Vozes
3 Cap 3: Monstros e Demônios (parte 2)
Notas iniciais
Kagura olhava ao seu redor, o céu claro com nuvens fofinhas que mais pareciam algodão doce, ela estava pisando sobre água, mas não afundava e a sensação de paz que aquele local a trazia era algo que ela gostaria de sentir o tempo todo.
A Yato passou a andar por aquele local infinito, ela saltitava e rodopiava, e por alguma razão, o sol não a enfraquecia então em algum momento seu guarda chuva caiu esquecido em algum lugar daquele mundo.
Foi então que ela deparou-se com um espelho. Um espelho de corpo inteiro com bordas douradas e que refletia a imagem de quando tinha 14 anos, que lhe sorria.
—Mas o que!-exclamou Kagura indignada enquanto passava a mão por seu corpo e percebendo que realmente havia voltado a ter seu corpo de 14 anos-Onde estão os meus seios?!-gritou inconformada.
—Não acha que isso é a última coisa que devia se preocupar?—indagou a imagem do espelho sorrindo de canto, o que acabou por chamar a atenção de Kagura, que esqueceu momentaneamente sobre sua mudança para encarar sua imagem.
—Ei, você se lembra de quando tinha 14 anos? Lembra daquele seu lindo discurso sobre lutar com o coração e não com instintos?—comentou seu reflexo que continuava a sorrir.
—Não era um discurso!-falou Kagura batendo o pé-Era o que eu realmente sentia e é o que ainda sinto!
—Ah...mas não foi o que realmente aconteceu depois...não é mesmo?
A yato engoliu seco e algumas imagens daquela luta em Yoshiwara contra Abuto passaram por sua mente como um flash.
—Você lembra!—exclamou a imagem do espelho alegremente.
—Mas preferia não ter tais memórias...-murmurou Kagura olhando para o chão de água.
De repente o sorriso da imagem desapareceu e quando Kagura voltou a olhar o espelho, ela havia recuperado seu corpo e imagem de 17 anos, entretanto, a mesma refletia sua eu de alguns dias antes, coberta de sangue do inimigo.
—Pare...-falou a garota.
—Por que você me nega? Por que nega ao seu próprio sangue?
—Porque não quero ser como meu irmão! Não quero ser uma máquina de matar! Quero ser a Kagura que descobri que posso ser! Uma simples garota, com um simples trabalho e com simples...bem...nem tão simples amigos!
—Mas você sabe que essa vida simples que tanto almeja não é possível, não sabe? Afinal você é uma yato, e yatos nasceram apenas com um único propósito...o de matar...
—Não...eu sei que pode ser diferente...Gin-chan e Shinpachi...todas as pessoas em Kabukichou me mostraram isso!
—Não! Você não sabe!—gritou a imagem de Kagura.
O cenário pacifico de até então tornou-se completamente vermelho, a água cristalina em que a Yato pisava agora parecia sangue e o espelho havia sumido, mas a voz similar a sua ecoava pelo lugar.
—Eu sou seu sangue! Sei o quanto desejo lutar e sei o quanto de sangue quero derramar!
Mãos saíram da água cor de sangue e agarraram as pernas da ruiva que tentava a todo custo de soltar.
—Um dia, ninguém estará mais ao seu lado, e eu, seu sangue serei o único a aceitá-la pelo o que você realmente é Kagura...uma yato.
Ela gritava xingamentos contra aquela besta que a essa altura gargalhava do desespero de Kagura, e quando a garota achou que ela seria puxada totalmente para de baixo daquele mar de sangue...seus olhos se abriram.
Seus olhos azuis se abriram para encontrar a cena de Shinpachi colocando o almoço na mesa, enquanto Gintoki lia sua revista da JUMP e Sadaharu o mordia na cabeça.
—Você acordou Kagura-chan.-sorriu Shinpachi-O almoço está pronto.
—Agora que você acordou Kagura...-iniciou Gintoki antes de jogar sua JUMP em algum canto do cômodo-...Manda esse seu cachorro gigante soltar a minha cabeça!!!!
Kagura levantou-se do colo do seu pai da Terra lentamente e então começou a rir, enquanto ao mesmo tempo lágrimas rolavam por seus olhos, o que fizeram com que todos presentes naquela sala a encarassem preocupados.
—Kagura...?
—Kagura-chan...?
A ruiva levou suas mãos aos olhos na tentativa de fazer com que as lágrimas secassem, mas sem sucesso, ela continuou rindo e chorando ao mesmo tempo, fazendo com que sua família da Terra a encarassem com expressões preocupadas estampadas em seus rostos.
—Kagura? O que foi?-perguntou Gintoki balançando os ombros da adolescente-Algum lugar está doendo? Já sei! É cólica menstrual né?
—Do que você está falando seu imbecil?!-gritou Shipachi batendo na cabeça prateada do mais velho com o punho fechado-Como você chegou à uma resposta dessas?!
Gintoki se virou para encarar o mais sério dos três...quatro contando Sadaharu, um olhar indignado estampado em seu rosto por ter sido agredido.
—Não é óbvio?!-gritou o Sakata apontando um dedo em direção da amanto que considerava sua filha-Mulheres com variações de humor drásticas só podem estar de TPM! Mas não é como se um suporte de óculos virgem como você fosse entender o mundo feminino!-continuou, só que dessa vez apontando seu dedo na cara do Shimura-Alguém como você ainda deve estar na fase de acreditar que são as cegonhas que trazem os bebês para o casal apaixonado, ou que o papai da uma sementinha pra mamãe, e que essa sementinha vai crescer na barriga da mamãe e vai gerar um bebê! Ou qualquer baboseira dessas!
—Quantos anos você acha que eu tenho para acreditar nessas besteiras, seu idiota!-gritou Shinpachi.
Os dois mais velhos começaram a discutir esquecendo-se totalmente de Kagura que era confortada por Sadaharu, a mesma continuava a rir e a chorar, mas ver aquela cena se desenrolar era algo que lhe trazia paz.
“-Um dia, ninguém estará mais ao seu lado...”
Seu sangue, seu monstro interno estava errado. Gintoki, Shinpachi e Sadaharu estariam sempre ao seu lado, sempre estiveram ao seu lado quando ela mais precisou.
“...e eu, seu sangue serei o único a aceitá-la pelo o que você realmente é Kagura...uma yato.”
O único a aceitá-la?
Kagura continuou a rir e abraçou seu enorme cão com um pouco mais de força. Como seu sangue seria o único a aceitá-la se todos que a conheciam sabiam que ela era uma yato, e ainda assim a tratavam como uma pessoa qualquer?
Ela já havia sido aceita há muito tempo.
Ela não era uma yato.
Ela era apenas Kagura.
A Kagura nascida na Terra.
Seu demônio interno não a conhecia.
—Eu não disse que era TPM, Patsuan?!-gritou Gintoki, tirando a ruiva de seus pensamentos-Agora ela não esta mais chorando, esta só sorrindo, não está mais rindo e chorando!
—Gin-san, você é um idiota! Nem tudo se limita a TPM!!!
Os olhos de garota ganharam um brilho de determinação enquanto observava sua família da Terra continuar a discussão sobre seu período menstrual, ela acariciou a cabeça de Sadaharu que grunhiu alegre com a caricia, Kagura estava determinada a fazer com que esses momentos divertidos com àqueles que amava durassem.
E para isso, ela sabia que precisaria derrotar o demônio que vivia dentro dela.
—É só perguntar pra ela!!!-exclamou o chefe do Yorozuya-Você está de TPM, não está, Kagura?!
Shinpachi apenas suspirou e levou as mãos ao rosto não sabendo mais o que discutir com o grisalho.
Kagura por sua vez sentiu uma veia saltar em sua testa, quanto tempo seu pai adotivo idiota pretendia continuar discutindo o tópico sobre a influência da mãe natureza no seu organismo?
—Kagura?! Sim ou não?-insistiu o samurai.
A garota apenas encarou Gintoki antes de avançar contra ele e lhe desferir um soco que fez o mais velho voar até o outro cômodo.
—Gin-san!!!!
Bem...mas antes de encarar meus demônios, acho que tenho que dar um jeito nessa minha família de idiotas.
Continua...
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