Vozes da Eternidade
4 Flores azuis
Notas iniciais
Se a situação não fosse trágica, seria cômica. Ou ao contrário, como desejar.
Ettore estava com uma garrafa de vodca nas mãos e caminhava um pouco tonto. Se não analisassem com calma, não pareceria bêbado, exceto pelas idiotices que estava dizendo (e fazendo) sem parar. Camus apenas se afundou no sofá enquanto se questionava como havia deixado as coisas chegarem àquele ponto. Estavam na casa de Shura, todos jogados nos sofás e no carpete falando sobre banalidades e idiotices costumeiras de um grupo de caras jovens e bêbados.
— Ele é irresistível — Kanon apontou para o irmão gêmeo —, vocês não sabem o quanto — e, então, riu. — Se eu fosse uma garota, namoraria ele só pra me ter como cunhado — gargalhou e Saga o encarou, sorria.
— Não esqueça do fato: eu sou mais velho e mais bonito — o mais velho gabou-se e recebeu, de seu gêmeo, um tapa na cabeça.
— Eu te namoraria porque você é parecido comigo, mas eu sou o mais bonito de nós dois. Se eu fosse gay e tivesse algum tipo de complexo, xerox, eu já teria te jogado na parede e te chamado de meu amor. Além de que... eu sou mais seduzente!
— Vocês dois me dão nojo — Aioria zombou, jogando-se ao lado de Camus no sofá. – Ô bonitão, não bebeu nada e tá com cara de bunda aí... Já pensou em molhar o bico um pouco?
— Não gosto de beber — respondera observando Saga e Kanon quase se batendo. Se questionou, mentalmente, se eles não se agarrariam ali mesmo. No sentido concupiscente, claro.
— Escuta — Shura largou a garrafa de vodca, que já trocara mil vezes de mãos, sobre a mesinha de centro —, acho que o Mu e o Shaka estão tendo um caso.
— Caralho, eu saio por um tempo e quando volto o cara mais santo do mundo decide queimar a rosca? — Milo se exasperou.
E então aquilo havia virado uma grande lavação de roupas sujas. Estavam falando de qual dos dois era ativo ou passivo... Mal sabiam que Mu era a pessoa mais centrada e hétero que alguém poderia conhecer. Até Camus pensara uma ou outra vez em como seria beijar outro rapaz, mas Mu? Nem sonhando, pedindo e implorando. Já Shaka jamais estragaria a amizade de anos em busca de algo mais, mesmo que por um milagre do destino decidisse que é gay.
— Alguém gosta de vinho? — Afrodite surgiu em meio a eles com uma garrafa do líquido rubro e o francês sentiu-se animar um pouco, mas jamais abriria a boca em frente aos amigos bêbados e desejando lhe embebedar. — Alguém fora o Camus? — e então pensou que era uma perfeita merda que Afrodite fosse seu vizinho e amigo e, por consequência, soubesse de seu gosto por vinho.
Quando viu, estava com uma taça na mão. Quis sorrir, vinho era a melhor coisa do mundo. E não considerava vinho como algo alcoólico, tamanho gosto doce que sentia ao tomar.
Provou e então estremeceu lenta e suavemente, sem perceber estar sob o atento olhar de Milo, que sorria levemente, de canto, encantado.
Vozes da Eternidade
O silêncio começava a pesar e o arietino estava completamente sem reação e sem resposta. Se sentia como se algo tivesse passado por si e não tivesse acompanhado o raciocínio daquilo, perdendo-se no meio. Shaka ainda esperava uma resposta ou uma reação, qualquer coisa que fosse, mas apenas conseguira ganhar o olhar arregalado e abismado sobre si, uma expressão de puro assombro e até um pouco de receio.
— Você não... — fora pego de total surpresa, assim perdendo a fala ao tentar formular uma frase coerente o suficiente para responder. — Não está falando nada... Nada... Lógico!
— Por que tamanha comoção? É um simples beijo – o indiano o encarou um pouco ofendido —, não sua alma.
Certo. Aparentemente o virginiano estava bêbado, mas ainda assim era o virginiano melhor amigo do rapaz dos cabelos lilases ali em sua frente, pedindo-lhe um beijo de forma tão eloquente que podia até pensar que aquele era um desejo há muito premeditado. A forma como Mu reagira deixava tudo mais constrangedor, mas o encarar até duro de Shaka era pesado.
— Shaka, nós... – voltou a pensar no que dizer. — Nós somos melhores amigos há anos e eu... Eu não... Sabe? Não dá.
— Acho que seria mais esperado de mim essa preocupação com a nossa amizade, Mu — levantou-se, ainda um pouco tonto, mas capaz de se manter de pé enquanto estivesse parado. Se pudesse, iria embora, e o faria, mas não conseguiu passar do marco da porta. Iria embora de qualquer jeito.
— Eu não posso — por fim, disse. — Simplesmente não dá.
— Então tenha uma boa noite — desejou, olhando o próprio corpo dormente pela bebida, planejando mentalmente o percurso que faria em direção à própria casa.
Mu demorou a responder, abaixando seu olhar para o piso de madeira, pensativo. Desde quando seu melhor amigo tinha ideias como aquela? E como não percebera se dizia conhecê-lo tão bem? Se pudesse dizer algo, diria que sua cabeça estava um turbilhão. Não obstante em não conseguir assimilar nada, ainda se questionava tantas coisas...
— Estou indo — o louro avisou e então recebeu um olhar do outro.
— Eu quero que fique — Áries respondeu. — Apenas me pergunto o motivo do seu pedido.
— Não há motivo — foi direto, como sempre, e imprevisível – Simplesmente quis. Algo errado com isso?
— Jamais — encerrou. Refletia sobre as surpresas que um virginiano bêbado poderia guardar.
— E, mesmo, agora não quero mais — disse com o orgulho ferido, embora sua voz mantivesse o mesmo tom sério e indelével. — Pelo visto você não vai se despedir.
Tudo o que Mu pôde fazer fora observar Shaka levantar-se, ainda cambaleante, mas visivelmente melhor do que antes e calçar seus sapatos que ficaram jogados em qualquer lugar, guiando-se para a saída e batendo a porta sem muita força. E, sinceramente, esperava que amanhã ele não lembrasse disso. Esperava, também, que ele conseguisse chegar em casa são e salvo, porque não conseguia forçar-se a ir com ele.
Na verdade, não conseguia forçar-se a nada naquele momento, ainda exasperado demais. E então a ficha lhe caiu: seu melhor amigo, bêbado, saiu sozinho pelas ruas da Grécia, de madrugada, a Deus-dará, sem nenhum tipo de companhia. Levantou-se num instante e pôs-se a correr atrás do louro, as luzes que formavam um borrão ao seu redor não pareciam em nada com o cenário ao qual já estava habituado. Por fim, encontrou Shaka não muito distante dali, com uma expressão puramente destoante em seu semblante sempre sério.
Ambos não puxaram assunto, caminhando lado a lado. Apenas o som de seus sapatos contra o concreto da calçada e um clima tenso entre eles, avisando que aquilo não seria esquecido mesmo com as preces de Mu. Avisando que provavelmente a amizade deles não seria mais a mesma depois daquela noite.
Quando Shaka acordou, estava com gosto de defunto na boca. Sua cabeça rodava, não sabia o próprio nome e nem fazia ideia de que dia era. Tateou com as mãos dormentes o próprio corpo numa tentativa falha de saber se estava tudo bem com o seu físico, mas estava com tanta falta de sensibilidade que até pareceu que tinha alguma lesão nas vértebras.
E então veio a dor de cabeça. Preferia ter ficado sem saber de nada. E nem sequer havia aberto seus olhos, então imagine se houvesse o feito. O som dos pássaros lá fora lhe davam a vontade quase irremediável de cometer um homicídio. Se pudesse, abriria as janelas, olharia pro sol e diria “mas que belo dia para um suicídio”.
Respirou fundo tentando raciocinar algo que não “O que foi que eu fiz?!”, e então se moveu devagar, percebendo estar na cama. Abriu seus olhos lentamente, embaçados e ardendo, coçando, e a primeira coisa que viu fora longos cabelos lilases. Arregalou o os olhos. De onde diabos havia saído aquele cabelo lilás?! Estava sendo atacado por um monstro de pelos lilases e ninguém avisou?!
Cabelos lilases... Mu. Franziu o cenho automaticamente se perguntando se a lembrança que tinha era apenas um sonho ou realidade. Rezou para que fosse um mero sonho e que não tivesse feito o grandioso favor de levar um fora do melhor amigo. Ergueu o olhar e viu que, muito longe de si na cama de casal, Mu dormia de forma angelical, encolhido, como se com medo. Espera... Estava com dor de cabeça, não sabia que dia era, Mu dormia ao seu lado. Quanto mesmo havia bebido? Ou melhor: para Mu estar ao seu lado... Deus bebeu tequila?
Após um longo “loading” (que, diga-se de passagem, travou várias vezes) de informações, começou a se levantar, ciente de que seus pés estavam formigando e sua cabeça latejava monstruosamente. Sentia-se enjoado, como se houvesse passado a madrugada passada numa luta de WWE e ainda repetido a dose de manhã. Até podia ouvir o rock pesado tocando ao longe e a entrada de Edge com seus cabelos bizarramente amarelados como “descolori-e-não-tirei-o-amarelo-ovo” e sorriso maníaco. Ouviu seus próprios ossos quebrando ao longe e fez uma careta, já na porta do próprio quarto. Ah, eram só suas juntas reclamando por dormir de mau jeito.
Ia tomar um longo banho, uma caixa de aspirinas e enfiar sua cabeça no jardim e esperar que, dela, brotassem flores azuis.
Vozes da Eternidade
Bocejou. E bocejou de novo. Odiava não dormir direito. E filha da puta fosse aquele que percebesse seu mau humor, pois este pioraria de forma drástica.
Estava sentado no sofá da sala, entupindo a própria boca com balas mastigáveis dos mais variáveis sabores, evitando as de framboesa, deixando-as no fundo do pote de vidro que descansava em seu colo. Estava com seus cabelos ruivos presos descuidadamente numa espécie de coque que na verdade não era exatamente isso. Era para ser, mas no final foi apenas o que a limitadíssima paciência do aquariano lhe permitiu fazer.
Do outro lado da parede podia ouvir o som da maldita música pop que tocava no apartamento do vizinho.
“Maldito seja o lixo que chamam de musical atual” — reclamou mentalmente, enfiando mais uma bala na boca, mastigando-a, possesso. Afrodite era seu vizinho. E estava contando os segundos para ir até o (filho de uma biscoiteira) vizinho para mandar-lhe enfiar Madonna em seu orifício anal e, também, devolver o presente grego que ele havia deixado em sua casa. Presente este que dormia como pedra no quarto de hóspedes ainda de calças jeans, os sapatos jogados em qualquer canto — por sorte não pendurados no lustre — e camisa polo. Presente grego de longos cabelos louros e cacheados, sorrisinho petulante e voz cheia de zombaria. Presentinho este que Camus queria atear fogo sem nem mesmo saber o motivo.
— Santo seja você, maldito Afrodite — murmurou sozinho, ainda sentado no sofá, mentalmente estrangulando o pisciano. — Espero que morra engasgado com a própria saliva. Com o pênis do seu namorado necrófilo sociopata maluco na sua garganta. Morra no banho para que todos te vejam nu. Sofra com hemorroidas. Maldito seja — verdade dizer que Camus ficava um pouquinho, se não muito, infantil e odioso quando sentia real raiva de algo. Sua raiva era por seu vizinho prostituto e desalmado ter largado aquela maldição de cachos louros em sua casa e saído à francesa para fazer qualquer coisa. Camus que se fodesse com Milo. E a raiva piorava consideravelmente por não se lembrar de Milo. E agravava mais por odiá-lo mortalmente sem sentido algum. E não havia dormido bem por ter amanhecido com seus amigos bêbados.
"I´m up against the speaker, tryin´ to take on the music. It´s like a competition, me against the beat." — repetiu mentalmente batucando com seus dedos na própria coxa e quis se jogar da janela. Maldita música chiclete.
Levantou-se e foi para a cozinha, largando o vidro de balas em cima do balcão de mármore, bufando em seguida. Abriu os armários procurando algo doce para comer enquanto murmurava qualquer coisa sem sentido e sem nexo.
— Não sabia que você falava sozinho — ouviu-se a voz embargada e rouca vinda da porta da cozinha e Camus quase pulou no lustre da cozinha, tamanho seu susto.
“Ao menos agora sei que não tenho problemas cardíacos e muito menos de incontinência” — pensou num segundo.
— Hm — respondeu. — Não falo sozinho — “pois se falasse sozinho estaria xingando a décima geração da sua família”.
— Não é o que parece — Milo riu e andou até a mesa, sentando-se numa cadeira qualquer. Camus observou a movimentação com o canto dos olhos, admirado pela desenvoltura que o filho de uma santa mãe tinha num lugar onde jamais havia estado e ainda a cara de pau.
— Hm — soltou novamente ainda revirando os armários em busca de qualquer doce.
— Você está de mau humor? — e então o botão vermelho foi acionado. Ao longe se podiam ouvir as sirenes de emergência soando. O ruivo virou seu rosto seriamente para o visitante o encarando no fundo dos olhos com absurda psicopatia no olhar, como se em seus olhos pudesse ser refletida a cena de tortura que faria com Milo em poucos instantes.
— Não — disse endireitando sua postura, ainda o encarando seriamente. Sua expressão permanecia com a mesma frieza, mas seu olhar dizia exatamente o que queria fazer: mata-lo. — Estou como sempre estive — e aquele olhar permanecia sobre si.
Milo suou frio.
Enquanto isso...
— All my people on the floor... — Afrodite andava de um lado para o outro do apartamento ajeitando cada pequeno detalhe. Jeans absurdamente justos e uma camisa de tecido fino. — Let me see you dance! — cantava e quase dançava pelos cômodos. Seus movimentos eram ritmados, suaves, parecia flutuar no ar. — Let me see ya.
Já havia chutado Ettore de sua cola ainda na noite anterior. Odiava arrumar sua casa, frisando sua, com alguém nela que não a si mesmo. Sozinho podia ouvir a música que bem entendesse, no volume que bem desejasse, e não havia ninguém para lhe atrapalhar a arrumação. Se havia algo que o pisciano era, era organizado. E duplamente perfeccionista.
Enquanto a maioria das pessoas morria depois de uma bebedeira, Afrodite acordava cedo, tomava banho e vestia-se. Ajeitava sua casa e tentava cozinhar. Mas a única verdade era que seus dotes culinários eram uma desgraça. Por isso quase sempre almoçava no vizinho, apesar de Camus não parecer gostar muito. Peixes sabia que, bem lá no fundo, seu amigo ruivinho tinha afeição por si... Se não nem ao menos abriria a porta, não? E, também, gostava da presença silenciosa e marcante do aquariano. Quem mais podia ser assim se não ele?
Sorriu com o próprio pensamento, imaginando se Camus já havia terminado de cozinhar.
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