Volte a forma humilde que merece.
1 Liberte-se, Alecrim!
Definitivamente paciência era uma virtude. Principalmente quando seu trabalho girava em torno do atendimento ao público, e contava com uma espécie peculiar, porém comum de cliente identificada por Sorento como: “Alecrim Dourado.”
Essa espécie, nativa das camadas mais abastadas da sociedade, tinha como principal característica a equivocada ideia de que o mundo existia apenas para servir aos seus desígnios.
Geralmente gabavam-se de seus sobrenomes pomposos, ou do fato de serem clientes antigos e assíduos, como se o número de seu documento de cadastro, que faziam questão de repetir tão quanto seus sobrenomes, expressasse toda a aura de superioridade que acreditavam carregar, e que basicamente se materializava em quantos cifrões já haviam gastado naquela livraria.
Para Sorento não fazia a mínima diferença se aquela era a milésima visita de um cliente, ou se ele nunca tinha visitado uma das filiais da Livraria Santuário, atendia a todos com a mesma cordialidade e serenidade.
Todavia, acreditava piamente que algumas pessoas saiam de casa com uma missão, e sem dúvida alguma o homem careca e de voz esganiçada que gesticulava furiosamente e gritava no meio da loja, estava colocando em cheque toda a tranquilidade que lhe era característica.
— Senhor Tatsume, todos os títulos que tenho do T.S.Eliot estão em inglês. — Sorento repetia a frase pela terceira vez. — E sobre o livro do Ezra Pound, posso fazer uma encomenda para o senhor. O prazo é de dezesseis dias úteis, assim que ele chegar o avisaremos.
— Isso só pode ser algum tipo de piada. Onde já se viu, uma rede como essa não ter Pound e T.S.Eliot apenas em inglês. Isso só pode ser incompetência sua.
Sem dúvida alguma deveria ganhar um trocado cada vez que ouvia aquela frase. Ao que tudo indicava todas as mazelas do mundo eram culpa de sua latente incompetência, afinal, onde já se viu uma livraria não ter seções, pilhas e partições voltadas exatamente para o gosto específico de cada cliente.
Era uma afronta, um descaso!
A profunda inépcia trabalhando para que o renomado Senhor Tatsume não tivesse sua necessidade literária atendida. Em algum recanto da sua mente, Sorento ainda acreditava que pessoas que debruçavam-se sobre a leitura mantinham algum grau de educação, e todos os dias essa ideia morria aos poucos. Com a mesma potência em que os gritos do cliente alcançavam todos os cantos da livraria.
Afinal, era sempre vexatório quando um “Alecrim Dourado” não tinha seus desejos atendidos. E naquele dia, parecia estar havendo um desfile deles, uma vez que, o cliente anterior externalizou de forma incisiva seu desgosto pela ausência de quadrinhos de super heróis que não fossem encadernados, e a primeira cliente que havia atendido naquele dia desejava um livro de Fernando Pessoa falando sobre um de seus heterônimos. O alarmante era que ela sequer sabia dizer qual heterônimo lhe interessava.
Em algum momento entre o cliente inconformado dos quadrinhos, e senhora que exigia um livro, mas não sabia exatamente qual exigir, Sorento foi abordado por Tatsume e depois de ouvir todo o discurso padrão de um “Alecrim Dourado”, tentava informar o cliente sobre as possibilidades que eram de sua alçada.
E assim como todo “Alecrim”, Tatsume não sabia ouvir um não.
— Pois eu vou te passar uma lista de livros e quero que você arrume pra mim. — Tatsume falou colocando o dedo indicador no rosto de Sorento.
— Senhor… — O livreiro respirou fundo. — Primeiro peço que tire o dedo do meu rosto, segundo, como já lhe disse, não posso fazer pedido de livros que não constam no sistema.
— Claro que pode! Você não quer. Já fiz isso aqui várias vezes.
— Esse é um procedimento que desconheço. Vou chamar o nosso gerente para que ele possa falar com o senhor.
— Vem cá moleque, por acaso você é algum palhaço?
Sim, paciência era uma virtude. E Sorento sempre ostentou o fato de ter um autocontrole inabalável. Contudo, não deixava de ser um homem e sem nenhuma modéstia tinha certeza que um espécime mais digno do que aquele que o encarava. Sendo assim, para o inferno com as contas e o maldito emprego.
Abriu seu melhor sorriso, colocou as mãos no bolso do colete e antes de encostar em uma das estantes da loja, que ficava próxima ao ponto de acesso no qual pesquisava os títulos disse em seu tom mais sarcástico:
— Isso foi uma pergunta ou alguma constatação?
O rosto do homem ficou vermelho e por alguns segundos Sorento acreditou que o cliente estava entrando em um processo de combustão humana, mas antes que pudesse verbalizar sua estranheza, Shion materializou-se ao seu lado. O rosto do gerente não era dos mais amigáveis, no entanto era direcionado exclusivamente ao “Alecrim Dourado.”
O livreiro intencionou explicar a situação, mas sentiu um toque sutil em seu ombro e quando olhou para trás viu que Isaak o olhava com nítida preocupação. Respirou fundo mais uma vez e deixou-se encaminhar pelo amigo, não sem antes olhar para Shion e receber um meneio de cabeça indicando que estava mais do que livre daquela situação. Isaak o encaminhou até a copa, ignorando solenemente todos os clientes que cruzaram seu caminho.
Na tranquilidade do espaço reservado apenas aos funcionários, o livreiro-flautista jogou-se em um das cadeiras fechando os olhos e apertando a junção entre eles. Estava cansado.
— Você está bem? — Isaak perguntou entregando um copo de água a Sorento.
— Estou. — Bebeu um gole da bebida. — Mas acho que perdi minha vaga como reencarnação de Buda. — Deu um riso nasalado. — Nunca vou entender as pessoas.
— Eu nunca vou entender é de onde você tira tanta paciência. Pra mim você continua sendo a reencarnação de Buda. — Riu.
— Bom… — Sorriu de canto. — No geral eu sempre me imagino pegando um livro que tenha muitas páginas… It, por exemplo, batendo na cabeça dos clientes e dizendo: Volte a forma humilde que merece. — Deu de ombros terminando de beber a água.
Isaak olhou-o brevemente antes de estourar em uma gostosa gargalhada aproximando-se de Sorento que continuava sentado, ostentando o tão conhecido sorriso discreto.
— Nunca mais vou tirar essa imagem de Sorento Card Captors da minha cabeça. — O livreiro falou enquanto enxugava as lágrimas que vertiam de seu olho devido ao riso.
— Você pode ser aquela amiga da Sakura, a que desenhava as roupas dela. Esqueci o nome.
— Era a Tomoyo. — Isaak sentou ao lado de Sorento. — Ah não, eu prefiro ser o Syaoran.
— Você sabe que no final do animê ele fica com a Sakura né?
— Uhrum… tô sabendo.
Sorento sorriu sendo retribuído pelo outro livreiro. Encaram-se por algum tempo, analisando as expressão e por fim deixaram-se levar pelo riso.
— O Milo pode ser a Tomoyo … — O flautista falou entre o riso. — Estilo ele tem.
— E com isso você quer dizer o que? Está menosprezando meu estilo? — Falou com dissimulada indignação.
— De forma alguma. Apenas gostei da ideia de você ser o Syaoran. — Piscou um olho divertido, levantando da cadeira em seguida e jogando o copo descartável de água no lixo, perdendo o leve enrubescer de Isaak. — Será que o velhaco já foi?
— Não sei. Vamos descer e você fica na parte de trás da loja. Eu vou olhar o andamento da situação e depois te falo.
Sorento balançou a cabeça em concordância, desceram as escadas em silêncio. Assim que chegaram na parte de trás da loja os livreiros avistaram Hilda Pezão, que dotada de algum poder sobrenatural olhou na direção dos dois rapazes no momento em que eles despontaram na loja. A mulher começou a gesticular chamando Sorento, que passou a mão pelos cabelos, suspirou, ajeitou a postura e antes de ir em direção a cliente, pegou um livro que estava fora de lugar, aproximou-se de Isaak e sussurrou em seu ouvido:
— Chave que guarda o poder da minha estrela! Mostre seus verdadeiros poderes sobre nós. E ofereça-os ao valente Sorento que aceitou essa missão: Liberte-se.
Isaak colocou a mão na boca escondendo o riso e Sorento alargou o sorriso indo na direção de Hilda Pezão.
— Qualquer coisa me chama. — Isaak falou ainda escondendo o riso.
— Claro. — Falou de costas pra ele. — Sempre posso contar com o meu Syaoran para me ajudar.
Isaak balançou a cabeça mediante o tom de voz divertido do amigo, de alguma forma aquela frase trazia uma sensação agradável que crescia exponencialmente com o passar dos dias e fazia com que apreciasse cada vez mais a companhia da pseudo reencarnação de Buda.
De sua parte Sorento já se ocupava do atendimento da confusa Hilda, mas não ignorava o quanto o agradava a ideia de ter seu próprio Syaoran, na verdade, mais especificamente que um certo caolho se habilitasse ao cargo. No fim, continuaria sem entender as pessoas, quem sabe, deveria incluir a si mesmo nesse meio.
Fim.
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