Voo | O Chamado

3 I Conhecendo Darwin


— Não é nada íntimo ou extraordinário. Todo mundo nasce e cresce, esse é o ciclo natural da vida.

Um dia você se apaixona, casa, descobre esta gravida, a barriga cresce, os preparativos também, e a ansiedade ultrapassa, quando finalmente aquele feto passa a ser o bebê da casa... e etc... e etc. A história sempre tende a repetir é a lei da vida, é eu observo esses ciclos, únicos e interessantes. Uma vez que não há como evitar, gosto de admirar a história do ser humano e suas nuances. Talvez você possa achar que só você sofre. Mas o fato é que no mundo ocorrem milhares de enterros ao mesmo tempo, o sofrimento, o choro; milhares de famílias passando fome, em estados de vida precárias, preocupados. Tudo isto eu consigo observar, e ainda aprecio observar de perto a reação de cada um diante situações diversas e inusitadas.

Mas Darwin, Darwin Kay conseguiu atrair minha atenção... Ele era comum como eu e você, mas possuía escolhas impactantes. Você vai apreciar conhecê-lo.

ASSIM INICIA

A TRAJETÓRIA DE DARWIN KAY ...

Darwin Kay, fora o primeiro fruto de um grande amor, um amor que nasceu entre Lis e Rob; e o tempo ou o dia aqui não tem relevância, se ontem ou hoje, a décadas, anos ou séculos, clássico ou contemporâneo, em um momento importante ou não, filosófico ou helenista... O fato é que veio a existir e abrilhantou a vida por onde quer que fosse. Nasceu no outono, provavelmente os ventos sopravam sua chegada e estadia, e anunciava sua inquietude. Sua casa e sua família talvez seja a mais simples daquela época, ele não tinha luxo, não era conhecido e nem tinha sorte, talvez um pouco, mas Darwin era simples como você e como eu, talvez até mais simples que você e eu, ele era simplesmente e unicamente humano. Ele nasceu e cresceu no meio de muito amor e carinho, e teve o suficiente para existir e o necessário para sonhar. Seus pais moravam em uma fazenda isolada de tudo e todos, até seus oito anos de idade ele imaginava que o mundo era composto somente por ele e sua família. Estava constantemente rodeado de árvores, plantações, animais; cobras, onças, insetos peçonhentos, fofos, e inusitados...

Sua casa era toda em madeira, casa que com o tempo seu pai aperfeiçoou. Mas era tudo bem trabalhado e organizado. No tempo de Darwin não tinha fogão, mas seu pai fez um fogão a lenha para sua mãe de barro que ficava encostado na parede do lado direito de sua cozinha; aliás, sua mãe era uma excelente oleira, ela quem moldava nas mãos todos os utensílios da casa, não havia piso, mas o chão era bem socado, e com o tempo seu pai cortou e cerrou tábuas para pôr no chão, prateleira de madeira ficavam na parede, prateleiras que eram pintadas por uma grande artista, sua própria mãe e depois pelo próprio Darwin, que não reclamava de dormir na rede de palha vendo as lindas estrelas. Nas estações mais frias faziam uma grande fogueira e às vezes dormiam juntos, para ficarem bem quentinhos.

"Não havia televisão, vídeo game, nem nada desse tipo, mas isso não impediu que Darwin fosse uma criança feliz e saudável."

— Ele cresceu vendo seus pais se esforçarem, para ser e fazer o melhor. Rob acordava tomava um bom café, caçava, protegia sua casa de animais, passava dias cortando troncos para a melhora de sua casa, ele nunca parava. Já a sua mãe cuidava da horta, das plantações de milho, trigo, batata, mandioca, e muitas outras que sustentavam a família. Tudo na sua casa era fabricado por eles, os utensílios, as roupas e a comida, por isso ninguém parava, estavam em constante trabalho, exceto quando tiravam o dia para fazer trilha ou deixar as crianças livres para explorarem os arredores de sua humilde casa.

Aos quatro anos de idade Darwin teve seu primeiro irmãozinho, o Olavio, depois aos sete anos teve uma irmãzinha chamada Ozannia e por último aos doze anos teve outro irmão, o Deivy. Olavio parecia um ursinho, sua pele era clara, seu nariz largo e seus olhos pequenos é um pouco juntos, seu cabelo era negro e curtos sempre cortado quase que raspado, ele era engraçadinho, amava se perder mato a dentro, e costumava ser mais calado. Ozannia tinha os cabelos cacheados na cor castanho mel, tinha os olhos de gente esperta e atenta, e realmente ela era a mais brava dos irmãos, seus lábios eram grossos, seu rosto redondo com curvas bem delicadas, sua pele era como tamarindo, seu olhar forte de quem sabe muito bem o que quer. Deivy era lindinho e engraçadinho como um coala, ou melhor filhote de coala; pois era pequeno, o caçula da casa; seus olhos eram espertos e puxados. Deivy era um pouco mais claro que Ozannia, sua orelha se destacava, grande e larga, seu nariz pequeno casava com seu rosto gordinho e sua boca desenhada. Ele amava mexer em tudo, puxava, quebrava, era a preocupação da casa, quando sumia dos olhos era por que estava aprontando. Seus irmãos eram bastante diferentes, porque Lis e Rob eram totalmente opostos. Um era um urso e o outro um coelho. Rob tinha o rosto parcialmente comprido porém com uma leve bochecha avantajada, olhos atentos, nariz largo e médio, lábios grossos levemente desenhados, cabelos ondulados pretos, sua pele era de tamarindo, seus ombros largos, sua estatura média. Ele era aparentemente calmo e muito ativo, seu pai estava sempre pensando no que tinha que ser feito e nunca parava, possuía um senso de responsabilidade muito apurado, era capaz de se entregar para ver todos da família bem, às vezes passava uma aparência até de carrasco, sempre cobrando de todos a perfeição, porém era bobo e engraçado nos momentos de tranquilidade. Já Lis, como seu nome diz, é delicada, linda e singela, como a inspiração de seu nome sugere. Ela é clara seu rosto levemente arredondado e singelo, seus olhos claros puxados e levemente pequenos, assim como seu nariz, sua boca desenhada, seus cabelos grandes um pouco ondulados e castanho mel, sua estatura baixa e magra. Lis era tranquila, um pouco distante, mas amorosa e doce, exceto quando alguém aprontava alguma coisa ou quando ficava nervosa, aí que cada um corresse e se escondesse, por que ela virava uma leoa, ninguém ousava chegar perto, nem mesmo Rob. Ela era super talentosa e tinha uma destreza única com as mãos, um dom lindo para as artes e artesanato.

Sei que está curioso para conhecer Darwin, bem, ele era o mais diferente de sua casa, sua estatura média, magro, sua pele marrom bem claro, o rosto redondo com o queixo um pouco pontudo, seus olhos mel bem claro redondo e grande, seu nariz pontudo e sua boca levemente grossa e desenhada, mas seu ponto de admiração era seu cabelo que era muito e meio ondulado castanho bem claro, às vezes quando o sol batia parecia ser ruivo. Darwin era inquieto, gostava de perguntar, era sonhador, criativo e doador. Ele era uma alma revolucionária, tinha a natureza de um pássaro, odiava estar preso, procurava a liberdade e a ponderança. Sim, às vezes ele parecia ser até contraditório, porém era somente Darwin sendo ele.

Darwin teve uma infância tranquila, sorria, brincava, dava birra, emburrava, quebrava, machucava... Cresceu como qualquer outro.

Aos seus quatorze anos de idade na chegada do inverno, todos estavam a trabalhar, e a fazer a sua função. Ozannia estava em casa com Lis, ela moldava um vaso com a cara fechada. Ozannia tinha a alma inovadora, ela era realista, porém evitava a constância e os padrões, seu desejo era estar com seu pai e irmãos, por isso fazia aquele vaso simplesmente por fazer, talvez esperando que desaparecesse de sua frente. Sua mãe ignorava sua expressão de indignação, transitava pela cozinha sem nem olhar para o lado, tentava ensinar a Ozannia a disciplina e o desenvolvimento em outras áreas, que talvez não gostasse. Já Rob, Darwin e Olavio estavam na floresta, cortando lenha, caçando, e pegando água no rio que ficava próximo da casa. Seu irmão Olavio amava a floresta, mas constantemente dava uma fugida do trabalho e logo aparecia, ele amava os animais, perdia muito tempo observando, alimentando e ajudando os bichos, por esse motivo a floresta era seu lar, seu local sagrado. Darwin gostava de estar ali, era ótimo caçador e cuidador, se dedicava em tudo o que fazia.

"Mas no fundo ele se sentia preso, se questionava em relação ao tamanho do mundo, sentia falta de algo a mais, queria ir, sair, viajar, mundo afora. Darwin sentia que estava limitado, restrito. Sabia que algo lhe chamava, uma voz em seu íntimo dizendo que aquele lugar não era tudo.

Às vezes ele se perdia observando a natureza e sua sincronia, a leveza dos pássaros, a sincronia das folhas, a beleza do horizonte, tudo era maravilhoso demais. Alguém muito brilhante fazia e tornava tudo tão maravilhoso, aliás as lenhas não surgem do nada, os utensílios e as pinturas que são bem mais simples que a natureza não surgem do nada, imagina algo tão complexo quanto o mundo. E ele sabia que esse mesmo ser brilhante lhe chamava a ser mais, e mostrava o céu para Darwin e lhe convidava a estar ali, o céu apontava seu potencial, isso lhe queimava o coração.

Às vezes Darwin até se chateava pois pensava se seria possível viver sua liberdade e seu propósito, não queria chatear seus pais, nem ser um peso para sua família, mas ele prosseguia certo e firme em seu chamado, sua realidade podia ser diferente porém sua alma já vivia seu sonho."

— Na chegada do inverno, seu pai e seus irmãos trabalhavam quando Ozannia chegou exasperada chamando por seu pai:

— Paaaaiiiiii, paii! Cadê o paiii?

falava ofegante e com tom de desespero.

— Rob cortava uma lenha quando ouviu a voz e reconheceu que era Ozannia, deixou logo o machado e desceu rápido a campina. Seus filhos estavam debaixo da tenda de madeira que ele tinha construído para tapar do sol e chuva e para preparo da caça.

— O que foi menina! O que é isso, o que houve?

Ozannia parou pondo a mão no coração e recuperando o fôlego.

— E a mãe!

— O que houve com sua mãe? Fale menina, que me mata do coração!

— Mãe não está bem, reclama de dor muito forte na barriga, está ficando pálida e está com febre.

Nunca atravessamos a mata tão rápido, pai ficou preocupado pois ela tinha ficado com Deivy que não era nem um pouco sossegado. Para Ozannia ter chegado tão preocupada sabíamos que ela realmente estava mal. Aliás, éramos acostumados a tratar enfermidades, tínhamos conhecimento das plantas, sabíamos as específicas para cada sintomas.

Aquela foi a noite mais terrível de minha vida. Mãe realmente estava mal, rolava de dor na cama, gemia sem parar. Uma hora depois pai vendo que não iria melhorar, que nada que usávamos adiantava, pegou a carroça e o único cavalo que tínhamos a qual só pai cuidava e raramente víamos, colocou mãe atrás da carroça, colou algumas roupas em uma bolsa velha e antiga e me mandou cuidar de meus irmãos até que ele voltasse.

— Pai.

Balbuciei meio nervoso.

— a mãe vai ficar boa não é!? Eu não estou pronto para perder a...

— Darwin, ela vai ficar boa, olha para mim meu filho. Quando não estamos aqui você é o responsável, eu confio em você, cuide de tudo.

O pai segurou minha nuca forte, olhando no fundo dos meus olhos, a qual por um minuto percebi que precisava ser forte, pois todos estavam com medo, todos estavam preocupados, e se despediu com um beijo em minha testa.

Deivy pela primeira vez estava acuado, parecia compreender muito bem o que acontecia, seus olhos faltavam pular de sua face. Peguei-o no colo, logo encostou em meu ombro, eu sussurrei.

— Vai ficar bem, papai e mamãe logo voltam, vai ficar bem...

Repetia a frase outra vez, talvez tentasse me convencer, ou estivesse consolando mais eu que ele, o fato era que todos nós tínhamos que ser fortes, pois todos temos medo, às vezes os mesmos medos, as vezes diferentes, porém não deixa de ser monstros.

Assim, vi na porta de minha humilde casa pai sumir no horizonte com seu cavalo e sua carroça, juntamente com o sol, rápido a galopar.