Voo | O Chamado
17 XV Cartas
— Rob e Maura ficaram extremamente chateados com seu avô. Tem atitudes que geram rachaduras, e que não mudam nada. Atitudes ligadas a vontades, querer, a forma individual de cada um ser e ver, quando impostas quase sempre geram somente atritos e revoltas. O relacionamento entre eles tinham esfriado, em seus corações tinham a mesma revolta que habitava no coração de seu avô quando decidiu deixar sua família por causa de seu pai. Seu avô estava certo que agora, longe um do outro, em um lugar novo, ambos esqueceriam essa paixão boba.
— Errado!
Retrucou meu avô com uma voz incisiva.
Minha avó sorriu discretamente e prosseguiu.
— Nem Maura, nem Rob esqueceram suas paixões.
Deu uma pequena pausa, como se refletisse e acrescentou uma observação a qual achei interessante.
— A juventude traz consigo a força do amor, da certeza, e principalmente da liberdade; um pássaro preso jamais deixaria de voar pelo simples fato de estar preso, assim são os jovens, uma gaiola, não os impede de voar, antes convencê-los, que prendê-los, antes abrandá-los na paciência, compreensão e amor, que limitá-los, calá-los e contê-los. Por este motivo são o vigor de uma sociedade.
Achei intrigante o fato de minha avó usar um pássaro em sua metáfora, os pássaros pareciam me perseguir constantemente, era como um sinal, um acontecimento repetitivo, talvez, fosse uma mensagem.
— Longe de agir em obediência às ordens de seu avô, ambos trocavam cartas secretamente com suas verdadeiras paixões. Dois anos depois de nos mudarmos para o Rio Grande do Sul, em uma tarde, Maura se tranca repentinamente em seu quarto, ela se encontrava em total desespero, dava para ouvir seus berros ecoando em toda a casa, eu fiquei aflita, não entendia o que acontecia, em um momento estava tudo bem, em outro parecia ter desabado por completo o mundo de Maura. Eu não sabia o que se passava, mas Rob sabia muito bem o motivo da irmã estar naquele desespero. Rob, trouxe a seguinte carta.
— Era mais ou menos este o conteúdo presente na carta, Tarsilio fora bem objetivo e direto pois não queria alimentar qualquer esperança em Maura, mas destruir todas elas, por isso o desespero profundo do coração de Maura ao se deparar com a escrita presente no papel. Deu-lhe a sensação de não reconhecer o seu amado, antes simbolizado em cada letra e verso, agora parecia frio e indiferente.
— Maura ficou arrasada por dias, e ouso dizer que nunca superou totalmente esse acontecimento em sua vida. Rob culpou e ainda culpa seu avô pelo ocorrido. O coração de Maura estava destruído, machucado, na verdade ninguém concordava, acho que foi o ponto definitivo para que Carlos e Rubia decidissem morar longe. Ninguém quer um pai palpitando, ditando e ordenando em cada passo que você dá. Infelizmente seu avô não era nem um pouco complacente, o que ele achava ser certo não estava aberto a discussões. Esse tipo de pensamento e atitude no tempo era normal, mas não era costume de nosso lar, fui criada com um pai de mente revolucionária e tínhamos acordado o mesmo para a criação de nossos filhos. Meu pai conversava, explicava, queria saber o que estava acontecendo, sua atitude era um total escândalo para o tempo, muitas pessoas o intitulavam como frouxo, pois pensavam que ele deveria simplesmente mandar e nós obedecermos e acatarmos todas as suas ordens. O motivo da minha escolha foi porque presenciei muitas mulheres infelizes com sua vida e não desejava o mesmo para meus filhos, eu realmente achava que este não era o melhor caminho. Eu era vista como alguém perigosa, que queria destruir os princípios, que ameaçava o andar e o ordenar da sociedade, mas isso realmente não me preocupava, eu realmente não via resultados e nem proveito com aqueles métodos. Mais tarde as ideias revolucionárias chegaram, mas eu já lutava a algum tempo sozinha. Pensando bem, seu avô não era contra os pensamentos e métodos da sociedade, eu quem era, foi aí que nosso problema começou, principalmente depois de morar em Nova York e Finlândia (a qual aparenta ser um país pacato, mas possui mulheres fortes e decididas), os novos conceitos de sociedade e família já tinha ganhado força nesses países, é era isso que escolhi para minha família, liberdade com consciência, sem opressão e sem imposição. Seu avô não tinha compreendido que devera-se construir, executar e planejar, conforme o alicerce estabelecido. Os meninos cresceram em um mundo de possibilidades, conhecendo coisas novas, gente visionária, cresceram em um ambiente artístico e poético. Em Nova York, um dia você é construtor, no outro você pode ser escritor, bailarino... Na Finlândia o papel familiar entre homens e mulheres e forte e de muita parceria, as mulheres fazem o que é preciso para o estabelecimento de suas famílias, sempre fazendo o que for necessário, possuem um papel social muito expressivo. Os meninos absorveram esse ambiente de possibilidades, de novidades. Então quando o seu avô decidiu ditar e mandar, todos se assustaram e temeram pois não foi o ambiente a qual cresceram, essa nova atitude não coincidia com as bases já estabelecidas. Sabe, se você quiser manipular alguém, tira-lhe a visão e as possibilidades, deixe ela acreditar que só você sabe e tem os recursos, então, voai-la, um pássaro na gaiola. Infelizmente, de forma diferente, seu avô cometeu o mesmo erro de seu bisavô, pássaros não se prendem, principalmente quando estão acostumados a voar.
Fale com o autor