Vossa majestade
5 Vício por afeto
— Astória – Mamãe entrou no meu quarto e sentou na ponta do colchão – Vem bebendo seu presente?
Havia tomado três vezes: naquele dia; quando voltei à mansão e quando encontrei uma unha no meu cereal.
— Esplêndido, minha querida – Mamãe abriu um largo sorriso – Em breve, não precisará de mais nada, estará perfeita!
Minha mãe me deu uma droga e eu me viciei? Sim.
— Mamãe... Quando eu for perfeita, me amará?
— Terá o amor de todos, menina.
— Mas eu só quero o seu, mamãe!
— Sem choramingo, Astória! Faz mal a voz, a única coisa que lhe serve bem.
— Sim, mamãe.
Fui para o estágio de tomar antes e depois de todas as refeições. E caso acabasse, mamãe tinha um estoque cheinho. Passei explorar os novos cantinhos do meu corpo. Minha cintura estava bem feita e meus seios haviam crescido um pouco, não eram enorme, eram normais. Meu cabelo ressecou e ficou duro. Meus olhos cheio de vida carregavam tristeza.
Então, por que me arrumar? Por que agir bem quando tudo estava na pior? Usava a mesma roupa a semana inteira e nem penteava o cabelo direito. Passei a roer unhas e enfiar no umbigo. Os cabelos raspados das minhas axilas iam para minhas costas dos pés. Não é brincadeira, eu devia ter sido internada.
Sentava na janela da sala de chá, onde passava vários passarinhos. Um dia, um pousou na minha mão. Foi assassinado.
— Queria praticar a mira. – Explicou papai
Onde estava o homem que tocava para mim? Foi tudo uma farsa? Será que ele sempre foi assim e eu não queria ver? Era para a poção me deixar perfeita, mas estava me enlouquecendo. Não dormia direito e mal comia. Meu humor mudava todo tempo. E fiquei fanática em irritar meus pais para que me batessem.
Era um ciclo sinistro. Eu tomava um gole para ficar perfeita e agia como uma aberração para me tratarem como uma. Nas noites, papai e mamãe se acomodavam na sala de estar para ouvirem as notícias do rádio. Acho que Daphne dormia ou algo assim, enquanto eu lia mais um livro. A cada morte trouxa anunciada, meus pais comemoravam.
— Três mortes! – Anunciava mamãe rindo, com um copo de uísque de fogo na mão – Fantástico! Mandarei Maurice cavar buracos agora mesmo! O que acha de fazermos um grande buraco e colocarmos todos em um só?
— Fantástico! Veja, Daphne! Daphne! – Minha irmã saiu do corredor e se aproximou – Sente aqui, meu bem! Ouça com atenção! Um dia, você irá casar e será herdeira do nosso legado!
— Nosso legado, papai?
— Sim, o Lorde das trevas voltou e os negócios só aumentaram – Esclareceu mamãe – Semana passada, os Pucey nos pagaram uma fortuna para enterrar três crianças e os Nott pagaram o triplo por quatro adolescentes. Albert, acha que devemos usar mais dos nossos terrenos?
— É burra mesmo! E deixar de perder isso? Nunca! Só usaram nossos terrenos quando forem habitados por pessoas de confiança! Daphne, o que acha do filho dos Crabbe?
— Nem pense nisso, Albert!
— Qual o problema?
— Minha filha é linda, merece coisa melhor! Até porque, a menina dos Carrow está com ele. E a última coisa que precisamos é de um escândalo. E tratem de se comportar, teremos visitas!
— Mais comensais da morte, mamãe?
— Precisamos de vigilantes, meu bem – Segurou no queixo dela – Pena que o Black morreu daquele jeito, adoro enterrar traidores.
— Atenção, atenção – Chamou o homenzinho do rádio – Temos mais feridos! Repito, temos mais feridos! Sete senhoras foram gravemente feridas! Oh, esperem! Duas acabam de falecer! Repito, duas senhoras acabam de falecer!
— Glória ao Lorde das trevas!
Mamãe bebeu mais alguns goles e papai acendeu um cachimbo. Ele se virou para mim e não gostou do que viu. Tirei meus olhos do livro e o encarei.
— Oi, papai.
— Você é da família? – Não respondi – Oi? Você é desta família? Hora de ouvir mortes é a hora da família! Que lixo é esse que você está lendo?
— Não é lixo, papai. É ótimo! É Matilda, de Danny DeVito.
— Ma-o-quê? – Tomou meu livro e rasgou algumas páginas – Isso é porcaria! É lixo!
— Isso não é meu, papai! É lá da biblioteca!
— É lixo! Lixo! Lixo! – Jogou o livro no chão e o cuspiu – Eu já estou cheio de tanta leitura! Se é uma Greengrass, comece a agir de acordo! Se endireita e ouve o rádio!
Segurou meu rosto e o virou para o rádio. Os avisos de mortes faziam meus pais rir de felicidade e minha irmã de nervosismo. Aquilo me irritava tanto, tanto! Um ódio surgiu dentro de mim. Por que eles não eram enterrados? Por que eles não sofriam? Aquelas risadas me atormentavam! Ódio! Ódio! Ódio! O rádio explodiu.
— Eu não fiz isso.
— É claro que não fez, sua chatinha. – Chegou perto do rádio – Não tem capacidade pra fazer nada.
— Eu disse que era um rádio barato. – Bronqueou mamãe
— Não é um rádio barato, é um rádio roubado. Merda!
— Já para a cama, as duas!
— Ast – Chamou Daphne, subindo as escadas comigo – Vou ter que ter corpos no meu quintal?
— Se for o deles?
Dei uma risada e ela me acompanhou. Esses malditos anos foram baseados na pior época da minha vida. Bebi um gole antes de dormir, fiquei um pouco mais relaxada.
— Não confie em ninguém com vícios, Astória – Mandou mamãe, na hora do chá – Uma pessoa viciada nunca irá preferir você, sempre terá algo mais valioso.
O vício de mamãe era manter a beleza. Vovó Brigit faleceu após o parto e vovô Normam incomodava mamãe a dizendo que nunca seria bonita o bastante. Por isso que mamãe sente a necessidade de se sentir superior, é assim que nasce os bullies.
— Qual o pior vício, mamãe?
— O amor. – Ela bebeu um gole – Você pensa que é real, mas não é. Tudo não passa de uma doce ilusão. Imagine buscar algo que não existe. Melhor se matar logo.
— Já tentou? Já tentou se matar?
— Pare de falar asneiras, Astória! Pense, o mundo sem mim? Veja você, precisa de uma poção para ter um pouco de estrutura. E é bom que não conte a ninguém, imagine quanta vergonha.
— Sim, mamãe.
Bebi outro gole e mamãe sorriu orgulhosa. Tudo o que eu mais queria era um pouquinho da sua atenção. E se para isso, eu teria que me tornar perfeita. Assim seria. Molhei meu rosto e sorri, de frente ao espelho. Imaginei como seria se mamãe me abraçasse e dissesse que tinha orgulho da filha dela.
— Eu posso, eu quero, eu consigo.
Não, não consigo. Num dia que andava pelos corredores, sendo tomada pelas lembranças que tinha ali, vi Snape. De. Comensal. Da. Morte.
— Que porra é essa?
Ele pareceu um pouco surpreso e voltou a sua pose chata de sempre.
— Perdeu alguma coisa?
Dei um sorriso de drogada e me tranquei no quarto, peguei minha belezinha e tomei um gole. Meus dentes estavam ficando amarelados, passei a escová-los com mais força e tendo a gengiva machucada.
Uma das coisas que me animava era o disco que Neville tinha me dado. Havia muitas músicas boas. Ouvia música porque os livros não estavam mais sendo suficiente para fugir dali. E Daphne? Como ela andava? Ótima, Susan estava com ela. Não precisava de mim, ninguém precisava de mim.
O sino foi tocado, tomei mais um gole antes de descer. Mamãe nos aguardava com um sorriso estampado. Draco, Parsy, Blásio, Crabbe e Goyle a acompanhavam e de malas.
— Meninas, teremos hóspedes. Sejam gentis.
— Claro – desci os degraus – bem-vindo ao inferno, otários!
Fui para cozinha e peguei uma peixeira.
— Astória – Mamãe deu um passo para trás – Abaixe isso agora mesmo, mocinha!
— Por quê? Tem medo que eu arranque suas tripas, mamãe? Que eu faça um lindo cordão? Porque seria lindo! O cordão mais lindo de todos! – Cheirei o negócio – Cheirinho bom, quer sentir? Sente, mamãe! Sente!
— Abaixe isso imediatamente! E que roupa é essa? É assim que vai se comportar quando morar com seu marido?
— Se eu não matar ele antes.
— Abaixe isso!
Fechei a cara e acertei o balcão com força. Dei um grito e subi estressada para meu quarto. Olha, vou logo avisando que nesse meio tempo acontecerá coisas que não aconteceram e só foi o efeito da poção.
Outra coisa que mudou em mim foi que fui perdendo o controle das expressões faciais. Às vezes, as pontas dos meus lábios se mexiam sem eu mandar, formava um sorriso sinistro. Mordia o lábio para comer a pelezinha. Tinhas horas que eu agia como um animal selvagem.
— Já pensou em tomar banho? – Irritou Parsy, na sala de estar, cerrando as unhas – Faria bem.
— Estranho, você que está fedendo até agora.
— E pensar que já gostei de você. – Disse Blásio, surpreendido com meu comportamento
— De mim? Você nunca gostou de mim. Você gostou do fato de ser uma menina “esquisita” – fiz aspas – e poder sair com você. Me responde uma coisa, Zabine: o que é ser esquisito? É o fora do comum? E o que é o fora do comum? E se vivêssemos em uma sociedade em usássemos capas enroladas na cabeça. Besta como é, faria também. – Coloquei as mãos na cintura e arregalei meus olhos – Então isso é esquisito ou comum? Ou um esquisito comum? Ser louco num mundo perturbado não é loucura. É sanidade.
Pisquei os olhos várias vezes e senti uma certa dor de cabeça.
— Você está bem?
Assenti.
— Sim, só... Desculpe meu comportamento. Não foi adequado. Preciso me deitar um pouco, com licença.
Me deitar na cama? Não. Fui para a enorme biblioteca e peguei os livros de Astrologia. Rasgar eles me faziam bem. Sentei com as pernas cruzadas e tampei meus ouvidos. Falava as letras alfabeto, alguns números e até receitas de comida.
— É... Astória? – Chamou Daphne, me vendo deitada no grosso corrimão, de cabeça para baixo – O que está fazendo?
— Olhando as estrelas.
— Desculpe te dizer, mas é dia e tem vários quartos até que chegue no céu.
— O Sol é uma estrela, só não mais que você, maninha. Você é brilhante e fará grandes coisas.
— Claro, tem uma irmã que sempre me apoia – Pôs a mão na minha testa – Acho que está um pouco doente.
— Não estou não, não. Não! Estou ótima! Por quê? Mamãe acha que estou doente?
— Nem tudo o que mamãe diz é verdade. Sabe disso, não é?
— Daph, Daph – Me sentei e peguei nas suas mãos – A sra. Umbrigde me disse que os pais fazem tudo por nós e-e nos amam. Vo-Você acha que mamãe pode amar? A-Acha que c-consigo?
— Você é incrível, Ast!
— Não é o suficiente! – Bradou mamãe, no escritório – Não é!
— M-Mas eu fiz tudo o que a senhora pediu, mamãe!
— Não do jeito certo! Será que nunca vai entender como se anda direito? Ou como comer corretamente? E pare de gaguejar, detesto isso!
— D-Desculpe, mamãe! – Me ajoelhei aos seus pés – Me perdoe, mamãe! Farei melhor! Sempre o melhor! Não me deixe, por favor!
— Me solte! – Deu um chute em mim, com nojo – Praga! E se levante! É o quê? Um aborto?
— N-Não, mamãe. – Me levantei, limpei minhas lágrimas e o lance do sorriso automático aconteceu de novo – O que faço para agrada-la?
— Morra – Engoli um seco – Esteja em uma melhor situação daqui uma hora, na sala de duelos. Precisa aprender uma lição.
Lembro de como fiquei sinistramente aliviada. A poção me fez virar masoquista, apanhar dos meus pais era ter atenção deles. Prendi bem o cabelo e usei um vestido azul nem tão chique e nem tão simples. Lá estava Draco. Mal nos falávamos, ele preferia se isolar.
Sentei na janela e um passarinho pouso ali. O alisei, pensando o quanto queria ser ele. Fugir para bem longe.
— Aqui estão vocês – Bellatrix Lestrange entrou na sala – Meus aprendizes! Venham! Venham! Deixem eu olhar bem para vocês!
Mamãe me ensinou que olhar no fundo dos olhos das pessoas sem demonstrar medo ou arrepio é sinal de força. É ela era assim, Lestrange dava medo. Mas eu não ia deixar que ela percebesse.
— Bonitinha – Disse – Cabelo estranho, boquinha fofinha, uma dama. Foi para isso que sua mãe te criou?
— Sim, senhora.
— Eu, como irmã mais velha, sempre fui a mais obediente, mamãe tinha orgulho de mim! Quem sabe terá isso um dia – Uma pequena alegria surgiu dentro de mim, mas não mostrei isso – Só precisa – pegou a varinha – cruccio! — Draco caiu no chão e ficou se contorcendo – manter o controle. E não o ajude! Levante, Draco!
Após alguns minutos, ele se levantou com muita dificuldade. Minha pose de poderosa já era.
— Funcionaremos assim: quando um erra, o outro paga! Cruccio!
Então foi a minha vez de cair no chão e me contorcer. Uma dor que não desejo a ninguém. Draco não mexeu ou fez uma expressão que não fosse séria porque sabia que eu seria mais torturada. Esperto.
— Foi tão ruim? – Perguntou Daphne
— Pior que as aulas de Umbrigde.
— Credo!
— É, mas eu preciso.
— Pra quê?
— O mundo está cheio de vermes desgraçados – Ensinava Lestrange – Dizem que somos obrigados a conviver com isso – Ela explodiu um manequim com um feitiço e ele se uniu sozinho – Mas não somos! Será que temos que andar com aquela gentinha por aí? Ladrões de magia! – Acertou o manequim de novo – Infectados! E pior, traidores do nosso próprio sangue! Só de falar isso, me dá vontade de vomitar!
Jura? O exercício desse dia não era simples. Os manequins se tornavam as pessoas traidoras que mais mexiam com a gente. Ah, e eles falavam! Para Draco, apareceu Potter. O manequim dizia coisas horríveis, para nos irritar mesmo e dá nosso melhor. Qual era o meu?
— Ora, ora. Veja quem temos aqui – Gina – Se não é a estúpidazinha que não sabe fazer nada direito. Me diga, Astória, alguém te disse que te ama? Ah, é. Você não sabe o que é amor!
— Deffindo!
— É tudo o que pode fazer? Me cortar? Sempre soube que era uma inútil! Imbecil! Vai ver, por isso que seus pais não te-
— Avada kedavra!
O manequim caiu no chão e não voltou a vida. Lestrange gostou do meu empenho, embora tenha achado que enrolei demais.
— Pensei que não podia usar magia fora de Hogwarts. – Comentou Susan
— Nos dias de hoje, qualquer coisa vale.
— Astória. – Chamou Draco, na porta
O lance de ficarmos irritados com quem mais nos incomoda não foi nem um pouco legal. Agora imagine ouvir isso de quem você mais ama.
— Para ser superior, precisa nascer com isso. – Falava – Do que adianta ter nome e dinheiro, se não sabe seu proveito? Qualquer um pode te trair. Até quem você mais ama.
Se fosse um romance, meu manequim se tornaria ele e o dele, eu. Mas não foi – graças a Merlin.
— As damas primeiro.
Daphne olhava para mim com desprezo.
— Você, logo você?! Já devia ter imaginado! Sabia que mamãe vai me dá uma mansão de presente? Lá eu poder viver com meu marido e filhos, bem longe de você. Porque você não presta, é uma praga! Uma maldição! A maldição dos Greengras! Você me ama? Que fofinho. Porque não pega seu amor e-
— Silence! – O manequim teve os lábios grudados e ainda tentava se mexer – Cara-de-lesma!
Com a boca fechada, as lesmas tinham que sair por algum lugar. Seus ouvidos, vagina e anus soltava sangue, muito sangue. Seus olhos se fechavam de dor, ela se tremia toda. Aquilo não só torturava ela, me machucava também.
— Basta! – A manequim parou – É... Nojento, mas potencialmente doloroso. Bem que sua mãe disse que você era peculiar – E mais um gole seria tomado – Draco!
Me sentei onde ele estava e tomei um gole sem que percebessem. Draco ficava parado, ouvindo o que sua mãe manequim dizia. Fez lembrar a minha. Ela tinha um papo que a culpa do pai dele ser preso era dele e que devia fazer o melhor. Me sinto mal por ajudar seus amigos a se libertarem da Brigada inquisitorial? Nem um pouco, eu estava certa.
Saímos em silêncio, nossos colegas conversavam na sala de estar.
— Como foi? – Perguntou Daphne
— Legal. Com licença.
Legal, muito legal. Me tranquei no banheiro do meu quarto e vomitei na privada. Não conseguia olhar para ninguém naquele momento, nem para minha própria irmã. Não saí mais do quarto naquele dia, nem mesmo para comer. Coloquei minha camisola e contei as estrelas do céu.
— Ast? – Bateram na minha porta – Ast, posso entrar? – Abri a porta e vi minha irmã segurando uma vela uma cara preocupada – Você está bem? Não sai daí faz horas.
— Desculpe, eu... Não estava me sentido bem.
— Espero que esteja faminta, fiz a sua janta.
Sorri e abracei minha irmã. Sentamos na cama, conversamos e comemos bastante.
— Não gosto dela, essa Lestrange – Comentou Daphne – Tem cara de maluca.
— Nem me fale. Acho que ela se tornou comensal da morte mais pra torturar as pessoas mesmo.
— Aprendeu muita coisa?
— Nunca demonstrar fraqueza, feitiços, maldições, coisas assim. Ela só dá o básico pra mim.
— O básico de como ser uma comensal da morte?
— Eu não vou ser uma comensal da morte, Daphne!
— Eu sei, mas se for o que eles querem? E se quiserem novos comensais da morte?
— Qual é! Não tenho nenhuma estrutura pra isso. Morreria na hora.
Ouvimos algo sendo cavado e olhamos pela janela, Maurice fazia mais um túmulo e não tinha corpos por perto.
— Cacete.
Meus pais já tentaram me matar? Sim e não. Não receber afeto é um jeito de morrer lentamente. Ser mandada para um lugar que seria atacado também. Quase todos os dias, me afundava na banheira para sentir a sensação de quase morte. Claro que isso era mais para o lado metafórico, só passava três a quatro minutos.
— Oi, Astória – Francis sentou do meu lado – Como vai?
Diferente dos já citados antes, Nott, as Carrow que se juntaram a mansão, os Bulstrode apenas passavam as tardes e dormiam em sua casa. O que significava que tinha que aguentar Francis.
— Oi, como vai?
— Um pouco ansioso, ano dos N.O.Ms.
Francis era muito otimista, irritava quase todo mundo.
— Vai ser uma bosta – Revelou Blásio, na nossa frente – A chata da McGonagall quase que me pegava colando.
— Ninguém mandou não estudar – Rebateu Parsy – Minhas notas foram muito boas, diferente de certas pessoas.
Olhamos para Crabbe e Goyle, que rabiscavam revistas.
— Que pena que ainda estou no terceiro. – Irritou Daphne
— É, tem razão. – Brinquei – É esse ano que vai estudar sobre você, os vermezinhos.
— Ei!
Daphne jogou uma almofada em mim e ficamos rindo.
— Que tédioooo! – Exclamou ela, minutos depois – Ast, vamos brincar?
Todos estranharam o possível fato de uma garota de quinze anos ainda brincar. Caguei e andei pra eles.
— De quê?
— Sei lá, algo divertido. Corrida?
— Não.
— Ah, vai! Não me diga que está com medo.
— Exatamente isso. Estou morrendo de medo que uma menina tão veloz como você me ultrapasse. Seria humilhante.
— Por favoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo!
— TUDO BEM! – Me levantei – Vou logo avisando, vai se arrepender disso!
— É o que veremos. Que tal até a sala de assistir e volta? Papai está dormindo.
A sala de assistir era o último andar, com uma janela enorme onde papai pudesse apreciar a vista.
— Preparadas? – Perguntou Susan – Só vence quem tocar minha mão primeiro! UM! DOIS!
— TRÊS!
Daphne saiu correndo primeiro.
— FILHA DA PUTA!
E eu fui em seguida. Não teve música, mas finge que estava tocando Blitzkrieg Bop. Tentar falar como foi uma corrida é difícil, ainda mais quando já se passou mais de quinze anos. Saindo da sala de estar, tinha um grande hall e nesse hall, uma longa e comprida escada. A mansão devia ter uns seis ou sete cinco andares, imagine correr tudo isso.
Daphne correu para tocar a janela, eu só subi no último degrau e voltei.
— Isso não vale!
— Vale sim!
Lembro até que Daphne caiu no chão e foi rolando. Ajudei ela se levantar e a nojenta saiu correndo.
— Sua vagabunda!
— Eu vou ganhar! Eu vou-
Aquilo doeu até em mim. Logo no hall, ela não prestou atenção e bateu de cara com uma pilastra.
— Chupa, sua-
É, eu também bati em um. Ficou nós duas, jogadas no chão.
— Gente! – Chamou Susan – Só precisam tocar na minha mão! Alô?
Me levantei um pouco zonza, tudo tinha se multiplicado.
— Ganhei!
Não bati na mão certa e caí no chão.
— Nem uma simples corrida, você é capaz? – Brigava mamãe, no meu quarto – Inacreditável, Astória! As aulas não vêm te ajudando em nada?
— Mamãe, eu-
— Nem mais uma palavra! Astória, eu cansei! Não dá pra ser legal com você! A gente dá a mão, você quer o braço, cotovelo! Pra variar, me envergonha na frente de todos.
— Mamãe, eu-
— Não me interrompa! Você vai ouvir calada! Eu passo a minha vida cuidando de você e sua irmã! Eu dou tudo pra vocês! Tudo o que você tem é por minha causa! Minha! E o que eu recebo em troca? Humilhação, mal educação, desobediência! Cansei! E tire esse sorrisinho torto da cara!
— N-Não e-estou s-sorrindo, mamãe!
— Eu mandei parar!
Ela me estapeou, puxou meu cabelo, disse coisas horrendas. O pior foi ter que chorar enquanto meus lábios me obrigavam a sorrir. Um sorriso triste e deprimente. Depois desse dia, passei a tomar dois goles. A minha mente estava mais ferrada, sentia como se fosse explodir.
— O maior cofre do mundo é a mente. – Contava Lestrange – Ela guarda as informações mais secretas e absurdas que poderia ter. Apenas um tolo deixaria as emoções guia-lo. Devem aprender a proteger seus cofres. Não vão querer – estirou a varinha – invasores. Legilimens!
Draco caiu de joelhos e Lestrange pareceu sair um pouco de si. Uns três ou quatro minutos depois, voltaram ao normal. Ela olhou para mim e riu. Obviamente, ela invadiu minha mente. Passou por algumas lembranças: eu no Três vassouras, cantando, com Daphne, quando chegou em Luna, consegui resistir um pouco.
— Limpem suas mentes! Esqueçam que são gente a ajam como servidores!
Seguindo a mesma regra, se um falhasse, o outro sofria. Após umas duas ou três aulas, Draco pegou o jeito. Já eu
— Cruccio!
Já era a sexta aula e meu progresso era quase que zero.
— Queridinha, se quer que ele morra, fale logo.
— E-Eu estou tentando!
— Não é o suficiente! Você nunca será o suficiente! – Dizia a voz de mamãe dentro da minha cabeça
Havia um túmulo que eu gostava. Ele sempre estava cheio de flores e passarinhos em volta, o túmulo metafórico da rainha Clarisse. Sei que não gosto dela, mas sentar ali me dava um pouco de conforto. Eu sempre olhava para ele antes de ir para o balanço. Só não esperava que tinha gente sentada lá.
— Esse é meu lugar.
— Não sabia que tinha nome. – Provocou Draco
Sentei na terra e fechei os olhos. Tentei não pensar em nada, não deu certo. Minha tristeza e raiva era grande demais para que eu simplesmente ignorasse e me comportasse como uma pessoa forte. Uma dor de cabeça se apossou de mim.
— Você está bem, rainha?
Não era Draco que estava lá, era papai. Meu papai que parecia ser bonzinho, que cuidava de mim. Tinha seis anos e estava doente. Todas as noites, ele cantava para mim e me dava um beijo na testa.
— Papai? – Chamei
Não foi ele que entrou no quarto, foi mamãe. E com um travesseiro.
— Tenha bons sonhos, anjinho.
— AAAAAAAHHHHH!
Aquilo aconteceu? Como eu disse, estava me drogando. Pode até ter acontecido e eu não ter me lembrado. Embora lembre de ter acordado no meu quarto, com Daphne dormindo abraçada em mim. De manhãzinha, somente Draco sentava à mesa.
— Bom dia. – Desejei
— Olá.
— Eu... Queria pedir desculpas. Sei que não é nada fácil ser torturado por minha causa.
— Tudo bem. Nem todos nasceram para lutar.
— O que significa? Acha que não sou forte?
— Se até sua mãe acha isso.
Miserável. Para me fazer sofrer, devia estar sofrendo também.
— O que ele pensa que eu sou? Uma fraca? Que não consigo me defender?
— Você consegue? – Perguntou meu reflexo do espelho do banheiro
— Claro que consigo! Só estou passando por uma fase, poxa! Não ‘tá fácil pra ninguém!
— Já parou para pensar que você dificulta a sua vida?
— Aonde?
— Não sei. Sua roupa, por exemplo.
— O que tem minha roupa?
— Está totalmente fora de moda. Já viu as outras meninas? Sempre lindas!
— E o que você sugere que eu faça? Não é minha beleza que vai salvar minha vida e a da minha irmã.
— E sua beleza que te dará um marido rico e protetor. E não pense no Malfoy, ele tem outros objetivos.
— Não preciso me casar! Preciso ficar mais forte!
— Você precisa da atenção da sua mãe e é algo que nunca vai ter. Não nasceu para lutar, nasceu para ser protegida. Foi criada assim, como uma inútil.
— Eu não quero ser inútil!
— Então é bom que deixe suas emoções de lado. Querendo ou não, tem grandes informações que custariam muito se fossem reveladas. Tem que parar com esse drama de adolescente — Bateram na porta – Já está na hora de crescer, não acha?
Ela sumiu e fui abrir a porta. Segui Draco até a sala de duelos. Devia ser a oitava ou nona aula de oclumencia.
— Se prepare, Draco. – Recomendou sua tia
Ele não precisou, não deixei que ela entrasse na minha mente. Meu reflexo estava certo, precisava me comportar como uma adulta e parar com tanto drama.
— Bellatrix me contou do seu progresso – Comunicou mamãe, no chá das cinco – Devo dizer que não esperava. Apostei com Antônio que levaria dez anos para aprender, ele apostou cinco. Parece que nós dois perdemos, não é?
— Antônio? Que Antônio?
— Dolohov.
— Ah, claro. Não sabia que tinham se tornado amigos.
— Sempre fomos.
— Sim, claro.
— Está pronta? – Daphne perguntou, na minha porta
Dia de voltar a Hogwarts, estávamos loucos para sair de lá. Fomos do mesmo jeito de sempre, por táxis trouxas. Fiquei em uma cabine com Daphne, Susan, Francis e Sam Winchester, amigo de Daph.
— Prazer – Apertou minha mão – Acho que te conheço de algum lugar.
— Samy – Dean Winchester entrou na cabine e arregalou os olhos para mim – Astória Greengrass? Quem destruiu você?
Voltei a passar creme no cabelo e me vestir um pouco melhor. Minha loucura estava reservada somente para mim.
— Esse é ano dos N.O.Ms de vocês – Relembrou Mcgonagall – A cada hora que se passa não estudando é um desperdício...
N.O.Ms, ah, que delícia. Estudar, estudar e estudar. Alguns deixam para estudar somente após o natal, eu preferia me focar logo.
— Hoje só é o primeiro dia! – Reclamou Daphne, na janta, quando me via ler um livro de História da magia
— Por isso mesmo. Devia ter começado nas férias.
— Já sabe o que quer fazer? – Indagou Susan
Eu não sabia o que exatamente fazer, só que ia ajudar alguém. Só porque minha vida não teria paz, não significava que não poderia trazer aos outros.
— Ainda não. E você?
— Fazer vassouras.
— E vou montar nelas! – Afirmou Daphne – Quem sabe eu vire uma jogadora profissional.
— Se não cair antes.
— Ei!
A distância da mansão me fez bem. Voltei a ler romances e não chorar.
— Isso é pra ser um progresso? – Perguntou meu reflexo do espelho do meu quarto – Não chorar? Sabe o que é alguma coisa? Legilimência.
— Acho que Lestrange não vai querer me ensinar. E pra que eu vou querer isso? A vida dos outros não me interessa.
— Nem a do loiro bonitão?
— Não é da minha conta.
— Agora é sério, tem algo rolando com ele. E é bom ficar esperta, porque pode sujar pro seu lado.
— Sujar pro meu lado? O que isso...
Hestia e Flora entraram e franziram as testas.
— Com quem estava falando? – Interrogaram
— Ninguém. Só... Estudando. Com licença.
Antes de sair, o reflexo ficou rindo de mim. Tomei um gole da poção e fiquei estudando na biblioteca.
— Vocês souberam? – Perguntou Susan, no Três vassouras – Teve mais um ataque, uma família de trouxas foi morta.
Lembra da minha missão com Dumbledore? De fazer as pessoas mudarem de lado? Eu meio que tinha um grupo. Daphne, Susan e, de vez em quando, Francis. Tive que parar de ir na cabana de Hagrid porque sabia que podiam me vigiar e atacar Hagrid ou Daph.
— Não se preocupem, Dumbledore vai acabar com isso. – Esclareceu minha irmã
Daphne acreditava cem por cento que Dumbledore era a salvação e que iria ajudar a todos, imagine como ela ficou depois de sua morte.
— Oi, gentinha feia – Francis sentou com a gente – Oi, Astória.
— Oi, Francis.
Ele foi para o banheiro.
— Astória, sabe meu irmão Francis? – Perguntou Susan – Ele ‘tá solteiro agora.
É verdade que Francis era atraente, mas eu nunca tive vontade de namorar, entende? As garotas daquela idade morriam para arranjar um namorado. Eu morria para não reprovar em Astrologia. Essa matéria era muito chata e eu não me importaria nem um pouco se ela simplesmente parasse de existir.
— Esquece, Sue, ela já tem dono. – Informou Daphne
— Quem? – Perguntamos, eu tinha dono e nem sabia
— Como assim “quem”?
Ela indicou para Draco, que sentava sozinho em uma mesa. Sua pele estava mais branca que o normal e parecia não dormir há dias. Sempre usava roupas longas e pesadas. Ter o Lorde das trevas em casa não parecia ter feito nem um pouco bem para ele.
— Sem chance. – Desafiou Susan
— Sério? E por que ela olha assim pra ele?
— O-Olho como? – Balancei minha cabeça – Não olho de nenhum jeito, jeito nenhum.
— Claro que não – Ironizou a boboca – Quando olha pra ele, seus olhos brilham, ficam diferentes.
— ‘tá viajando legal, Daphne.
— ‘tô, é? Vou logo avisando que quero ser a madrinha do casamento.
Pior que ela foi.
— Cala boca!
— É sério! Não lê tanto romance? Devia comparar os seus lances por ele com essas menininhas chatas.
— Elas não são menininhas chatas e cala boca! Agora se me dão licença, eu vou trabalhar.
Mesmo sabendo que seria motivo de zoação, fui atender ele. Nervosa.
— Oi?
— Ah? Ah, oi, Astória.
Merlin, como ele ficava lindo usando aquele casaco azul! Meu reflexo estava certo, tinha algo de errado com ele.
— O que vai pedir?
— Acho que... Não sei... Eu...
— Draco, você está bem?
— Claro, por que não estaria?
Porque meu reflexo disse.
— Porque não parece bem – Sentei do lado dele – Posso fazer alguma coisa por você?
Passou alguns segundos até que uma resposta saísse de sua boca.
— Pode... Fazer um favor pra mim?
— Claro. Por tanto que não machuque ninguém.
— É...
— Não vai machucar ninguém, não é?
— Não, deixa de ser boba. – Soltou um risinho – Nem com o passar dos anos, você melhora.
— Muito menos você, com essa cara azeda. Vai diz, o que quer que eu faça?
Delicadamente, tirou um embrulho de seu bolso.
— Preciso que deixe isso no banheiro feminino, onde ninguém possa ver. Não toque e não olhe o que tem aí.
— Não pode me dizer o que é?
— Não.
— Vai te fazer bem?
— Se sair conforme o planejado.
— Por que não me parece que vai te ajudar?
— Vai me ajudar – Ele afirmou com toda certeza do mundo – Se der certo, vai me ajudar e ajudar muita gente. Por favor, Astória, faz isso por mim?
Eu não sabia que faria mal a alguém, eu juro que não sabia. Nunca que passou na minha cabeça que levaria uma garota à St. Mungus. Na verdade, eu não tinha tanta certeza assim, por isso fiz o que ele fez comigo há um ano. O prendi no armário de vassouras.
— O que você quer, Astória? Não tenho tempo! – Reclamou – Preciso ir pra casa!
— Mentira, que eu sei que você se inscreveu para ficar aqui!
— Parabéns, devia ser auror. Me deixa ir?
— Você soube? Soube da garota da Grifinória?
— Sim, todo mundo soube. O que você quer?
— Falaram que o colar amaldiçoado foi embrulhado. Eu perguntei à amiga dela, era do mesmo jeito do embrulho daquilo que você-
— É só existe um embrulho no mundo?
— Foi no mesmo dia, Draco!
— Se não queria me ajudar, era só falar, ok? Não sou obrigado a ouvir suas teorias malucas!
— Nos tempos de hoje, qualquer coisa é possível.
— Acha mesmo que eu – chegou bem perto – mataria alguém?
— Por quem você ama, mataria. Tenho certeza que por sua mãe, por seu pai, faria qualquer coisa.
— Você não?
— Então confirma?
— Não respondeu minha pergunta.
— Faria por minha irmã. Por meus pais... Muito difícil.
— Sabe – ele deu um risinho – tive medo quando conheci eles, eram muito estranhos.
— Eu também tive um pouco, quando vi os seus.
— Não parecia.
— É que eu era rebelde, pitelzinho.
— Não é mais?
— Não. Minha rebeldia custa caro, melhor ficar na minha.
— Se você me escutasse, se fosse pro lado-
— Que lado, Draco? Nem você sabe de que lado está!
— Fique do meu lado, Ast – Encostou a testa na minha – Fique do meu lado e não me deixe.
— Draco...
Eu gostaria de dizer que uma mão sua tocava meu rosto e a outra alisava minha cintura. Que ele me beijou lentamente e que foi se aprofundando cada vez mais. Que minha perna levantou, que soltou meu cabelo. Só que não foi. Não foi porque o imbecil do irmão de Gina entrou de mãos dadas com Lilá Brow. Weasley olhou para gente e, por algum motivo, se irritou. Foi mal dizer, mas ele era um mala. A única que não ficou constrangida foi a idiota da namorada dele.
— Foi bom falar com você, Draco.
Saí o mais rápido que pude, não queria ficar mais ali nem por um segundo. Tentei evita-lo para tentar esquecê-lo, ficava difícil com todos comentando sobre nós termos nos agarrado. Não paravam de falar disso, até vieram se meter na minha vida.
— Você sabe que tipo de gente que ele anda, Astória – Avisou Gina – Gente perigosa, comensais. – Chegou perto – Harry até acha que pode ser um.
— Eu não ‘tô nem aí pro que seu namoradinho acha, Gina. E na boa, cuida da sua vida, que eu ‘tô cuidando da minha!
— O que aconteceu com você, Ast? Desde o ano passado, você tem evitando eu e Luna. Sei que posso ter ficado um pouco mais ocupada, mas sinto falta das minhas amigas.
— Ah, você sente falta? Não pareceu quando me disse aquelas coisas!
— Me desculpa! Eu estava de cabeça quente, nada daquilo é verdade!
— Como posso acreditar em você se fiz tudo o que disse? Cai na real, Gina! Eu não sou que nem os seus amigos bonzinhos e gentis, não! Eu sou ruim, muito ruim! E é bom que não se aproxime pro seu próprio bem!
— Quanta bobagem! Astória, você não é seu sobrenome! É minha amiga!
— Fui sua amiga! E nem todo mundo pensa assim.
— Fala de Rony? Porque, se for, eu-
— Não é ele. Pessoas do mal.
— Fizeram algo com você? E se eu falar com a Ordem da Fênix? Podem te ajudar!
— Não, pode arruinar tudo. Me esquece, Gina! Viva a sua vida bem longe de mim, ok? Não quero ter que estregar mais ninguém.
— Ast...
Bebi três goles, no meu vazio quarto.
— Que deprimente — Soltou meu reflexo – Você diz que as pessoas te machucam, mas é você que se deixa ferir.
— Vai embora, por favor.
— E ver esse showzinho? Fui, fracassada!
— É o que não tolero em minhas aulas, fracasso – Dizia Snape – Não é qualquer um que passa no meu N.O.Ms, então é bom que abandonem suas atividades inúteis e se esforcem. – Papéis caíram em nossas mesas – Todos receberam uma poção, escreverão um relatório completo e produzirão em sala de aula em um mês.
— Com qual poção ficou? – Perguntou Daphne, no salão comunal
— Poção Wiggenweld. Eu ‘tô frita! Imagina a minha cara fazendo essa poção na frente de todo mundo – Deitei a cabeça no centro – Vai ser o maior desastre!
E foi mesmo. Poções não era bem meu forte, mas conseguia lidar. Fiz o relatório em quatro dias, impecável. Aprendi a poção em duas semanas – tinha outros deveres.
— Você não está nervoso? – Perguntei a Francis no corredor
— Que nada, isso é moleza. Peguei poção Volubilis. Leva o quê? Quinze minutos?
— E apresentar na turma? Você não tem medo? Só de pensar em todo mundo me olhando.
— Você não fica assim quando te olho.
— É diferente, sei que não vai me zoar.
— É só manter a calma, manona – Recomendou Daphne – Parece o Longbotton com medo do Snape.
Daphne não ficou com raiva, mas tem uma leve irritação com Gina e Neville por me abandonarem.
— Não é medo de Snape, é das pessoas da sala. Vão olhar pra mim e-e m-me o-ouvir-
— É só pensar que ‘tá todo mundo pelado. – Sugeriu Susan
— Eca! — Soltou meu reflexo do Lago negro — Essa menina é estranha.
— Nem tanto, já ouvi falar que algumas pessoas fazem isso.
— Você sabe o que precisa fazer! Precisa beber outro gole! Outro gole agora!
— Outro agora? Bebi quando terminei de almoçar.
— É por isso que dá tudo errado, você nunca ouve a razão! Besta!
— Está bem, está bem! Eu vou beber!
Peguei a garrafa presa na minha coxa e ouvi algo se mexer. Segurei minha varinha.
— Expelliarmus!
A varinha da outra pessoa parou na minha mão.
— Me devolve isso agora!
— Parsy Parkinson? Estava me espionando?
— Não... Claro que não... Me devolve agora!
— Por que estava me espionando?
— Por que não para de falar merda antes que eu quebre seu lindo rostinho?
— Tudo bem, eu posso te devolver e contar a todo mundo.
— Todo mundo? Só fala com a sua irmã e a amiga estranha dela! O que é isso que você tanto bebe?
— Água.
— Mentira, ninguém bebe tanto assim! Não é álcool porque está sóbria. E dá pra ver que é sério, você ‘tá muito estranha!
— É a Guerra, ‘tá legal?
— Não é só a Guerra! Não sou burra, sei o que está acontecendo!
— Toma – Joguei a varinha para ela – E vê se me deixa em paz!
Caminhei para Hogwarts.
— NÃO PODE FUGIR PRA SEMPRE, GREENGRASS!
A vadia estava certa. Tentei não lembrar muito disso e focar no meu dever de poções.
— Ok, Francis e Susan vão ser seus colegas de classe e eu – Daphne colocou uma peruca preta muito engraçada, no salão comunal – Vou ser o Snape.
— Sério isso? – Indaguei
— O que disse, Greengrass? – Daphne interpretou Snape e a gente riu – Pode começar.
— Está bem. Eu... Eu preciso me apresentar?
— Está fazendo eu perder tempo, Greengrass.
— Desculpe... Professor. A poção wiggenweld serve para curar ferimentos leves, despertar de um sono, coisas assim.
— Assim como?
— É-É... – Francis levantou a mão – Sim?
— Cura sua lerdeza?
— Ei! – Bradou Susan – Pega leve, cara!
— A galera da sala não vai pegar nada leve. Desculpe, Ast.
— Tudo bem, eu tenho ser forte. Precisa colocar sangue de salamandra na poção até fique vermelha – Fiz – E...
Fazer com eles três era um pouco fácil, mas em uma sala onde mais de vinte pessoas? Tentei superar meu medo de diversas maneiras.
— Tente falar com um estranho. – Recomendou Francis
— ‘tô falando agora.
— Sabe, Astória, as pessoas têm sentimentos.
— Ah, desculpe, mulherzinha. Não sabia que ‘tava de TPM.
— Terrível, é o que você é.
Digamos que falar com um estranho não foi fácil. Conseguia no Três Vassouras porque só perguntava o que iam pedir, respondia onde ficava o banheiro e se tinha algo ou não. Toquei no ombro da pessoa, Anna Abott. Ela se virou e eu não pensei em nada para dizer. Fiz sinais com as mãos – fingindo ser libra. Sabe qual foi a pior parte? A amiga dela fala em libras e fez uns sinais lá.
Dei um sorriso forçando e fui embora. Francis não parava de rir de mim.
— Ah, cala boca! – Mandei
— Não pode dizer que não foi engraçado.
— Não foi não!
O segundo jeito foi tentar falar em voz alta.
— Acredite ou não, já fui tímida. – Contava madame Prince – Meus únicos amigos eram as fotos dos autores de livros e eles nem falavam. Tente ler em voz alta, pode ajudar.
O problema é que meus livros eram um tanto picantes. Se eu lesse aquilo em voz alta, não voltaria a falar nunca mais. E quando fui ler um livro inocente, lia bem baixinho.
— ‘tá fazendo magia das trevas, meninas?
E lá se foi o segundo jeito. Tiveram outros, mas não importa. Me rendi ao mais óbvio.
— Eu sabia que você ia voltar – Falou meu reflexo no espelho do banheiro – Que viria rastejando.
— Cala. A. Boca. – Bebi um gole – Era pra me fazer perfeita, por que ainda estou tão errada?
— Poção nenhuma vai concertar seus erros! Se você quisesse, quisesse mesmo, já teria conseguido!
— Eu quero! QUERO MUITO! Me ajuda, por favor!
— Então beba mais um gole.
O sinal tocou então tive que beber rápido. Fui uma das últimas a entrar na sala, não estava nada bem. Me sentei ao lado de Francis – que mandou muito bem, por sinal. Dizia para mim mesma: eu quero, eu posso, eu consigo.
Minha visão ia e voltava como pisca-pisca; minha cabeça doía; meus lábios se mexiam direto; minhas pernas não tinham forças; minha respiração estava pesada; meu estômago se remexia; e o pior, via todo mundo nu.
— Astória, você quer ir embora? – Perguntou Francis, segurando minha mão
— Estou ótima, estou perfeita.
Tentei me concentrar na apresentação de Colin. Se quer saber, ele mandou muito mal e não tiveram tanta gente compreensiva assim.
— Greengrass. – Chamou Snape
— Vai na fé. – Desejou Francis
— Eu posso, eu quero, eu consigo. Eu quero, eu posso, eu consigo.
— Greengrass.
Olhava sempre reto, não estava nem um pouco a fim de ver o bilau do Snape. Coloquei os ingredientes e olhei para todo mundo. Nus. Respirei fundo.
— Ah... Ah... Eu... Vou... MostacomsefazapoçãoWiggewede.
Algumas pessoas riram.
— O que disse? – Interrogou Snape
Respirei fundo.
— A poção... Poção Winggenweld... Mostrar agora. É. Cura... Cura p-pessoas, p-pesso-oinhas. A-A salamandra... O sangue... – Peguei o frasco – Colocar... Sangue. – Respirei fundo e falei bem baixo – Precisar colocar sangue de salamandra na poção até que fique vermelha.
— Fale mais alto!
— Eu preciso falar mais alto?
— Eu preciso te dá uma boa nota?
— Está bem, está bem. – Olhei para o fundo da sala – O sangue de salamandra... Precisa até... Precisa colo-colo-car-car até... A poção... Poção vermelha. – Olhei para as pessoas, muitas seguravam o riso – É-É... Necessário.
Coloquei na poção e meu reflexo olhava feio para mim.
— Quê? – Sussurrei
— Você é uma vergonha, Astória!
— Fiz o que disse!
— Greengrass! – Chamou Snape – Prossiga!
— S-Sim, senhor.
As risadas já não eram tão escondidas.
— Mi-misture até – Deixe a colher cair no chão – Droga!
Me abaixei para pegar e bati com a cabeça na mesa, todo mundo riu.
— Espero que consiga fazer a poção para melhorar esse machucado. – Zombou Snape e as risadas duplicaram
— S-Sim, senhor. É... A colher... Colher... Colher...
Não deu mais, senti a poção pela garganta. Coloquei a mão na boca e saí correndo o mais depressa possível. Pude ouvir as pessoas rindo e batendo palma. E para piorar, o sinal tinha tocado e um monte de gente passava pelos corredores. E o que aconteceu? Vomitei nele.
— Sua estúpida nojenta! – Bradou Miguel Connor – Olha o que você fez comigo, sua vagabunda!
Não conseguia falar mais nada, meus lábios tremiam e meus olhos se embaçavam com as lágrimas.
— O que está acontecendo aqui? – Interrogou McGonagall
— Olha o que essa cretina fez comigo, professora!
— Des-Desculpa.
Corri de novo e entrei no banheiro mais próximo. Me tranquei no boxe, sentei no vaso sanitário, abraçando minhas pernas e chorando baixinho.
— Você soube?
— O quê?
— Aquela garota esquisita. Como é mesmo o nome? Green... Griver... Alguma coisa assim.
— O que ela tem?
— Vomitou em Miguel Connor.
— Sério?
— É, menina. ‘tô te dizendo! Sempre achei ela doida, corria por aí que nem uma destrambelhada. Não me admiro que seja assim.
— Deviam internar ela.
Até eu preferia isso do que voltar.
— Não pode se esconder pra sempre!
Saí do boxe e vi ela com aquele olhar sínico.
— Qual é! Acha mesmo que tem alguma moral? Tínhamos um trato!
— Trato? Que trato? – Meu reflexo cruzou os braços – Eu não me lembro de feito um trato com você!
— Tomei um gole, como você disse! E o que aconteceu? Paguei o maior micão!
— Se você nã-não sabe falar, a culpa não é minha! Horas e horas de desperdício, treinando para aquela... Merda! Que bom que não foi para Beauxbotons, imagine a vergonha.
— Vergonha, eu...
Ouvi risadinhas, meninas me espiavam na porta saíram correndo.
— Ótimo, agora acham que sou maluca.
— E não é? Você está falando com seu próprio reflexo porque não tem ninguém para conversar. É capaz delas nem mesmo existirem.
O louco é que nunca mais as vi.
— Você não aprendeu nada com a Lestrange? Até deixar seus sentimentos mandarem, é assim que vai ser tratada! Não lute pelo bem ou pelo mal, lute por sua irmã! Acha que ela merece ter uma irmã defeituosa como você? Seus pais já bastam, ela não tem mais ninguém.
— Astória – Gina entrou no banheiro desesperada – Vi o que aconteceu com você, te procurei por toda parte. Está melhor? Precisa de alguma coisa?
Olhei para meu reflexo, tinha voltado ao normal. Mas seu conselho, não foi.
— Estou ótima, obrigada.
— Não, você não está – Segurou minhas mãos – Vamos falar com McGonagall, ela não é Dumbledore, mas pode ajudar.
— Eu disse que estou ótima – Tirei minhas mãos das dela – E vejo que também está. Boa tarde, Gina.
Se passam anos e ainda a chamo pelo primeiro nome. Por onde andava, ouvia múrmuros. Preferia não prestar atenção e me comportar como o adequado.
— Ast! – Daphne me abraçou com força, quando entrei no Salão comunal – Francis me contou, não liga pro que esses idiotas estão dizendo, ok? Você é incrível, só ficou um pouco nervosa.
Dane-se, era minha irmã.
— Não sei qual foi a pior parte – Sentei na poltrona – Gaguejar, falar rápido demais ou vomitar?
— Não esqueça de que bateu a cabeça na mesa. – Acrescentou Francis
— Ah, vai se foder! – Daphne e Susan arregalaram os olhos – Oh, nossa. Astória falou palavrão. Grande merda. – Peguei o frasco da minha perna e tomei um gole, minha cabeça ficou mais leve – Isso é ótimo.
— O que é isso? – Perguntou Daphne
— Vida, Daph.
Soltei meu cabelo com um pouco de dificuldade.
— É lindo, não é?
Passei a mão nele e fios de cabelo se soltaram.
— AAAAAAAAAHHHHHH!
Levantei da cama. Como fui parar ali? Só sabia que o colchão estava um pouco úmido por causa do meu suor. Desci para o salão comunal e vi Draco cochilando na nossa poltrona. O centro tinha alguns ingredientes, livros e um caldeirão.
Toquei em seu frio rosto, ele piscou os olhos algumas vezes e bocejou.
— Melhor dormir.
— Digo o mesmo a você, sou monitor e... – Esfregou os olhos – Tenho muito o que fazer.
— Coitadinho, deve ‘tá tão cansado. Precisa de um trato.
— Não me provoca, Astória.
— No que vem trabalhando?
— Não posso falar.
— Não vai dá nem uma dica?
— E perder a oportunidade de ver a auror em ação? Não.
— Não vou ser auror.
— Não?
— Não. – Segurei suas mãos – Quero ajudar pessoas, não sei como, mas quero. Acha que consigo?
— Me ajudaria se me deixasse acordado.
— Está bem.
Sentei no chão e ele sentou atrás de mim, apoiando todo seu corpo dormente sobre o meu. Como tinha aprendido em todas essas semanas, fiz a poção Wiggenweld. Não ajudava ter um corpo pesado como o dele em cima de mim, mas fazia bem ao mesmo tempo.
Sua testa colada em meu ombro e suas mãos me abraçando me deixava e ainda deixa louca.
— Pitelzinho.
— Hum?
— Precisa tomar isso pra ficar acordado.
— Deixa eu ficar aqui mais um pouquinho?
— Tudo bem.
Alisei o cabelo dele e dei um beijo. Tão cheiroso. Apoiei ele no sofá, abri sua boca e despejei a poção. Piscou os olhos de novo, sorriu e encostou sua testa na minha.
— Tem os olhos mais lindos do mundo, rainha. Obrigado.
Sorri, um sorriso que não foi por causa da poção. Foi por causa dele.
— Devia ter feito mais depressa – Avisou Snape, vindo não sei de onde, e nos separamos rapidamente – Embora tenha funcionado. Avaliarei bem seu caso, Greengrass. Para cama!
— Sim, professor. O-Obrigada.
Me levantei e fui para meu quarto. Rapidamente, senti os dedos de Draco tocando os meus e vi aquele pequeno sorriso de orgulho.
— Eu disse – Repetiu Luna, me acompanhando na ida ao Três Vassouras – Ele gosta de você e você dele.
— Digamos que não estamos muito no clima de romance agora. E tenho certeza que isso não vai dá certo.
— Por quê?
— Somos muito diferentes. Seguimos caminhos que não irão se cruzar.
O que quis dizer é: eu sou doida e não posso ficar com ninguém, colega.
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