Voz
6 Capítulo 5: Voz
Notas iniciais
Maybe there's a way out
Of the cage where you live
Maybe one of these days
You can let the light in
Quando eu tinha nove anos, meu pai costumava passar os dias de folga dele em casa, conosco. Enquanto mamãe me ensinava a regar e a cavar, papai mostrava a Janna como segurar um pincel e mergulhá-lo na tinta. A casa cheirava a tinta e terra. Cheirava a felicidade, também. Papai desenhava flores, e árvores, e pássaros e nuvens por toda a casa. Não nos importávamos. Janna gostava das formas e mamãe gostava das cores. Eu gostava de tê-los ali.
Ele desenhava pássaros nas mãos de nós três. Um pássaro maior para mamãe, dois passarinhos para mim e para minha irmã. Ele nunca desenhava nada em si mesmo.
Meu pai foi o primeiro a me fazer perceber minha própria passividade. Todos os dias, quando voltava do trabalho, ele perguntava quantos amigos eu havia feito. A resposta era sempre a mesma: zero. Ele costumava me lançar olhares de desconforto e voltava a ler o jornal.
Com quatorze anos, tive minha primeira paixão. Ele era um daqueles meninos magrelos do grupo de natação; usava aparelho e óculos de armação azul. Eu o adorava. Quando contei para papai, ele me perguntou quantas vezes o garoto tinha vindo falar comigo. Zero. Papai fingia não ter escutado e voltava para seu jornal.
A tinta foi substituída por gritos e brigas. Papai e mamãe estavam infelizes. Eu me enfiava debaixo do edredom, acompanhada por Janna. Juntas, cantávamos sobre o vento e as estrelas, tentando ignorar a confusão no andar debaixo. Eu esperava seu coração desacelerar e suas lágrimas secarem para poder sair pelos fundos e deitar na grama molhada pelo orvalho. Meus olhos estavam sempre secos.
Papai foi embora quando fiz dezesseis. Ele beijou a testa de Janna e acariciou meus cabelos. Depois, ele se foi. No dia seguinte, mamãe mandou que pintassem as paredes de branco, e o cheiro de tinta durou por mais um tempinho.
Não era mais felicidade.
Era o vazio.
Não sabia dizer quando isso começou a mudar. Sabia que Aaron me dava carona todos os dias depois da aula, e passava no meu jardim para cuidar da gazânia. Sabia que ele almoçava comigo e conversava sobre tudo e nada; sabia que tínhamos nosso próprio mundo. Sabia que ele brincava com minha irmã e sorria para mim e que eu ficava feliz mesmo quando ele ia embora dizendo "tchau, Maionese".
Eu ainda era patética e confusa em todos os sentidos, mas os dias pareciam um pouco melhores dentro das salas de aula. Acostumei-me a sentir a frustração de perceber que eu não sabia mais o que estava acontecendo à minha volta; eu não prestava mais atenção. Por um lado, sentia que eu podia guardar de uma vez por todas minha loucura. Por outro, sentia que eu havia perdido algo, o que me confundia. Ser xereta e solitária era uma parte de mim? E perder isto era ruim? Eu não saberia dizer.
A tranquilidade que Aaron Santoro me trazia durante a tarde era substituída pelo nervosismo que despontava em meu estômago logo no começo da noite. Os jantares em minha casa sempre eram desconfortáveis e terríveis. Mamãe chegava tarde do banco onde trabalhava, mas eram poucas as vezes em que ela perdia um jantar com as filhas. Porém, o que deveria ser uma refeição em família se transformava num desastre completo; ou mergulhávamos num silêncio agonizante, ou éramos submetidas a uma série de perguntas monótonas que não levaria nenhuma de nós a lugar algum. Nossa relação com mamãe fraquejava o tempo todo e eu não sabia como consertá-la. E, pelo visto, ela também não.
Naturalmente, mamãe sentou-se conosco numa noite de quarta-feira para jantar, querendo saber o que havia de novo. O esforço dela era de fato impressionante; sabia que as duas filhas adolescentes não teriam nada de fato interessante a dizer. Eu responderia que não tinha novidade nenhuma — e isso não era surpresa para ninguém -, e Janna passaria a tagarelar sobre as aulas de teatro que fazia. Todas nós sabíamos que minha irmã mais nova queria preencher o silêncio, e éramos gratas a ela. Por isso, eu não tinha expectativa alguma para a tal janta, por mais que mamãe tenha claramente mostrado que queria estar presente, comprando comida chinesa — o tipo de comida favorita da Janna — e elogiando o vaso de lírios que eu colocara na mesa de centro.
Por fim, mergulhamos no silêncio nada agradável que se seguia depois que Janna não tinha mais o que dizer para entreter mamãe — e, eu desconfiava, entreter a si mesma. Eu sabia que era questão de tempo até que minha mãe pousasse os olhos em mim e fosse minha vez de dizer algo minimamente interessante para a conversa.
— Binda, e você? Como estão as aulas?
Mastiguei minha comida lentamente. Empurrei os restos de comida em meu prato com o garfo. Qualquer coisa para ganhar tempo.
— Está tudo bem, mãe. — Pensei em simplesmente sair da mesa e ir deitar na grama do jardim. Levantei os olhos do prato. — Ei, você acha que eu poderia ir para o jar...
— Por que toda essa pressa? Quer se livrar da gente?
Sim.
— Não. É que... eu acabei de comer e hoje é o dia da Janna lavar a louça — resmungos vindo por parte de minha irmã. — E eu tenho que dar uma olhada nas minhas, hã, gazânias.
— Só pensa nas gazânias do namorado dela — Janna comentou.
Senti meu corpo gelar do início das minhas orelhas até a ponta dos pés. Mamãe não fazia ideia da existência de Aaron, e eu não queria que fosse diferente. Ele era meu primeiro amigo em anos. Amigo de verdade. E, por alguma razão, eu não queria contar a ela.
Era como se ele fosse desvanecer a qualquer momento. Como se não fosse real.
— Namorado?
— Não tenho namorado. Vou para o meu quarto agora.
— Janna, o que sua irmã tem contado a você?
Arregalei os olhos para ela, esperando que ficasse quieta — não ficou.
— Ela não precisou contar nada. Ele fica no nosso jardim fazendo fotossíntese todas as tardes.
— Quando foi que você aprendeu a dizer fotossíntese, Janna?
Ela me mostrou a língua.
— Binda, você está trazendo um garoto para a nossa casa?
Estreitei os olhos.
— Mãe, não é nada disso. Nós nos conhecemos há pouco tempo. Ele só vem aqui de vez em quando para ajudar com o jardim. — menti e me levantei da mesa. Mamãe levantou-se junto e segurou meu braço antes que eu saísse da cozinha.
— Janna, vá para o seu quarto. — Virou-se para mim. — Quem é esse menino?
— Ninguém importante.
— Binda, eu já tive 17 anos antes. Você é nova demais.
— Mãe.
— Estou dizendo para seu próprio bem, querida... garotos são destrutivos. Eles nunca ficam. Ele vai te dilacerar. Não quero que passe por isso.
— Mãe — chamei, e ela me encarou em resposta. As palavras estavam em minha garganta, mas eu não sabia como deixá-las sair. Perto dela e de sua loucura tóxica, eu ficava paralisada. — Você está errada.
— Acha que estou errada? Bem, talvez você devesse perguntar ao seu pai a opinião dele sobre isso, mas ele não está aqui, Binda May.
As palavras pairaram no ar por um momento. Eu poderia pegá-las, aninhá-las em meu peito e cultivar a confortável autopiedade em que eu me enrolava e me aquecia.
Não fiz isso. Engoli as palavras que coçavam em minha própria garganta e saí para o jardim.
Só depois de deitada ao lado das gazânias percebi que chorava.
+ + +
— O que você tá fazendo?
Aaron ficou vesgo enquanto apontava o indicador para meu rosto. Eu estava lendo sobre as câmaras de gás durante o Holocausto para o trabalho de História, e o mundo parecia um pouquinho mais cinza depois disso. O garoto com os pés no meu colo, por outro lado, parecia muito entretido em traçar círculos e retas no ar com o dedo em minha direção.
— Estou te desenhando.
Por um momento, as luzes da biblioteca tornaram-se mais claras e eu me tornei muito consciente do sangue que corria por minhas veias. Parecia rápido. Rápido. Rápido.
Observei seu dedo e seu punho e seu braço e todo o seu corpo se curvarem em minha direção. Seus dedos contornaram o ar e acariciaram meu rosto sem tocar. Seus olhos pareceram encontrar cada pedaço de pele em meu rosto, e ligaram-nos ao desenho imaginário. Assisti a seu indicador fazer a curva de minhas sobrancelhas e traçar meus cílios ralos. Era quase como se eu pudesse ver o que ele estava fazendo criando forma, expandindo-se em cores e de repente eu quis ser desenhada por ele a tarde toda.
E acabou.
Ele passou mais um tempo me olhando.
— Como ficou? — minha voz saiu rouca. Tentei não corar, pigarreando. — O desenho. Como ficou?
Ele continuou me olhando nos olhos até que eu tivesse certeza de que morreria por prender a respiração por tanto tempo e por respirar tão fundo a ponto de deixar meu peito dolorido. E então, ele voltou a ser Aaron-amigo. Sorriu ligeiramente.
— Não é como se eu fosse um bom desenhista. Mas você é uma ótima modelo, Binda. Agora seu desenho vai estar aqui pra sempre. — Ele tocou a própria têmpora com a ponta do dedo direito e piscou.
Apoiei a palma de minhas mãos nas minhas bochechas, sentindo-as quentes sob meus dedos. Contei até três até me levantar da nossa — nossa — mesa da biblioteca e murmurar que precisava ir ao banheiro.
Cambaleei pelos corredores ainda entorpecida, mas a fantasia se estilhaçou assim que trombei com Anna Taylor. Voltei ao mundo real quando ela me olhou com olhos enfurecidos e me mandou olhar para onde eu andava. Abafou um soluço choroso na manga do casaco.
De certo modo, eu já sabia quem estava dentro do banheiro.
— A Anna acha que engana alguém. Muito fácil pesar 40 quilos vomitando tudo. — Kylie Johak comentou em frente ao espelho enquanto retocava o rímel. Ela falava com naturalidade, como se o assunto fosse o tempo.
— Ela é tão desengonçada. Parece que não tem controle sobre aquelas pernas finas. — Esta era Sofia. Ela também não parecia dar a mínima para o impacto que suas palavras traziam.
— Miseráveis do Ensino Médio.
A gargalhada de Sofia ecoou pelos azulejos do banheiro, enquanto eu estremeci.
— Nós podíamos fazer uma lista. Anna Taylor, a louca; Dylan Hier, o repetente; Luna Risson, a rodada; Aaron Santoro, o drogado...
Elas continuariam a lista, eu sabia disso. E também sabia que provavelmente não haveria chance de eu estar lá, porque elas ao menos se davam ao trabalho de notar a minha existência. Eu, a garota que estava na metade das turmas delas desde que tínhamos cinco anos. Quem era essa garota, de qualquer jeito? Completamente irrelevante.
— Vocês estão erradas.
A voz saiu de minha garganta e escapou numa rouquidão aflitiva e horrível, e por um momento tudo pareceu feito de gelatina. Elas eram turvas e moles e firmes e oscilavam sob meu olhar. Sofia levantou as sobrancelhas preenchidas perfeitamente.
— Quem é você mesmo?
O sangue ferveu, acho que foi isso. Eu não saberia dizer, porque minha vida sempre foi uma sequência de eventos dormentes e sensações opacas. Sentir esse ardor correndo por minhas veias foi, de certa forma, dolorido e libertador ao mesmo tempo. Tinha certeza de que elas me machucariam de todos os modos possíveis, e que talvez alguns holofotes virassem sobre minha cabeça.
Porém, percebi, nada era pior do que o silêncio. A indiferença dessas pessoas.
Algo em mim ficava gritando e se debatendo, porque queria sair. Eu queria ser reconhecida, eu queria ser notada, eu queria ser amada, eu queria gritar e gritar e gritar e todos iam me ouvir.
— Acho que você sabe quem eu sou, Sofia. Nós dividíamos os nossos lanches antes do seu pai ser promovido no trabalho e te comprar todas as bonecas que você queria. Você sabe que eu vi a sua troca furtiva de provas na aula de Física, porque só assim você conseguiria passar com um boletim perfeito. Nós estivemos em todos os cenários juntas, mas você só foi hipócrita e nojenta o suficiente para fingir que eu era uma desconhecida. E você, Kylie, subornou o professor para ele manter silêncio sobre as suas sessões de pegação com a menina do 2º ano — Ela ofegou. — Você me viu naquele dia, mas me olhou como se eu fosse estúpida demais para entender. Vocês acham que sabem alguma coisa sobre alguém, mas tudo o que fazem é falar e falar e falar sobre assuntos que vocês não tem ideia se são verdade ou não, porque nada verdadeiro vai conseguir preencher a vida de vocês, é isso? Eu nunca disse nada porque não preciso, mas eu presenciei, senti e ouvi tanta coisa. Vocês não sabem nada sobre Aaron Santoro, ou sobre Anna Taylor e, aliás, sobre ninguém.
Elas me encararam, perplexas. Silêncio. Algumas garotas estavam em volta, tentando escutar a conversa da melhor forma possível.
E aconteceu.
Sofia sorriu. Aquele sorriso brilhante, simpático e adorável. Era como se eu fosse o Leonardo Di Caprio e estivesse tentando me impressionar.
— Jura? Você não quer sair com a gente mais tarde, pra nos atualizar sobre tudo?
Kylie olhou para a melhor amiga rapidamente, e depois concordou, pigarreando:
— Ia ser demais! Será que você não tem uns vídeos das pessoas? Sabe, tipo o Jesse traindo a Mimi atrás das arquibancadas... eu sempre quis saber se era verdade! Que tipo de droga o Aaron usa?
Fiquei tonta. Intoxicada. Virei-me para o espelho, e vi todos os olhos sobre mim.
— Você sabe se a Ursula foi mesmo presa? Tenho certeza de que ela é cleptomaníaca, roubou a minha pulseira...
— Conta, o Patrick enviou aquelas fotos da Laura, não foi? Os dois são pervertidos demais. Agora, tadinha, ela nem sai de casa de vergonha...
Será que eu era completamente invisível até quando tinha a atenção de todos? Cobri os olhos com as mãos.
— Vocês são todas egoístas. Egocentradas. Hipócritas. — sussurrei, mas era difícil que alguém ouvisse. O ego adolescente era ensurdecedor.
Empurrei todas aquelas garotas, e corri. Corri pelos corredores, trombei com o zelador e talvez com Nicholas. Eu não estava mais prestando atenção. Atingi o asfalto do estacionamento e tentei controlar minha respiração. O ônibus não passaria tão cedo; eu era praticamente uma matadora de aula. Então eu andei o trajeto todo, tentando não pensar em nada além do cheiro de terra.
+ + +
O som do meu celular me despertou. Procurei-o em meio aos lençóis, ainda sonolenta. Encarei a tela. Passava das duas da tarde. 15 ligações perdidas. Quatro de mamãe, uma de Janna, e nove de Aaron.
Suspirei enquanto deslizava a tela para responder minha mãe.
— Onde você está, Binda May?
Ela estava irritada. Tentei disfarçar a voz embargada de sono.
— Em casa, mãe.
— Posso saber por quê? A coordenadora me ligou em desespero dizendo que você tinha comparecido a metade das aulas, e depois desaparecido. Queria ligar para seu pai. Olha o que você me faz fazer, Binda.
— Meu pai nunca teria a menor influência se eu resolvesse fugir do mapa, mãe.
— Não mude de assunto. Por que você saiu da escola?
— Estou passando mal.
— Você por acaso está com o seu namorado?
Desliguei. As memórias da manhã voltaram e atingiram diretamente meu estômago, trazendo-me náusea. Ela ligou de novo. E de novo. E de novo. Até que desistiu e deixou-me quieta.
Observei meu travesseiro manchado de lágrimas ao mesmo tempo em que ouvia a campainha.
O mundo não queria me deixar em paz.
E foi isso. Foi no momento em que eu segurei meu edredom com toda a força do mundo e percebi que eu estava muito além da minha apatia comum. Eu estava com raiva.
Eu estava puta.
Porque eu tinha dezessete anos e não me dava o direito de ter minhas próprias particularidades. Não queria ser notada porque era perigoso, porque eu tinha medo, porque se me vissem talvez eu me machucasse. Talvez doesse e a ferida se espalhasse por meus braços e minhas pernas e minha barriga. Aos dezessete anos, meus olhos eram ocupados numa observação insana, em sonhos ilusórios e grandes "e se?".
E então eu observava e bisbilhotava, guardava os sentimentos, roubava momentos dos outros, porque era o que restava. Nenhum momento era meu, porque eu tinha medo de construí-los, por mais singelos que fossem. E eu presenciava cenas de horror em que meninas definhavam lentamente sob meu olhar pela falta de comida. E eu ficava em silêncio, completa e profunda submissão diante de adolescentes cuja alegria era a desgraça alheia.
E a culpa era minha!
Eu não conseguia acreditar que isso poderia acontecer. Não quando meu sangue corria tão rápido e minha cabeça girava e girava e girava. Sim, sim, sim, sim, era verdade. Eu precisava das palavras.
De alguma forma, elas continuaram na minha garganta por mais um tempo. Até eu criar coragem e descer as escadas para atender a porta.
Do outro lado, Aaron apareceu. Ele tinha olhos arregalados e respiração curta, como se tivesse corrido até ali.
— Oi.
Ele respirou.
Eu respirei.
– Eu te liguei.
– Eu sei.
– O que aconteceu?
Apertei os dedos contra a porta. Meu coração batendo rápido. Quase escapando por meus lábios.
– Você quer entrar?
Ele piscou e entrou, desengonçado, batendo a mochila na parede e fazendo barulho. Parecia querer ficar próximo de mim, perto de meus olhos para entender o que estava acontecendo.
Mas eu me sentia muito distante dele.
– Tá tudo bem? Digo, você parece nervosa. Ou irritada. E triste.
– Sei que você tá mentindo pra mim.
Aaron parou no meio do caminho, enquanto ia dar mais um passo para se aproximar, para me intoxicar com as particularidades adolescentes dele que me faziam querer gritar e chorar ao mesmo tempo. Não agora. Eu não me permitiria ser encantada quando tudo o que ele me dizia era só isso: um grande show onde eu era a telespectadora idiota.
– O que quer dizer?
O sangue subiu. Ah, se não subiu.
— Eu passei muito tempo, Aaron, tentando fingir que eu não acreditava nas outras pessoas. Conversa de adolescente, né? Você diz isso o tempo todo. Mas é difícil ignorar boatos quando absolutamente todos a sua volta te contam uma versão diferente da que você conhece. E eu pensava o tempo todo como era especial por te conhecer de verdade. Por saber que eu tinha toda a versão, porque nós passávamos o tempo juntos e continuaríamos assim. Repeti tanto essa baboseira pra mim mesma que acabei acreditando nela, mas nós dois sabemos que não é desse jeito. Não quando te encontro no carro desabando sobre si mesmo, não quando acho que você é completamente de outro planeta porque não sei porra nenhuma sobre sua vida.
— Binda, não sei o que te disseram, mas...
— Ah, não. Ninguém me falou nada. Ninguém nunca me fala nada. Eu escuto. Eu averíguo, porque talvez seja verdade, talvez todos os boatos só sejam conversa de adolescente – Eu estava tremendo agora. Minhas unhas afundavam dolorosamente na palma da minha mão, mas isso não me ajudou a manter a calma. – Ninguém me falou nada. Quem falou fui eu, feito uma otária, na cara da Kylie Johak como você era bom, como eles todos estavam errados sobre você. E eu não sei nem se isso é real. Porque eu me apaixonei pela versão que você me apresentou, e criei um monte de mentiras no caminho pra enfeitar minhas fantasias. Toda essa... coisa que você me apresentou. É bizarro. E não quero mais isso. Então me fala, Aaron, o quão perto eu cheguei agora. O que do que você me disse era verdade?
Ele me olhou, absolutamente assombrado. Os olhos escurecidos, a boca entreaberta numa surpresa muda.
Aaron não sabia o que dizer.
E isso me ofendeu. Eu queria saber, queria ouvir dele alguma coisa para continuar a falar e falar e falar o que eu tinha guardado em mim por tanto tempo.
— Você não pode fazer isso comigo. Mentir o tempo todo para depois não se dignar a falar qualquer coisa. É cruel.
— Eu não sei o que você quer ouvir.
Bufei e apertei minhas mãos em meu rosto.
— Não quero que você me diga o que eu quero ouvir. Quero que você fale a verdade. Bonita ou não.
E quando eu finalmente olhei para ele, Aaron parecia triste. Pequeno, até, mesmo eu sendo consideravelmente mais baixa. Como se quisesse se encolher e sumir. Como se preferisse fugir para qualquer lugar bem longe dali.
Ele abriu a boca.
E alguém irrompeu pela porta, um furacão no meio da sala.
Minha mãe.
— Eu sabia.
— Mãe, não é o que você tá pensando.
— Eu não acredito que confiei tanto em você por tanto tempo para descobrir que passou a faltar na escola para ficar com um garoto.
– Não foi o que aconteceu. Se você só me ouvisse...
– Sra. May, é culpa minha...
Gelei. Minha mãe gelou. Olhou para Aaron como se ele fosse a última coisa que gostaria de ver.
– May é sobrenome do pai dela. — respondeu, fria. Ele enrubesceu e se calou. — Saia da minha casa. Não procure mais minha filha, entendeu?
Ele passou mais um momento em silêncio até virar-se e cambalear até a porta. Meu estômago revirou. Mamãe voltou a me encarar com raiva.
Não quero mais ouvir sua voz, ela dissera.
Quarto.
Agora.
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