Voltando à Viver

9 Tudo bem... fiquei maluca... só isso


CHLOË

Tudo bem... eu já estava no limite da insanidade zumbi desde que tinha dito àquele cara que ia ficar quietinha ali no "cafofo" dele. Por mais surpresa que eu já estivesse com tudo que havia acontecido em apenas dois dias, não pude deixar de ficar mais surpresa ainda quando ele concordou em procurar algo para eu comer.

Quando ele saiu, aquele baque irritante voltou, e parou com a mesma rapidez.

Enquanto esperava, fiquei refletindo sobre o pouco que vira em alguns minutos ali.

Ele pareceu preocupado com a possibilidade de eu escapar. Mas não parecia preocupado com as pessoas que eu poderia devorar lá fora. Por um milésimo de segundo, tive a impressão que ele estava temendo por mim.

Eu havia até esquecido de perguntar seu nome...

Olhei ao redor da "casa" dele, uma loja abandonada, provavelmente de jogos eletrônicos, já que havia um grande pôster desgastado de Final Fantasy atrás do balcão.

O lugar era razoavelmente organizado para um abrigo. As cobertas amarrotadas em que ele estava dormindo provavelmente eram a única cama que ele arranjara. No balcão, uma coleção de armas — uma espingarda, um revólver e uma faca eram as mais próximas — estavam enfileiradas onde, antigamente, deveriam ficar os jogos de Xbox 360. Quase peguei uma para experimentar, mas, mesmo que conseguisse segura-la direito, desde quando ainda era humana eu tinha pavor de armamentos... provavelmente nem teria coragem de disparar.

Olhando pais adiante, havia um potinho com biscoitos de cachorro, que parecia ser a única coisa comestível ali.

Uma sensação estranha me incomodou. Era uma sensação que eu não sentia desde... desde antes de morrer.

"Pena", meu cérebro morto tentava sugerir. "Você está sentindo pena".

Por que diabos eu sentiria pena? Eu estava praticamente tendo compaixão pelo que deveria ter sido minha refeição da tarde!

Aquela sensação de compaixão me incomodava desde que eu o vira dormindo.

Aqueles sentimentos humanos estavam acabando comigo. Eu já nem era mais um zumbi normal.

E, mais uma vez, me peguei pensando no que ele dissera. Sobre talvez eu estar ... mudando. Talvez... até me curando...

Fui até o corpo que ele trouxera mais tarde. Ele havia saído para algum lugar e o deixara ali.

Já devia ter morrido á algum tempo, mas ainda estava fresco. Apesar da fome, dei fim apenas ao cérebro e ao coração. Deixaria o resto para depois.

Por um lapso estranho, procurei algum papel e limpei a boca. Que bizarro. Por que eu fiz isso?

Ouvi o mesmo farfalhar de penas no fundo da loja que havia ouvido ao entrar no abrigo. Me aproximei e vi o passarinho amarelo que se assustara quando o garoto acordou gritando.

Era bonito. Muito amarelo... desde que morri, nunca mais tinha visto uma cor tão forte. Tinha um topete de penas que se estendia para trás da minúscula cabecinha. Tinha umas manchinhas vermelhas nas bochechas e piscava direto para mim. Sem medo nenhum.

Era como se ele também não visse mais a figura do zumbi em mim.

Ergui a mão lentamente até o poleiro. O pássaro subiu no meu dedo, ainda me olhando.

Eu poderia ter comido ele numa única engolida. Isso era um fato. Mas eu não tinha vontade nenhuma de fazer isso. Assim como não tivera quando o garoto aparecera pela primeira vez na minha frente.

Era uma calopsita. Agora eu me lembrava...

Eu tive uma quando criança. Só que era branca. Eu batizara-a de Floquinho. Ela cantava de um jeito tão estridente que meu pai moria de raiva dela. Só não tinha dado um fim no bicho por que eu era apaixonada por Floquinho.

Um belo dia, eu acordei e a gaiola estava vazia, com a portinha aberta. Sempre preferi pensar que Floquinho saíra voando para um lugar mais feliz, onde milhares de calopsitas ficavam o dia todo cantando.

Aquela me lembrava Floquinho, só que absurdamente amarela e calada.

Pela primeira vez, uma lembrança humana não me incomodou em nada.

A calopsita em minha mão abriu o bico levemente e piou.

Baixinho. Tão baixo que, se eu não tivesse uma audição excelente por ser zumbi, nem teria ouvido.

Então, ela começou a cantarolar. Não só assoviar... estava cantarolando uma música. Meu cérebro doeu de novo ao lembrar. Parecia uma marchinha do hino nacional americano.

Tentei imitar o som, mas minha boca morta só entortava, por falta de prática. Deixei para lá, ficando ali, simplesmente admirando a calopsita cantar.

Ouvi a corrente da porta se abrir e fechar. Ele devia ter voltado.

Eu até quis cumprimenta-lo, mas a calopsita parecia ter me enfeitiçado. Seu canto era tão bonito... muito mais bonito que a barulheira que Floquinho fazia.

Meus olhos ficaram ardendo, como se alguém tivesse enfiado o dedo neles.

Eu queria chorar. Pela primeira vez depois da minha morte.

Ouvi os passos do garoto se aproximando, mas ele não apareceu. Estranhei.

Me virei, curiosa, apenas para dar de cara com sua espingarda, mirando em minha cabeça.

Ele estava mirando em mim, mas parecia completamente chocado. Tal como eu devia estar agora.

Achei que, depois de tudo, ele não tentaria me atacar.

Mas lá estava ele, prestes á atirar.

Senti uma dor no peito muito pior do que a dor dos baques, como se ele já tivesse atirado em mim. Era agoniante, como se estivessem rasgando meu corpo ao meio. Meus olhos arderam outra vez, mas não como estavam ao ouvir a calopsita cantar. Doía muito mais do que aquilo.

A mágoa, sentimento que eu pensava ter morrido definitivamente, inundou meu corpo.

Por quê? Por quê ele queria me matar outra vez?

Para meu choque, a arma caiu no chão, como se tivesse escorregado de suas mãos.

Senti a calopsita subir até meu ombro, acocorando-se em meu pescoço. Era quente, contraste completo com minha pele morta e gelada.

Minha voz saiu num fiapo fino como barbante.

– Você vai me matar?

Ele parecia paralisado.

– Não. Não, eu não vou — ele murmurou, olhando para o chão. Parecia perdido.

E, do nada, deu uma risada estranha.

Me encolhi, como se a risada tivesse sido uma bofetada. Por alguma razão, puxei o passarinho de meu ombro e o coloquei de volta ao poleiro.

– Você veio aqui para me matar. Não vai.... terminar o serviço?

Minha fala ofendida pareceu tira-lo daquele transe insano.

– Não. Eu vim fazer isso, mas não vou — ele respondeu, com uma estranha expressão confusa no rosto.

– Por quê?

– Não sei.

Ele parecia esconder algo de mim. Deduzi que eu não queria saber, mas mesmo assim atirei mais uma pergunta.

Então descubra... como vou saber... se qualquer hora você... não vai resolver atirar em mim?

Foi impressionante o como consegui falar uma frase tão comprida. Ainda mais como eu estava, zangada e magoada.

– Tenho certeza que não vou.

Outra vez, meu peito latejou. Balancei a cabeça, agoniada.

– De novo não.. — resmunguei.

– O quê?

O garoto tinha acabado de tentar me matar e queria satisfações... era surpreendente a cara de pau do moleque.

Mas conclui que, de todas as pessoas — mortas ou não — ele era o único que poderia me ajudar a descobrir o que acontecia comigo.

Andei até ele e puxei sua mão até pousar no meu peito. Em outra ocasião — outra vida, aliás — eu teria achado isso bem malicioso e constrangedor, mas as convenções humanas já não se aplicavam mais á mim.

Ele pareceu chocado e envergonhado por um momento, mas tremeu ao sentir outro baque socar meu peito.

Seu rosto se abriu numa expressão admirada. Se eu ainda fosse humana, jurava que teria corado.

– D-desde quando?

– Desde quando... a gente se encontrou no beco.

Ele me olhou. Tipo, nos olhos mesmo. E outra onda de choque percorreu sua expressão.

– Chloë! — ele gritou, me arrastando como uma boneca até um vidro rachado no canto da loja.

– O quê?

– Olhe no espelho... seus olhos!

Me olhei, não entendendo o que estava acontecendo. Pasei a mão pelo meu rosto até tocar meu olho em que faltava a pálpebra.

Mas não faltava pálpebra alguma.

– Está aqui... — arfou ela, chocada.

– É como... se você estivesse... se curando, de verdade... — ele sussurrou.

– Ahh... — arfei, olhando para ele. Meus olhos — coitados — ardiam de novo, só que por outra emoção, até agora desconhecida. Meu peito vibrava com mais força, sem interrupção.

Ele me encarou, e, de repente, sorriu para mim.

Tive uma reação que até agora ainda me chocou. Saltei sobre ele, como fazia normalmente ao caçar, mas meus braços se prenderam ao redor dele como torniquetes. Eu não me lembrava do como era abraçar... e agora estava fazendo exatamente isso.

Estava feliz. Caramba, eu tinha uma esperança de voltar á viver; esperança mínima e fraca, mas havia.

Para minha surpresa, ele retribuiu o abraço, me aninhando em seu corpo como um bebê.

Eu só sentira esse tipo de proteção com meus pais.

Uma onda de ternura me varreu, batendo de frente com outros sentimentos que ferviam dentro de mim. Meu pobre corpo, confuso com tantas emoções, fraquejou um pouco.

Eu tinha uma pequena ideia do por que não o atacara. Os baques. O sorriso. As risadas. Pena, mágoa...

Eram sentimentos humanos... de amor.

Como?

Eu mal conhecia o garoto. Nem sabia seu nome. Fazia dois dias que a gente havia se conhecido...

Mesmo assim, era um fato. Eu gostava dele. O que eu senti naquela hora era algo entre carinho, paixão e amor. Não tão desenvolvido quanto esses três, mas com certeza já se incubara em mim como um vírus.

Fiquei perplexa quando ele virou o rosto para colar sua boca na minha.

Seus lábios eram macios contra os meus. Fiquei estática por um momento, antes se retribuir.

Nunca havia sido beijada por ninguém... mesmo em vida.

E eu podia jurar que não poderia ter conseguido um beijo melhor do que aquele.

Ele era quente, literalmente... seu corpo e sua boca pareciam aquecer todo meu corpo morto, como um cobertor. Era confortável como uma cama de dossel, ou até mais.

Eu não respirava, mas mesmo assim estava arfando.

E o meu coração batia com tanta força que chegava a doer.

Ele me puxou mais perto — quer dizer, nem havia como chegar mais perto, mas tudo bem... — e enlaçou minha cintura.

Eu definitivamente poderia ter ficado ali o resto da minha morte.

Mas uma pancada bruta na porta da loja fez tudo se desmanchar.