Voo | O Chamado
23 XXI Desígnios
Após o retorno ao nosso lar, coloquei Deivy para dormir e em minha cama fiquei meditando.
Negar, tomar a cruz? Qual seria o verdadeiro significado dessas palavras, no contexto apresentado? Tudo era muito interessante, porém confuso em contexto.
Mesmo não compreendendo o que realmente aquelas palavras significavam, elas geravam dentro de mim uma sensação, um sentimento profundo e diferente que não podia ser mensurado, ou explicado. Sabia que sua ação estava além de seu significado, que o que ali foi apresentado era profundo e transformador.
Pela manhã fui subitamente acordado por um sonho, tão real e significativo capaz de me tirar a paz. Sabia que não era só um sonho, era uma mensagem, por esse motivo não conseguia me desvincular do que tinha sonhado.
No sonho acontecia o seguinte...
— Me encontrava em uma floresta escura, tão escura que chega era densa, não havia nenhum foco de luz, por menor que fosse naquele local. Em um corte temporal, aparecia diante mim, meu pai, avô e bisavô, acorrentados dentro de uma gaiola enorme. Dentro desta gaiola eles se contorciam pelo tamanho sofrimento que sentiam, eram atormentados e dominados por uma besta fera à qual não podiam ver. Era horripilante e assustador a existência daquela fera, que ao sentir minha presença tentava me golpear na tentativa de me tornar como aqueles que se encontravam presos. Depois de um bom tempo fugindo daquela fera, já me encontrava cansado e sem forças, sabia que logo aquela fera me encontraria e terminaria como eles, preso. Sentava no chão, encostado em uma árvore, o ambiente naquele lugar era atormentador, minha alma estava fatigada, meu corpo estava exausto. Estava atormentado de uma forma que começava a chorar, sabia que meu fim tinha chegado, que logo, logo, estaria no mesmo estado. Desesperado alí, sentado no chão, sentia algo vir sobre mim, ao olhar, notava uma luz forte brilhar sobre mim, esta vinha de cima, direto em minha direção de forma que meus olhos não ficavam abertos. Ao notar a presença daquele ser a fera se desesperava, fugia, mas era encontrada e derrotada por aquele ser que brilhava como sol. Ouvia de longe o rugido de um leão e o temor tomava novamente meu coração, dessa vez de forma diferente, não era um medo, como o que sentia daquela fera, mas era um sobressalto por entender a natureza daquele leão, muito soberano e poderoso. Meu coração sobressaltava cada vez mais forte quando ouvia uma voz doce e firme ecoar, "Não tenha medo, ele veio te libertar". Podia ver de longe o leão, grande, formoso e imponente. Ele olhava para mim e instantaneamente olhava para o céu. Asas enormes e lindas começavam a crescer em mim, ficava assustado e maravilhado. Então ouvia a voz ecoar novamente: "Voe!". Tentava dizer que era impossível, que eu não sabia voar. Mas ouvia novamente dizer: "Voe!", "qual seu medo? Cair?". O leão, presente no horizonte, continuava olhando para mim, como se confirma-se o que ouvia. Aos poucos, um pouco desengonçado, começava a bater as asas e alçar voo, subia, subia devagar e constante. Contemplando o céu já entre as nuvens podia ver uma águia majestosa voando à frente, ela dava a volta em uma curva perfeita e vinha de encontro a mim, no sonho lembrava que já havia visto aquela cena antes. Então eu ouvi a voz novamente por três vezes que dizia, "Se Cristo vos libertar, verdadeiramente sereis livres", "Voar acima das tempestades", "Jesus é o caminho".
Acordei sobressaltado com as vozes ainda soando em minha cabeça, meu coração palpitava rápido, acordava acelerado e angustiado pelo teor daquele sonho. Sabia que era uma mensagem, mas, quem procurar? Quem poderia me ajudar? Estava atormentado, precisava compartilhar com alguém que pudesse me ajudar. Pensei em minha avó, mas não poderia ir em sua casa.
Me colocava em pé ainda transtornado, vestia minha camisa e andava em direção a cozinha para o desjejum. Ao me deparar com Ozannia fazendo a marmita me lembrava subitamente do que meu pai tinha dito: "Consegui um trabalho na lavoura de milho, espero bem cedo vocês dois prontos para partirmos", falava meu pai se direcionando a mim e Olavio. Pensava nesse exato momento: "que ótimo!", minha cabeça estava a milhões, "talvez fosse bom ocupar a mente, meu pai sempre dizia: 'mente vazia, oficina do diabo', depois do sonho que tive era bom estar com a mente oculpada", pensava colocando a mão sobre a testa. Também era engraçado pensar que meu pai, um homem quase sempre cético, gostasse de recitar alguns ditados que contradizem a sua postura habitual em relação às coisas.
Enquanto ouvia o barulho de minha mente que não parava, ouvia também Ozannia exclamar, "Bom dia!", em troca respondia vagamente, "bom dia". Pegava um pão posto à mesa passando a manteiga que minha irmã tinha feito uns dias antes, juntamente com uma geleia de goiabada deliciosa. Sem que eu percebesse ela me encarava bruscamente, "você dormiu bem?", naquele momento percebia o olhar de Ozannia fixo em mim. "Dormi bem, mas não sei se acordei tão bem quanto dormi", respondi olhando para baixo, "o que foi?", insistiu ela. Enquanto pensava se contava ou não, meu pai atravessou a cozinha para seu desjejum. Olhei para Ozannia balançando a cabeça, para que não perguntasse mais nada. Não contaria com meu pai por perto, ele estava no sonho, como contaria que estava preso em uma gaiola? Não contaria, preferia nunca tocar no assunto.
Seria uma manhã tranquila se Olavio não tivesse decidido por conta própria que não sairia de casa. Ele estava atingindo um limite perigoso, conhecia meu pai, qualquer hora ele iria banhar na bacia de sal, pai ia dar uma baita de uma surra nele.
"A real é que o tempo acaba para todos nós. O fim da linha."
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