Volte para Dezembro
2 Dois - Do céu ao inferno.
Notas iniciais
Uma grande claridade entrava pela janela. Mesmo de olhos fechados eu podia sentir que já era de manhã e logo teria que levantar. Abri os olhos e olhei para as cortinas abertas da janela, que deveria ter fechado, assim poderia dormir para sempre. Ok, isso nunca seria possível. Busquei em minha mente algum sonho mas não lembrei de nada. Nem sonhar consigo.
Levei a mão até embaixo do travesseiro e peguei meu celular. Duas mensagens da Kris e uma da Ivone. Nem me preocupei em abrir a da Ivone, com certeza era sobre algo que acabei esquecendo no bar. A primeira da Kris tinha sido enviada uma hora depois que cheguei.
“ Já chegou no tão, tão distante? HahaxD”
A outra já havia passado da uma da madrugada:
“LIZ você perdeu a festa que deu a mesa em cima da Sam. A TRETA ROLOUKKKKKKKK4FNSKKKKKK”
Perdi alguns minutos tentando entender que merda ela tentou escrever e qual o sentido daquilo. Só podia estar bêbada. Não pude deixar de rir, ela só podia ter problemas, sempre acabava mandando mensagens idiotas quando já tinha bebido demais, principalmente para os seus antigos namorados. Não respondi, mais tarde eu ligaria para ela.
Levantei e fui ao banheiro. Era hora de enfrentar o segundo dia de dezembro.
...
— Bom dia – disse minha mãe quando eu me sentava na cadeira – Dormiu bem?
— Sim – respondi enquanto ela colocava café em uma caneca e me passava – Obrigada.
Comecei a comer uma torrada das que estavam cima da mesa.
— Seu pai acabou de sair. – comentou
— Ele ainda vai para o serviço cedo então.
—Nunca irá parar. – disse. Ela queria falar algo, até já podia saber o que era só pela forma como ela puxou assunto e não parava de bater as unhas na mesa. Daqui alguns segundos ela volta a falar, em 3, 2 e...
— Fiquei sabendo que vocês encontraram o Andrew ontem– Sabia!
— É – terminei de comer a torrada antes de voltar a falar–Andy também estava no mercado e me convidou para ir na casa da Marg hoje.
Esperei que ela voltasse a falar, mas não voltou. Fiquei preocupada com o seu silêncio anormal. Olhei para o lado e encontrei minha mãe com lágrimas nos olhos. Congelei. Fazia tanto tempo que minha mãe não chorava na minha frente. Muito menos no dia em que fui embora.
— Mãe – chamei – Você tá chorando?
Ela me olhou com os olhos já um pouco inchados e lágrimas escorrendo, tentou sorrir.
— Você está aqui, meu amor. Vai sair com seus amigos, está no seu quarto... — Não deixei que ela termina-se e lhe abracei.
Era tudo culpa minha! Quando fui embora, sabia que não iria conseguir ir se tivesse que me despedir de todos, então não me despedi. Foi difícil ter que planejar tudo, mas todos sabiam que eu iria embora, só não sabiam quando. Mandei mensagens para todos e avisei que estava indo. Só isso. Mas agora, com minha mãe chorando, a única coisa que poderia pensar é em todo mal que fiz. Não devia ter vindo, não podia vê-la assim.
— Eu senti tanta falta sua! – disse entre soluços.
— Estou aqui, mãe. – sussurrei.
Alguns minutos depois ela me soltou e secou suas lágrimas.
— Bom, chega de chorar – suspirou se recompondo – Tenho muita coisa para fazer.
Sorri para ela e ajudei tirando as coisas do café.
...
Já tinha organizado minhas poucas coisas no roupeiro. Também já havia almoçado e conversado mais um pouco com minha mãe, além de fumar vários cigarros. Agora estou sentada na cama, sem nada para fazer.
Cidade pequena!
Grunhi irritada e fui buscar meu violão. Preciso de algo para fazer. Sentei com o violão e comecei tocar as notas tão conhecidas por mim. Toco violão desde os dez anos, no momento que aprendi não quis mais parar. Música sempre me fez tão bem, é minha melhor forma de pensar. Tudo fica mais fácil com música. Mas não foi tão fácil assim, todas gravadoras que mandei alguma música não me responderam. Isso está acabando comigo!
Passaram-se horas sem que eu percebesse, quando fui notar já se passava das seis da tarde e minha mãe me chamava.
— O que foi? – perguntei depois que cheguei ao primeiro andar.
— Telefone para você! – Só pelo sorriso dela eu já sabia de quem se tratava.
— Oi Andy – atendi.
—Tá afim de carona pra casa da Marg? –perguntou.
— Eu tenho carro.
—Queria fazer uma surpresa para ela.
— Ah... – pensei por um estante – Pode ser.
— Passo aí às oito horas. Até!
— Tchau. – desliguei e caminhei para cozinha pegar uma barrinha de cereal.
No quarto, decidi que estava na hora de um banho e me arrumar. Enquanto ficava no chuveiro tentava relaxar, mas todo o momento não parava de pensar no que poderia acontecer durante essa noite. Nada de ruim, não? Simplesmente não sabia. Eles são apenas seus antigos amigos, por que estar tão nervosa? Se bem que já se passava um ano, mas isso não é tempo suficiente para eles mudarem... Quem eu quero enganar?, é tempo suficiente sim, eu mesma mudei.
Tentei tirar esses pensamentos da minha cabeça e começar a vestir-me.Escolhi uma roupa mais simples, hoje é recém terça-feira e, pelo jeito que eles eram, não deve ser nada demais. Logo depois de secar e arrumar meu cabelo, foi apenas um pouco de maquiagem e estava pronta. Nem precisei esperar muito e Andrew chegou.
— Olá! – disse entrando no carro de Andrew.
— Pronta para rever as melhores pessoas da sua vida? – perguntou divertido.
— Pronta. – sorri.
...
Dez minutos depois chegamos à casa de Marg. Hora de enfrentar tudo. Andy bateu na porta e Margareth Jones, garota que eu chamava de melhor amiga desde meus oito anos, abriu à porta enquanto me observava. Ela ficou vários minutos observando, depois do que parecia uma eternidade, Andrew resolveu quebrar o clima.
— Surpresa! – exclamou Andrew.
— Realmente – concordou sem expressar nada – Entrem.
— Oi, Marg – tentei falar com ela.
— Oi.
Observei a sala que, ao contrário do que eu imaginava, tinha mudado bastante. Os sofás brancos e bem cuidados eram os únicos que estavam no mesmo lugar, a mesinha de centro que era de madeira branca tinha sido trocado por uma bem mais escura. As paredes da sala também foram escurecidas e o carpete era branco agora. Notei também que a estante ainda continuava à mesma, só os quadros que estavam ali que haviam sido trocados.
— Aqui está... diferente. – comentei.
— Você também – disse Marg – Mas já faz um ano.
Me preparei para dizer algo, tentar me defender, mas Margareth nem deixou tentar.
— Um longo ano, Elise. Você não estava aqui e nem se preocupou em ligar. UMA SIMPLES LIGAÇÃO!– Ela suspirou. – Mas agora não é hora nem lugar parte conversar sobre isso, o Taylor chegou hoje da faculdade e só quero ter uma noite feliz.
Nesse momento mais alguém tocou na porta e ela foi atender.
— Taylor? – perguntei para Andrew.
— Sim – respondeu como se fosse óbvio. Mas não era. Quando fui embora ela tinha terminado com o Taylor duas semanas antes da formatura, quando o viu com uma loira da torcida. Como ela pode perdoá-lo? Balancei a cabeça quando mais cinco pessoas entraram conversando animadamente com ela.
— Pessoal essa é a Elise – apresentou-me – Esses são uns amigos meu da faculdade, Reagan, Ethan, Claire, Melinda e Perry.
Sorri e cumprimentei todos. Ela os apresentou como amigos, eu como Elise. Pela primeira vez senti medo de que eu não fosse mais sua amiga. Margareth nos acomodou na sala e buscou um vinho tinto para todos. Enquanto eu tomava o vinho apenas observava aquelas pessoas. Todos universitários, queridos e simpáticos, do jeito que eu seria de tivesse seguido os planos de meus pais.
— Onde está o Taylor? – perguntou a tal da Claire ou Melinda, realmente não sei.
— Estava saindo do banho, já deve descer.
Bastou ela terminar de falar que ele apareceu na escada. Exatamente com lembrava, o que Marg viu nele?
— Elise?!
— Eu mesma – Tentei sorrir.
— Quanto tempo! – depois de beijar-me na bochecha foi falar com o resto das pessoas. Que merda eu estou fazendo aqui? Pedi licença e fui ao banheiro. Agora já estou aqui não posso ir embora, tenho que aguentar. Dei o meu melhor sorriso para o espelho e voltei. Eu consigo fingir ser uma garota que faz Universidade, já tem planos para se casar e faz jantas chatas com seus colegas. Eu consigo.
Quando cheguei na sala de estar todos estavam indo para sala de jantar. Tinha mais dois homens que eu não tinha visto. Sentei ao lado do Andrew para jantar, conversei um pouco com aquele pessoal chato e sorri bastante. Contei que era cantora e minha vida em Los Angeles estava perfeita. Mas bastou um deles falar que a vida de cantora “instável e passageira” pra perceber que logo eu não aguentaria mais. Pelo amor de Deus, essa pessoas têm 19 anos e falam como se tivessem 30! Desde quando Marg e Andrew tornaram-se essas pessoas?
Fui salva pelo meu celular tocando, então pude sair um pouco e ir para varanda. Longe deles.
— Oi Kris – atendi.
— Só para avisar que estou viva e você nem para responder minhas mensagens!
— Foi mal, eu esqueci.
— Eu devia te deixar se foder mesmo, se esquece facilmente de mim. É bem retardada mesmo! — Já deu para notar como ela é delicada.
— Ei, calma! Tá tudo bem por aí?
— Minha cabeça tá doendo muito – choramingou – Já deu uma olhada no seu email? Não, eu sei que não, acabei de olhar e um carinha da gravadora respondeu.
— O QUÊ? – gritei.
— Minha cabeça! Sim, isso aí, entra no teu e-mail de uma vez. Agora vou dormir até a outra semana e tente ser uma amiga melhor me mantendo informada. Tchau!
Então ela desligou. Não pensei duas vezes e abri o e-mail, estava lá. Tinha que estar na gravadora dia 4 de dezembro. Isso é maravilhoso, finalmente iria conseguir! Eu estava no céu. A chance da minha vida chegou, vai ser tudo tão mais fácil...
Espera. 4 de dezembro... É daqui dois dias.
De repente já não é mais tão fácil, eu irei perder a maior chance da minha vida por... por estar nesse fim de mundo!
— Oi? – ouvi alguém falando perto de mim. Virei e percebi um dos homens que chegou depois parado ali. Nem vi ele chegar.
— Oi – Minha voz saiu fraca e senti uma lágrima descer pela minha bochecha. Limpei meu rosto rapidamente.
— Você é...? – Será que ele não percebeu o péssimo momento para tentar falar comigo?
— A pior melhor amiga do mundo que pode perder a chance de sua vida. – Simplesmente saiu assim, não pude controlar.
— Uau – Ele sorriu – Apresentação interessante.
— E você?
— É... – pensou um pouco – O noivo mais babaca que existe e só faz merda.
— Bom saber que não sou a única ferrada aqui. – tentei sorrir – É um prazer, babaca.
— Normalmente me chamam de Theodore – pensou e depois completou – Que eu saiba.
—E eu de Elise.
Os minutos seguintes passei tentando não chorar enquanto lembrava do meu trágico futuro. Só comigo que essas coisas acontecem. O que diabos eu fiz para o mundo?
— Preciso ir para casa. – anunciei. – Sabe se o Andrew vai demorar muito?
— Não – Ele deve ter visto minha careta, pois completou – Precisa de carona?
Pensei um segundo, ele podia ser um psicopata, nem sei quem é.
— Olha, eu sou colega do Taylor em Medicina. Não tenho ficha na Polícia, juro. – brincou. Quer saber, eu preciso ir para casa e Andrew não vai sair dessa casa tão cedo.
— Pode ser. – respondi.
Graças a Deus não trouxe bolsa, não precisei voltar lá e ter que me despedir dessa gente. Só preciso dar um jeito de conseguir estar em Los Angeles dia 4. Mas como?
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