Voo | O Chamado
26 XXIV O retorno das nuvens carregadas
Ao entrar em casa, pai questionou o motivo da minha demora.
Pensei em mentir, mas sabia que não era bom em mentiras, pensava o que falar, quando observava os olhos de meu pai focar em mim, então resolvi falar a verdade logo.
— Passamos na igreja antes de minha avó ir embora, por isso demorei.
Pai não fez uma feição muito contente, mas como estava acompanhado com minha avó também não falou mais nada. Fui para meu quarto, tomei banho, brinquei um pouco com Deivy, a noite estava bem tranquila, mas isso durou pouco tempo.
Mal sabíamos que esta noite, seria outra noite decisiva em nossas vidas, ultimamente tinha se tornado uma sucessão de acontecimentos e nem sabíamos quando isto ao certo ia parar.
Mas tarde a gritaria reinou na cozinha de nossa casa.
Pai perguntava já exaltado:
— Aonde você estava OLAVIO?! COMO VOCÊ SOME ASSIM DO NADA?!
Olavio permanecia em silêncio, como um cordeiro mudo. Com sua cara cínica e desafiadora. Pai continuava a perguntar sem que Olavio proferisse uma palavra, pai dava de costas quando Olavio ousou sorrir de canto.
Não sei por qual motivo Olavio ultimamente sentia tanto prazer em provocar, em ser tão insultuoso e condescendente. Arregalei os olhos e senti um calafrio ao perceber que meu pai havia notado e se virado novamente.
Pai simplesmente perdeu a cabeça e a razão, partiu para cima de Olavio com socos e pontapés, ele se defendeu, rolaram pela cozinha. Eu perdi a reação diante daquela cena, Ozannia pedia e suplicava para que parassem. Pai jogava Olavio em cima da mesa, depois na parede, desferindo golpes onde pegasse, Olavio tentava sem muito exato devolver cada golpe, eu me encontrava estatacado na parede sem reação. Voltei a consciência quando vi Deivy quase ser atingido por um deles, atravessei a cozinha peguei Deivy e coloquei perto de Ozannia, ela logo o puxou, e o colocou atrás dela, ao que eu rapidamente aconselhei:
— Pegue nosso irmão e se afaste daqui! RÁPIDO Ozannia!
Neste meio tempo ao me virar contemplei vagamente Olavio desferir um golpe no rosto de meu pai, no mesmo instante vi o rosto de meu pai transtornado, fui rapidamente no rumo dos dois.
— PAI, POR FAVOR PAI!
Supliquei desesperadamente, na tentativa de que alguém me ouvisse — Já está bom, PARA COM ISSO, PAI!
Percebi que ele não me ouvia e muito menos prestava atenção em mim. Rapidamente ele pegava uma faca em cima da estante. Via que Olavio percebia seu movimento e antes que ele pensasse em fugir, de forma muito rápida pai passava por mim, sentia seu vento sorrateiro soprar e Olavio ser agarrado pela blusa a qual sem êxito lutava para sair, Pai lhe erguia e jogava em cima da mesa. Meu pai erguia o punho preparado para descer a faca, rapidamente eu olhava em seu rosto e podia ver o ódio em seus olhos, aquele com certeza não era ele, não em seu estado de consciência, pai estava totalmente fora de si, e no momento em que houve a possibilidade da faca descer e crava em meu irmão, eu bruscamente caminhei em seu rumo sem nem pensar, e segurei sua mão. Antes disso, podia ver distante Ozannia correr para o quarto, deixar nosso irmão e correr desesperadamente para a rua. Neste momento sentia pai me empurrar bruscamente ao tentar segurar sua mão, me jogando contra a estante, fazendo cair algumas louças de cerâmica. Se não fosse o fato de Ozannia retornar desesperadamente para casa com dois homens, a notícia da tragédia no dia anterior iria correr pela pequena vila, "Pai mata filho a facada em um ataque de fúria".
Ao ver os homens entrarem e segurarem com muita dificuldade meu pai fazendo com que Olavio pudesse se esquivar e fugir, senti minha cabeça rodar, e um zumbido distante tapar meu ouvido, estive um minuto anestesiado e retornava ao ouvir novamente os gritos de meu Pai enquanto lutava com os dois homens no intuito de ainda pegar Olavio antes que o mesmo saísse de casa:
— EU MATO ELE! EU MATO ESSE MOLEQUE! É UMA PROMESSA! ESSE IMPRESTÁVEL, ESSE CÃO. MAUDITO O DIA QUE ESSE MENINO NASCEU...
Pai ficou por horas deferindo os piores nomes possíveis a Olavio.
— ...ESSE MENINO É FILHO DO CAPETA, POR QUE MEU FILHO ESSA PESTE NÃO É...
Foram minutos de total descontrole. Deivy gritava no quarto, Ozannia tremia encostada no portal, nenhum filho deveria experimentar esse inferno, ninguém sabia ao certo o que fazer para controlar aquela situação, os homens que nos ajudaram olhavam tentando entender, a rua inteira estava na porta, vendo aquela encenação ridícula, de total descontrole, todos tentavam entender o que acontecia. Dava para piorar? Poderia despencar mais algum degrau? Não sei o que acontecia em minha vida, só sei que a cada dia parecia piorar mais um pouco.
Ao ver pai começar a se acalmar minutos depois, andei em sua direção, peguei a faca em sua mão, ele quis resistir, simplesmente olhei em seus olhos e não tirei a mão da faca, até que ele a soltou.
— Solte ele!
Pedi para os homens que o seguravam.
— Pode soltar.
Falei firmemente.
Me olharam por um tempo como se confirma-se o pedido e aos poucos foram lhe soltando. Pai me encarou transtornado, se virou, e andou rumo a sala.
Neste momento suspirei e senti minhas pernas tremerem, minhas mãos sacudiam. Ozannia a minha frente colocava a mão sobre a boca e chorava encurvando-se sobre o corpo. Aos poucos, recostado na estante, recuperava o equilíbrio, sendo possível me direcionar até Ozannia.
— Ir-mã.
Falava com a voz embargada, colocando a mão em seu ombro.
— Precisa se recompor e pegar Deivy, que está, gritando no quarto.
Ela enxugava as lágrimas e consentia com a cabeça. Observava suas mãos tremendo, pareciam pular de seu corpo, sabia que ela não conseguiria se recompor e ir até Deivy que gritava. Me direcionei até a estante, algumas louças estavam quebradas no chão, me desviando dos cacos de cerâmica, pegava um copo, enchia de água e entregava a Ozannia, indo em direção ao corredor que dava ao quarto. Abria a porta que se encontrava trancada, Deivy se encontrava sentado de frente a porta, chorando, peguei ele nos braços e fui em direção a cozinha.
Agradeci os homens que haviam me ajudado.
— Obrigado rapazes por ajudar aqui. Se não fossem vocês.
Foram bem solícitos, perguntaram se havia alguma coisa a qual pudessem fazer. Agradeci novamente e os acompanhei até a porta. Na frente de nossa casa estava um "formigueiro" de pessoas, curiosas, buscando entender o que tinha ocorrido. Elas sabiam bem o que tinha acontecido, só queria a versão completa e ilimitada para o jornal da vizinhança, era revoltante, todos aqueles olhos simplesmente curiosos, olhos levianos e nada mais, em busca da história completa, detalhada e hiper detalhada, sem contar na versão "auto traduzida", que podia surgir em qualquer canto.
Observava que o cavalo de meu pai não estava amarrado na viga ao lado, o que indicava que havia saído cavalgando, me lembrava que Olavio também estava na rua, mas ele era esperto, principalmente depois da demonstração de fúria de meu pai, ele não iria vacilar, com certeza estava bem escondido.
Enquanto fechava a porta ignorando os olhares postos sobre mim pensava rapidamente, "Provavelmente antes mesmo do sol nascer seremos o primeiro assunto no pacato vilarejo. Fofocas parecem ter pernas muito longas."
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