Vossa majestade
14 Você quer brincar na neve?
No Expresso de Hogwarts, sentamos na cabine com Draco. Ele foi muito gentil e comprou todos os doces que queríamos.
— Licença – Susan abriu a porta – Daphne, posso falar com você?
— Estou ocupada, não vê?
— É que... É muito importante.
Daphne olhou para mim e eu incentivei que ela fosse, as duas saíram e ficou apenas eu e Draco.
— O que elas têm? – Me perguntou
— Não gosta de Nott e brigaram de novo. Nem eu gosto mais tanto assim, o cara é um saco.
— Acho que não é só por isso que ela não gosta dele.
— Como assim? Amigos têm ciúmes dos namorados, não é?
— Não sei, nunca tive. Mas ela não parece ter só isso.
Poderia me concentrar em Daphne e Susan ou
— Como assim você nunca teve uma namorada?!
— Nunca tive, ué.
— Como assim?! E Parkinson?
— Ela? Não, só foi uma ficante.
— Sério? Ela parecia gostar de você.
— Digamos que pessoas como ela decidiram se afastar de mim depois da Guerra.
Sabia o real motivo, mas não quis machucar o orgulho macho dele.
— Entendo. Quero dizer, como assim?!
— Ah, sei lá. Beijar é bom, é gostoso. Só que andar de mãos dadas e ser carinhoso?
— É nojento.
— Disse a garota que lê romances.
— É diferente, já te disse. Na teoria parece ser legal, já na prática... É um saco!
— Por isso fugiu de Bulstrode?
— Como sabe que fugi de Francis?
— Vo-você contou.
— Não contei, não. – Me aproxime tão perto que nossos narizes quase se encostaram, se assustou rapidamente – Anda me perseguindo, moleque?
— E-E se... – Tomou postura – E se eu estiver? – Nossos lábios estavam próximos – Vai me impedir?
— Astória, você – Daphne entrou e arregalou os olhos – Gente! Motel existe, sabia?
Me afastei rapidamente dele e apertei um pouco mais o meu cabelo, fazia isso quando ficava nervosa. Não demorou para que chegássemos aqui. Nossas malas eram carregadas pelo estalar do novo elfo-doméstico.
— Aí estão vocês!
A mãe de Draco desceu as escadas e abraçou o filho com força, por um instante, queria ser ele para sentir essa emoção.
— Está tão lindo! – Ela olhou para mim – E você deve ser... – Estalou os dedos – Andy?
— Astória. – Corrigi
— Foi o que eu disse – Ela pegou no meu rosto – Tão linda. Finalmente me trouxe uma namorada decente.
— Namorada? – Indaguei
— O que acham de um chá? Tenho certeza que seremos ótimas amigas.
Mentira, nunca fomos com a cara da outra. Prepare-se para o barraco do casamento.
— É...
Draco colocou o braço em volta de meu pescoço, me trazendo para perto.
— Mamãe, tivemos uma viagem longa. Acho que Ast e a irmã dela querem descansar. Não é, amor?
Olhei confusa para ele, que retribuiu com um sorriso forçado a apaixonado.
— Tudo bem – Concordou a mãe dele – Vão querer dividir o quarto ou-
Eu e Daphne falamos ao mesmo tempo:
— Dividir.
— Separado.
Olhei feio para ela, não queria abusar da hospitalidade.
— Separado. – Afirmou Draco
— Separado. – Repetiu sra. Malfoy
Quando ela se virou, Daphne estirou a língua para mim. De mãos dadas, Draco me levou para um quarto. No caso, o que eu dormi. Tive vontade murrar minha irmã quando ela deu um sorriso malicioso.
Nem falei nada, cruzei os braços, cerrei os olhos e esperei ele falar.
— Não olha assim pra mim! – Pediu – Isso é... O que queria que eu fizesse? Eles não param de encher o saco com casamento!
— Casamento?
— É – Sentou na cama – Acham que eu não devia ter voltado à Hogwarts e que devia casar com a irmã de Parsy.
— Ela tem irmã?
— Arrã. E é um porre em pessoa, Jenny, eu acho. Então disse que estava comprometido, que estávamos apaixonados um pelo outro. Só não pensei que mamãe ia querer conhecer ela.
— Por isso me chamou? Pra se passar da sua namoradinha imaginaria?
— Não exatamente. Eu ia te chamar antes, só que recebi essa carta. Só juntei o útil ao agradável.
— E o meu agradável, você pensou?
— Por favor, Astória. Fico de joelhos por você.
— Pode ficar então.
— Quê?
— Você não disse? Ou não tem palavra, Draco?
Tinha que ver, foi hilário.
— Astória-
— Me bajule, por favor.
— Maravilhosa, encantadora, espetacular.
— A-do-roo.
— Pode fazer esse favor por mim?
— Diga que se chama Pitelzinho.
— Não vou fazer isso.
— Diga!
— Eu sou Pitelzinho.
Comecei a gargalhar alto e me joguei de costas na cama. Ele deitou ao meu lado, curioso.
— Então?
— Tudo bem.
— Sério?
— É. Eu ia fazer mesmo sem seu showzinho.
— Quê?!
— É, queria ver sua cara.
— Sua!
Começou a fazer cócegas em mim, não parava de rir.
— Sai, Draco!
— Peça pinico!
— Nunca!
— Então não perde por esperar!
Ele levantou minha blusa e fez cosquinha com o rosto. Não ria daquele jeito há anos. Prendia minhas mãos acima da cabeça com só uma mão.
— É minha prisioneira agora, cara rainha. – Sussurrou no meu ouvido
— O que pretende fazer comigo, Draco?
As cócegas na barriga foram substituídas por beijos e muito, muito, arrepio capilar. A mão livre tocava levemente minha pele. Foi subindo para o pescoço, mordeu minha orelha. Mergulhou em meus castanhos olhos.
— Posso te beijar?
Claro que a idiota não quis. Burra! Burra! Burra!
— Eu... Eu não quero. Não me sinto à vontade.
Pois é, até os bruxos conseguem ser trouxas.
— Tudo bem –Deitou-se ao meu lado – O que de te deixa à vontade?
Fiz um biquinho, pensei por alguns segundos.
— Tem comida?
Jantamos naquela mesa enorme. A casa estava com toda aquela decoração natalina que os ricos usam. Sua sogra faz suéteres, né? A mãe dele dá joias. Não tem o mesmo valor sentimental, mas que são bonitas, são.
— Puxa, obrigada – Agradeci, no jantar – Nem sei o que dizer, os presentes que comprei ainda não chegaram.
Detalhe: não comprei presentes.
— Não se preocupe – Mentira – Não ligamos pra isso – Mentira – O que importa é que estejam aqui. – MENTIRAAAA – Qual é mesmo o nome da sua irmã?
— Daphne – Respondeu, enquanto enchia a boca de danoninho – Isso ‘tá muito bom, tia!
— Tia?
— Draco!
Lucio abraçou o filho. Nem olhou para nós direito, saiu com pitelzinho para o escritório.
— Homens – Narcisa balançou a cabeça – Sempre escondendo os sentimentos da gente.
— Cisa?
— Minha irmã!
Narcisa levantou da cadeira e abraçou a irmã mais velha que não via há anos. E ela não veio sozinha.
— Esse é Ted. – Apresentou – Diz oi pra tia, querida.
— Oi.
As duas se derreteram pelo pequeno Ted. Ele é a cara de Tonks, o que me deixou e ainda deixa um pouco triste. Que Deus a tenha e todas as vítimas daquela tragédia.
Olhar para elas me fez pensar, no quanto, deviam ter sofrido com a separação de uns vinte anos. Hoje sei que Narcisa meio que foi obrigada a isso, não por Lucio – ele come na mão dela, cara – pela mãe.
— Já pensou se isso acontecesse com a gente? – Falou Daphne, fazendo trancinhas no cabelo dela, no meu quarto – Ficar sem se falar por vinte anos! E tudo isso por causa de uma idiotice de ideias.
— Eu nunca ficaria longe de você por causa de macho.
— Mesmo?
— É claro. Cuidei e cuido de você até hoje. Homem nenhum tiraria minha maninha de mim.
— E se fosse Nott? E se eu me casasse com ele? Sei que não gosta mais dele tanto assim.
— Respeitaria, ué. Não seria você, quem casaria? Por tanto que faça o certo e seja feliz, sempre vou te apoiar, Daph.
— Te amo, manona.
A mansão dos Malfoy lembrava a nossa, só que sem gente morta. Narcisa e sra. Tonks babavam Ted; Daphne fazia caretas para os quadros, comia todos os doces, sujava todo canto de neve, o caos completo; Lucio ficava trancado no escritório; e Draco
— Ei, pitelzinho
Ele olhava para o nada.
— Pitelzinhoo!
Sentava num banco de mármore, na frente da piscina congelada dele. Peguei um pouco de neve e joguei nele.
— Ei!
— Finalmente me notou, querido?
— Não devia ter feito isso.
— Ou o quê?
Fez uma bola e tentou me acertar, me esquivei na hora.
— Vai ter que ser melhor do que isso!
— É mesmo, é?
Jogou uma de surpresa e bateu bem no meu nariz.
— Seu nojento!
Uma guerra de bola de neve havia começado, um joga aqui, joga lá. Estávamos cobertos de neve, com a respiração pesada, cada um com uma bola na mão.
— É bom que esteja preparado para perder, pitelzinho!
— Não tem chances, rainha!
Jogamos na mesma hora. O ruim foi que eu desequilibrei e caí, batendo a cabeça no chão.
— Ast! – Veio correndo me ajudar – Ast! Ast!
— Relaxa, ainda ‘tô aqui – Me sentei – ‘tô acostumada com isso.
— Desastrada! Podia ter se machucado.
Pode ser o lance do amor, pode ser o lance de ser doutor, sei que ele faz o maior drama quando alguém se machuca.
— Ficou preocupado, foi?
— Claro, destrambelhada que nem você, capaz de se machucar feio. Bom colocar algo aí, pode-
Foi muito rápido, a água congelada rachou e ele caiu. O clima estava muito, muito frio.
— Draco!
Não sabia o que fazer. Se eu o perdesse, perderia uma parte de mim também. Sem pensar duas vezes, mergulhei na água para salvá-lo. O procurei por todo canto, estava perto do chão da piscina. Tão grande, quem diria que aqueles músculos pesavam tanto?
Com um braço, o segurava, e o outro, nadava – coisa que não fazia e nem faço muito bem. Minha visão estava embaçando, meu oxigênio finalizava. Porém, nada me impediria de salvá-lo. Saímos de lá, recuperei meu ar.
— Draco! Draco! – Coloquei o ouvido em seu coração, silêncio – Draco!
Fiz massagem cardíaca e – como nos clichês que amo de coração – fiz respiração boca a boca.
— Vamos, Draco! Pare de ser bundão!
Continuei o ritual por alguns minutos, meus olhos já estavam encharcados de lágrimas. Deitei meu rosto em sua barriga.
— Ficou preocupada, foi?
— Draco – O abracei com força, seu corpo estava tão gelado – Nunca mais faça isso!
— Quê? Olho por olho, dente por dente.
— Idiota!
O larguei ali, minha raiva era imensa. Não queria ver ele, nem seus pais ou Daphne. Me tranquei no quarto, lendo meu novo romance favorito O coração estrelado – outro livro derivado de A alma das paixões, falo dele já. Recusei-me a comer, a história me divertia demais.
— Ei, Ast – Chamou Daphne, do outro lado da porta – ‘tá a fim de explorar?
— Não, obrigada.
— Ah, vamos! Sabe quantas salas tem aqui? Você quer brincar na neve?
— Não, Daphne. Me deixa ler, por favor.
Não me incomodou mais. Me sentia cansada, queria dormir. Sem antes, escovar os dentes. De camisola, meias, pantufas de monstro e meu cabelo natural. Só podia ser brincadeira do destino comigo, na frente do banheiro, tem um quadro de Draco aos quinze anos, tão lindo.
Me escorei no batente da porta, suspirando. Por que tinha que fazer isso comigo?
— Apaixonada, minha jovem? – Questionou um senhor do quadro ao lado – Meu neto é encantador, de fato.
— Encantador? – Indagou a mulher do outro quadro – Quanta falta de palavras, Abraxas! Meu neto é lindo, brilhante e com um ótimo sangue. Precisa dizer alguma coisa?
— E você consegue calar essa boca de matraca, Hydra?
— Seu-
— Com licença – Olharam para mim – São... Os avós de Draco?
— Os melhores – Afirmou Hydra Malfoy – Os pais daquela lá são tão desprezíveis quanto a própria.
Até mortos, os avós de Draco não deixaram de odiar Narcisa..
— Desprezível é você, com esse cabelo de bucha.
Hydra ficou espantada e Abraxas caiu na risada.
— Seu velho maluco!
— Sua gorducha!
— É, com licença. De novo.
— Sim, meu bem? – Quis saber Hydra
— Sempre brigam?
— Todo casal briga – Revelou o homem – O que seria de nós se não fossem as brigas?
— Como assim?
— Ora, brigas são necessárias na vida de um casal – Explicou Hydra – Se não fossem por elas, não teria as reconciliações.
Os meus pais nunca se reconciliavam, por isso que o casamento deles foi uma bosta.
— É, eu gosto dessa velha.
— Velha é sua mãe, seu hipopótamo!
— Sua girafa!
— Você!
— Você!
— Tchau, aos senhores.
— Tchau.
Dizem que a melhor parte é a reconciliação, mas nunca vi isso acontecer. Não tinha vontade de voltar a ler, explorava todos os cantos da mansão às escuras. Corredores bem largos e escadas bem altas, perfeitas para uma dança.
O lugar mais bonito era o salão de dança, que pode-se ver as estrelas no teto à noite. Óbvio que não fiquei parada. Cantando bem baixinho para mim e segurando na camisola, comecei a girar, girar alegremente.
Não importa se dança bem ou mal, se estão rindo ou elogiando. Na hora da dança, você esquece de tudo e deixa seu corpo te guiar. Os movimentos não são formados, seus pés te levam para os caminhos mais graciosos que podem existir. A calma.
Tendo tempo que não praticava, tropecei no meu próprio pé e quase caí. Quase. Dois braços me seguraram.
— Draco.
— Oi, meu bem?
A dança ainda continuava, foi que nem na primeira vez. Estava de costas para ele, num ritmo lento, nos movimentávamos.
— Nunca vou te deixar cair, rainha.
— Nunca?
— Em hipótese alguma, dou minha vida por você. E sinto muito pela brincadeira que fiz, foi estúpido.
— Foi mesmo.
— E sinto muito por isso, peço misericórdia. A rainha seria piedosa?
A dança parou, suas mãos continuavam na minha cintura. Pude sentir sua respiração parar.
— Não sou piedosa. – Entrelacei meus dedos em os seus trêmulos – Sou justa, e perdoo você.
Me virou para si e tentou me beijar, coloquei meu dedo indicador em seus lábios.
— Me promete que não vai brincar com isso? Essa coisa de morte me deixa preocupada, Draco. E sabe disso e o porquê.
— Prometo, prometo, rainha. – Acariciou minha bochecha com seu polegar – É a garota mais bonita e inteligente, merece ser a mais privilegiada e amada. Inclusive, por mim.
Sem perceber, alisava sua camisa. Imagino que pensou esse momento em um jardim florido, usando roupas chiques, no pôr do sol. Esqueça, usávamos roupas de dormir, embaixo das estrelas. Deitávamos no chão, deitando minha cabeça em seu peito, ele fazendo cafuné no meu cabelo e nossos dedos brincando.
É, ele virou a segunda pessoa que podia mexer no meu cabelo.
— Está vendo ali? – Me perguntou
— Sei.
— É a constelação de Scorpius, pode se ver ao olho nu. A estrela mais bonita, pra mim, é Antares. Significa igual a Ares, embora seja contra Ares, como se tivesse medo.
— Sabe de tudo, em.
E eu não sei de nada, em.
— Claro, nos ensinam desde criança. Você não?
— Digamos que meus pais não são os mais educadores.
— Não te ensinaram nada mesmo?
— Claro que sim, né, bobo. Me ensinaram a ter etiqueta e essas baboseiras, só que essas chatices de ideologias, não peguei. Por um lado, foi até bom. Não queria crescer me achando melhor e... – Olhei para ele, que tinha uma cara triste – Desculpe, não devia ter dito isso.
— Não, Astória. É bom lembrar nossos erros pra que não voltemos a comete-los.
— Sabe, eu até gostava um pouquinho do antigo Draco. Mas esse novo, é um máximo.
— Você acha?
— Tenho certeza.
Me levou para o quarto e beijou minha testa.
— Boa noite, Astória.
— Boa noite, Draco.
Foi embora e o observei.
— Gato.
Ele se virou e fechei a porta na hora. Esperei uns cinco minutos e dei um grito abafado no travesseiro. Oh, céus! Dia de ano novo. A mesa tinha dezenas de doces, doces e mais doces.
— Pelas barbas de Merlin, vou pegar uma diarreia legal!
Daphne foi correndo comer, a mãe de Draco fez uma careta.
— O que ela quis dizer é que nunca viu nada igual. – Menti
Narcisa fingiu acreditar e se retirou. Como todos os anos, nós Malfoy damos uma grande festa para nossos amigos e não seria nesse ano que cancelaria.
— Todos confirmaram – Alegrou-se Narcisa, satisfeita, no almoço – Tirando seus pais, Astória. Ainda não entendo porque eles não saem de lá.
Porque eu e minha irmã mentimos que todos acreditam no tal boato.
— Não gostam de sair, são mais apegados a mansão. – Menti
— Entendo. É... Mocinha?
— Sim? – Perguntou Daphne, comendo costela
— Soube que está namorando, com o filho dos Nott, certo?
Daphne limpou a boca com o guardanapo e se preparou para falar dele.
— Sim. Vamos fazer um ano.
— Tão emocionante, um casal puro-sangue se entrelaçando. Sua mãe deve ter ficado muito feliz.
— Mais do que eu.
— Vai entender quando for mãe, fazemos tudo por nossos filhos.
— Nem todas.
— Como?
— Nem todas, como algumas mães trouxas. – Me intrometi – Não é, Daphne?
— Sim, claro.
— Não devia ter feito isso! – Briguei, me arrumando no quarto com ela
— Por quê? Não é verdade? Devíamos denunciar eles por maus tratos!
— Nem pense nisso, Daphne!
— Mas, Astória-
— Não! Olha, eu sou de maior agora e te prometo que vamos embora daquela mansão, está bem? Pode esperar até as aulas acabarem?
— Tudo bem. Vai usar branco?
— Ia, mas me deixaram um vestido na minha cama.
— Como é?
— Vai lá embaixo.
— Não vai deixar eu ver nem um pouquinho?
— E deixar de ver sua cara de boba? – A empurrei para fora do quarto – Não!
Fiquei linda, maravilhosa. Meu vestido era azul escuro – achou que era preto, né? – com pedrinhas brilhantes na saia. Usava um saltinho, unhas pintadas, meia-calça, luvas azuis e longas. Soltei meu cabelo e passei uma poção que o deixou quase tão bonito como nos meus treze anos.
Botei um monte de reboque na minha cara: sombra escura, lápis de olho, rímel, um batom roxo. Usei as joias que Narcisa me deu e fiquei a pensar se devia colocar a coroa de Clarisse.
— Você está tão feia – Xingou meu reflexo do banheiro – Acha o quê? Que alguém vai te querer assim? Chega dá vontade de vomitar!
— Não me interessa o que você pensa, eu estou linda – Coloquei a coroa e as pedrinhas se tornaram azuis – E tenho uma festa a ir, com licença.
— Só cuidado pra não vomitar em alguém!
Fechei a porta com força. Narcisa tinha dito que eu seria apresentada a todos como namorada de Draco e que devia dá o meu melhor. Coloquei a cabeça para fora do corredor e vi um monte de gente elegante. Um medo surgiu dentro de mim, me apavorei na hora.
E se ela estivesse certa? E se eu estivesse feia? O ano novo passado foi terrível, não queria estragar tudo. Ainda mais, quando podia manchar mais ainda a imagem dos Malfoy.
— A senhora não vai descer? – Perguntou o elfo
— Vai me achar ridícula, mas estou com medo. Tem gente demais! E se eu estragar tudo?
— A senhora está muito bonita. A mais bonita.
— Você acha?
— Dobby tem certeza.
— Obrigada, Dobby. É muito gentil.
— Senhora.
— Sim?
— A sra. Malfoy deu ordens a Dobby de anunciar sua chegada.
— Então as cumpra.
— Sim, senhora.
Dobby aparatou e logo em seguida, dois trompetes tocaram bem alto.
— Anunciando a chegada da rainha Astória Greengrass, da Grã-Bretanha!
Dei lentos passos e fiquei de frente a escada. Dezenas de pessoas olhavam para mim, muito sorridentes. Fiquei tão nervosa que nem me lembro direito da música que tocou.
O que poucos sabiam é que o ritmo do meu coração estava bem mais acelerado ao ver ele me esperando na ponta da escada. Vestido como um príncipe dos sonhos de qualquer garota. Com toda elegância e um sorriso tímido, desci devagar. Não podia errar, não podia cair.
No penúltimo degrau, Draco se curvou e dei minha mão para que a beijasse.
— Me concede essa dança? – Sussurrou
— N-Na frente de todos?
— Se não quiser, eu-
— Seria uma honra.
Ele deu aquele sorriso, forçando que eu fizesse o mesmo. Não era boa em dança lenta e muito menos na frente de desconhecidos.
— Se concentre apenas em mim.
Colocou sua mão na minha cintura e segurou na minha delicada mão. Me deixei ser conduzida. E de fato, não havia ninguém ali além de nós mesmos. Aquelas roupas sumiram e se transforam em nossos pijamas.
E a dança deixou de ser lenta e passou a ser um pouco – só um pouco agitada. Ríamos sem parar. No fim da música, fomos trazidos a realidade pelas palmas dos convidados. Ele se curvou novamente e beijou minha mão.
Outra música começou e as pessoas decidiram dançar. Draco disse que passaria um pouco do tempo com os amigos e eu fui atrás da minha
— Sua louca! – Daphne me abraçou com força – Cara, quando ouvi seu nome pensei “isso vai dá merda, em”. Quando te vi, meu queixo caiu!
— Você está muito linda, Astória! – Elogiaram Hestia e Flora
— Ah... Obrigada. Vocês também.
— Não tanto quanto você – Disse Pansy – Está fantástica, pode até já mudar o sobrenome.
Fiquei sem saber o que dizer na hora, esperava ouvir isso de qualquer um, menos dela.
— Ast – Draco apareceu do meu lado – Pode vir um minuto, quero te apresentar a uma pessoa.
— Claro. Com licença, meninas.
Segui ele e entramos num bainheiro. Não deu um segundo e ele me abraçou.
— Obrigado. – Disse – Sério, obrigado mesmo.
— Eu... Que nada, Draco. Só estou te fazendo um favor.
— Favor? – Me soltou e segurou minhas mãos – Não sabe o quanto isso é importante pra mim!
— Seus pais desistiram de te casar?
— Casar? Não, isso ainda ‘tá de pé. Eles deixaram eu virar curandeiro!
— Sem querer me intrometer, mas desde quando você precisa da permissão deles? Não é de maior?
— Não é questão de permissão, é de apoio! Não sabe o quanto amo meus pais e quero fazer de tudo pra orgulhar eles.
Sabe aquele momento em que quer matar a pessoa que você gosta por falar merda? Desculpa, esqueci do seu marido.
— É, tem razão. Eu não faço ideia de como é isso.
— Não, não! Não foi o que eu quis dizer! Olha... Não fica assim comigo, por favor! Esquece o que eu disse, vai! – Ficou de joelhos – Me perdoa! Por favor, me perdoa!
Draco estava tão cansado de ser abandonado que fazia de tudo para ninguém deixa-lo. Até mesmo se humilhar.
— Claro.
Eu podia perdoar, mas esquecer? Malfoy que me esperasse. Beijou minhas mãos e voltamos a festa. Tenho que dizer que foi tudo bem divertido. Tirando o fato de Nott sempre fazer minha irmã ficar perto dele, deixando Susan sozinha.
— Está bonita. – Disse Francis sem animo
— Obrigada. Você também está bonito.
— É, valeu.
Ele não estava assim por eu ser a namorada de Draco, só me preferia de um jeito mais simples. Um pouco babaca?
— Hora da contagem regressiva!
— Dez... Nove... Oito... Sete... Seis... Cinco... Quatro... Três... Dois... Feliz 1998!
Abracei tanta gente que nem conhecia. Confete por todo lado, fogos de artifícios, champanhe e muitos, muitos beijos. Não meus, claro. Com o passar do tempo, as pessoas foram embora. Às quatro e pouco da manhã, bem na hora que o Sol nascia, Draco observava o fogo, muito pensativo – sentado no chão.
Já não usamos as roupas chiques e sim, agasalhos. Sentei ao seu lado e dei um beijo na bochecha dele.
— Feliz ano novo. – Sorriu bobo, como planejei – Pitelzinho, eu estou com um pouco de frio, pode me abraçar, por favor?
Sentei entre suas pernas, enrolada em seus fortes braços, ouvindo sua leve respiração, apoiava meu corpo no seu.
— Rainha, posso te perguntar uma coisa? – Assenti – Por que seus pais te tratam daquele jeito? Sei que fiquei afastado naquele tempo, mas percebi o que faziam com você. E o quanto sofria.
— Bem... Minha mãe engravidou muito cedo e me acusa de ter tirado a juventude dela.
— Você não tem culpa, Ast! Sinto muito dizer isso, mas a culpa é deles, de serem tão irresponsáveis! N-Não que isso tenha sido ruim. Pelo menos, não pra mim. Sabe, quando soube da sua overdose, quase tive um ataque. Queria ter ido te ver, mas minha mãe não deixou porque-
— Por que gosta de mim, Draco? – Me virei para ele – Por que me trata assim? Quero dizer, tem horas que estamos próximos e distantes, ou distantes e próximos, ou...
Segurando em seu casaco, lhe puxei um pouco para um beijo. Um beijo casto e doce. Porém, sem o amor que devia.
— Isso não aconteceu.
Porque fazia parte do meu plano. Com o olhar um tanto frio, saí de seus braços e subi para meu quarto. Notei seu olhar confuso e não disse nada. Me trancar no quarto e gritar com a cara no travesseiro pareceu ser mais sensato.
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