— E então Presto, quando vamos pra casa? Perguntou Eric com um copo de vinho na mão e um sorriso de ironia no canto da boca.

Os amigos estavam reunidos na cozinha, enquanto todos comiam, Eric se satisfazia com um pouco de vinho tinto. Antes que o mago respondesse a pergunta irônica do cavaleiro, Diana deu uma resposta atravessada e ríspida.

— Deixa o Presto em paz cavaleiro. Ele está se esforçando o máximo que pode, todos temos certeza, não é pessoal?

A respostas dos outros amigos sentados à mesa foi um “sim” em uníssono.

— Eu sei disso, estou só testando o meu amigo — respondeu Eric soltando um pequeno riso.

— Você sabe Eric, que seu eu tivesse essa habilidade, seria a primeira coisa que eu faria. Não aguento mais de saudade de casa.

Assim que disse isso todos se arrependeram de ter começado aquela conversa, principalmente Eric. Um silêncio triste e constrangedor se instalou na mesa. Cada um dos amigos desviou o olhar para o infinito e passou a remoer a sua própria saudade. O silêncio foi ficando cada vez mais pesado. Uma lágrima solitária escorreu no rosto de Sheila, e a garota ruiva tentou disfarçar da melhor maneira possível. O próprio Presto passou a mastigar a comida lentamente em um movimento automático, e seu olhar se perdeu no horizonte que ele via através da porta do quintal aberta. Diana concentrou seu olhar no vinho do copo do Eric que estava pousado na mesa, o efeito visual que o líquido produzia ao se mexer de alguma maneira a fez lembrar de casa, mais especificamente da piscina de casa, dos domingos de churrasco e do sabor azedo da limonada que a sua mão fazia.

Uma batida firme e ao mesmo tempo suave na mesa fez com que todos despertassem do transe. Era o punho forte e calejado de Hank.

— Vamos pessoal, eu sei que a saudade de casa tocou a todos, mas é hora de deixar esse lugar. Ainda quero sair com pelo menos um dos sóis no céu.

— Claro Hank — respondeu rápido Eric. E continuou num tom de explicação. _ E quem aqui tá com saudade de casa?! Fizemos silêncio em respeito à refeição.

— Eu sei disso Eric. Agora vem aqui me ajudar a arrumar as coisas nas mochilas. — Respondeu Hank levantando da mesa e indo em direção à sala.

Os outros amigos voltaram a comer, mas o semblante de Sheila continuou triste. Ela acompanhou com o olhar Hank e Eric andarem até a sala, onde em cima da pequena mesa de centro, estavam quatro mochilas pequenas. Eram nessas sacolas que os amigos guardavam todas suas posses, que eram quase nada. Se resumiam em livros, vidros de elixir de cura, mapas de regiões diversas do reino. Além dessas quatro mochilas cada um tinha seus pertences pessoais, Presto sempre com sua bolsa de mago. Eric um pequeno saco de couro pendurado na cintura. Diana com uma faca pequena guardada em um espaço na bota. Sheila com uma bolsa pendurada ao estilo carteiro, parecida com a bolsa de Presto, mas bem menor. E Hank com um alforje com 8 flechas de madeira de carvalho e penas de falcão.

O amigos sabiam que era inútil tentar acumular alguma coisa que não fosse o mais essencial possível. A vida nômade que as circunstâncias exigiam deles acabava por fazer com posses fossem apenas pesos na jornada.

Para comprar coisas como comida e roupas, eles tinham pedras preciosas que foram encontradas ao longo dos anos. Presto ficou especialista em identificar pedras e extraí-las das rochas com sua magia. Ele aprendeu essa mágica com um anão feiticeiro que eles salvaram de uma prisão de Orcs que eles destruíram em uma das primeiras lutas com Vingador sem a ajuda do Mestre dos Magos. Quem era responsável por guardar essa única riqueza era o Eric, as pedras ficavam dentro da bolsa de couro pendurada na cintura. Quando os amigos se separavam, quem ficava com as pedras era o Hank, Eric só levava as pedras quando todos faziam uma jornada juntos.

— Vamos! Todos pronto? — Hank disse pendurando a mochila nas costas.

O arqueiro vestia sua roupa completa, calça de caçador, botas de couro de alce, camisa verde com gola em V, e uma espécie de túnica de couro que cobria apenas o tórax e seus ombros. Ele ainda estava com o alforje nas costas e um pequeno arco de caça transpassado oposto ao alforje. Na mão direita o arco mágico emanava um leve brilho. Ao lado de Hank estava Sheila com a sua capa com capuz, mochila nas costas, a sua pequena bolsa transpassada no ombro, um vestido de luta roxo e botas semelhantes a de Hank.

Do lado oposto da mesa de centro estavam os outros três amigos. Presto estava com uma mochila nas costas, sua bolsa de mago com anotações, porções e o seu chapéu mágico, e sua túnica verde que ia quase até o chão, ele ainda calçava botas de couro macio. Ao seu lado direito estava Diana com uma mochila nas costas, e seu bastão mágico na mão direita, ela vestia sua camiseta preta, sua saia grossa de pregas e sua bota apertada. Do lado esquerdo de Presto estava Eric, vestindo sua armadura preta, as duas mãos estavam livres, no lugar que deveria estar uma mochila estava o seu escudo, na cintura, ele levava a pequena bolsa com as pedras preciosas.

— Presto, você tem o mapa dessa região? Nós vamos para o Sul. Segundo a Sheila apurou há uma cidade maior que essa onde estamos. Chegando lá vamos nos separar e tentar ficar anônimos, ok? — Disse Hank

— Sim, tenho um mapa, mas vou deixar na bolsa por enquanto. Segundo o Eric, ele sabe o caminho perfeitamente, já esteve nessa cidade antes, certo Eric? — Respondeu Presto.

— Sim — respondeu o Cavaleiro — Passei uma breve e interessante temporada lá.

— Quantos dias de caminhada até a essa cidade Eric? — Perguntou Diana.

— Três dias, com passos lentos, se acelerarmos o passo podemos fazer em dois.

— Vamos manter o ritmo mais curto, por favor, quem sabe o Bob consegue alcançar a gente — Pediu Sheila, com uma voz triste.

Os outros amigos se entreolharam rapidamente, e concordaram com um leve balançar de cabeça.

— Vamos — Disse Hank, e todos caminharam em direção a porta.

Os cinco amigos começaram mais uma jornada. Foram pela estrada principal que seguindo na mesma direção que seguiu a carruagem onde Eric chegou. No céu atrás deles um dos sóis ainda estava iluminando o céu, bem como Hank queria. Para o arqueiro era melhor andar durante o dia, ele sabia que a escuridão da noite era muito melhor para passar sem ser percebido, mas as noites do reino eram sempre traiçoeiras, principalmente para grupos de viajantes. Além do mais, a noite eles dependiam das lanternas mágicas de Presto, e o arqueiro sabia que não podia confiar 100% nas magias do amigo. A casa que foi moradia de Sheila e Hank ia ficando pequena atrás deles. Enquanto eles ia caminhando, Sheila ficava a todo momento olhando para trás.

— O Bob alcança a gente Sheila, não se preocupe. — Disse Diana pegando de leve no ombro da amiga ruiva.

— Não, não é isso, eu estou preocupada com o homem do Vingador que estava atrás de nós.

— Mas conta de novo sobre esse sujeito Sheila. — Pediu Eric. O cavaleiro caminhava na frente ao lado de Presto, atrás deles, vinham um ao lado do outro, Hank, Diana e Sheila.

— Eu não sei muito, não quis ficar para investigar. Quando ele falou nos pupilos do Mestre dos Magos, eu corri pra soltar os pombos.

— Eu odeio esse apelido — disse Eric entre os dentes. _ Mas como ele era fisicamente? Você sabe que dificilmente o Vingador consegue controlar os humanos com magia, só em casos bem especiais, na maioria das vezes os humanos controlados pelo Vingador estavam na verdade sendo chantageados. Esse cara que estava procurando a gente realmente era humano?

— Sim, disso eu tenho certeza, ele é humano. Ele é baixo, corpo atarracado, o rosto é marcado por linhas de expressões, pele escura. A cor do cabelo eu não sei, ele estava com um capuz que só permitia ver o rosto. Vestia uma roupa simples, mas com um bom acabamento. Tinha um bigode grande, bem preto.

— Ele parecia uma ameaça física para nós? — Perguntou Diana.

— Não, ele parecia ser quase um ancião, tenho quase certeza que aquele bigode era pintado. Ele parecia ser muito mais um informante.

— Então temos sorte, se ele for um velho, dificilmente vai alcançar a gente. — Disse Eric.

Os amigos estavam habituados a fazer aquele tipo de viagem, nem lembravam quantas já tinham feito. Nos últimos anos, a maioria sem o Bob. O Jovem bárbaro costumava ficar pouco com o grupo, aquilo deixava Sheila muito triste. Já fazia oito anos que eles estavam naquele reino tentando voltar pra casa. Nesse tempo Bob tinha ficado cada vez mais distante deles, a saudade de casa tinha se transformado em uma rebeldia no jovem bárbaro, quando ele se juntava com o grupo sempre demonstrava um rancor contra o mundo e contra todos. Tudo isso deixava Sheila ainda mais preocupada com Bob. Mas Sheila tinha certeza que o ódio do jovem bárbaro contra aquele mundo tinha crescido mais a partir da separação deles do Mestre do Magos.

Há mais de três anos que eles não tinham notícias do Mestre. Em mais uma tentativa frustrada de voltar pra casa, Bob com então 15 anos, se revoltou e despejou toda a culpa dos problemas do mundo no Mestre dos Magos, todos estavam de certo modo com a mesma mágoa, e acabaram seguindo o Bárbaro na sua revolta contra o Mestre dos Magos. Para Bob a culpa deles não conseguirem voltar pra casa era do Mestre dos Magos. Muito foi dito, muita mágoa foi colocada pra fora. O sentimento de frustração foi o principal combustível para aquele momento tão cruel para todos. Todos, inclusive Sheila, acabaram decidindo que era melhor cortar relações com Mestre dos Magos e nunca mais ter contato com ele. Estavam decididos a voltar pra casa da maneira deles, não importava o quanto isso demorasse. Desde então eles vem fazendo essas jornadas, se escondendo dos homens do Vingador e tentando buscar o caminho de casa, por conta própria. Estiveram perto disso duas vezes, mas desde então apenas tentativas frustradas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.