Voluntários - Interativa
21 Capítulo 21 - Preparando a Fuga
Notas iniciais
Jake não queria ir a lugar algum. Ele não tinha forças para isso. Passara anos e anos se escondendo sobre essa mascara, fazendo mal a si mesmo, mesmo sem perceber. E então quando, finalmente, começa a achar que ainda há esperanças, começa a acreditar e confiar e alguém... isto acontece.
O corpo inerte de Mely em seus braços parecia provar para o garoto que, mesmo com o peso de seu passado e angústias pesando cada vez mais sobre seu ombro, era melhor guardar tudo para si mesmo. Desse jeito, não abriria mais um buraco em seu coração, já fraco de tanto rancor e mágoa.
Ed sabia que deveria dar um tempo para Jake. Mas, infelizmente, isso não seria possível. Os Voluntários estavam, praticamente, em guerra. Eles tinham que agir rápido, ou seria impossível evitar mais perdas.
Estava prestes para pedir a Jake para continuar – mesmo sabendo como o garoto gritaria, irado, com ele – quando sua câmera focou numa menina, presa numa sala, na sala onde faziam experimentos com os Voluntários. Ela estava tão encolhida contra a parede que antes Ed nem percebera sua presença. Mas uma coisa ele sabia. Tinham que tirá-la dali.
– Hm... Jake?
– O quê?! – Respondeu Jake, cerrando os dentes ao se controlar para não gritar.
– Tem uma garota na sala de experimentos com Voluntários.
Jake fungou. Sabia que, mesmo morrendo de medo daquele lugar, Mely seria a primeira a sair correndo e ajudar a menina. Ele abaixou-se e depositou um beijo na testa da garota. Depois disso, largou seu corpo inerte e frio suavemente no chão e foi para o outro laboratório.
– Qual sala? – Perguntou Jake, impaciente.
– A última.
Então Jake atravessou a sala, passos longos e rápidos, querendo acabar isso o mais rápido possível.
Ao chegar à falada última sala, ele abriu a porta – que só podia ser aberta do lado de fora – e explicou para a garota, quem ele era e o que fazia ali.
– Eu não acredito em você – disse a garota, claramente traumatizada pelo que passara ali. – Eu não sou estúpida, você sabia?
Jake bufou. Já não tinha paciência para muito drama, muito menos nesse momento.
– Não estou tentando convencer você a fazer nada. Na verdade, deveria estar me agradecendo por eu estar aqui. Poderia muito bem virar as costas e te deixar apodrecer aqui. Então, ou você confia em mim de uma vez, ou continua presa aí.
A menina levantou-se rapidamente, ombros e cabeça erguida, claramente muito orgulhosa.
– Vamos logo, então – ela disse.
~~~
Metamorfo, Annie, Sora e Sky continuavam discutindo quando a porta se abriu. Os quatro deram um grito de surpresa e levantaram, já em posição de ataque.
– Zac – falou Metamorfo –, precisamos conversar.
Mas Zac apenas riu e respondeu:
– Anda tendo problemas com o coração?
Sky olhava para a situação. Nada daquilo adiantaria. Uma conversa não convenceria Zac a trocas os corações de Metamorfo e Annie. E estavam em desvantagem – não numérica, mas aquele era o território deles.
Estamos perdidos, foi o pensamento de Sky.
– Hey! – Surgiu um grito ao final do corredor. Era Lizie.
A garota avançava com sua arma de fogo em punho. Ela não hesitou. Puxou o gatilho e atirou na perna de Zac, o imobilizando. Depois, lembrando do poder de Alec, atirou em seu braço direito, assim, o deixando impossibilitado de desenhar.
Sky, vendo a oportunidade, se jogou no chão, derrubando Zac no processo, que gemeu de dor.
– Use seu poder – ameaçou a pequena – e eu quebro seu braço.
Zac sequer pensara em utilizar seu poder. Não ligava muito, na verdade. A responsabilidade dele não é cuidar da segurança da cede. Há agente para isso. E, bem, mesmo trabalhando para o governo, era bom ter oportunidade de ferrá-los de vez em quando.
– Não precisa ameaçar drama Queen. Eu concordo em fazer a troca de corações, mas para isso preciso usar meu poder.
– Tente alguma... – começou Sky, mas foi interrompida.
– Eu sei. Você quebra meu braço.
Zac sentou com dificuldade, afinal, acabara de ser baleado e, além disso, Sky não facilitava a vida dele.
Uma áurea azul os preencheu, como da última vez. A diferença era que, agora, os Voluntários que tinham vantagem sobre Zac.
Zac esticou a mão e repetiu o processo, fazendo a troca de corações mais uma vez. Quando a troca foi feita, a áurea azul se desfez.
– Isso quase me faz querer agradecer a você – disse Metamorfo, tirando um sorriso esnobe de Zac –, mas então lembro que, se você não tivesse sido um babaca hipócrita, isso nunca teria acontecido.
E então, como se fosse uma deixa, Sky, em um golpe perfeito, levanta sua perna, quase como numa dança, e dá um chute na lateral da cabeça de Zac, que caí inconsciente.
Alec, assim que se viu completamente indefeso, fugiu. Precisava achar Cassey. Ali, ele não seria útil. Sora poderia se multiplicar o quanto quiser, e Lizie tinha uma arma. Nem em uma luta corpo-a-corpo ele poderia fazer muito.
Lizie e Sora conseguiram encurralar Green, que foi recuando cada vez mais. Ali, no último andar, elas tinham vantagem. Nenhuma planta, sequer árvore, a vista.
Então, Green começou a correr. Sora e Lizie se olharam e riram orgulhosas. Conseguiram afugentar o garoto. Sem perder tempo, começaram a correr atrás dele.
Ele virou à esquerda e entrou na primeira porta à direita. As garotas se precipitaram porta adentro, mas se arrependeram na hora que colocaram os pés no cômodo.
Aquele era, definitivamente, o quarto de Green. Uma cama estava disposta, por fazer, do outro lado do quarto. Uma bancada na parede ao lado das garotas com alguns papéis e uma luminária. Fora isso, o resto do quarto inteiro era composto de plantas. Elas acompanhavam toda a parede e estavam em todo o quarto.
Green esperava a passagem das garotas e, assim que elas o fizeram, ele fechou a porta.
Sora estava prestes a usar seu poder e se multiplicar, quando Lizie deu um leve toque em sua mão, pedindo para que ela tivesse calma. Força bruta não adiantaria nesse caso. Estavam completamente cercadas de plantas. Agora, ele mandava.
Lizie, sem desviar o olhar de Green, falou na mente de Sora, pedindo para que ela mantivesse o garoto distraído.
Sem ter que pedir novamente, Sora começou:
– Por que você faz isso?
Enquanto isso, Lizie entrou na mente de Green. Ela, como sempre, procurou não invadir muito a privacidade do garoto. Queria apenas saber o necessário. E então, ela viu.
– Você tinha uma irmã – disse Lizie. – Vocês dois não tinham para onde ir, resolveram trabalhar para o governo para se salvarem.
– Você não tinha o direito de ler minha mente! – Gritou Green, esticando os braços.
Uma planta agarrou um dos pulsos de Lizie e a puxou para trás, junto com as outras. Sora gritou, assustada, mas logo tentou ajudar.
– NÃO! – Lizie gritou, pedindo para que ambos parassem. O aperto que a planta fazia em seu braço diminuiu, mas ela ainda não conseguiria se soltar. – Eu não quis invadir sua privacidade, desculpe. Só vi o necessário. Sei que o governo enviou sua irmã numa “missão”, mas tudo era uma desculpa para causar a morte dela. Você também sabe disso. Por que ainda está aqui?
Green olhou para baixo, envergonhado. E as plantas imediatamente soltaram Lizie. Sora, entendendo a situação, se aproximou lentamente, tocou o ombro do garoto e disse:
– Venha com a gente.
– Gente – disse Ed, pelo microfone – precisamos evacuar. Muitos agentes estão no prédio, todos já sabem da invasão.
Ed logo, que já tinha invadido a rede de segurança da cede havia tempo, trancou todas as portas, só liberando quando um dos Voluntários fossem passar.
~~~
Eno e Cassey andavam por um corredor quando Alec entra correndo.
– Invasão! – Ele praticamente grita, arfando.
– Nós sabemos, idiota! O que está fazendo aqui, para começo de conversa? Deveria estar protegendo a cede – diz Cassey, num tom calmo, porém mortífero.
– Destruíram meu caderno – ele disse, encolhendo os ombros.
– Alguém se machucou? – Perguntou Eno, tentando, sem sucesso, fingir descaso. Para concertar, ela emendou – Porque, se sim, podemos levar vantagem com isso, sabem?
Cassey olhou a mais velha de cima a baixo, decidindo que aquele seria o momento perfeito para testar a lealdade da menina.
– Na verdade, sim, muitos estão feridos. Seu irmão, por exemplo. Um tigre (o qual eu invoquei) casou-lhe um arranhão profundo no braço. Deve conseguir viver, ao contrário de sua amiga... qual o nome dela mesmo? Não importa, aquela que convoca o fogo...
– Mely está...? – Eno mal conseguia terminar a frase.
– Morta. Sim.
Ela recuou um passo. Sua boca abria e fechava, sem conseguir reformular uma frase. E de repente, se lembrou da Mansão, de todos que lá habitavam. Todos que estavam ali, procurando por ela.
E foi nesse momento que a garota percebera toda a burrice que ela fizera até ali. Além de tentar separar seu irmão e Lizie, a garota fugira... julgará todos errado. Eles estavam lá por ela. Era sua culpa.
– Não pense em fugir agora – disse Cassey, sua voz era calma, mas ela claramente estava nervosa.
Eno estava a apenas dois passos de distância de uma porta, enquanto Cassey estava meio longe... Talvez se ela corresse.
Ed, que estava reparando na cena com atenção, destrancou a porta atrás da Eno. E, rapidamente, a garota correu, atravessando o portal, e o fechando atrás de si, dando liberdade para que Ed o trancasse de volta.
Dando alguns passos para trás, Eno percebeu que a porta estava trancada. Cassey e Alec ficariam trancados aí por algum tempo. Sorrindo, Eno virou-se e começou a correr. Precisava encontrar seu irmão.
~~~
Jake encarava a menina. Ele realmente estava surpreso, não esperava tamanha atitude de uma garota que, minutos atrás, estava encolhida e indefesa em um canto. Era, realmente surpreendente.
Ela portava uma espécie de vestido completamente branco, como daqueles que se tem em hospitais. Estava sujo e encardido, e não aparentava ser quente, dando Jake à certeza que a menina morria de frio na maior parte do tempo. Os cabelos dela, outrora sedosos, agora estavam sem brilho e embaraçados ao redor do rosto dela. Sua pele estava suja e pálida, devido à falta de sol.
Sem esperar a garota, ele virou-se e saiu porta a fora. Ela logo veio atrás dele, apertando o passo.
– Não vai perguntar meu nome? – Ela disse e, ao vê-lo calado, continuou – Bem, eu me chamo Katherine. Katherine Hora.
Mais silêncio. Katherine esperou até os dois chegarem ao final do corredor, dando um tempo para que ele respondesse. Mas ele não o fez.
– Então, é essa a parte que você me oferece seu casaco? Porque, fala sério, reparou nas minhas roupas?
Jake revirou os olhos. É claro que ele reparara. Katherine tinha uma beleza natural. Mesmo toda mal cuidada, devido ao cativeiro, era possível ver que a jovem era bonita. A garota era alta, com olhos grandes e negros como a noite. Jake não evitou reparar nas belas e longas pernas da garota, mesmo não querendo olhar, ele olhou.
Ele ofereceu o casaco e abriu a porta, voltando ao cenário da luta. Ele abaixou a cabeça. Uma mistura de tristeza e vergonha por ter ficado reparando no corpo da nova garota invadiram seu corpo. Caminhou lentamente até o corpo gelado de Mely, agachou-se e pegou-a no colo. Não poderia deixá-la ali, no lugar dos antigos pesadelos da garota.
Ao ver a cena, Katherine hesitou, perdendo toda sua pose de durona. Com isso, ela desistiu de procurar informações sobre ele. Desistiu, até, de puxar conversa e caminhou atrás do garoto, em silêncio.
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