Já era o meio da tarde, um dos três sóis já havia se posto. A movimentação diferente das três bolas de fogo no céu sempre deixava Hank impressionado. Presto já havia explicado que o movimento diferente dos três astros ocorria, segundo a hipótese do jovem mago, pela distância diferente dos três sóis em relação ao reino, os que se punham antes estava bem mais próximos, e eram menores, os que demoravam mais no céu estavam muito mais distantes, e deveriam ser bem maiores. Mas como o próprio Presto dizia, era só uma hipótese, sem os instrumentos certos não era possível medir as distâncias. “O Presto age como se ainda estivesse na escola, com seus microscópios e telescópios” pensou o arqueiro que estava encostado na varanda olhando a estrada que passava bem em frente a casa. De repente aquela lembrança de casa fez com que ele ficasse triste. De todos os seis, o arqueiro era o que melhor escondia a saudade de casa. Por ser o líder do grupo, o arqueiro acreditava que não poderia demonstrar fraqueza, ele nunca falava sobre a saudade de casa com os amigos, apenas Sheila era sua ouvinte, quando os dois ficavam sós.

A brisa suave do meio da tarde balançava as árvores do bosque em frente a casa. Era lá que Hank caçava na noite anterior. As folhas balançavam em um ritmo suave, todas sincronizadas, num balé verde escuro. Um leve movimento de folhas no topo da árvore bem em frente a casa chamou a atenção do arqueiro. Um pequeno grupo de folhas se movia em um ritmo diferente do restante. Hank estreitou os olhos e observou com cautela. A responsável pelo movimento da folhagem era uma pomba cinza. O arqueiro correu pra dentro de casa gritando para Sheila, que estava na cozinha.

—Eles estão chegando!

A jovem de cabelos ruivos correu para a varanda. Hank veio logo atrás com seu arco sem corda na mão.

—Você já viu alguém? Sheila perguntou

—Não ainda não vi ninguém, mas olhe ali – Disse o arqueiro apontado para o topo da árvore onde estava a pomba cinza – Uma delas já voltou, deve ter guiado um deles até nós, é pra isso que elas servem, não é mesmo?

Sheila olhou para a ave e sorriu. Era sempre uma alegria para ela ver o regresso das aves, era o sinal do reencontro com os amigos. Para a jovem, aquelas aves foram uma das melhores magias que o Presto tinha feito até agora. Ela acreditava no talento do amigo Mago, por isso tinha tanta esperança em que ele descobrisse um modo de todos voltarem para casa um dia.

Hank e Sheila ficaram olhando para os dois lados da estrada, procurando algum sinal de movimento. A porta da casa atrás deles começou a abrir lentamente, o casal não percebeu. “Olá pombinhos!” a voz saiu da casa e assustou os dois que viraram de uma vez para ver Diana em pé do lado de dentro da casa.

—Diana! Gritou Sheila e correu para abraçar a amiga. Hank a seguiu e os três ficaram abraçados trocando cumprimentos.

—Como você entrou na casa sem que nós víssemos? Perguntou Hank se afastando e dando e espaço para que os três caminhassem de volta a varanda.

—Eu tenho meus truques – Disse a jovem negra – Não é só a Sheila que consegue ficar invisível. Ela riu e piscou para a amiga ruiva, que retribuiu o sorriso.

—Você estava muito longe de nós? Perguntou Sheila.

—Não, eu estava do outro lado desse bosque – Falou Diana apontando com a sua vara para o monte de árvores a frente – Andando normalmente seria um dia de viagem, mas eu acelerei o passo para chegar o mais rápido possível, não parei nem para comer, estou faminta. Senti um cheiro tão bom de assado quando entrei na casa.

—Sim! Disse o arqueiro empolgado – Eu preparei um peru assado, que cacei ainda hoje. Vamos até a cozinha, eu vou lhe servir.

Hank deu um sorriso cúmplice para Sheila, ela concordou com um leve balançar de cabeça. Ele seguiu junto com Diana em direção a cozinha da casa deixando Sheila sozinha na varanda.

O vento continuava a soprar. As árvores em frente a casa balançavam em um ballet que acalmava o coração da jovem de capuz. Sheila passara o dia agitada. Ela estava preocupada com o homem misterioso que perguntou por eles na vila. Aqueles dias na casa foram tão tranquilos, Hank e ela já estavam se adaptando a uma rotina tranquila. O arqueiro tinha acesso a caça no bosque em frente, com dificuldade é verdade, mas nunca faltava algo para se caçar. Sheila ia buscar água no riacho próximo, e eles tinham improvisado uma horta no quintal. A jovem estava até pensando em reativar o galinheiro. Os primeiros dias na casa abandonada foram esperando os donos, mas os sinais estavam claros, quem morava ali partiu para nunca mais voltar. Toda noite, antes de dormir o casal conversava sobre a vida, e por mais que eles odiassem aquele reino, aqueles dias pareciam bem mais tranquilos, e eles até chegaram a falar em uma leve felicidade.

Mas agora parecia que tudo ia acabar. Sheila estava realmente triste, e nessas horas é que vinham as mais fortes lembranças de casa. Era nesses momentos que o coração da jovem ruiva ficava mais apertado. Era quando ela lembrava dos pais, e de como ela se sentia culpada de ter levado Bobby naquele passeio trágico que os levou até esse pesadelo.

—Bob... Sussurrou Sheila, como se precisasse ouvir o nome do irmão pra sentir a sua presença viva.

Muitas vezes Bob não aparecia com os outros amigos. O pássaro mágico do irmão era sempre o que mais demorava a retornar. A primeira vez que Bobby não voltou Sheila ficou desesperada, ela e os amigos se organizaram para ir resgatar o jovem Bárbaro, mas não foi preciso, dois dias depois Bobby apareceu. O jovem não explicou a sua ausência, mas Sheila e outros entenderam que o bárbaro quis se manter afastado. E esse afastamento só foi aumentando com o tempo, desde então a preocupação de Sheila só aumentou em relação ao irmão. Sheila sabia que um sentimento de revolta cresceu no coração do irmão, e ela simplesmente não podia fazer nada para ajudar.

Sheila ouviu ao longe um som de cascos de cavalos e o ranger de rodas de uma carruagem. A jovem fechou a porta de casa e colocou o capuz da capa na cabeça. Um brilho branco emanou da roupa e a jovem desapareceu completamente. Invisível, Sheila queria ter certeza de que a carruagem era simplesmente de viajantes ou se tinha algum perigo no veículo. A carruagem era simples, vinha puxada por dois cavalos. Na direção um jovem apresentando pouco mais de 15 anos gritava comando para os animais. Ele era magro e parecia frágil, mas mesmo assim tinha comando sobre os dois cavalos pela rédea. O veículo foi perdendo velocidade, conforme se aproximava da casa, até que o jovem cocheiro gritou a ordem, e os cavalos pararam totalmente, bem em frente a entrada da casa. O coração de Sheila disparou, ela já estava calculando a melhor maneira de entrar na casa sem chamar atenção e avisar Hank e Diana sobre o perigo. Mas não deu tempo dela ter qualquer reação, antes que ela pudesse se mexer a cortina da carruagem se abriu, e de dentro da escuridão do veículo surgiu um escudo com uma cabeça de fênix pintada e logo depois dele o seu dono. Sheila permaneceu invisível observando o desenrolar da cena. Em pé ao lado da carruagem o cavaleiro se despediu dos ocupantes do veículo, sem que ele esperasse uma mulher voou de dentro e o agarrou pelo pescoço dando-lhe um beijo quente e demorado na boca. A jovem era linda, com a pele alva como leite e os cabelos pretos como a noite. Ela usava apenas um leve vestido que mal cobria seu corpo magro, jovem e elegante. Depois do demorado beijo ela se recompôs e entrou na carruagem, que seguiu viagem ao comando do jovem cocheiro. O cavaleiro ficou em pé na entrada da casa, acenando para a carruagem que seguia seu caminho. Da janela traseira do veículo a jovem acenava e mandava beijos para o cavaleiro.

Sheila, ainda invisível, começou a rir. O cavaleiro tomou um susto a princípio, ele virou rapidamente para o lado de onde vinha a risada e se protegeu com o escudo, a arma emanou uma luz branca, mas ele logo percebeu que a risada era de sua amiga que observava o tempo todo o que estava acontecendo, e pôs-se a rir também.

—Sheila, não sabia que você tinha essa mania de observar casais por aí – Brincou o cavaleiro

A jovem ruiva retirou o capuz e surgiu na frente do cavaleiro. Ela foi até o amigo e abraçou afetuosamente.

—Não seja ridículo Erick, eu não estava observando você se agarrar com sua amiguinha – Disse a jovem depois de abraçar o amigo.

Os dois gargalharam novamente.

—Demorei muito? Falta mais alguém? – Perguntou o cavaleiro mudando a expressão feliz da gargalhada para uma expressão séria e preocupada.

—Não, apenas Diana chegou. Ela está lá dentro com o Hank. Entre também, Hank preparou um assado.

— Vou entrar, mas para descansar um pouco, na carruagem tinha bastante comida. – Disse o cavaleiro com um sorriso de ironia enquanto se dirigia em direção a porta da casa.

Antes de entrar ele parou e baixando a cabeça perguntou a Sheila:

— Nós vamos esperar todos, ou só o Presto?

A jovem ficou calada por um instante e olhando para o horizonte. O cavaleiro achou que sua pergunta iria ficar sem resposta e retomou o movimento para entrar na casa, mas antes dele dar o primeiro passo Sheila respondeu.

— Vamos esperar só o Presto. Não tenho esperança que o Bob apareça. Ele sempre alcança a gente. É o jeito dele, ele tem o seu próprio tempo.

O cavaleiro concordou com a cabeça e entrou na casa. Sheila ouviu os amigos dentro da casa saudarem Eric com entusiasmo. Ela se voltou para as árvores em frente a casa, elas permaneciam na sua coreografia lenta comandadas pelo vento.

— Sheila! — Alguém gritou próximo da casa.

A jovem se virou na esperança de ver seu irmão surgir, mas quem chamava não era Bob. Na estrada ela viu a figura de Presto com sua túnica verde escura, e sua bolsa de couro pendurada ao estilo carteiro. O mago vinha sem seu chapéu, ele quase nunca andava em público com a sua arma aparente, qualquer um sabia reconhecer um mago, e chamar a atenção para si era a última coisa que Presto queria. Ele aprendeu essa lição da pior maneira. Em outros tempos ele sempre andava com sua indumentária completa, mas em cada cidade ou vila que eles paravam o mago era sempre abordado com pedidos de ajuda. Todos queriam uma porção ou um feitiço para curar suas enfermidades, e as pessoas muitas vezes só sabiam ser persuasivos com violência. Por isso, quando estava em público Presto preferia manter oculto seu chapéu, e só usa-lo em caso de muita necessidade.

O mago acenou com entusiasmo para sua amiga, que retribuiu da varanda da casa com o mesmo entusiasmo. O sentimento de Sheila era um misto de alegria e tristeza. Ela sabia que a chegada de Presto era o sinal para que eles todos seguissem para outro destino, eles precisavam se esconder, o Vingador estava bem próximo. Ver o amigo lhe dava alegria, mas ela sabia que também ficaria mais tempo sem ver Bob. Das primeiras vezes em que Bob não voltou guiado pelo pássaro ela insistira para que todos esperassem um pouco mais. Bobby sempre apareceu, mas com dois ou três dias de atraso. Algumas vezes isso se mostrou bem perigoso, e eles tiveram que enfrentar os homens do Vingador que estavam em seu encalço. Por isso eles tinham feito um pacto, quando cinco deles se juntassem, poderiam seguir em frente. Todas as vezes o sexto sempre era Bob.