bati, sim, mas era mais uma luta interna. Não queria perdê-la, de jeito nenhum.

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Canalha, como eu odeio! Como eu tive coragem de vir morar com ele? Não importa, eu não outro lugar para ir.

Foi isso que pensei enquanto fazia os curativos, o que, por sinal, não estava dando certo por causa das minhas lágrimas. Quando olhei no relógio, eram 5 da manhã. Liguei para uma amiga do trabalho, falei que estava doente, ou algo do gênero.

E abri a porta. Ele estava que nem um cachorrinho, esperando a porta abrir e a dona aparecer. E quando ele virou o rosto para mim, vi que tinha chorado, e que estava sem curativos. Peguei o kit primeiros-socorros e apliquei os cuidados que ele precisava. Durante todo o processo, ficamos em silêncio.

Quando terminei, nos encaramos longamente. E nos beijamos. E nos abraçamos. Tiramos nossas roupas ensanguentadas. E transamos ali, no chão mesmo. E dormimos abraçados, como na nossa primeira noite.

Mas nada seria como antes. As brigas continuaram, todos os dias. Violentas, rudes, sangrentas. Seguidas de silêncio de horas, para acabar com gestos de amor e carinhos.

As pessoas achavam estranho meus hematomas. Mas e daí?

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Era impossível viver assim. Brigávamos por qualquer coisa, qualquer coisa mesmo. De manhã até de noite. E faziamos as pazes de madrugada.

O engraçado é que sempre pensei que mulheres que apanham uma vez vivem com medo. Ela não. Ela não tinha medo de me enfrentar. Sempre foi pra cima com tudo. E eu sempre acabava machucado. Tanto quanto ela.

Até o momento que ela quis me deixar.

Simplesmente fez as malas e foi saindo. Perguntei onde ela ia. Recebi como resposta um simples

— Estou te deixando.

Não me aguentei. A agarrei pelo braço e joguei as bolsas para longe. E lá fomos nós de novo. Entretanto, eu não queria mais brigar. Não queria mais machucá-la. Eu quebrei a parede e paramos por um tempo. Ela segurou ternamente o rosto e olhou fundo nos meus olhos.

— Vamos acabar com isso. Te amo demais.

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-Vamos acabar com isso. Te amo demais.

Não queria mais viver se não fosse com ele. Minha mãe disse que se eu não aparecesse em casa até às 8, ela chamaria a polícia. Meu amor já foi preso uma vez por bater num cara. Eles iriam tirá-lo de mim. Eu não suportaria.

Ele respondeu a todas minhas perguntas do que fazer com um choroso

— Eu te amo. Tô com você, sempre

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— Eu te amo. Tô com você, sempre

Então quebramos todas as garrafas de vinho, latas de cerveja, e espalhamos álcool pela casa inteira. Casa de madeira.

— Te amo e não me arrependo de nenhum momento que passei com você. E você?

Quando falei isso segurava um fósforo aceso e ela outro. Estávamos sentados, um de frente para o outro, no chão da sala encharcada.

— Também não me arrependo. Apenas me beije e vamos juntos para o Inferno.

E queimamos. Nos beijando. Nos amando. Nos maltratando. Como sempre foi.

Notas finais
Sou um mosntro e tenho fome de reviews. Alimente-me. Rawr.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!