Os passos de uma certa jovem misteriosa eram demasiado apressados naquela noite. Enquanto corria, seu coração batia acelerado e seus olhos vasculharam cada esquina que cruzava por aquela cidade, completamente atenta, pois sabia que o perigo estava à espreita naquela noite, querendo o que ela carregava em seus braços de forma tão cuidadosa e protetora.

O suor molhava seu rosto, que em parte, estava oculto por meio de um capuz cinzento de seu vestido. Ao virar e entrar em um beco, aquela senhorita respirou ofegante, com seus olhos arregalados procurando rapidamente um lugar para esconder-se até que tudo estivesse calmo, pelo menos por enquanto. Mas de repente, seu olhar brilhou ao chegar no fundo daquele local.

Era um muro alto que chegava até 9 pieds*. O diferencial dele era uma pequena passagem que havia ali, a qual ela passou sem dificuldade. Era um bom esconderijo para si mesma, pois um homem de altura maior não iria conseguir atravessar. Ao caminhar mais um pouco, conseguiu ver um pequeno buraco na parede de uma casa aparentemente velha.

Pieds: pés em francês, unidade de medida antiga, equivale a três metros de altura.

Se escondendo naquele espaço, agachada, a moça se calou. Ali, podia escutar o som de sua respiração ofegante colocando a mão livre em seu peito ao mesmo tempo que sentiu um alívio. Então, juntando suas mãos em oração, recitou uma reza em latim enquanto fechava os olhos, tendo cuidado com a sua criança em seu colo, abaixando a cabeça.

— Santa Helena, mãe da humanidade… — balbuciou enquanto tirava de seu bolso, um colar contendo contas e um pingente de flor de lis, clara e escura, talhada em madeira. — Peço-lhes com toda minha devoção, proteja meu filho…perdoem-me como mãe, por não cuidar dele como eu deveria por minhas condições.

Vendo-o, suas lágrimas começaram a banhar sua face. Sentia um peso em seu coração, pois seu maior desejo sem dúvidas era criá-lo com todo o amor e carinho, mesmo sendo um fruto proibido de sua relação a qual lembrava que terminou em profunda amargura. Havia caído nas palavras de um nobre falido e por isso caiu em desgraça, pelo menos para sua família.

Na verdade, ela considerava aquele pequeno ser uma benção, mesmo à contragosto de seus pais. Escondeu a gravidez por muito tempo, inventando diversas desculpas, até mesmo para eles, para que pudesse ter sua gestação em paz com a única que sabia daquele segredo: sua dama de companhia que ajudou-a por todos aqueles meses.

Ambas foram para um castelo de seu pai no interior, com a história de que queria estudar em paz. Passaram todo aquele tempo se comunicando com a família por meio de cartas, mantendo todo o cuidado, não podiam deixar que nenhuma informação sobre aquilo chegasse aos ouvidos deles, pois sabia que seria um grande escândalo.

Quando o bebê nasceu, aquela moça ficou feliz, mas triste ao mesmo tempo. Não podia deixar ninguém saber de que havia tido um filho bastardo e seus pais já estavam requisitando a sua volta devido ao noivo que escolheram para ela, o que lhe doeu mais o coração. Por causa disso, após seu período de grande descanso, fugiu para aquela cidade, Paris, mas encontrou desagradáveis companhias.

— Aquele maldito marquês…filhote de um abutre… — mumurou quase sussurrando enquanto sua mão livre se cerrava com força, com seu cenho se franzindo apenas em se recordar do rosto de seu antigo amante.

Seus olhos se arregalaram quando ouviu passos, pois sabia que eram eles. Aqueles sujeitos eram guarda costas e somente em lembrar para quem trabalhavam, seu estômago embrulhou-se. Agarrando a criança protetoramente, torceu para que eles não a pegassem e tirassem dela seu bem mais precioso à força, preferia dar a vida por ele do que vê-lo nas mãos deles, sabendo que iriam matá-los.

Então, os barulhos pararam por um momento, mas pareciam se aproximar do beco. Naquele momento, seu coração gelou e seus olhos se arregalaram, pois os sons foram aumentando, atravessando todo o percurso até perto dali. Eram vozes masculinas estrondosas, que proferiram palavras em uma língua desconhecida para ela, que apenas sabia que não era o francês.

O silêncio dominou o local novamente. Por todo o momento, seus olhos lacrimejaram enquanto torcia para que seu filho não acordasse, estava adormecido desde que chegaram à cidade. Se ele despertasse, seu choro iria entregá-los, mesmo sem intenção. A moça sabia que eles estavam ali e que eram um grupo de três homens, procurando-a de forma silenciosa e prontos para surpreendê-la a qualquer segundo.

Até que mais um se manifestou. Era um quarto indivíduo que chegou ali com sua lanterna, assim como os demais. Ao ser atualizado da situação, irritou-se, pois deviam achá-la o mais rápido possível, era essa a missão. Eles deveriam executá-la e ela estava ciente daquilo, por isso estava com tanta pressa, pois pensou:

“Que eu morra nas mãos deles, mas que nunca peguem meu filho. Que vá para o tártaro aquele infeliz do marquês Bentley!”

— Porque ainda estão procurando aqui, são idiotas, por acaso? — questionou aquele senhor, alto e atlético, coçando a sua barba e olhando os outros com seu cenho franzido, falando francês. — Ela foi vista perto do mercado, não está aqui!

— Como? Juramos que ela estava aqui, não é possível! — Exclamou o terceiro na mesma, indignado ao ouvir aquelas palavras. — Maldição!

— São duas. Então a primeira é a Lady Amice e a segunda é uma ajudante — deduziu o segundo ao passar a mão em seu cabelo, com um olhar desconfiado, até que olhou para a pequena passagem do muro. — Uma delas deve ter passado por aqui, a outra pode ser uma distração.

— Exatamente, mas nenhum de nós consegue passar por ali — indagou o primeiro ao arquear a sobrancelha. — Contudo, pode ser que aquela rata seguiu em frente e estamos perdendo tempo aqui como tolos.

— Então o que estão esperando? Vamos logo! Dois de vós virão comigo para o mercado enquanto o restante vai para onde a outra foi e que com certeza não foi aqui — declarou o quarto com olhar repreensivo, puxando uma dupla daqueles homens e indo embora, com os outros fazendo o mesmo em seguida.

Aquelas palavras por um momento fizeram aquela moça se arrepiar. Por um instante seu coração bateu depressa e lutou para prender a respiração, com a intenção de não entregar-se daquela forma para que eles a encontrassem. Seu rosto estava molhado com suas lágrimas salgadas, imaginando sua trágica morte nas mãos deles caso conseguissem pegá-los.

Mas seus pensamentos logo foram para sua dama de companhia, Edilda. Ela, assim como a dama, era nobre, mas falida, e jovem com seus dezesseis anos, mas não havia conseguido ainda um bom noivo para casar-se. A jovem lady era filha de um barão e lamentava não ter irmãos homens, pois essa era a razão das brigas de seus pais.

A moça bufou levemente. Sabia que devido a aquele problema de seu pai não ter tido herdeiros homens, ele chegava em casa apenas no dia seguinte após passar momentos com uma de suas cinco amantes, que de acordo com as cartas que leu, eram quatro meretrizes e uma mulher da nobreza que vinha de uma família falida que queria a ajuda dele.

Querendo sentir algum alívio a mais, Amice tirou seu capuz. O espaço era pequeno, contudo, ainda sentia o vento noturno em seus longos cabelos dourados cor de mel, o que a fez suspirar, mas preocupou-se em um instante com a saúde de seu filho, pensando, com um pesar em si mesma, que ele iria sobreviver ao custo da vida de sua dama.

— Ó minha santa, peço perdão pelos meus pecados, envolvi minha fiel companheira e amiga em meu objetivo e agora…não sei mais se quero viver com essa culpa — sussurrou ela enquanto seus belos olhos lacrimejaram mais uma vez. — Por favor, se eu morrer, dê-me remissão de meus crimes e acesso ao descanso eterno.

Então, a moça olhou para seu bebê mais uma vez. Ele era belo, com a mesma coloração dos cabelos que sua mãe, o que a fazia sorrir e agradecer aos céus pois o pequeno não havia herdado as características do pai, mas a moça suspirou pesadamente, pois não queria que ambos estivessem com risco de vida por causa dele.

A garota apenas soube daquilo quando chegou na cidade. Aquilo fez seu sangue ferver, por não imaginar que um homem tão íntegro como seu antigo amante pudesse fazer tal coisa, no mínimo esperava que ele se casasse com ela e ambos constituíssem uma grande família juntos, porém isso não passou de uma mera ilusão.

Ao perceber o silêncio, veio sua desconfiança. Não escutou mais nenhum barulho e pensou que aqueles homens estivessem ainda ali, esperando para pegá-la como um animal captura sua presa. Amice não podia arriscar dar outro passo e vendo seu filho, rezou internamente para que o pequeno continuasse em seu calmo sono.

Mas então, começou a pensar: se aqueles sujeitos retornarem com algum instrumento para derrubar o muro? Seria sua ruína total. Não podia ficar ali por mais tempo, porém como fugir dali a tempo? Não havia outra saída, pelo menos ainda não explorada e tinha que sair daquele buraco, depressa, sem acordar seu filho.

— Que a santa ilumine nosso caminho e nos ajude — murmurou ela ao se retirar daquele lugar.

Olhando para o lado, a jovem percebeu uma estreita passagem. Analisando-a rapidamente, viu que dava para passar com sua criança. Aquela agora era sua esperança, deveria cruzá-la, mas sentiu palpitações e arrepios, não queria que o caminho a direcionasse a um local sem saída, entretanto, essa era sua única escolha.

Devido a isso, encetou a rezar intimamente. Começou a cruzar o acesso, agarrando seu filho e protegendo-o enquanto esgueirava-se por ali, soltando grunhidos ao sentir as paredes arranhando-a mesmo estando coberta com seu vestido acinzentado, parecendo que o tecido e suas mangas longas não eram suficiente para protegê-la.

Contudo, no meio do trajeto, seu coração gelou. O nenê mexeu-se em seu colo e apertou os olhos, aparentando estar incomodado com algo mesmo em meio aos seus braços. A jovem parou naquele instante e respirou pesadamente, sentindo seu choro molhar seu rosto mais uma vez, vendo o bebê começar a grunhir e a choramingar.

Ao olhar para trás, seus membros tremeram. Temeu que aqueles homens aparecessem ali apenas por causa daquele som, mas no momento, não havia outra solução, deveria acalmá-lo o quanto antes para que não os entregassem. Então, começando a balançá-lo levemente perto de seu peito, ela começou a cantar uma canção que sempre ouviu, em latim.

Durma, durma, pequenino,

No colo de sua mãe.

Que os anjos te protejam,

E o sono doce seja sagrado.

Santa Helena, cheia de luz

Que a luz seja serena à noite.

Durma, pequenino, não tenha medo,

Alva sempre está por perto.

Enquanto balbuciava aquela letra, sentiu o pequeno bocejando. O sono havia chegado mais uma vez, o que de fato era um alívio grande para ela. Contudo, por um momento sentiu uma sensação calorosa, devido às memórias doces de quando sua mãe cantava para ela dormir quando era criança e que agora, fazia o mesmo com o seu nenê.

Isso encheu seu peito de calor, o que a fez sorrir. Sempre se imaginou fazendo isso com o fruto com seu futuro marido e agora, o fez com sua cria, mesmo que por pouco tempo. Mas ao voltar a si, não perdeu tempo, voltou a cruzar aquela passagem e agradeceu à santa tanto pelo sono do bebê, quanto por não ter ouvido vozes daqueles homens.

Quando pôs os pés para fora de entre aquelas paredes, seu coração se aliviou. Seus olhos averiguaram todo o local, que era uma casa mal iluminada, o que lhe foi motivo de estranheza, pois não imaginava algo do tipo, porém, seus pensamentos sugeriram o porquê daquela passagem ir até o pátio onde esteve anteriormente.

Contudo, ao escutar passos, o que a fez arrepiar e arregalar os olhos. Apressada, ela escondeu-se atrás de um baú e agarrando seu filho, torcendo em seu íntimo para que aqueles homens não entrassem naquela casa, que a julgar pela aparência, estava abandonada já há muito tempo devido à madeira velha e as plantas brotando do chão.

“Por favor, tudo menos aqui, pela graça de Santa Helena, que eles não entrem aqui e nem vasculhem nada…”

Ao pensar, novamente se aliviou. Não ouviu nenhum barulho e isso a fez suspirar de leve, por os passos daqueles sujeitos terem se distanciado assim como aquelas vozes. Agora, não poderia esperar mais, teria de deixar aquele local e correr para a igreja o mais rápido possível antes que eles pudessem vê-la nas ruas.

Então, após respirar fundo, ela andou em passos leves até a porta. Abrindo-a, olhou para os lados e não percebeu nenhuma figura ali, somente as casas silenciosas, adormecidas e alheias ao que estava acontecendo durante aquela madrugada. A moça sentiu seu coração acelerar, a hora era aquela, não haveria outra oportunidade.

Não perdendo mais tempo, a jovem começou sua corrida. Enquanto corria, sentiu seu coração acelerar junto à sua respiração, cruzando o caminho à frente e tendo cuidado olhando para os lados, atenta a qualquer aparição suspeita daqueles seres que pudessem surgir durante o perigoso percurso até o destino desejado.

Ao dobrar uma esquina e cruzar um curto beco, a moça agarrou com força seu filho. Por conseguinte, seguiu em linha reta, mas parou e correu para a esquerda, sabendo que o caminho que fosse seguir originalmente a levaria para a praça, o que com toda a certeza aumentaria sua exposição e as chances de ser pega.

— Já estou quase lá, aguente firme… — murmurou ela, franzindo o cenho e sentindo o suor molhando sua face mais uma vez.

Contudo, ela parou. Quando olhou para o lado, sua palpitação aumentou e lágrimas banharam sua face ao ver uma horrenda cena; sua dama de companhia estava largada, com olhos arregalados e com o vestido rasgado. Passando rapidamente a vista pelo corpo dela, Amice pôde ver a marca de uma espada, indicando a causa da morte de sua amiga.

Sua companheira agora se foi, o que fez seu coração se pesar mais uma vez. Não queria que a situação terminasse daquela forma, mas assim foi, aquela jovem que sempre a acompanhou havia se sacrificado para que ela não fosse pega com o bebê, dando-lhe mais chances para completar seu propósito com sucesso.

A moça não podia chorar, não agora. Escutando um estrondo, olhou para o céu, percebendo que as nuvens estavam juntas tapando o céu e indicando que em breve iriam se derramar em chuva. Virando a cabeça para os lados, ela voltou a correr, dobrando uma esquina e em seguida indo em frente, sentindo que estava cada vez mais perto.

Então, ao prosseguir, seu coração aliviou-se. Havia chegado na catedral, com as escadarias que a levavam para a igreja que mais parecia um palácio com sua arquitetura única de ar melancólico que ao mesmo tempo exalava graça, poder e pureza. Ali, apressou-se, aproximou-se dos degraus e subiu-os com rapidez até chegar perto da enorme porta dupla.

— Finalmente… ah… — disse Amice com um suspiro leve de alívio. — Meu filho… estará a salvo aqui…

Ao olhar para a criança em seus braços, porém, seu coração se pesou. Logo suas lágrimas começaram a banhar sua face ao mesmo tempo que seu peito se apertava somente com a ideia de ter de deixar seu bebê ali na porta à mercê do próprio clero ter de atendê-la e perceber o pequeno ser que estava ali.

Abraçando-o pela última vez, encostou a cabeça frágil do nenê em seu rosto e o acariciou. Seu coração estava partido, no fundo não queria deixá-lo ali, mas teria, pelo bem dele e de sua sobrevivência, imaginando-o que pudesse crescer forte no futuro em bons cuidados mesmo que não fossem dela.

Com cuidado, agachou-se, mas com hesitação. Estava relutante em ter de colocá-lo no chão frio, enquanto suas lágrimas chegaram a cair na face dele. Agarrou-o, quando o encostou na superfície, não aguentava aquele peso e a dor no peito que sentia, queria na verdade fugir dali com ele, viver ao lado dele e acompanhá-lo.

Mas, então, com cuidado, abaixou-se e o pôs no piso. Tapando o rosto com suas mãos, não conseguiu segurar-se, sentiu seu choro pingando de seu queixo, hesitava em bater na porta com as aldravas, mas não tinha outro jeito, mesmo que quisesse que tivesse. Ao olhar para seu filho, mais uma vez se abaixou, dando-lhe um beijo na testa, o que o fez acordar.

— Sinto muito… meu bebê… meu fruto… desculpe-me por a situação ser dessa forma… — expressou a jovem ao vê-lo olhando para ela, o que a fez soluçar e fungar o nariz. — Por favor…só lhe peço uma coisa… cresça feliz… mesmo sem mim…

Amice via o olhar de seu filho. Ele não entendia o que estava acontecendo, apenas queria os braços de sua mãe, que não podia naquele momento. Ela, ao ouvir outro estrondo, sentiu duas gotas de chuva caindo em sua face, porém não tardou para que caíssem mais e transformasse aquela madrugada calma e tranquila em um clima chuvoso e melancólico.

A jovem não podia demorar mais, levantou-se lentamente e foi até as aldravas. Ao segurá-las, olhou pela última vez para aquela criança e em seguida, respirou fundo, soluçando em seguida. Sem hesitar mais, Amice bateu as aldravas contra a porta repetidas vezes e logo começou a correr descendo os degraus.

A criança, por sua vez, apenas reparou a mãe sumindo diante da chuva. Ele, sentindo a falta dela, começou a levantar os braços por querer seu colo e seu carinho, mas parecia perceber que não mais os teria, suas mãos começaram a se apertar e por conseguinte o cenho, querendo de alguma forma alívio enquanto a chuva caía em sua face.

Não importava o quanto chorasse naquela hora, não lhe chegava nenhum conforto. O frio açoitava sua pele da face mesmo que o restante de seu corpo estivesse coberto pela manta que o embrulhava. Porém, ao olhar para cima, seu pranto havia cessado, pois escutou as portas daquele lugar sendo abertas e isso o fez ficar curioso.

— Minha nossa! — exclamou um senhor ao levar as mãos ao rosto, chocado com que estava vendo ali. — Alba! Alba! Venha aqui agora!

Após chamar aquele nome, ele se abaixou. Seu olhar penoso caiu sobre a criança que estava ali, olhando-o, com os braços para cima e isso o fez ficar com o coração apertado, perguntando-se o que houve para que um ser tão pequeno e indefeso estivesse ali no meio da chuva, pois sabia dos riscos de pegar uma doença.

Logo, virando-se para trás, viu uma senhora. Ela não tinha menos do que trinta anos, com uma pele branca e um pouco enrugada, estando vestida com um vestido de mangas longas e bufantes que chegavam até o chão enquanto suas mãos seguravam um colar de contas com um pingente de lírio branco.

Ao chegar perto do padre, aquela mulher levou as mãos à boca. Estava chocada, se perguntando intimamente como poderia um bebê ter sido deixado ali aquela hora da madrugada, na chuva. Sem perder mais tempo, aquela moça pegou a criança em seus braços e o levou para dentro, vendo-o que estava molhado com a manta.

Virando-se, viu-o fechar a porta e chegar perto dela. Estava tão incrédulo quanto ele, pois aquele acontecimento era um tanto incomum, pois normalmente, as crianças órfãs que eram deixadas por seus pais, ficavam conventos aos cuidados das freiras e o mais próximo dali estava muito longe e só se chegaria lá com rapidez caso a viagem fosse um dia a cavalo.

— Oh minha nossa…coitadinho…tão pequeno e enfrentando um destino cruel como esse… — disse ela enquanto acalmava um pouco o pequeno ao balançá-lo suavemente em seus braços, olhando para ele.

— É um tanto estranho, pois os conventos é que normalmente onde são deixados bebês como esse, o que aconteceu para a mãe ter escolhido esse local? — questionou o sacerdote ao levar sua mão ao queixo, percebendo um pouco aquela urgência.

— Isso não importa agora, padre, o que realmente interessa agora é que essa criança não pode ficar aqui, não é um local adequado para ela! — exclamou Alba ao virar-se para ele e franzir o cenho, sentindo as mãos do bebê em seu rosto.

— Exato, mas quieta, Alba, aqui é um lugar sagrado, não para seus escândalos desnecessários — retrucou ele ao revirar os olhos e cruzar os braços. — Eu preciso apagar o restante das tochas antes de ir me deitar, já terminei minha reza.

— E eu preciso ir para casa, apenas vim para a reza da madrugada — explanou a senhora ao olhar para o bebê e deixá-lo que segurasse sua mão, o que a fez sorrir de leve. — Olhe para ele, parece um pouco com o Ricardo quando ele era pequeno, não é?

— De fato… devo concordar… ele era tão meigo, sempre tão risonho… — afirmou o padre ao suspirar de leve, mas com um pesar em seu coração.

— E depois que cresceu… ficou tão forte… ah que belos tempos… pena que não voltam mais — expressou ela ao abaixar a cabeça, semicerrando um pouco o seu olhar enquanto olhava para o pequeno, que por sua vez segurou-lhe a face.

Alba olhou nos olhos da criança. Analisando-os, percebeu que eram iguais a ele, Ricardo, na verdade seu filho. A senhora ainda lembrava-se de tudo a respeito dele, de quando o amamentava mesmo sob protestos de seu marido, até o momento que o viu andar, crescer, se desenvolver e se tornar um belo rapaz a qual se destacava seus cabelos castanhos amadeirados.

O padre abaixou a cabeça e fechou os olhos. Assim como a madame, recordava-se muito bem de Ricardo, pois sempre foi responsável por ajudá-lo a seguir uma vida helenística exemplar diante de todos, desde sua iniciação até sua cerimônia como membro oficial participando dos rituais e alegrando o ambiente com sua presença.

O que apertava o coração dela era o fato de que ele se foi cedo. O jovem havia sido chamado pelo clero assim como outros homens e foram recrutados para fazerem parte do exército que iria para a guerra contra os bárbaros da terra ao leste que, de acordo com a igreja, sempre pertenceu à Santa Helena e era local de peregrinação.

Aquela mulher ainda se recordava de quando recebeu a notícia. De início, ela não acreditou no que ouviu, até que veio a realidade bater-lhe à porta quando foram apresentados a espada ensanguentada de seu filho ao lado de seu capacete, entregue pelos soldados companheiros dele que eram na verdade sobreviventes do conflito.

— Ele era tão jovem… não casou-se pois queria fazê-lo apenas quando voltasse — Alba soluçou e logo enxugou as lágrimas do canto de seus olhos ao olhar para o padre. — Mas isso nunca se tornou realidade.

— Alba… minha querida Alba… não chore, por favor, Ricardo não iria querer vê-la nesse estado,ao contrário, estaria agradecido por ter tido uma mãe tão formidável quanto a senhora — ele colocou a mão no ombro dela e em seguida olhou para a criança, alheia ao que estava havendo. — Quem sabe…

— O que? — interrogou ela enquanto franziu um pouco seu cenho ao olhá-lo, esperando sua resposta.

— Quem sabe isso não seja uma benção da santa? Veja, pode ser mais uma chance da senhora ser feliz, que possa preencher seu coração vazio! — a senhora suspirou de leve, mas ao olhar para a criança, não pôde deixar de sorrir levemente.

— Tem razão… pode ser que seja mesmo uma benção, para consolar meu pobre coração velho — afirmou ela ao ver o bebê começando a adormecer aos poucos. — Vejamos… ele tem cabelo loiro… parece que vai se tornar forte… e tem um aperto forte também.

— Qual nome vai dar para ele, então? — questionou ele com um sorriso em seu rosto, analisando as características daquele pequeno.

— Leon… ele vai se chamar Leon Belmont — disse ela, semicerrando seu olhar caloroso sobre o nenê. — Lembra um pouco um leão, se analisar bem.

— Eu acho esse um belo nome. Espero que ele cresça forte e destemido e com saúde também — comentou o sacerdote com a mão no peito, até que seu olhar voltou-se para as velas ainda acesas, o que lhe fez soltar um suspiro. — Bom, é melhor que a senhora e seu filho saiam, preciso terminar meu trabalho.

— Está bem, vou-me então, está muito tarde, só irei fazer essa reza da madrugada no próximo mês, não aguento mais como antigamente — disse Alba ao começar a se retirar, andando em direção à saída onde sua carruagem a aguardava. — Tenha uma boa noite!

— Boa noite, Alba — expressou ele após um suspiro, começando a fazer o sinal de flor de lis com seus dois dedos. — Que a santa lhe dê juízo e a proteja, e também à criança.

Ao correr para sua carruagem, a senhora tomou muito cuidado. Fez de tudo para que o bebê não se molhasse, mesmo que não tivesse muito resultado. Ao entrar em seu transporte, ela direcionou seu olhar para as feições dele, que parecia calmo, mas com mantendo o aperto forte em seu dedo. Isso a fez sorrir de leve, pois ao seu ver, ele realmente parecia um filhote de leão.

Então, escutou os cavalos começarem a levar sua diligência. Enquanto sentia o leve balançar, seus olhos não se desviaram nem por um momento. Ao seu ver, aquele nenê se parecia um pouco com um pequeno leão em seu estado adormecido, com um aspecto calmo e ao mesmo tempo feroz, visto a força do aperto que ele mantinha nos dedos dela.

Em seu íntimo, ela começou a rezar. Pediu à Santa Helena para que aquele pequeno pudesse crescer com saúde, mas também com muita proteção, pois temia que no futuro houvesse algo que pudesse lhe acontecer como foi com seu primeiro filho, o que a fez franzir um pouco o cenho. Logo espantou aquele pensamento, pois não queria que aquele momento fosse estragado.

Contudo, sentia que ele estava lá, protegendo-os e por isso sorriu. Seu coração parecia lhe dizer que um grande caminho estava sendo formado para aquela criança.


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