Vozes nas sombras
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O sol se pôs rapidamente, cobrindo a floresta com as sombras da noite. A temperatura caiu e o vento soprou impiedoso sobre a grama alta, trazendo os sussurros. Vozes que suspiravam junto das árvores, constantes, como uma prece. Uma voz e, então várias delas, que entoavam as palavras da mesma forma rítmica e aliterada. E quando os primeiros raios de sol surgiam, atravessando as copas das árvores que cobriam o céu e banhando os troncos retorcidos, os sussurros cessavam.
Tinha sido assim nas últimas seis noites e quando as vozes começavam, os Cubones se abrigavam em suas tocas. Um pedido para uma bruxa, explicou o velho Marowak para o grupo de jovens Cubone.
Para Koyuki, o pequeno Cubone, os sussurros eram aterrorizantes, e como os outros, ele tinha se acovardado e escondido. Mas prestando atenção a eles, as vozes soavam familiares. E quando tentou dizer isso ao velho Marowak, foi ignorado, como sempre acontecia.
Os sussurros estavam marcados em suas lembranças, repetindo o nome Kyouki incessantemente, nome que o pequeno Cubone sabia ser o seu. Sussurros que ele deveria seguir. Por isso, naquela noite, a sétima noite, ele não se escondeu como os outros, mas seguiu os sons que atravessavam a floresta.
Vagou até chegar a uma clareira e se escondeu na relva. Havia um cheiro oleoso e tostado. Um rio branco endurecido. Parafina escorrida e solidificada no meio da folhagem. As chamas acesas das velas ofuscavam a pouca claridade do luar. Havia três mulheres na clareira.
Uma delas se destacava, ela era alta e de tez escura, os olhos eram brancos e estava completamente vestida de preto. Exibia vários adereços feitos de ossos. O que a destacava era a maneira como fazia sua prece. Sua voz soava como muitas e mesmo que as outras mulheres a seguissem, sua voz nunca era eclipsada. Ela era a dono dos sussurros familiares.
— Essa é a noite da bruxa, faça seu pedido, disse a mulher de amarelo. A outra, de vestes simples, uniu as mão e fechou os olhos.
Um pedido para a bruxa, e Koyuki pensou na mãe.
Koyuki era menor que qualquer Cubone, mais pálido, magro e acinzentado que qualquer outro Cubone, mas como todos os outros Cubone, ele não tinha mãe. Não se lembrava de traço algum, não sabia seu nome, ou carregava seu crânio, como os outros Cubones. Mas sabia que ela tinha morrido, como todas as mamães Marowak, como uma maldição.
Foi um ano difícil aquele, sozinho na floresta, aprendendo por si mesmo. Os outros Cubones não gostavam dele, e não o aceitaram no bando. O velho Marowak não se importava com seu destino. Ter a mãe de volta, mesmo que por um momento, seria o momento mais feliz de sua vida.
Desejou e esperou, esperou que a bruxa viesse buscar seu pedido.
A noite avançou, as velas se apagaram e o vento se tornou mais violento e frio. Os sussurros continuavam; Hana era umas das poucas palavras que Koyuki conseguia entender, mesmo que não soubesse seu significado.
Um homem surgiu na clareira, arrastando um saco de pano. A mulher negra retirou dois objetos do saco. O primeiro era um pequeno Cubone, recém-nascido, que se debatia e guinchava. Uma faca de osso foi apontada para o peito minúsculo.
— Eu não tenho certeza sobre isso, disse a mulher de roupas simples.
— Não é algo que você possa voltar atrás agora, um ritual de Halloween não pode ser desfeito, respondeu a mulher de amarelo.
A mulher imponente continuava os sussurros, num misto de prece e cântico. Ignorando os receios, ela atravessou o peito do Pokémon, banhando-se com o sangue.
Kyouki estava imóvel. As vozes familiares o atraíram para aquela cena. Por quê?
O outro objeto era Marowak, uma fêmea, imóvel como se estivesse morta. Com a faca de osso,a cabeça foi cortada na altura da boca, separando o crânio. O sangue escorreu sobre a folhagem. A mulher permaneceu um longo tempo no cântico/prece, enquanto limpava a cabeça, removendo os órgãos e raspando a pele, até que restar apenas os ossos.
O homem recolheu os corpos dos Pokémon e as velas, e os enfiou de volta no saco. Sumiu antes que Koyuki pudesse notar.
A mulher atou uma corda no crânio e entregou a mulher.
— Use como um amuleto para o seu desejo, a mulher de amarelo puxou gola da blusa e mostrou seu colar feito com o crânio de um Marowak.
— Isso vai mesmo ajudar?
— Mesmo casado com outra mulher, meu Kyouki voltou para mim. Tenho certeza que o ritual fará sua amada Hana voltar para os seus braços, confirmou confiante.
Você é minha mãe, as palavras surgiram ao seu lado do Cubone na relva.
Era um Cubone menor que qualquer Cubone, exatamente como Koyuki; pálido, magro e acinzentado, exatamente como Koyuki. Ele não tinha o crânio na cabeça, exatamente como Koyuki. Mas como todos os outros Cubone, ele não tinha mãe.
Meu nome é Hana! O pequeno Cubone disse com convicção.
O sol surgiu no horizonte e os sussurros pararam.
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