Vou sentir o sol na minha boca
1 pra chocar contra o escuro
Notas iniciais
Tutsia Vogel (Sisia) - Liechtenstein
Mona Canella - Mônaco
Vou sentir o sol na minha boca
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vou sentir o sol na minha boca
e saltar no ar maduro
Vivo
com olhos fechados
pra chocar contra o escuro
— e. e. cummings —
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Mona mordeu suavemente a ponta da caneta esferográfica azul com a qual tentava, com todo o afinco, escrever algum artigo bobo para uma aula ainda mais boba. Tutsia era só uma respiração calma e ritmada ao seu lado, como se estivesse dormindo, os olhos movendo se rápido, rápido ao longo da página do livro enorme. Elizabeta, ao contrário, estava jogada sobre os próprios braços, piscando com ódio e encarando uma folha branca de papel com determinação, um lápis preto entre os dedos.
— Sua respiração é tão barulhenta, Eliza — Sisia murmurou, sem se mover. Sua voz muito baixa e muito quieta ainda era uma agressão no silêncio da biblioteca. — Eu consigo ler seus pensamentos só por ela.
— É? E o que eu estou pensando?
— Deus, por que me abandonastes com essa estúpida tarefa? — respondeu com voz de falsete. Mona deu uma risadinha.
— É algo assim, suponho. — Elizabeta disse, desiludida. — Mona, Mona, Mona! O que está fazendo?
— ...Escrevendo. — duh.
— Eu estou entediada.
— Não tínhamos notado. — Tutsia resmungou, virando uma página, e Elizabeta chutou sua canela por baixo da mesa. Acabou levando um chute de volta.
— Largue isso, Sisia, por favor, por favorzinho, eu estou tão entediada, tão chateada… Cansada.
— Por que você não faz esse desenho logo? Ao invés de reclamar? — Mona sugeriu como se descobrisse algum segredo e Elizabeta lhe fez uma careta.
— Não quero. Tarefa estúpida, poda toda minha criatividade, não quero.
— Eliza — Sisia murmurou, suave. — Não seja assim boba, coração.
— Cerveja sempre lava o coração, Tutsia, você sabia? Sempre lava. Eu quero tomar uma garrafa, vamos tomar uma garrafa? Hein, Mona?
— Você está falando comigo ou com ela? — Mona perguntou, mordendo com força a tampinha da caneta esferográfica.
— As duas.
— Eu estou ocupada. — Tutsia respondeu, sem expressão.
— Está nada. Tá na mesma página tem uns dez minutos.
— Leio devagar.
— Mentira. Mentirosa.
— Não chame Sisia de mentirosa, Eliza. — Mona repreendeu, desenhando corações azuis na folha.
— Desculpe, Sisia.
— Desculpada.
— Tenho ódio de pergunta — Eliza recomeçou, depois de oito minutos de silêncio.
— Admiro sua capacidade de reviver assuntos esquecidos, Liza, admiro mesmo. — Mona resmungou, encarando decepcionada o único parágrafo que havia escrito.
— Quieta. Tenho ódio, ódio de pergunta.
— Sabemos. — Tutsia disse, espreguiçando-se. — A cerveja ainda está de pé?
— Não quero mais. — Eliza respondeu, e Mona suspirou. Típico, muito típico, pensou consigo mesma, fazendo careta.
— Típico — disse em voz alta, depois de alguns segundos de contemplação. Não era adepta a esconder coisas, sentimentos. Amarga dentro da gente e a gente apodrece, Sisia sempre dizia.
— Típico o quê, Mona?
— Você não querer mais essa ou aquela coisa. Se cansa rápido de tudo, até de ideias. Típico.
— É uma crítica?
— Constatação. — respondeu, e não disse mais nada. A respiração em suspenso.
— Qualquer coisa que qualquer coisa signifique... — Eliza disse, um gesto de descaso. Não completou nem a frase, nem o gesto. — Não me importo, realmente.
— Sei que não.
Sisia virou uma folha fazendo mais barulho que o necessário.
— Sisia…
— Hm? — ela fez um som para indicar que estava ouvindo, um som familiar como uma risada de uma irmã bebê, e as outras duas mulheres sentiram-se melhor consigo mesmas. Estavam entre amigas, afinal. Quase família.
— Nada. Só queria dizer que eu te adoro. Te amo mesmo.
— Também te amo, Liza. — uma pausa, longa pausa. — Agora faça esse desenho.
— Estou fazendo, estou fazendo! — e riu, e sua risada era como fadinhas voando, Mona pensava. Sua doce, doce amiga, Elizabeta.
Trinta minutos de suave, quieto, calmo silêncio, e Tutsia quebrou-o, como quem quebra o espelho, fechando o livro com um baque.
— Eu estou pensando naquela cerveja… Desde aquela hora que Eliza sugeriu.
— Talvez devêssemos…? — Mona fez um amplo gesto, indicando as três.
— Talvez. — Elizabeta concordou, rabiscando aleatoriamente o braço de Mona com uma caneta esferográfica preta.
— Quer dizer, Liza tem razão? Formicida queima que nem fogo mas cerveja sempre lava o coração.
— Lava. — Mona concordou, bem lentamente.
— Lava. — Liza repetiu, acenando e desenhando corações, flores. Risos.
— Sisia, Sisia! Então vamos, não se deixe pensar demais, o inferno é isso, pensar demais estraga tudo! — Mona disse, uma explosão de energia tornando seus olhos fora de foco, enfiando canetas na bolsinha e pegando as pastas e fichários.
— Calma, Mona, meu deus, calma.
— Às vezes vocês são mornas, — ela disse, ainda ocupada — e deus vomita os mornos.
— Sabemos. — disseram em uníssono.
(levantaram-se e foram ao bar que ficava no centro do campus dois, onde estavam; e lá brindaram com cerveja amarga a alegria de se ter com quem beber. rápidos goles, suaves sorrisos, amizade sincera — como família, Mona sempre diz. como família.
seus corações se remexendo com o mais belo, calmo tipo de amor)
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