Voltando à Viver

17 Quando um zumbi dorme... é porque a coisa ficou séria!


CHLOË

Eu tinha a sensação de que meu corpo estava reagindo aos últimos dias como uma montanha russa da Disney. Ás vezes, eu me sentia tão zumbi que toda aquela ladainha de cura e humanos tentando me ajudar parecia um sonho bizarro e caótico. Em outras, me sentia perfeitamente humana, como se nem tivesse morrido.

Mais cedo, eu havia me olhado em um dos espelhos da Clínica... e recuado vários passos ao constatar que o buraco visível em meu peito estava duas vezes menor do que o tamanho original. Mal dava para ver os ossos por trás de minha pele acinzentada.

Comecei á tremer... outra reação humana que surgia em meu corpo.

Ryan surgiu por trás de mim e me segurou pela cintura. Pareceu chocado ao perceber minha inesperada tremedeira.

– Chloë? Tudo bem?

Assenti com a cabeça, apertando os olhos.

Mesmo um zumbi podia perceber que eu estava mudando lentamente. Meus olhos não estavam mais tão esbranquiçados e secos. Minha pele parecia ter ficado um pouquinho — quase nada — mais clara. E os meus rosnados e gemidos já haviam se tornado frases e palavras coerentes e inteligíveis. Há quanto tempo eu não falava de verdade...

Um pouco mais tarde, me peguei com algo que parecia uma tontura, como se alguém invisível tivesse me dado uma coronhada na cabeça, só que não havia dor. Meus olhos pareciam querer se fechar contra a minha vontade, e um suspiro novo passou suavemente por minha garganta.

Impossível... Sono? Eu estava com sono?

Ryan parecia indagar o mesmo que eu enquanto eu me dirigia ao sofá puído de frente ao televisor que Gail trouxera.

Quando encostei em Ryan, vi papai se virar em direção á luz da tela.

Será que ele reconheceu o desenho que nós assistíamos quando eu era mais nova? Sonic Underground... eu adorava aquele desenho quando era criança. Deus sabia o como eu queria ser a Sônia... mamãe havia até feito uma roupa cor-de-rosa e roxa igual á da personagem para mim. Eu andava pelo quintal segurando um colar com um pingente tosco de madeira que papai havia feito em formato de teclado musical, e fingia que ele se transformava em uma arma com laser rosa. Papai morria de rir quando eu saía por aí gritando "vou pegar você, Robotinik!"

Era uma lembrança maravilhosa, que por pouco não me arrancou mais lágrimas vermelhas dos olhos.

– Sabe... Sonic Underground parece um pouco com nossa vida agora — comentou Ryan, ainda olhando a tela do televisor.

– Como assim? — indaguei, confusa.

– Bom, não tem as pessoas que o Robotinik robotiza? Elas nem sempre querem fazer o que fazem realmente... estão só obedecendo instintos. Se não fosse o Sonic e os irmãos dele, com o poder dos medalhões, por exemplo, o Argos não teria recuperado parte da sua humanidade, mesmo por um tempinho, enquanto eles procuravam a mãe. Tipo, um fator externo possibilitava aos robotizados retornar ao normal por algum tempo.

Eu me lembrava daquele episódio... era o meu favorito.

A associação que Ryan fizera dos robotizados de Sonic Underground com os zumbis era ridícula, mas fazia sentido.

– Eu sou uma robotizada? — olhei para ele, surpresa.

– Tipo isso — ele beijou minha bochecha, e eu senti uma corrente elétrica passar por aquele pedaço do meu rosto.

Se eu era uma robotizada, eu realmente tinha algo que me devolvia a humanidade por um breve tempo.

– Ryan? — sussurrei baixinho.

– O quê?

Encostei a cabeça em seu ombro outra vez.

– Você é o meu medalhão...

Tentei ver sua reação á minha frase boba, mas meu corpo relaxou de um modo estranho e tudo escureceu de repente.

Quando a escuridão se dissipou, eu me encontrei numa campina deserta. Tudo era muito nítido e colorido. Estava claro que eu não estava mais na Clínica... e nem em qualquer outro lugar da cidade.

Eu estava sonhando.

Eu havia dormido.

Como era possível? Zumbis não dormiam, pelo amor de Deus!

Meu cérebro, agora inconsciente, parecia bufar que eu não era mais exatamente uma zumbi comum.

Joguei o meu debate interno para o canto da minha mente e decidi aproveitar o sonho que se desenrolava em meu torpor sonolento.

Aquela campina não me era estranha... mas também não era exatamente familiar. Tentei resgatar, em minha inconsciência, um pouco do que aprendera da geografia americana.

Ali parecia uma área rural de Oklahoma. Havia uma casinha pequena o no alto da campina que eu não havia percebido antes.

De lá, saiu correndo uma criança pequena, de uns dois ou três anos. Parecia comigo quando eu era pequena... tinha cabelos pretos e olhos azuis. Mas o rosto não parecia com o meu.

Parecia com o de Ryan.

Arfei, chocada, quando a menininha veio correndo em minha direção e enlaçou minha cintura com um abraço impetuoso.

– Mamãe!

Mamãe??

Olhei em volta, perdida. Quase pensei em dizer á menininha fruto da minha imaginação que ela devia estar me confundindo com alguém e que zumbis não tinham filhos, mas outra pessoa surgiu na porta da casa.

Ryan me sorriu de um jeito carinhoso ao ver a menininha me abraçando. Se aproximou com uma das mãos fechada em minha direção. Ele estendeu-a para mim e a abriu, como se quisesse pegar minha mão.

Quando eu segurei sua mão com a minha, vi algo bege e estranho se estender para ele.

Era minha mão... só que humana.

Olhei para meus braços, que também estavam da mesma cor. Minhas unhas estavam cor-de-rosa. Não pude ver meu corpo do ponto de vista do sonho, as ele devia estar tão bem quanto o resto.

Me ver humana, mesmo que em sonho, me deu uma vontade louca de chorar.

Abaixei a cabeça em direção á criança que me abraçava... minha filha. Era um produto da minha mente, mas mesmo assim era linda. A cara do pai.

Ryan se aproximou a nos abraçou. Eu podia ficar lá pelo resto da eternidade, naquele lugar dos sonhos, com uma família perfeitamente humana.

Pisquei os olhos, e o sonho se desfez.

Acordei com o rosto ainda deitado no ombro de Ryan. Levantei a cabeça, arregalando os olhos.

Meu sonho se fora. Minha casinha de campo, minha filhinha com cara de anjo... haviam desaparecido.

Não pude refrear a enchente que saiu de meus olhos. Comecei a soluçar. Pingos escarlates caíram direto para minhas mãos trêmulas.

– Chloë! — Ryan soltou meu corpo para abarcar meu rosto com as mãos; parecia apavorado — o que aconteceu? O que foi?

– N..nada — choraminguei. Gail me olhava cautelosa, segurando Skype em uma das mãos. A nossa calopsita devia ter caído de meu ombro quando acordei sobressaltada.

– Foi um pesadelo? Você teve um pesadelo? — ela parecia dividida entre a curiosidade e a preocupação.

– Não — balancei a cabeça.

– Então por que está chorando? — murmurou Ryan, aflito, secando minhas lágrimas contínuas com o polegar.

– Por que eu não queria acordar — funguei.

Ryan se inclinou para trás, surpreso.

– Era tão bom assim? — um começo de sorriso surgiu em seus lábios.

– Era... eu era... humana. E... — engoli em seco ao me lembar da criança que me abraçara — tinha uma família.

– A sua família? — indagou Ryan, acariciando meu ombro.

Neguei com a cabeça. Algo no modo como eu o olhei pareceu faze-lo entender de que família eu estava falando.

O abraço que ele me deu em seguida definitivamente afastou toda a tristeza que eu sentia ali.

Me aninhei em seus braços, encostando sua cabeça na minha.

Que droga, eu adorava quele garoto.

– Mas isso não é um sonho, Chloë — ele falou baixinho no meu ouvido, para que só eu pudesse ouvir — é o nosso futuro.

As lágrimas que voltaram á correr em meu rosto já não eram mais de tristeza.