Vossa Alteza
1 8 de abril de 1855
Notas iniciais
Então, venho aqui dividir essa ideia que tive de uma hora para outra. Bem, vai funcionar assim:
1 - eu chamo todos meus Primeiros Capítulos de Capitulo Teste. É o capitulo que, se tiver uma boa repercussão, eu continuo a historia. Se não, excluo. Então se leu, deixe pelo menos um gostei. Vai fazer diferença pra eu continuar.
2 - se a historia vingar, postarei semanalmente. E, claro, o próximo dia seria quarta que vem.
3 - como disse, inicialmente a história apenas vai ter INSINUAÇÕES DE SEXO e NUDEZ. Ela pode vir a ter HENTAI e/ou ORANGE. Ainda é algo que irei avaliar. Lembrando: PODE VIR. Se você não gosta desses gêneros, não feche de uma vez. Nem você e nem eu sabemos se vai acontecer. E, se for o caso, mudarei a classificação e colocarei os avisos necessários.
4 - amo vocês por lerem s2
Eu nasci em algum beco sujo de Paris, e fui criada em vielas ainda mais sujas, comendo o que jogavam fora e tateando bolsos à medida que era necessário. Mesmo assim eu gostava da minha casa, gostava de Paris. Pois quem não fica confinado a quatro paredes pode dizer que o mundo é sua casa.
Mas eu me contentava com a suja Rua das Damas.
Eu não sabia ler, e era assim que todos se referiam a ela, Rue de Demes, e era para lá que eu voltava todo dia. Provavelmente eu havia nascido ali, mas minha mãe nunca apareceu, e nem meu pai. Foi Feur, a puta chefe, que me amamentou e me enfiou o mínimo possível de comida até eu crescer e poder sair por ai, procurando eu mesma.
Alguns me chamavam de mendiga, outros de ladra, mais comumente de nomes menos amistosos. Mas o mais popular eu mesma havia me dado: Fantasma. No meio da multidão das ruas, chapinhando em lama e esgoto, ou deslizando de uma sombra para outra, minha primeira lição de vida foi não existir.
Foi nas ruelas e becos que eu aprendi a lutar. Foi andando em meio ao esgoto a céu aberto que eu aprendi que existem coisas na vida para se ter nojo, mas para me enojar era realmente difícil. Foi brigando que eu sobrevivi. Posso ter cicatrizes, posso ter marcas, mas tenho orgulho delas. Elas me lembram de quem eu sou, de quem eu fui. De onde eu vim.
Meu nome é Blanka. Só Blanka.
Eu não tenho pai ou mãe, ou qualquer tipo de família. Quero dizer, com toda certeza houve um homem, uma mulher e uma foda, resultando em outro ser da mesma espécie (apesar de haver divergências), no caso eu. E eles, meus afortunados pai e mãe, deviam ter pais e mães também. Talvez irmãos, primos, tios. Quem sabe avós? Mas, de qualquer forma, nenhum nunca me apareceu. Fui encontrada em um beco quando ainda estava suja de sangue, horas ou até mesmo minutos depois de vir ao mundo. Eu chorava, me contaram, largada à própria sorte. Largada para morrer era o mais esperado. Que recém-nascido consegue se cuidar?
Seja quem for meu pai e mãe, ou tio, ou avós, ou bisavós eles se livraram de mim assim que sai de dentro da mulher. Não imagino o porquê. Talvez sejam meus olhos encantadores.
Eu apenas não tenho uma família. O mais perto que cheguei disso durante toda minha vida foram as garotas e mulheres da Rue de Dames, e elas nunca foram exatamente minha família. Sei que não posso falar muito, afinal, não tenho nada com o que comparar. Mas eu observava as vezes as famílias pelas ruas. Os nobres de Versalhes, os burgueses, os pobres. Qualquer grupo que consistia de um homem, uma mulher e crianças. Nenhuma das putas segurava na minha mão, ou limpava o meu rosto, muito menos sorria para mim e me afagava os cabelos.
Tinham medo demais para isso.
Então eu sou grata por não terem me deixado morrer, mas só.
Também não tinha amigos. As outras crianças, meninos ou meninas, mais velhos ou mais novos, órfãos ou não, se mantinham a braço ou mais de distância. Uma única vez fui incomodada, e foi para nunca mais. Uma gangue de pirralhos de nove a catorze anos querendo minha refeição do dia (e era uma ótima, havia afanado a bolsa de uma velha com um vestido caro e comprado pão e um pouco de carne) e achando que iam conseguir apenas porque eram sete, e eu apenas uma. Uma garota magricela. Principalmente uma garota.
Ganhei minha primeira cicatriz nesse dia, bem acima do ombro esquerdo, quando o mais velho, encurralado como um cão, me acertou com uma garrafa quebrada. Tive que devolver o favor, mas ao contrário dele, não me limitei a um corte no ombro. Eu não gostava de sua voz, então fiz com que não falasse. Um corte na garganta o deixou silencioso para sempre. Mais tarde fiquei sabendo que cinco dos seis restantes não sobreviveram aos ferimentos. Por minha culpa ou culpa de serem pobres e não poderem ir a um médico para melhorarem, já não é da minha conta. O único restante, um rapazinho miúdo que era o mais novo e que eu deliberadamente deixei fugir (ele parecia aterrorizado desde o início), nunca mais foi visto. Havia boatos de que ele havia ido para o porto e pegado o primeiro navio para um lugar bem longe.
Longe de mim.
Pois quem em sã consciência iria querer ficar perto de mim?
Ora, se antes não gostavam de mim pela minha aparência, depois do que aconteceu no beco eu fui oficialmente marginalizada. Eu podia ouvir os sussurros, os cochichos, os olhares. Eles me acompanhavam aonde quer que eu fosse, contanto que eu aparecesse, o que me fazia desaparecer cada vez mais. Contanto que eu sumisse, o Fantasma de Paris seria apenas uma assombração esquecida.
Eu era o monstro, era o demônio, era a aberração, a assombração, a maldição. Lembro de uma vez, enquanto explorava Paris. Eu devia ter quatro anos, quem sabe três, e havia conseguido pegar uma balsa para Île de la Cité, uma das ilhas do Rio Sena. Eu havia querido conhecer o centro da capital, e suas tão faladas catedrais.
Havia andando durante todo o dia, tomando cuidado para ainda ficar invisível, indo de leste a oeste, de norte a sul. Lembro que havia um grande palácio ao oeste, e, mais a noite, fui ver a Sainte-Chapelle. Era linda, me lembro. De tudo, o que mais se destacava, eram os vitrais emoldurados por um delicado trabalho em pedra, com rosáceas acrescentadas a capela superior. Era hora da missa quando entrei e quando me deixei admirar os vitrais. Eu ainda tinha apenas três ou quatro anos, eu ainda queria chegar mais perto daquela coisa bonita. Foi quando dei um passo para o lado, e uma mulher com um nariz enrugado que já olhava para os lados (talvez esperando alguém), anunciou a minha chegada com um grande, grande berro.
Lembro da agitação, lembro de como todos deram um passo para trás. Mulheres indo para trás de seus maridos, crianças sendo puxadas para os braços protetores das mães, bebês chorando com toda aquela comoção. Lembro que fui levada para o altar e lembro do padre me olhar com olhos pequenos e assustados, os lábios trêmulos.
— Que Deus nos proteja. É uma aberração, a própria filha da Serpente, assombração! Fantasma!
Eu me soltei dos braços dele, dei meu jeito de ir embora e não apareci mais. Se até um homem ensinado a pregar a palavra de Deus me considerava um monstro, aprendi que era isso que eu era. Deus não existia para mim, eu já estava condenada ao Inferno por apenas ser quem eu sou. Pela minha aparência que todos têm tanto medo e se afastam.
O padre estava certo. Eu era um fantasma. Uma aberração. Mas ele não podia dizer o quanto eu adorava esse fato. Eu era diferente. Minha aparência era minha sobrevivência. Nem mesmo adultos vinham me infernizar, e eu podia viver minha vida com uma relativa paz.
Tudo porque eu tinha cabelos brancos como osso, e olhos vermelhos como sangue.
E com isso consegui levar minha vida, sobrevivendo dia após dia e ano após ano. Roubando, brigando, matando quando necessário. Aquele garoto do beco tinha sido meu primeiro e, depois dele, construí um caminho de sangue atrás de mim. Não era que eu, deliberadamente, saia por aí buscando alguém para me engalfinhar. Não era isso. Absolutamente, eu me considerava alguém que não brigava muito. Mas se algum homem quisesse me colocar em uma barca para nunca mais ter liberdade, ou quisesse meu dinheiro ou minha comida, eu era obrigada a tomar alguma providência. Era a lei do mais forte. Ou, no caso quando era uma criança, do mais inteligente, rápido e ágil.
Mas não se pode ganhar todas.
Aprendi a roubar antes de falar, aprendi a passar despercebida antes de entender direito o porquê. E eu era muito boa nisso. As pessoas nunca percebiam que suas coisas sumiam, não até eu estar bem longe e com a refeição garantida. Porém, daquela vez foi diferente. Olhando para trás eu agradeço pelo que aconteceu. Afinal, quase ter a mão arrancada fora me garantiu uma vida completamente diferente.
Foi com oito anos que isso aconteceu, e foi com oito anos que eu conheci ela.
Fui descuidada, fui apressada. Estava muito quente, minha pele estava coçando e ardendo (porque eu nunca tinha me dado com o Sol) e eu só queria uma maçã antes de desaparecer em alguma sombra e ficar protegida. Eu esperei até o dono da banca dar as costas e estendi minha mão. Mas não reparei no outro que estava mais atrás, justamente de olho para nada ser furtado. Tive meu pulso agarrado por dedos do tamanho de toras e uma mão pesada como uma pedra.
Lembro que me senti congelar logo ali. Estou perdida, pensei. Eu poderia tentar me soltar com um puxão, mas se eu escapasse de um, o que eu faria com os outros? O dono tinha se virado (tão grande e largo quando o que me segurou), e algumas pessoas olhavam o que acontecia. Na verdade, cada vez mais pessoas olhavam o que acontecia. Os que reconheceram o emaranhado curto e imundo que era meu cabelo, ou o brilho dos meus olhos, ou até a brancura excessiva da minha pele, olhavam o Fantasma ter sido pego. Eu tinha me livrado até agora, tinha sempre conseguido salvar minha pele. Mas ali seria diferente. Tudo estava contra mim. A massa de pessoas em volta, me impossibilitando uma rota fácil de fuga, o homem esmagando meu pulso, o calor que me fazia querer encolher na sombra mais próxima.
Fui arrastada até o meio da praça como um animal, e eu estava rosnando e me debatendo como um. Nos portões do palácio o comercio era sempre lotado, então não faltou pessoas para ficarem paradas observando uma criança órfã de rua prestes a ser mutilada por estar com fome e tentar pegar uma maçã. Não eram as leis do rei, mas quem se importava? As leis e a realidade das ruas sempre foram coisas completamente diferentes.
Mas a vida, o destino, eles tinham formas engraçadas de agir. Como eu disse, olhando para trás, tenho que agradecer. Não pode ter sido consciência. Eu nunca era pega, sempre me dava bem. Mas naquele dia, naquele momento, fui flagrada e exposta. Se não tivesse acontecido naquele exato momento, e se eu não tivesse levantado o olhar naquele exato momento para buscar apoio de qualquer um que se solidarizasse ao menos um pouco com minha situação (inútil, claro, eu não era nada popular, ou até era, mas de um jeito nada bom), eu não teria captado o olhar dela. Eu não pediria “por favor” pela primeira vez na minha vida. E não teria pensando que, se fosse para acontecer, iria ser bom acontecer enquanto eu olhasse para o mar, uma imensidão azul, curiosa e confusa. Eram muito bonitos.
De qualquer forma, seus olhos foram para o meu rosto e então para minha mão segurada, até finalmente ir para o dono da banca, que estava com o facão em posição para me deixar com uma mão a menos enquanto seu companheiro me deixava firme no lugar. Era isso. Eu, realmente, estava perdida. Perder uma mão, ficar aleijada, seria quase a morte. Eu precisava de todos os meus sentidos possíveis para sobreviver nas ruas, para ainda continuar “no topo da cadeia alimentar”. Perder uma mão, justo a maldita mão com que eu fazia tudo, seria como o fim. E talvez eu merecesse isso. Eu roubava, brigava, matava, mentia e, com certeza, não vivia nas leis de Deus. Talvez me tornar uma aleijada fosse minha recompensa pela vida que levei, por ter sequer cometido o erro e a afronta de nascer.
Não havia nada em mim que valesse a pena, de qualquer forma. Eu não tinha família ou amigos para chorarem por mim, e nem levava uma vida direta para ser “desperdiçada”. Também não tinha sonhos ou aspirações para chorar por tê-los arrancados de mim. Era uma órfã moradora de rua, que roubava para comer, matava quando necessário e estava completamente sozinha no mundo.
Mas acho que, pela primeira vez na vida, havia encontrado alguém que discordasse. Alguém que achasse que eu não estaria melhor morta, ou bem longe. Alguém que me encarou nos olhos e, ao menos uma vez, não soltou um grito ou deu um passo para trás. Alguém que viu algo em mim, algo que nem eu mesma vi. Alguém que acreditou.
— Parem! Parem agora! – a garota gritou, mas eu quase ri com aquilo. Os gritos de uma criança não costumavam ser ouvidos por uma multidão clamando por sangue. Mas os gritos do rei eram outra história.
— Parem! O que está acontecendo aqui? – o rei era um homem bonito, era na época e ainda o era hoje em dia. Tinha cabelos castanhos e incríveis olhos azuis, mas não eram nos olhos dele que eu estava interessada. Aquele foi o dia em que nasci de novo.
Eu nunca fui grata ao rei. Ele teria passado por aquilo sem olhar duas vezes.
Eu devia minha vida a ela.
Apenas ela.
Minha princesa.
Scarlett Rousseau Brunet Blanchard de Dubois.
— Chama-me de Scar. – ela pediu com um sorriso gentil quando fui colocada em cima de seu cavalo por um dos seus irmãos mais velhos (eram quatro, todos me olhavam com um rosto nada feliz para mim e descrente para o pai, afinal, o que ele estava pensando concordando com aquilo?) e começávamos um trote calmo em direção ao palácio.
Eu nunca tinha dividido um cavalo antes.
Eu nunca montado em um cavalo antes.
Eu nunca tinha entrado no palácio.
Eu nunca tinha ficado tão perto ou sequer visto alguém da realeza.
E nunca, ninguém, em toda minha vida, havia me dado um sorriso gentil.
Isso faz nove anos e, desde então, eu venho morando no palácio. Antes eu tomava banho uma vez por ano, talvez duas, mas isso apenas aconteceu uma vez e foi quando invadi uma casa (que, aliás, a história não terminou nada bem, ganhei uma cicatriz naquele dia, bem nas costas quando o atiçador em brasa me atingiu enquanto eu fugia). Agora eu tinha uma banheira com sais perfumados todo os dias. Antes eu abaixava as calças e fazia as necessidades em qualquer lugar minimamente reservado. Agora eu tinha um sanitário, e alguém para limpá-lo. Antes eu tinha sorte se conseguia meio pão ou uma fruta para comer em algum momento do dia. Agora eu tinha refeições fartas três vezes por dia.
Era óbvio que minha vida tinha melhorado bastante. Ah, as coisas que se desprendem de um flagrante e uma quase mutilação...
Me lembro que, no primeiro momento em que cheguei, fui entregue aos cuidados das criadas. Isso depois de ser motivo de mais cochichos e sussurros as minhas costas, os criados e pessoas de dentro tiveram reações bem dramáticas. Um ferreiro perdeu a meada e deixou a lamina fugir, um garoto magricela deixou o balde cheio d’água cair no chão, as criadas já estavam se preparando para as fofocas e exclamações. A família real voltando de um passeio trazendo uma garota maltrapilha? Se é que estivessem me reconhecendo como garota. Era pedir demais. A melhor aposta era coisa maltrapilha. Coisa maltrapilha dividindo o cavalo com a princesa.
De qualquer forma, depois de passar direto por eles e entrar no palácio, subir algumas escadas e andar por alguns corredores chegamos no que eu supus ser o próprio quarto da princesa.
— Vou ir falar com a minha mãe. – ela me disse com um sorriso um pouco nervoso, e supus que sua mãe talvez fosse um pouco mais difícil de convencer que seu pai. – Elas vão cuidar de você. Eu já volto.
Elas seriam as pobres mulheres prostradas no quarto que haviam recebido a tarefa de limpar alguém com, mais ou menos, oito anos de sujeira. Hoje, eu tenho pena delas. Quando aconteceu eu queria arrancar suas mãos com os dentes por estarem me esfregando, por terem raspado meu cabelo e por estarem me apalpando.
Eu sei que me esfregaram e me apalparam para me livrar das pulgas, e sei que me rasparam o cabelo para me livrarem dos piolhos, também sei que fui imersa na agua e continuamente perfumada para me livrar do cheiro, e meus pés quase deixados em carne viva para me livrar da crosta que anos descalça nas ruas me causou, mas naquela época era coisa demais para mim, coisas que eu não estava acostumada e não sabia o que era. Então posso ter dado algum trabalho para elas (Blair e Agatha, mais tarde, me perdoaram por isso, mas Blair ainda tem a cicatriz de onde eu a mordi e talvez seu perdão não fosse totalmente sincero, o que para mim não significava nada, minhas desculpas também não foram).
Mas então, depois do obstáculo que foi me limpar (uma aventura de quase quatro horas), havia chegado outro momento crítico na minha vida. Foi quando tentaram me vestir.
E me vieram com um vestido.
Um vestido.
Eu usava trapos, por favor. Usava blusas velhas que as putas as vezes tinham de clientes esquecidos, e uma calça criada da costura apressada e debilitada de uma criança que queria juntar um trapo em outro para enfiar as pernas. Eu nunca usei vestidos. Mas eu já havia dado trabalho demais, elas estavam cansadas e eu com medo de que fosse mandada embora por tanta confusão. Então deixei que me enfiassem em algo que só posso definir com: demais. Era muito excessivo. Tinha pano demais, detalhes demais, babados demais, cor demais. Me falaram que eram um dos mais simples, e se aquilo era um dos mais simples eu não queria nem ver os elaborados e requintados.
Sem falar que eu estava tão acostumada a andar com saias que assim que dei o primeiro passo fui direto no chão e arranjei mais uma cicatriz: um corte no lábio inferior. Depois disso, talvez, eu tenha dado um pequeno escândalo, arrancando aquela peça infernal de mim e falando que andaria nua (o que realmente não era problema, nem sempre eu tinha trapos), mas não usaria mais nada com saias. Cansadas demais para discutir e querendo se livrar logo de mim, provavelmente, elas buscaram roupas limpas de algum garoto do palácio, o que me fez terminar com calças, uma blusa e botas, tudo limpo, apesar de usados, mas a parte do limpo já era tudo que importava para mim. Nunca tive tanto.
Isso ainda é, basicamente, o que visto até hoje, mas agora são roupas novas, limpas e feitas sob medida. Ah, e tem um grande casaco de couro negro. Eu precisava me proteger do Sol, afinal.
Me lembro quando Scarlett voltou para o quarto, pelo visto finalmente tendo terminado a conversa com a mãe, ela não ficou nada feliz com o que viu.
— Porque não está de vestido? – perguntou com um beicinho, e então observou minha cabeça careca. – E o que houve com seu cabelo?! – a forma com que exclamou isso denotava que ela não queria que isso acontecesse. Eu havia continuado em silencio enquanto ela andava até a cama e se sentava. – Eu disse para cuidarem dela, não para tirarem todo seu cabelo!
— Mas estava cheio de piolhos, senhorita! Precisávamos raspá-los para livrá-la disso. – Agatha se defendeu, Blair ainda estava amuada pela mordida. A princesa cruzou os braços, nem um pouco menos vencida.
— Porque ela não está com algum vestido meu? Porque seu lábio está machucado? Se tiverem feito mal para ela, eu mandarei que meu pai enforque cada uma de vocês!
Aquela foi a primeira vez que vi que a princesa era mais do que uma garota que salvava outras de terem sua mão decepada. Uma garota altruísta que via coisas boas ou importantes em quem não via nada. Mimada, foi a única coisa que eu pensei enquanto ouvia aquilo. E pelo rosto das mulheres, não era a primeira e nem seria a última vez em que lidavam com momentos assim. Ela queria o que queria e queria do jeito que queria, aí se não acontecesse. Me lembro de ter me concentrado em chupar o sangue do meu lábio e que isso me ajudou a não rir.
— Não, alteza, não fizemos mal a ela! Juramos por tudo que é mais sagrado, cumprimos as ordens que a princesa nos deu! Tentamos fazer com que usasse o vestido, mas ela não quis. – Blair se ocupou em se defender, assustada de já ter tido como castigo me cuidar, ainda estar sendo ameaçada de punição. Felizmente para ela, a princesa já não lhe dava a menor atenção. Olhava para mim com as sobrancelhas franzidas.
— Não gosta dos meus vestidos? – e olhou para si própria. Scarlett usava um lindo vestido azul-escuro, que chegava a se arrastar no chão enquanto andava. Era lindo, sim, e definitivamente havia gostado. Mas não em mim. – O que tem de errado com eles?
— Nada. – encolhi os ombros enquanto mudava o peso de uma perna para outra. Talvez não estivesse tratando alguém da realeza com a educação e respeito necessários, mas me perdoem se não existem aulas de decoro e etiqueta nas ruas. Sem falar que, na minha vasta experiência de vida com oito anos, eu não me interessava por títulos. Quem era o rei para mim? Quem era a realeza? Até aquele momento nunca tinha os vistos, ou falado com eles, a existência deles não mudou nada na minha, e nem a minha na deles. O rei e toda família real não eram nada para mim, a nível pessoal ou qualquer outro. E isso incluía a princesa. Para mim, Scarlett Rousseau Brunet Blanchard de Dubois era apenas uma criança de nove anos com roupas caras e bonitas, que morava em uma casa realmente muito grande e tinha gente demais disposta a realizar seus desejos. – Eu só não me dou bem com eles. Fui tentar andar, tropecei e cai, por isso o machucado. – parei por um tempo, olhando em direção as criadas. Senti uma pontada de maldade ao pensar que poderia terminar por aí e deixar a fúria da pequena princesa agir sobre elas. Mas Agatha não merecia isso. – Suas criadas não me fizeram nada, não se enfureça com elas.
— Me chame de Scar. – pediu outra vez. – Você é minha agora, pode me chamar pelo apelido. – então se virou para as criadas. Uma leve cor subiu até seu rosto e ela juntou as mãos no colo, endireitando os ombros, erguendo um pouco o queixo e focando os olhos firmes no rosto das criadas. – Me perdoem pelo modo como agi com vocês. Eu fui cruel e estou muito envergonhada.
— Não tem problema, princesa. – Blair abriu um sorriso. Era a mais velha e eu fiquei com dúvidas de que realmente não teve problema algum. Eu não gostaria de ser ameaçada de morte por uma garotinha, e com certeza não ficaria tudo bem com um pedido de desculpas polido. Se estivéssemos na rua, e ela tivesse me ameaçado, teria rido e ignorado em um dia bom, ou dando-lhe uma lição se realmente me irritasse. – Precisa de mais alguma coisa?
— Não, muito obrigada. – os lábios de Scarlett se abriram em um sorriso doce e bonito. – Vocês podem ir. Quero ficar sozinha com a Blanka.
Ora, depois disso, ela me pôs a brincar de bonecas. Mas acho que era puramente para me irritar, pois ficava olhando para o meu rosto e mordendo o interior da boca a todo momento. Quando finalmente cansou de me torturar, realmente começamos a nos divertir. E me surpreendi com o fato de que eu e a princesa nos damos muitíssimo bem.
É claro que eu não podia simplesmente ficar no palácio. Eu tinha que fazer alguma coisa. Então logo me foi dada uma função: ser a dama de companhia da princesa. Hoje eu sei que foi uma escolha perigosa: damas de companhia são, normalmente, nobres. Alguma mini lady devia ser escolhida, algo para facilitar acordo políticos, deixar pais e mães poderosos felizes. Ao invés disso, a dama da princesa da França foi uma garota de rua. Gerou alguma dor de cabeça, mas foi o que foi. Além do mais, tudo que eu sabia, na época, era que eu tinha que seguir a princesa para todo lugar, dormir em seu quarto em grande maioria das noites e brincar com ela. Não era nenhum alto sacrifício.
Tirando, é claro, quando ela decidia me irritar e me obrigada a sentar e brincar de chá e biscoitos. Eu, que as únicas brincadeiras que conhecia eram as da sobrevivência, mordiscando biscoitos e bebericando chá. Era um jogo vicioso, porque eu sempre ficava com o rosto cada vez mais fechado e mal-humorada, e ela ria a cada vez que eu soltava um palavrão, ou rosnava alguma coisa.
Minha princesa gostava mesmo era de ser livre.
E de liberdade eu entendia. Eu a troquei a liberdade de ter o mundo para ter um palácio, mas dava para ter alguma, mesmo assim. Éramos crianças, o rei já tinha quatro filhos homens para se preocupar e ser severo, então deixava sua preciosa filha ter o que quisesse enquanto ainda tinha idade para não ser malvista, e a rainha concordava, contanto que não tentássemos a sorte ao aparecer sujas dos pés à cabeça em sua frente. E, como crianças, tínhamos nossas aventuras.
Tardes de verão rolando na grama dos jardins do Palácio de Versalhes, dias de chuva nos escondendo nos mil corredores, noites de inverno ao observar a neve cair da janela do seu quarto. Fazíamos muita pouca coisa do que damas deveriam fazer (eu menos ainda) já que subíamos em arvores, e corríamos por aí com o cabelo solto, e roubamos comida das cozinhas. Scarlett se encantou pela forma como seu estoque de doces teve um enorme aumento depois de mim.
Mas claro que nem tudo era apenas diversão.
Como toda princesa, Scarlett estudava. E, como dama de companhia, eu tinha que aprender também. Afinal, eu era uma ignorante. Não sabia ler, escrever, e os números eram irritantes. Eu podia subir nas arvores mais altas, e correr mais rápido, e roubar melhor a comida da cozinha, mas Scarlett ao menos sabia ler e escrever e contar, e ver as estrelas, e tocar instrumentos. Eu estava atrasada, e tive que aprender. Aprender muitas coisas, aliás.
Aprendi a ler, a escrever e a contar. Também aprendi a andar de cavalo e até mesmo ganhei o meu próprio, Tempête, o que podia não ser um nome muito original, mas eu tinha oito anos. Também fui obrigada a aprender bons modos. Etiqueta, decoro e toda a ladainha que a pobreza me poupou por toda a vida. Eu não virei nenhuma dama, mas pelo menos não era uma completa selvagem. Outras coisas não me importei de aprender, como costura, línguas e a tocar. Eu, particularmente, me interessei por violino e aprendi a tocar muitíssimo bem.
Também aprendi a lutar. Realmente aprendi. Não era apenas “feche a mão, mire, acerte”. Não foi nem dois meses depois de minha chegada, minhas habilidades ganhadas nas ruas foram notadas quando rolei no chão com um garoto da estrebaria. Seu nome era Jostan e tinha doze anos. Era mais velho, mais alto e mais forte do que eu. Mas ele não tinha a experiência que eu tinha aos oito. Ele podia ter rolado no chão algumas vezes, mas nunca em um impasse final de vida e morte, nunca com vontade de machucar, nunca lutando pelo que quer. Eu queria arrancar sua língua por ter falado que Scarlett era uma mimada, e lutei por isso.
Depois disso houve outro debate e impasse por minha causa, mas acabou decidido que iriam apoiar esse lado. Claro, de novo, a princesa interviu ao meu favor. Eu a protegeria, e todos acharam que seria bom Scarlett ter um guarda particular, no final. Fui posta para treinar junto com os príncipes e, tenho orgulho de dizer, os superei de todas as formas.
Mas durante todo esse tempo não foi apenas minha educação (mais intelectualmente do que socialmente, devo admitir) e minhas habilidades corporais, que progrediram. Foi minha amizade com a princesa.
As coisas haviam mudado, é claro. Não tínhamos mais oito anos, não subíamos em árvores ou roubávamos comida da cozinha. Não. Scarlett agora era uma mulher de vinte e dois anos. Seus estudos finalizados a um ano (enquanto eu havia recém finalizados os meus), e agora em tempo integral uma princesa. Princesa da França. Seus olhos ainda eram de mar, e seu cabelo costumava dar a impressão de estar em chamas, principalmente no Sol e quando estava solto. A pele era branca e o sorriso doce. Era alta, com ombros estreitos, braços longos e delicados, pernas compridas e quadril mediano. Seu nariz era delicado e levemente arrebitado, e sua boca pequena e rosada. Era o exemplo de educação e sabia fazer com perfeição tudo que uma princesa tinha que fazer: bordar, cantar, saber tratar as pessoas, arrumar uma mesa. Também adorava cavalgar e ir ao teatro, música e festas.
Todos os tipos de festas.
Afinal, Vossa Alteza não era uma dama usual.
Às vezes, na calada da noite, Scar gostava de trocar os lindos vestidos por algo mais simples como o vestido de alguém da plebe, e ir para as tabernas. Havia sempre tudo que ela gostava ali, principalmente perto do porto. Muito música, muita agitação, muita cantoria, dança e marinheiros, comerciantes e viajantes. Homens bonitos vindos de todo canto do mundo para uma noite de descanso e era de apenas uma noite que ela precisava.
Ela perdeu a virgindade em uma noite dessas eu me lembro. Eu mesma a ajudei a sair do quarto da hospedagem sem que ninguém percebesse. Era um homem de cabelos negros e olhos verdes, e era italiano. Não tinha certeza de que Scarlett era fluente em italiano, mas para o que fez não era preciso falar. Lorenzo, se não me engano. Ela tinha dezessete anos. Como a princesa mesmo disse “ele era muito bonito e me serviu bem para o que eu queria”.
Bom, mas isso era um lado secreto e obscuro de Scar. Para sua família, para os criados, para toda a França e além, ela era uma dama perfeita. Costumamos brincar ao dizer que eu, que revelo tão pouco, sou a mais honesta entre nós. Pois ela é duas pessoas diferentes, dentro e fora de um quarto, e eu era exatamente quem parecia ser, não importasse onde, na frente de quem ou em que momento.
Uma selvagem.
Era fato de que eu havia virado sua guardiã. Sua serva, criada e protetora. Não havia um único homem, grande ou pequeno, largo ou estreito, leve ou pesado, velho ou jovem, bêbado ou sóbrio, que tivesse me enfrentado e não terminasse sentindo o gosto da lâmina em sua carne. Ninguém, nunca, havia me vencido. Seja por eu ser mais rápida, mais habilidosa, mais forte ou com uma imagem naturalmente aterrorizante e desconcertante, era a melhor lutadora da França.
Meu cabelo, claro, havia crescido desde meus oito anos. Na verdade, desde lá, eu nunca mais os cortei. E enquanto Scar mantinha os dela presos em penteados elaborados (porque vivíamos em uma maldita época em que não se podia soltar o diabo do cabelo), eu queria que tudo se explodisse. Deixava-os soltos, esvoaçando pelas minhas costas. Havia ganhado mais cicatrizes, havia arranjado alguns problemas. Mas como nós franceses dizemos:
Est la vie.
Scarlett acabou de se mexer na cama, o que deve significar que está acordando. Hoje será um grande, grande dia. Mais uma grande aventura que minha princesa vai me fazer passar. Não, ela não vai me fazer a salvar de piratas, de novo. E nem entrar em uma luta contra dez homens por ela, depois dela mesma se perder em uma aposta nas cartas. Não, vamos nos mudar.
A princesa Scarlett de Dubois da França estava indo para a Inglaterra, se casar com seu noivo prometido Henry Lancaster, proclamado rei a recém feito um ano, desde que seu pai morreu. Era um grande dia, afinal, iríamos as duas sair da França pela primeira vez na vida, e ela conheceria seu noivo, apesar de já ser prometida a ele desde a infância. Ela iria se tornar rainha, também. Estou pensando em uma cidade cinza e meio lúgubre, muito diferente de Paris pelo que os marinheiros contam. Agora tenho que ir, ela, definitivamente, acordou e está me espionando.
Hoje é um grande dia.
Eu sempre quis conhecer a Inglaterra.
Notas finais
Eu realmente espero que sim :3
Bjs da tia ♥
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