Votos de casamento
1 Você, Lena
Notas iniciais
Espero que gostem dessa nova one, que eu escrevi um pouco para compensar o tempo em inatividade.
Kara sempre foi muito atenta aos pequenos detalhes de todas as coisas. Em Krypton, uma fascinante curiosidade, segundo seu pai depois de tê-la como companhia no laboratório por horas. Já na Terra, um motivo para ser chamada de estranha desde sua chegada. Mas quem poderia culpá-la? À sua frente estava literalmente um mundo desconhecido e Kara não poderia ter nada mais em mente senão explorar.
Humanos, um belo exemplar do que mais intrigou a jovem kryptoniana. Mesmo que muito similares aos de seu planeta, Kara nunca conseguiu enxergá-los do mesmo modo, prestando atenção até no que era facilmente julgado de pouca importância. Eliza e Jeremiah Danvers, por exemplo. Os primeiros seres humanos com quem Kara teve contato e observou não perdendo nem sequer os mais leves gestos. Também o primeiro contato com uma específica tradição da Terra, que a recém-chegada de anos-luz de distância ainda sonharia para si mesma muitas e muitas vezes. O casamento. Não era exatamente novo para Kara, pois kryptonianos também possuíam sua própria forma de casamento, com a exceção de que, em Krypton, a união era muitas vezes limitada a negócios ou política, principalmente no círculo da alta sociedade do qual fazia parte. Assim, no seu planeta natal, ela não esperava fugir desses padrões e se casar por qualquer outro motivo. Como o amor, que presenciou nos pequenos e grandes detalhes entre os Danvers até o desaparecimento de Jeremiah.
Porém, agora Kara não estava mais em Krypton. Nada disso se esperava dela. Nada, além de uma vida normal nos padrões humanos. Poderia ser fácil, é claro, se não exigisse uma profunda adaptação que foi lenta, mas não tão dolorosa graças ao seu dom nato de observação e a Alex Danvers, também, sua nova irmã que pôde estar envolvida na parte difícil de início, para mais tarde ser um dos vínculos mais genuínos de Kara.
Seguindo os padrões humanos, logo, esperava-se que Kara completasse alguns pontos básicos como, por exemplo, faculdade, emprego e uma família.
Então, nos seus vinte e poucos anos, a kryptoniana já tinha visto bastante do seu novo lar, completado alguns pontos, fugido um pouco de outros — humanos certamente não ocupavam seu tempo sendo heróis que usavam capa e tinham poderes — e idealizado nos mínimos detalhes os pontos que restavam. Como o casamento. Novamente algo que dada a sua curiosidade fascinante e seu tempo na Terra, Kara teve a chance não só de observar minuciosamente, mas também de planejar cada detalhe do seu próprio, talvez terrivelmente influenciada pelos romances, outro grande objeto de seu estudo.
O seu casamento dos sonhos em muito lembrava dos filmes, um completo clichê, incluindo desde um belo e inesquecível vestido branco, até o amor eterno jurado nos votos, porque Kara, com absoluta certeza, também sonhava em encontrar o seu grande amor. Entretanto, muito diferente dos seus queridos romances, ela só não esperava que esse fosse o ponto mais difícil de cumprir, pois se era suposto que bastava um único olhar para reconhecer aquele ou aquela com quem se compartilharia o resto de sua vida. Ou pelo menos, era nisso que a jovem kryptoniana acreditava até se decepcionar algumas vezes e se intrigar ainda mais por esses seres humanos que ao mesmo tempo foram a sua grande inspiração para sonhar com esse grande momento e, na maioria das vezes, pouco se importavam.
Mas, é claro que a negligência deles com esse momento tão importante não foi suficiente para Kara desistir, embora não acreditasse mais tão profundamente nas paixões avassaladoras da ficção. O amor também poderia acontecer aos poucos, começar com uma faísca e se transformar em chama em uma queima lenta.
Como o que Kara tinha grandes esperanças que acontecesse no seu relacionamento com Mon-El. Ainda que muito anteriormente alguém digno de seu desprezo como membro da realeza do seu planeta vizinho, o ex-príncipe também era aquele com quem tinha algo em comum que ninguém mais, além de Kal-El. O seu planeta também estava reduzido a pedaços e o daxamita tinha visto isso com os seus próprios olhos, como Kara também viu de Krypton. Ele também tinha passado muito tempo sozinho na escuridão do universo e também iria passar por um processo de adaptação — e com muita esperança se tornaria alguém melhor. Imaginar um futuro com Mon-El não era tão absurdo como também era mais fácil, na Terra, uma vez que Kara também não precisaria se preocupar com a barreira dos seus poderes, pois ele também era forte e invulnerável apesar de que não tanto quanto ela própria.
Foi, então, assim que, pensando e ocupando boa parte do seu tempo com o daxamita, passou despercebido para Kara que a faísca se acendeu em outro lugar. Mais especificamente onde ela não deveria estar, com ninguém menos que a irmã do pior inimigo de seu primo, também conhecido como Superman.
Lena Luthor.
Alguém que todo mundo esperava que acabasse como os outros de sua família. Presa ou morta. Que todo mundo queria odiar, mas Kara, de todas as pessoas, nunca seria capaz. Porque Lena era digna de muitas coisas, ódio, contudo, não era uma delas.
Ela era digna de amor, com absoluta certeza, e a mais nova heroína de National City sabia que a amava. Kara, por muito tempo, só não percebeu que era tão profundo quanto o seu procurado verdadeiro amor. E, exatamente, por essa percepção ser tardia demais, num ponto em que seu grande sonho para o casamento já era uma realidade que estava acontecendo, que a kryptoniana manteve seus planos com o ex-príncipe de Daxam. Lena não estava muito exposta aos perigos da sua dupla identidade, era melhor e mais fácil assim.
Então, finalmente pondo em prática cada item da sua lista para o casamento quase perfeito, com a exceção de um único detalhe — o mais importante, talvez. Kara não esperava fugir ainda mais da sua vida supostamente normal até o momento. Mas, é óbvio, como em todo grande momento um pouco de drama estaria presente. Um pouco deveria, porém não tanto quanto realmente foi. E muito menos, que fosse Kara, a própria noiva, a causadora do alvoroço.
Mas quem poderia prever quando cada mínimo detalhe tinha sido feito minuciosamente, quando tudo seguiu perfeitamente o roteiro. A não ser o coração de Kara.
Culpe o nervosismo, o olhar no rosto de Mon-El ou até mesmo Lena, mas Kara simplesmente não pôde evitar. Talvez grande erro fosse ter encontrado os olhos verdes de sua melhor amiga antes de dizer seus votos e numa rápida fantasia tê-la imaginado no lugar do homem em sua frente.
“Eu sempre sonhei com uma grande história de amor, como nos filmes.” Fosse o nervosismo ou não, as mãos de Kara tremiam envoltas pelas de seu noivo, e o rosto dele, mesmo muito calmo e doce, não trazia tranquilidade, mas ela continuou sustentando seu olhar. “Sonhava e procurava o amor que começava com um incêndio, intenso e encontrei algo muito melhor.” Os olhos de Lena pareciam chamar pelos seus e a noiva se deixou ceder um pouco antes das palavras definitivas para depois voltar a Mon-El. “Eu te amo e quero passar a minha vida com você, porque você não é a tempestade, mas é o meu farol, Lena.”
Kara imediatamente congelou, depois de perceber o que tinha dito. Lena. Mon-El estava igualmente desprovido de reação na sua frente, seu rosto um pouco pálido contrastando com a gravata. O silêncio tinha consumido toda a cerimônia.
“O quê?” Ele finalmente disse soltando as mãos de sua, quem sabe talvez, ex-futura esposa, a sua expressão incrédula combinando com a de alguns convidados.
Kara não tinha resposta alguma. Seus pensamentos pareciam não se conectar uns com os outros. Por isso mesmo ela procurou nos olhos Lena, também para ver se o estrago tinha se estendido. Kara não soube dizer exatamente quando a encontrou em pé parada a caminho do altar. Ela parecia surpresa do mesmo modo, embora nenhuma decepção manchava sua expressão. Lena quase ousava sorrir. Foi, observando-a que Kara entendeu.
“Kara, por favor…” O ex-príncipe trouxe seu rosto para o dele, e o coração da heroína pesou assistindo algumas lágrimas caírem de seus olhos, mas ela não se manteve firme.
“Eu espero que algum dia você me perdoe…” Os dedos dele se afrouxaram até caírem e ela se distanciou alguns passos. “Mas eu não posso fazer isso.”
Kara, então enfrentou o motivo por trás de tudo isso, o verdadeiro e grande amor. Lena um pouco mais próxima, agora, também chorava como sorria e a heroína a admirou antes de se aproximar e tomar-lhe o rosto com as duas mãos.
“Por favor, desculpe-me por não ter percebido isso antes.” Kara agora chorava também. “Eu te amo, você é o meu farol, Lena… Você.”
“Sabe, eu tinha imaginado esse momento tantas vezes, mas nunca acontecendo assim.” Lena deu uma risada úmida e limpou as lágrimas da outra que também riu. “Eu te amo também.”
Kara lembrou-se, então, que não eram só elas duas presentes ali e beijou levemente os lábios de Lena, antes de entrelaçar uma das mãos.
“Vamos sair daqui.”
Kara Danvers não tinha se casado, mas agora isso não importava.
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