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O Bosque das Nuvens estava quieto.

Não era o silêncio vazio de ausência, ou um vácuo de som, mas sim um silêncio vivo, que respirava com a pulsação serena do cosmos. Aqui, o ar não carregava os cantos poéticos de pássaros solares, nem o eco das declarações de amor dos peixes encantados que habitavam as lagoas suspensas de Greirhea. Havia apenas a quietude: vasta, azul, quase palpável. O ar tinha um sabor adocicado, de ozônio e névoa de cristal, uma pureza que não encontrava em nenhum outro lugar. E, daqui uns dias, naquele último ciclo antes da prova que definiria meu futuro, isso não apenas me faria falta... seria tudo que desejaria.

Com os sentidos aguçados, podia sentir a magia ondular sob a vegetação, como um coração dormente, um poder que formigava na sola dos meus pés descalços. As folhas das árvores de seiva luminosa tremiam... não como se estivessem sendo vítimas de uma brisa, mas sim com o fluxo de energia que as nutria desde suas raízes flutuantes. Era um sussurro constante do Fluxo Cósmico: puro, vibrante, onipresente. Um lembrete de que tudo, desde a menor partícula de poeira estelar até a mais antiga das galáxias, estava interligado por essa teia invisível de existência. O bosque sempre foi meu refúgio favorito em todo universo. Na verdade, era o único que eu tinha.

Minha essência nasceu da Casa Sírius, uma dentre as linhagens mais antigas, maiores e mais poderosas entre os Dáiltes, as estrelas vivas que povoam este universo. Não sou humana, embora, em meus momentos mais secretos, ouso dizer que me sinto mais próxima de suas lendas e fragilidades do que da minha própria "espécie". Dáiltes, como nos nomeou o primeiro sopro da criação. Alguns, em mundos distantes, nos chamam de divindades. Outros, de energia pura. Em um pequeno planeta azul e verde chamado Terra, um lugar de caos e beleza selvagem, somos apenas estrelas. E, honestamente, gosto disso. "Estrela" carrega algo de melancólico e belo. Como se já soubéssemos, desde o nosso nascimento cósmico, que nosso destino é brilhar intensamente até queimar por dentro.

Aqui em Nelfri, nosso arquipélogo central, foi onde fomos divididos. Classificados. Solares, Lunares, Crepusculares — três manifestações da mesma faísca primordial. Os tutores dizem que é um modo de facilitar a harmonia, que a catalogação de nossas almas ajuda o Fluxo a permanecer estável e previsível. Mas às vezes, quando o silêncio do bosque me permitia pensar de verdade, eu suspeitava que fosse apenas mais uma forma elegante de nos colocar em caixas, de nos conter antes que pudéssemos transbordar. Uma maneira de evitar que nos tornássemos... imprevisíveis. A imprevisibilidade era o primeiro passo para o Caos.

O Bosque das Nuvens ficava no limiar de Greirhea, uma zona de energia vibrante entre os campos de treinamento rigoroso do Templo do Véu Imaculado e as fronteiras de Kafran. Era o verdadeiro lar dos Ecos, os espíritos menores da natureza que dançavam livremente entre suas árvores translúcidas. Era um lugar carregado de energia formativa. Quase todos os imaturos da minha geração passaram por aqui. Alguns para meditar, buscando a clareza exigida pela Ordem. Outros, como eu, para fugir dela.

Os Ecos viviam entre as raízes flutuantes das árvores celestes. Eram pequenas criaturas feitas de luz condensada e emoção pura, que cantavam e brincavam com fios de vento estelar. Eles não falavam a língua da razão, mas a da alma. Sentiam. E quando você aprendia a ouvir não com os ouvidos, mas com o coração, conseguia perceber exatamente o que eles queriam dizer.

Um pequeno Eco, com a forma de uma raposa de luz, se aproximou e roçou em minha perna, deixando um rastro de pólen luminoso. Ao me ajoelhar para observar a pequena criaturinha com mais calma, ele saltitou, sua forma tremeluzindo de alegria, uma emoção tão pura e aberta que seria considerada indecorosa nos salões da minha casa. Ele me entendia mais do que qualquer tutor, mais do que meus próprios pais. Mais do que eu mesma, às vezes.

A Ordem ensinava que o silêncio era o primeiro passo para a disciplina. Para mim, o silêncio do bosque era o último espaço onde eu ainda conseguia respirar sem ser moldada.

O dia, um ciclo de luz constante e azulada, estava quase no fim. E como vinha fazendo nos últimos meses, estava com minha amiga Pairin. Havíamos feito um pacto solene, selado com um toque de nossas essências, de que nos apoiaríamos em nossos treinos físicos e mágicos. O objetivo era nobre: alcançar a maturidade juntas, lado a lado, no grande Ritual da Maturidade.

Apesar de seus esforços admiráveis, Rin era péssima em camuflagem. Sua luz interior, vibrante e um tanto indisciplinada, sempre vazava, criando pequenas ondulações no ar ao seu redor que denunciavam sua posição. Isso fazia nosso treinamento de ocultação parecer mais uma brincadeira de criança do que uma preparação séria para a provação de nossas vidas. Decidi acabar logo com aquilo. Me movi em silêncio, meus pés mal tocando a grama que ondulava suavemente. A neblina leitosa que pairava no bosque era uma ajuda, mas a verdadeira ocultação vinha de dentro, de um controle que deveria transcender qualquer amparo externo.

A localizei atrás de um arbusto de cristais, suas folhas emitiam uma melodia suave e aleatória. Era um esconderijo óbvio demais. A assinatura de sua luz era como um farol para os meus sentidos treinados, e seu nervosismo fazia os cristais vibrarem um pouco mais rápido que o normal. Sorri para mim mesma.

— Achei você!

Pulei sobre ela com um impulso calculado, meu corpo cortando o ar. O belo rosto de Pairin surgiu em meu campo de visão, e ela ergueu os olhos escuros e alongados, que se arregalavam em uma expressão de perplexidade cômica, como se estivesse se questionando mentalmente, pela milésima vez, como eu conseguia encontrá-la em menos de três minutos. O impacto do meu pulo nos fez rolar pelo chão, sujando nossas túnicas de treinamento com grama e a lama prateada do bosque.

Soltei uma gargalhada, um som livre e talvez alto demais para os padrões convencionais. O rosto de Pairin se contorceu em uma carranca emburrada. Ela odiava perder.

— Não é justo, Eri! Você sempre me encontra! — sua voz era um muxoxo, mas seus olhos já brilhavam com diversão reprimida.

Neguei com a cabeça, achando graça de sua indignação. Me levantei, sacudindo a sujeira de minha roupa, e estendi a mão para ela. Rin a segurou e eu a puxei para cima com um puxão firme. Talvez eu não devesse ter pulado como uma criança sobre ela. Agora estávamos imundas. Mas a possível reprimenda que receberia por desonrar as vestes da Casa Sírius quase valia a pena.

— Rin, não é uma questão de justiça, é uma questão de foco. Você precisa treinar mais a sua ocultação. Ou já se esqueceu que faltam poucos dias para o nosso Ritual?

A simples menção da palavra "Ritual" fez a leveza do momento evaporar. Uma sombra de ansiedade pairou sobre nós. Em nossa existência, para provarmos nossa coragem e capacidade, para finalmente sermos consideradas maduras, todas as estrelas que atingem os dezenove ciclos — novecentos e cinquenta anos terrestres — precisavam participar do Ritual de Maturidade no Coliseu das Constelações. Era o evento mais importante na vida de um jovem Dáilte.

A natureza do teste era o segredo mais bem guardado. Era proibido falar sobre ele. Nós, os mais jovens e inexperientes, não podíamos assistir aos rituais dos outros; essa obrigação (ou privilégio) cabia apenas aos membros mais velhos de nossa sociedade e aos líderes das grandes casas. Estava ansiosa, óbviamente, uma ansiedade que se misturava com um terror profundo. Como herdeira da Casa Sírius, tinha a obrigação de ser exemplar. De seguir o legado de incontáveis estrelas que haviam trazido glória e poder à nossa linhagem.

Mas... como poderia me preparar para enfrentar o desconhecido? O medo me corroía por dentro, um veneno lento que transformava minha determinação em dúvida. A cada dia que passava, a ansiedade se tornava uma segunda pele, mais real que a minha própria.

Pairin pareceu ler meus pensamentos. Sua expressão se suavizou, a frustração dando lugar à empatia. Seus cabelos, um tom pálido de rosa, caíram sobre seu rosto quando ela suspirou.

— Tente comigo mais uma vez, por favor!? — ela pediu, sua voz agora mais suave. — Desta vez vou me concentrar. Prometo.

Meu sorriso para ela foi genuíno e, esperava eu, que tivesse sido tranquilizador. Assenti, afastando uma mecha de seu cabelo para trás de sua orelha. Éramos melhores amigas desde que os céus me permitiam lembrar. Os pais de Pairin, mestres artesãos da Casa Velkar, eram renomados por forjar instrumentos de precisão e selos de contenção usados pelo Conselho. Nascemos no mesmo ciclo e, embora em esferas sociais diferentes, crescemos próximas. Ela era meu refúgio, a única com quem eu não precisava carregar o peso do legado Sírius. Com Pairin, eu era apenas a Erétria.

— Apenas mais uma vez — disse, minha voz firme. — Depois temos que voltar para casa. Já está quase na hora do vácuo. Não podemos nos exceder no horário que meus pais me deram.

Pairin sorriu, um brilho de determinação em seus olhos, e concordou.

Nos sentamos uma de frente para a outra sobre a grama, que se ajustou suavemente ao nosso peso. Fechei os olhos, inspirando o ar carregado de magia do bosque. Desde nosso nascimento, fomos expostos ao Fluxo; era algo tão natural para nós quanto respirar. As estrelas são agraciadas com a magia do universo, uma força repleta de mistérios, grandiosidade, luz e, embora a Ordem negasse, o caos.

Meus pais sempre me lembravam de uma verdade dura: nascer nas casas maiores não era um passaporte para a grandeza, mas uma responsabilidade ainda maior. Honrar o legado exigia esforço constante, um aperfeiçoamento incessante de nossos dons. O fracasso não era apenas pessoal; mancharia o nome da nossa poderosa linhagem.

— Concentre sua luz — instruí, minha voz um sussurro. — A imagine... não como uma aura ao seu redor, mas como um rio correndo por dentro. Sinta em cada pedaço da sua pele, em cada fibra do seu ser. Se lembre, Rin, você não deve esconder a luz. Você deve se tornar. O segredo está em sentir, não em forçar.

Fechei meus próprios olhos e concentrei minha própria luz, a puxando para dentro, sentindo fluir por cada vaso energético, preenchendo cada órgão etéreo. A sensação era de plenitude, de um poder contido e sereno. Então, com a mente focada e o coração calmo, me preparei para recitar o antigo encantamento de ocultação do Livro Silenciado, um texto que apenas os membros das grandes casas tinham permissão para estudar a fundo. A língua era antiga, a Celeste Primordial, da qual todas as outras línguas místicas eram apenas ecos. Para conjurá-la, era preciso mais do que memória; era preciso ressonância.

U zolez, en zolez ze a 'deàrren orm... — As palavras, modificadas pela minha própria essência e pelo tempo, soaram em minha mente mais do que em meus lábios. Eram vibrações, não sons. — Feleich, zem'keir me, zig còmhla rium chun ne ruden nech eil enn agus nech do rinn. (Ó luz, a luz que brilha em mim. Esconda, acalme-me, venha comigo para as coisas que não existem e não existiam).

Uma onda de energia percorreu meu corpo. A sensação era como mergulhar em um lago de silêncio. O mundo ao redor não desapareceu, mas minha percepção dele mudou. Eu não era mais uma entidade separada; eu era a grama, a neblina, a melodia dos cristais. Fazia parte do todo.

Quando abri os olhos, a mudança foi sutil, mas profunda. Ainda via Pairin, mas sua presença era fantasmagórica, sua luz quase completamente absorvida pela do bosque. Dei um sorriso satisfeito. Ela estava conseguindo. Sentia que minha própria presença também havia se dissipado. Não havia mais "eu" e "ela". Havia apenas a vida própria que o bosque emanava, um completo e perfeito silêncio em equilíbrio. Vários em um só. Um só em vários. Unidos. Ocultos.

Minha amiga abriu os olhos em seguida, um sorriso tímido e orgulhoso se espalhando por seu rosto.

— Você foi muito bem, Rin — elogiei, a sinceridade aquecendo minha voz. — Agora, o desafio é manter esse estado. Meus pais sempre enfatizaram que a resistência é crucial. Manter a calma e a ocultação sob pressão no Ritual pode ser a diferença entre honrar nossa casa e... o desapontamento.

— Prometo que irei praticar mais, Eri. Todos os dias — a voz de Pairin estava cheia de uma nova confiança que me inspirou.

Foi então que notei. Uma mudança sutil na atmosfera. A luz ambiente do céu de Greirhea, normalmente um branco-azulado constante, começou a adquirir um tom mais profundo, mais sombrio. A temperatura energética começou a cair.

— Acho melhor voltarmos — disse Pairin, sua voz um pouco tensa, abraçando os próprios braços. — O vácuo já está se fazendo presente.

Olhei ao redor. Uma neblina escura, quase negra, começou a se insinuar pelas bordas do bosque, deslizando pelo chão como uma maré de sombras. Diferente dos planetas físicos com seus ciclos de dia e noite, Nelfri tinha o Vácuo. O Grande-Nada. Uma força primordial, a contraparte da criação, que por algumas horas de cada ciclo invadia nosso reino. Durante esse período, o Vácuo cobria tudo com sua existência massiva, uma escuridão tão absoluta que nenhuma luz estelar conseguia vencê-la. Ficávamos vulneráveis, expostas. Sempre foi assim, desde os registros mais antigos. Era a única coisa que toda a nossa Ordem e poder não conseguiam controlar.

Nos levantamos da grama simultaneamente. Puxei Pairin para um abraço rápido, mas apertado. Era provável que nos víssemos no dia seguinte, mas a chegada do Vácuo sempre trazia consigo uma sensação de despedida, de incerteza. Ambas sorrimos, um sinal silencioso de cumplicidade. Minha amiga fez uma breve reverência formal, um hábito que ela nunca conseguia abandonar, e então sua forma se dissolveu em um turbilhão de poeira e luz, partindo para o seu lar.

Fiquei sozinha, o silêncio do bosque agora tingido pela ameaça da escuridão iminente. Respirei fundo e decidi ir caminhando para casa. As ruas da cidadela de Greirhea estavam como de costume, mas minha percepção delas havia mudado. As pontes de cristal puro que ligavam os salões flutuantes brilhavam com uma luz interna. Outras estrelas, jovens e maduras, deslizavam por elas, seus movimentos uma dança de graça contida. Eles se cumprimentavam com acenos de cabeça precisos e conversavam em tons baixos e melódicos, suas vozes nunca se sobrepondo à harmonia do ambiente. Seus rostos não exibiam sorrisos abertos ou risadas, mas uma serena satisfação, um brilho calmo em seus olhos que a Ordem chamava de contentamento. A felicidade aqui não era uma emoção ruidosa, mas o estado polido da perfeição, a ausência de conflito.

Uma melodia etérea, vinda de harpas de luz em um dos jardins suspensos, flutuava no ar. Era matematicamente perfeita, complexa e bela, mas desprovida da paixão crua que eu sentia pulsar em meu próprio peito. Todos pareciam parte de uma coreografia cósmica impecável. E então havia eu, com a túnica suja de lama prateada e a energia ainda vibrando com o esforço e a liberdade do treino. Sentia os olhares sutis sobre mim, não de julgamento aberto, mas de silenciosa avaliação. Me sentia uma nota fora de tom naquela sinfonia de ordem.

Se tudo era tão perfeito, por que a ansiedade de um simples teste me sufocava? Deveria me sentir confiante, parte dessa harmonia resplandecente. Em vez disso, a cada passo que eu dava pelas ruas perfeitas, me sentia mais miserável, mais consciente de cada erro meu, de cada falha. Não. Eu não podia pensar em falhar. Decidi ignorar isso no momento, fechei os olhos, me concentrando não para fora, como na ocultação, mas para dentro, no núcleo da minha própria essência. Respirei fundo uma última vez o ar livre do bosque e então me entreguei ao Fluxo.

Meu corpo perdeu a solidez. A sensação não era de desintegração, mas de liberação. Minha forma física se desfez em seus componentes mais verdadeiros: milhões de pontos de luz, fragmentos de memória e energia pura. Por um instante que poderia ter sido uma eternidade, eu não era Erétria; eu era uma constelação efêmera, uma nuvem de poeira estelar cintilante dançando na correnteza do universo, guiada por uma única intenção: lar.

A viagem foi instantânea. A poeira cósmica que era eu se aglutinou novamente, as partículas se tecendo em matéria com a velocidade de um pensamento. Quando meus pés tocaram o chão, a sensação foi completamente diferente. Não era mais como a grama macia e selvagem do bosque. Era cristal de sílica pura que ressoava com uma nota baixa e constante sob minhas solas, uma vibração que ecoava em meus ossos.

Estava no Marco de Siriandrel, uma das fronteiras de domínio ancestral. Este era o meu Planeta-Guia. O coração e o vórtice de poder da Casa Sírius. Cada Casa estelar possuía sua própria galáxia, e a nossa era esta. Em torno do brilho central de Siriandrel, como uma majestosa galáxia espiral, orbitavam em ressonância os Planetas-Espelho de cada membro da linhagem — em particularidade, um refúgio de consciência pura. Em cada Planeta-Guia, estava o centro comum, era o local de reuniões familiares, o eixo do poder coletivo e onde todos os membros da casa tinham seus lares físicos.

Iniciei a longa caminhada pelas ruas que levavam aos portões principais. De cada lado, fileiras de salgueiros de luz deixavam suas folhas de energia pura cairem suavemente, que se dissolviam em faíscas antes de tocarem o chão. Pequenos riachos de energia líquida e prateada corriam em canais. Guardiões cristalinos, com a forma de grandes felinos feitos do mesmo material do solo, se esgueram de seus pedestais ao sentirem minha passagem, inclinando suas cabeças em um gesto de reconhecimento silencioso e programado.

Tudo era belo. Perfeito. E esmagador.

Cada cristal alinhado, cada nota da melodia da água, cada gesto dos guardiões era um lembrete silencioso do legado. A perfeição, a ordem, o controle absoluto. A beleza de Siriandrel não era acolhedora; era uma exigência. Um padrão imaculado contra o qual eu me sentia perpetuamente suja, uma falha na tapeçaria brilhante.

Finalmente, avistei os grandes portões. Não eram feitos de metal ou pedra, mas de luz estelar solidificada, tecida em um padrão intrincado que formava o sigilo da nossa Casa: uma estrela de oito pontas com um olho sereno em seu centro. Eles pulsavam com um poder contido, uma barreira que era ao mesmo tempo um convite e uma advertência.

Parei diante de sua imensidão, respirei fundo, me preparando para cruzar o limiar e deixar a sensação de liberdade do bosque para trás, entrando de vez na gaiola dourada que eu chamava de lar.

Assim que atravessei as imensas portas de obsidiana e luar da nossa casa, fui imediatamente cercada por guardas da Casa Veythar, seus rostos estoicos e armaduras prateadas brilhando sob a luz do grande saguão. Seus olhares, normalmente impassíveis, continham um traço inconfundível de alívio ao me verem. Fui bombardeada por perguntas sobre meu paradeiro, sobre minha saúde, se eu estava bem. Mas não tive sequer a chance de responder, pois uma voz, afiada como um caco de cristal, soou do alto da grande escadaria.

— Erétria Sírius!

Tirei meu olhar dos guardas e o ergui. Minha mãe descia as escadas com uma velocidade que desmentia sua postura normalmente controlada. Sua túnica branca e dourada flutuava ao seu redor, mas seu rosto estava longe de ser sereno. Estava apreensivo. Ela parou diante de mim, seus olhos acinzentados percorrendo meu corpo, notando a grama, a lama, o desalinho. Ela checou meus braços e meu rosto com uma precisão quase clínica. A preocupação em seus olhos era palpável, mas carregava um peso adicional, o medo de que eu tivesse me enfiado em problemas.

— Onde é que você estava? Olhe o seu estado!

Um suspiro inquieto escapou de minha garganta. Eu me sentia como uma criança pega em travessura, envergonhada pela reação na frente da guarda.

— Estava no bosque, praticando magia com a Pairin, mãe. Como a senhora permitiu, não se lembra?

Não entendia toda aquela tensão. Greirhea era o lugar mais seguro do universo. Nunca tivemos nada de horripilante como as guerras e doenças que assolavam a Terra. Além do Grande-Nada, não havia nada a temer. No entanto, eu vinha reparando nesse excesso de cautela de meus pais há algum tempo. Era como se... algo estivesse acontecendo nos bastidores do poder, algo que eles não compartilhavam. Por que permitiriam meus treinos e, ao mesmo tempo, pareceriam tão receosos a cada dia que se passava?

— Certo. — Minha mãe pareceu se recompor, sua máscara de matriarca deslizando de volta ao lugar. — Na próxima vez, volte no horário que combinamos, está bem? E, pelos céus, tente não se sujar tanto. Você representa a estabilidade, Erétria. A impecabilidade.

Ela cruzou os braços sobre o peito, seu olhar me avaliando. Me limitei a concordar com a cabeça. As palavras dela não foram um pedido, foram uma expectativa. Após ser dispensada por minha progenitora com um aceno quase imperceptível, subi as imensas escadas em espiral em direção ao meu quarto.

No corredor silencioso do andar superior, uma faixa de luz escapava por uma porta entreaberta. A porta do quarto de Theryon. Parei, hesitante. Meu irmão mais velho era o modelo perfeito: disciplinado, poderoso e perfeitamente alinhado com os ideais da Ordem. Ele já havia passado por seu Ritual de Maturidade há muitos ciclos, com uma performance que ainda era citada como exemplar.

Ele estava de costas para a porta, polindo uma adaga cerimonial com um pano de seda estelar. Seus ombros largos e a postura ereta exalavam uma confiança que eu nunca senti. Ele se virou lentamente, como se tivesse sentido minha presença sem precisar olhar. Seus olhos, claros como os de nossa mãe, me avaliaram.

— O bosque novamente? — sua voz era calma, um barítono suave que raramente se alterava. Não era uma acusação, apenas uma observação.

— Estava treinando com a Rin... — respondi, sentindo a necessidade de me justificar.

Theryon colocou a adaga sobre uma mesa e se aproximou. Ele parou a um passo de distância, seu olhar percorrendo minha túnica suja. Por um instante, pensei que ele me repreenderia como minha mãe, mas em vez disso, ele estendeu a mão e ajeitou a gola, que estava torta. Seu toque foi breve, quase impessoal, mas havia uma estranha gentileza no gesto.

— O esforço é louvável, Erétria. Mas a força bruta não é o caminho de um Sírius. O bosque não vai te proteger na Arena. Apenas o controle absoluto o fará.

Ele me olhava nos olhos, e por trás da fachada de perfeição, vi um lampejo de algo mais. Preocupação. Ele sabia dos meus medos, mesmo que nunca falássemos sobre eles.

— Eu sei — murmurei, baixando o olhar.

— Não, você não sabe — ele disse, sua voz ainda mais baixa. — O Ritual testa mais do que sua magia. Testa sua essência. A sua capacidade de permanecer inabalável. — Ele fez uma pausa, e a intensidade em seu olhar me prendeu. — Apenas... esteja pronta. Para tudo.

Ele se afastou, voltando para sua adaga, o breve momento de conexão encerrado. Segui para o meu quarto, o peso de suas palavras se somando à minha própria ansiedade.

O imenso cômodo estava frio e vazio. O luxo dos móveis de madeira estelar polida e tecidos feitos de névoa solidificada só servia para acentuar a solidão do lugar. Suspirei mais uma vez e me joguei no tapete macio que cobria o chão de cristal. Havia tanto em jogo.

Me levantei do chão após alguns minutos e caminhei lentamente até minha penteadeira, onde me observei no reflexo do grande espelho de prata líquida. Apesar de ser obvio, era a completa fusão de meus pais, com a pele negra e olhos escuros de meu pai. De mamãe, herdei os cabelos longos e brancos, que caíam em ondas suaves pelas minhas costas. Apesar das leves olheiras sob meus olhos e do meu estado desgrenhado, poderia supor que alguém poderia sim me considerar apreciável. Mas a aprovação dos outros não importava tanto quanto a minha própria capacidade de cumprir minhas obrigações.

Sabia que, após o Ritual, novas responsabilidades viriam, incluindo alianças estratégicas para fortalecer nossa família. O legado exigia isso. Mas o peso disso tudo era esmagador.

Decidi parar de pensar nisso. Eu pensaria no futuro quando ele chegasse. Por ora, meu foco seria apenas um: melhorar. Ser mais forte.

Após um longo banho purificador, me deitei em minha cama, sentindo os lençóis gélidos, tecidos com fios de luar, acariciarem minha pele. Respirei fundo, fechei os olhos e comecei o ritual noturno: carregar minha luz para os astros, liberando minha energia para se juntar ao grande Fluxo Cósmico, uma forma de reafirmar nossa conexão com o universo e fortalecer nossa essência.

Mas naquela noite, algo foi diferente.

Enquanto minha consciência se expandia, tocando as bordas do infinito, uma imagem fugaz e violenta rasgou minha meditação. Não era uma memória. Era algo fora do comum e visceral. Mãos sujas de um sangue que brilhava como estrelas líquidas. Um grito silencioso ecoando no vazio.

Me sentei na cama, com o coração martelando contra minhas costelas, o corpo tremendo. O ar do quarto pareceu gelar. A visão desapareceu tão rápido quanto veio, deixando para trás apenas um eco de pavor e uma pergunta aterrorizante: de onde aquilo tinha vindo?

Olhei para minhas próprias mãos, pálidas e limpas sob a luz suave do quarto. E pela primeira vez na minha vida, senti medo delas. Medo não do que elas poderiam falhar em fazer, mas do que elas poderiam ser capazes.


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NOTAS DA AUTORA


Como eu visualizo cada personagem inserido (até o presente capítulo):


1- Alroy e Pétria Sírius;

2- Erétria Sírius;

3- Pairin Velkar;

4- Theryon Sírius;

5- Ecos;



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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.