Voo | O Chamado
20 XVIII Ciclos: fim e início
O humor de meu pai naquela tarde, não era dos melhores.
Ouvia por alguns minutos meu pai falar...
— Não faz nem dois dias que estamos aqui e você já acha que pode sair por aí sem falar nada Darwin!
Esbravejava meu pai, que estava furioso.
Ozannia se encontrava escorada na porta da cozinha, observando, oras meu pai, oras a mim.
— O que foi Darwin, não vai falar nada, é isso?!
Suspirei e pensei duas vezes nas palavras que usaria antes de falar.
— Pai!
Enfatizei em um tom de voz baixo e arrastado.
— Se tivesse te pedido, para ir na casa de minha avó, o senhor tinha deixado?
Ele ficou calado por um tempo. Por pouco tempo.
— Isso não é desculpa!
— O senhor está brigando por que não pedi, ou por que não quer que eu tenha contato com meu avô?
Era tarde demais, já tinha feito a pergunta errada. Saiu sem que ao menos pensasse no que falar.
Vi Ozannia afastar vagarosamente do portal e regalar os olhos para mim como se reprovasse totalmente o que disse. Fechei os olhos cerrando-os, e abri novamente, quando ouvi meu pai disparar a falar.
Você está proibido de ir na casa de seus avôs, por oras não é para ir lá, me ouviu Darwin!? PASSA JÁ PARA SEU QUARTO!
Enquanto dava de costas e caminhava em direção ao meu quarto, podia ouvi-lo esbravejando.
— Mal chegou e já está INDOMÁVEL, já se achando adulto, dono de seu NARIZ! Aqui, eu não permito, são minhas regras. Viu seu irmão Ozannia? Nunca me enfrentou e agora... NÃO ACEITO... SEU AVÔ E UM ATRASO... JÁ ESTÁ INFLUENCIANDO SEU IRMÃO. Por isso me mantive distante, estava certo.
Deitado em minha cama, chateado e decepcionado, observava que meu pai cada dia se tornava a cópia exata de meu avô, homem a qual fugiu e jurou nunca se assemelhar. Por horas tive cuidado em minhas conclusões pois todos estávamos alterados, assustados e sentindo muito a perda de minha mãe, a flor de nosso jardim.
Após um tempo deitado em minha cama, Ozania entrou e sentou na beirada do estrato, ficando um tempo em silêncio.
— Darwin! Eu te entendo, mas os ânimos aqui em casa estão exaltados, dá um tempo.
Me virei olhando em seus olhos.
— Mana! São nossos avôs. Sei que pai tem problemas com nosso avô, mas não pode nos privar de estar com nossa família. Sabe quantas vezes desejei isso, estar com nossa família? Muitas, eu sonhava com esse momento.
Ozannia colocou a mão em meus ombros e pediu.
— Eu sei, só dá um tempo.
De certa forma, acho que Ozannia compreendia nosso pai.
O fato é que meu ser gritava, e não queria ser mais como antes. Algo dentro de mim se encontrava inconformado. Se não levantamos rapidamente e agimos, somos levados severamente e cruelmente pelas ondas da vida.
Algumas coisas estavam mudando dentro de mim, vagamente sentia medo, mas sabia que o certo a fazer era permitir a mudança ocorrer.
Ainda não sabia o que essa mudança ocasionaria, mas estava disposto a vivê-la com todos os cargos e encargos.
"Não engane. Quanto mais alto, significativo e importante algo é, também mais sacrifícios e renúncias terá que ser feita."
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O dia hoje amanheceu meio cinza.
Pai logo cedo nos deu a notícia que visitaremos a lápide de nossa mãe. Que tinha sido enterrada três dias antes da nossa visita. Como não tivemos a oportunidade de vê-la antes de ser enterrada, iriamos despedir-nos. Levaríamos flores e deixaríamos nossas lembranças e ternuras a mulher que é símbolo de nossa admiração, e que cuidou e nos educou sempre com amor e extrema dedicação.
Eu e Ozannia nos abraçamos por um tempo e choramos. Tínhamos a certeza que ela não chegaria com aquele sorriso singelo, não veríamos ela esculpindo o barro, nem pintando as vasilhas, o vazio de sua presença, seu espaço ficaria para sempre em nossos corações.
Às vezes Deivy andava pela casa, chorando e procurando nossa mãe. Percebemos que isso dilacerava o coração de nosso pai, que às vezes saia de perto e pedia para mim ou Ozannia cuidar de nosso irmão que gritava e lamentava a perda precoce de nossa jovem flor.
Todos estávamos diferentes. Ozannia e eu tínhamos nos aproximado, todo aquele contexto nos tornava mais próximos, compartilhávamos ideias e escolhas semelhantes, nossas distâncias diminuíram. Ela estava mais receptiva a aproximação e às vezes a iniciativa era dela, mantinha uma postura mais responsável, acho que ela sentia o peso de ser mulher e agradecia talvez por minha mãe ter contrariado ela. Eu também estava mais decidido e disposto a lutar e persistir, minha mãe tinha uma imagem muito importante dentro de casa, ela era a firmeza e calmaria, era forte e sensível o suficiente para ser implacável e super leve. Ela era uma arte da natureza humana sem esforços. Precisávamos manter essa harmonia, que por horas estava ameaçada, nossa mediadora tinha se ido.
Por outro lado, parece que o Olavio estava perdido por um tempo, parecia retroceder, estava com uma postura resistente, isolado e provocativo, se fechava cada dia, mais e mais, isso me preocupava. Mas tudo era tão recente, parece que tinha terminado de acontecer, as vezes ficava perdido, como se acordasse dentro de um sonho, porém real. As muitas informações, fazia-nos sentir mais perdidos.
Ontem, já a noite aproveitei um momento já de madrugada e mantive meus irmãos acordados, tinha que contar tudo que tinha ouvido, estava muito ansioso com toda a informação, todos ficaram extasiados, com toda a história entre nossa mãe, pai e nossos familiares, porém, por horas meu pai não podia saber que tínhamos conhecimento desses fatos.
O preto hoje nos vestia, nos representava.
O sol estava mais brando e o vento timidamente soprava.
Andamos por um tempo em direção ao cemitério, que ficava pouco afastado da vila. Andamos em silêncio, Ozannia havia passado seu braço ao meu, andávamos lado a lado. Deivy estava nos braços de meu pai e Olavio andava na frente, com passos pesados e rápidos.
Em frente a sua cova, a tristeza abruptamente nos tomava, a certeza de sua falta parecia pesada e devastamente real. Ao perceber o vasto silêncio de meu pai, com sua cabeça baixa e ver que nada ia falar. Tomei a iniciativa de roubar as palavras, mulher como ela, não poderia receber como perda o silêncio, minha mãe tecia muitas lembranças e boas emoções, por isso não me contive, o mundo tinha que ouvir:
— A flor!
— Nossa bela flor! ... Que lamentavelmente murchou antes do tempo.
— Igual a primavera se vai com a chegada do verão, assim nossa flor se vai, levando a arte de viver, a cor do mundo, a alegria e ponderança.
Fiz uma pequena pausa, limpei a lágrima que escorria em meus olhos e prossegui.
— Já não somos mais os mesmos, fomos afetados. O que seremos após este momento? O tempo dirá! Só digo que desta flor, tiro belas lições. Nunca parar. Sempre manter a esperança. A vida pode ser mais leve. Podemos nos transformar e transformar o ambiente que nos rodeia. Perdoar é sempre o melhor caminho, e ser leve é a melhor escolha.
Ozannia chorava bastante, meu pai estava com a cabeça baixa e os olhos cerrados, enquanto Olavio saia correndo em direção ao matagal, fazendo nos sobressaltar brevemente sem compreender o que acontecia.
Deivy era o único que simplesmente nos olhava, sem compreender nada. Como naquele momento invejava sua inocência, como queria ter nos olhos a paz e tranquilidade de quem não entendia nada.
O momento solene encerrou quando cada um de nós deixou em sua cova uma rosa, a qual lhe representava tão bem.
Voltamos em silêncio, exceto Olavio, a qual não sabíamos onde estava.
Ele chegou horas depois, indo direto para seu quarto.
O clima de nossa casa estava silencioso e fúnebre, a alguns dias está assim. Ajudei Ozannia na cozinha aquela tarde, e sem ter o que fazer fui para meu quarto. Apenas olhava para o teto enquanto pensava.
Por algum motivo estranho lembrei do moço que havia me parado na rua e de seu convite para participar da reunião na capela. Em um salto me pus de pé e me arrumei para a ocasião. Chamei Ozannia que alegou estar cansada e Olavio que me ignorou, então iria sozinho.
Só havia me esquecido rapidamente de um problema.
— Meu pai permitiria?
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