Volta Ao Mundo - Hiatus
15 Leona - Par I
Notas iniciais
ELENA
É tão estranho andar por aqui, não que me faça mau nem nada, é só porque sempre sinto um aperto no coração, e me faz querer ajudar algumas pessoas. Mesmo que o bairro onde é nosso hotel seja da “alta classe”, Damon e eu fizemos questão de andar pelas “periferias”. Afinal essa era uma parte do nosso trabalho.
Aqui resolvemos fazer um pequeno estagio, que seria muito bom para nossas carreiras. Nós nos voluntariamos em um posto médico, na parte mais carente. Damon estava “atendendo” as pessoas com problemas, de todos os tipos, e pelo que eu soube, até conversava com pessoas que apenas queriam desabafar sobre o que via acontecer por aqui. E eu estava aprendendo na pratica como atender os pacientes. Confesso que fiquei um pouco assustada no início. Ver pessoas desnutridas, desidratada, a até com queimaduras, foi muito chocante. Eu já sabia que ia ter que lidar com isso na minha residência, que por sinal irá começar um pouco após eu concluir essa viagem. E por conta dela, e desses pequenos estágios, minhas horas de residência serão abatidas.
Eu estava indo em busca do meu novo paciente, quando vejo Damon conversando com um menino, ele chorava e Damon o ouvia atentamente. E eu me peguei admirando aquela cena. Eu já tinha percebido como Damon era atencioso, graças ao que ele vinha fazendo desde que fizemos as pazes, mas vê-lo trabalhando com o que ele gosta é outra história. Sinto um esbarrão.
– Desculpa senhora – uma menina fala e sai andando sem escutar o que eu ia falar.
Olho melhor pra ela, e vejo minha carteira em sua mão.
– Moça – Eu grito.
E ela começa a correr. Merda! Eu começo a correr atrás dela, não pelo dinheiro, mas sim pelos meus documentos, tirar tudo de novo, seria um desastre, principalmente estando em outra país, pior outro continente. Ela corre e consegue sair do posto, e dou graças a Deus por eu não está de salto e sim de tênis, então continuo atrás dela. Até que vejo dos policiais a agarrarem. Ela tenta se soltar, e vejo que eles a apertam com força e gritam com ela.
– Quem bom que conseguiram para-la – ofego.
– O que aconteceu? – Um dos policiais pergunta. – Essa muleca te roubou?
– Não – Eu digo e olho pra ela, que me olha assustada – Ela é minha prima, só que ela é muito ativa, eu me descuidei e ela saiu correndo do posto, levando minha carteira para não tomar a vacina – Digo a primeira coisa que vem em minha cabeça.
– Então qual é o nome da sua tia? – ele pergunta pra menina, que ele ainda está segurando.
– Elena! – Ela diz e até eu me assusto – Elena Gilbert, pode conferir nos documentos e o meu é Leona – Diz entregando a carteira.
Que safada! Provavelmente ouviu meu nome lá, porque não deu tempo dela abrir a carteira. O policial abre e confirma na minha carteira de habilitação.
– Você é americana, como tem uma sobrinha aqui? – O policial pergunta e eu reviro os olhos.
– Pergunta indelicada senhor – Digo me fingindo de brava – Qual é problema? Você é preconceituoso? Meu irmão não pode ter uma filha dar cor dela? E aqui?
Agora eu menti feio, eu nem tenho irmão para início de conversa.
– Desculpa senhora, mas é que aqui é comum, os jovens assaltarem os turistas, me desculpe – Ele diz soltando a Leona. – Tenham um bom dia.
Eles se afastam após devolver minha carteira pra mim. Pego a mão de Leona antes que ela fuja e sigo para o posto.
– Obrigada – Ela diz e suspira – Porque não me deixou ser presa?
– Porque não, vem, vamos conversar – Digo a puxando para dentro do posto.
Avisto Damon e aceno o chamando para vir. Não sou burra! A salvei, mas ela pode fazer alguma coisa. Com ele perto, é mais difícil.
– Que foi? – Pergunta preocupado.
– Tem um minuto? – Pergunto e ele olha pra Leona. – Leona esse é Damon – Digo os apresentando.
– Claro – Ele sorri pra mim — Prazer – Ele diz se virando pra Leona.
– O prazer é meu – Ela responde.
– Vamos sentar ali – aponto para as cadeiras. – Porque me assaltou Leona? – Pergunto e vejo Damon arregalar os olhos.
– Como assim? – Damon pergunta olhando de mim para Leona.
– Preciso do dinheiro – Ela diz e abaixa a cabeça – Se eu não aparecer com nenhum, eles vão me bater e me expulsar de lá.
– Quem? – Pergunto preocupada.
– O pessoal de onde eu durmo, é como se meu aluguel estivesse atrasado – Diz dando de ombros.
– Como assim? Cadê seus pais? – Damon pergunta.
– Eles morreram – Ela diz.
– Você não devia estar num orfanato? Você não deve ter idade para viver sozinha – Digo preocupada.
– Sou emancipada, meus pais estavam muito doentes, e para eu não ir para um abrigo, me emanciparam – Ela diz.
– Quanto você está devendo? – Damon pergunta passando a mão pelo seus cabelos.
– Mil e quinhentos – Ela diz e eu arregalo os olhos.
– Senhor – coloco as mãos na boca para não gritar. – Na minha carteira não tem tudo isso.
– Você assaltou mais alguém? – Damon perguntou e ela fez sinal de negativa.
– Eu nem queria fazer isso, é só que eu não tenho mais pra onde ir, ninguém me dá emprego porque sou menor de idade, mesmo eu sendo emancipada, geralmente vendo algumas coisas, para pagar o que devo, mas fiquei doente recentemente e pedi grana emprestada – Diz abaixando o olhar.
– Nós vamos pagar sua divida – Digo e Damon me olha.
– Nada disso Elena! Nós vamos leva-la a um órgão especializado nisso, mesmo ela sendo emancipada, ela não tem condições de sobreviver – Diz.
– Não! Vamos pagar o que ela deve e ela fica conosco no hotel por uns dias até eu pensar em algo pra ajuda – Digo.
Eu já tive uma ideia, mas infelizmente tenho que contar com a ajuda do meu pai. E convence-lo de mexer na minha herança para dar um lar a ela, não vai ser fácil.
– Não precisam brigar por minha causa, eu me viro – Ela diz se levantado.
– Não vá, espere, eu vou ajudar – Digo indo atrás dela – Só preciso acabar com meu turno, por favor, me deixa ajuda-la.
– É nos deixe ajuda-la – Damon diz e eu sorrio pra ele.
Ela nos olhos, como se ponderasse alguma coisa, suspirou e disse. – Tudo bem.
O resto do meu turno, foi mais tranquilo, mas toda hora eu checava para ver se a menina não tinha ido embora, mas fiquei mais tranquila, quando eu a vi ajudando o Damon. Eu sei que preciso ligar pro meu pai, mas primeiro quero resolver essa dívida dela.
Assim que acabamos, saímos e fomos em direção a um bairro mais afastado. Meu coração começou a acelerar e me bateu um medo. O que estou fazendo? Vou ajudar uma desconhecida! E se ela planejou um golpe? E se isso tudo for mentira? Olho para Damon, que está concentrado na estrada, pego sua mão e a aperto, ele me olha e sorri. Aquilo de certa forma me conforta. Saber que ele está aqui comigo, me ajudando, é bem mais fácil.
LEONA
DEPOIS QUE DAMON ACABOU DE ME ABRAÇAR, ME GIRAR E ME APERTAR, ELE BEIJOU O TOPO DA MINHA CABEÇA E SUSSURROU QUE SENTIU A MINHA FALTA. MEUS OLHOS LACRIMEJARAM. EU SEMPRE SOUBE QUE ELE SE IMPORTAVA COMIGO, MAS ELE NUNCA DISSE ISSO ASSIM ABERTAMENTE. SUSSURREI QUE TAMBÉM SENTI FALTA DELE E ELE RIU.
ME ESPANTEI POR ELENA NÃO TER SE MEXIDO. O QUE ME LEVA A CRER QUE TEM ALGO ERRADO.
– VOCÊS BRIGARAM? – PERGUNTO ME AFASTANDO.
– UMA LONGA HISTÓRIA – DIZ E SUSPIRA.
– QUE NENHUM DOS DOIS ME CONTOU – CRUZO MEUS BRAÇOS E ANDO EM DIREÇÃO DE ELENA, QUE OLHAVA PARA NÓS.
– EU VOU... – DAMON TENTA SAIR DE PERTO DE MIM, MAS O APERTO MAIS EM MEUS BRAÇOS.
– NADA DE FUGIR GAROTÃO – DIGO E ELE REVIRA OS OLHOS.
– ESSA NÃO É UMA BOA ESCOLHA E MUITO MENOS UMA BOA HORA GATINHA – DIZ.
– PAGO PRA VER – RIO.
NOS APROXIMAMOS MAIS, E VEJO QUE RIC SE APROXIMA TAMBÉM, COM OS OLHOS TEMEROSOS. AFINAL O QUE ESTÁ ACONTECENDO? NÃO PARECEM O CASAL APAIXONADO QUE ENCONTREI ALGUNS ANOS ATRAS.
– ELENA – ME SOLTO DOS BRAÇOS DO DAMON E PARTO PARA CIMA DA MORENA, QUE APENAS DESCRUZA OS BRAÇOS E ME ABRAÇA FORTE, E SUSPIRA. – VOCÊ SUMIU, VOCÊ PROMETEU QUE ISSO NÃO ACONTECERIA. – SUSSURRO EM SEU OUVIDO.
– DESCULPA PRINCESA – ELA FAZ CARINHO EM MEUS CABELOS. – ESTIVE MUITO OCUPADA E....
– DAMON TAMBÉM NÃO ME PROCUROU, O QUE HOUVE? – PERGUNTO E ELA RESPIRA FUNDO.
– NÃO É HORA PRA ISSO – ELA SE AFASTA.
– LEONA, QUE BOM QUE PODE VIR – RIC ME ABRAÇA.
– É BOM FINALMENTE TE CONHECER PESSOALMENTE – EU RETRIBUO SEU ABRAÇO.
– SEM QUERER SER CHATO, PRECISO CONTINUAR MINHA APRESENTAÇÃO, MAS NÃO VÁ EMBORA, PRECISAMOS SAIR PRA COMEMORAR – DIZ.
– OS QUATRO – DIGO SORRINDO.
ELE BEIJA O TOPO DA MINHA CABEÇA E VOLTA PARA ONDE ESTAVA.
– EU VOU IR ME SENTAR – DAMON DIZ E EU SEGURO SUA MÃO.
– SENTA O RABO AI NESSA CADEIRA – O EMPURRO E ELE CAI SENTADO.
VEJO ELENA SUSPIRAR E SE SENTAR, ENTÃO FICO NO MEIO DOS DOIS. DAMON SUSPIRA E PEGA MINHA MÃO E A APERTO, O OLHO E ELE ESTÁ COM AQUELE OLHAR PIDÃO. FAÇO QUE NÃO COM A CABEÇA E ELE APERTA MAIS UMA VEZ. E AGORA É MINHA VEZ DE SUSPIRAR.
OLHO PARA ELENA, QUE ESTÁ OLHANDO PARA FRENTE, PEGO SUA MÃO E A APERTO, A FAZENDO OLHAR PRA MIM, COM AQUELES OLHOS CHOCOLATES, ELA FAZ UMA PERGUNTA SILENCIOSA: “O QUE FOI?”. EU SORRIO E BALANÇO A CABEÇA NEGATIVAMENTE.
QUEM DIRIA QUE DEPOIS DE TUDO, ESSES DOIS IAM ESTÁ ASSIM. ESCUTO A VOZ DE RIC E OLHO PARA FRENTE PARA ACOMPANHAR SUA EXPLICAÇÃO.
DAMON
Por um lado, eu não concordava com essa atitude de Elena, mas no decorrer do dia, que eu conheci um pouco mais de Leona, também senti vontade de ajuda-la. Mas me preocupei quando vi para onde estávamos seguindo. É um lugar barra pesada daqui, muitos me falaram para evitar aqui. Percebi que Elena ficou tensa, e pelo olhar que ela me mandou, entendi o que se passava em sua cabeça, tentei tranquiliza-la da melhor forma possível, e acho que consegui.
Quando estacionei o carro, percebi que a casa parecia um pensionato. Leona foi a primeira a descer, eu desci antes de Elena e abri a porta pra ela, e logo peguei em sua mão e entrelacei nossos dedos. Queria que ela ficasse confortável, se percebessem seu medo, não sei o que eles são capazes de fazer.
– Jonny – Leona grita.
Logo um cara mais ou menos da minha idade desce.
– Trouxe a grana – Ela diz e fica do meu lado.
– Quanto a menina deve? Vamos pagar – Digo firme – Leona, vá arrumar sua bolsa.
– Você vai embora? – Ele pergunta cruzando os braços e olhando firme para Leona.
– Vou – Sua voz sai tremula, e eu senti que devia puxa-la para perto, para protege-la, e foi isso que eu fiz.
– Bom, ela tá devendo mil e quinhentos, mas do mês passado, como estamos na metade do mês, ela tem que pagar, e como não teve aviso prévio... – Ele começa a dizer.
– Te dou três mil e você nunca mais vai fazer nada com ela – digo pegando o dinheiro no bolso.
Eu havia sacado isso, porque sabia que ele cobraria mais alguma coisa.
– Elena a ajude a arrumar a bolsa, para irmos – Digo e as solto.
Elas somem, e o cara fica me encarando.
– Ela é problema! E tenho certeza que vai voltar – Ele diz sério.
– Ela não vai voltar, vou me encarregar disso, e se voltar, você vai negar – Digo sério também.
– Preciso do dinheiro, se ela tiver como pagar fica – Diz e eu reviro os olhos.
– Deposito uma quantia de dois mil todo mês para que não a aceite, e se ela aparecer aqui, você vai me ligar e se não conseguir me envie um e-mail – Digo e ele sorri.
– Fechado – Diz.
Trocamos nossos dados, e logo Elena volta com Leona. E saímos, respirei fundo quando estacionei na frente do hotel. Pedi para adicionarem o nome de Leona no quarto da Elena, e as acompanhei até o quarto. Então enquanto ela tomava um banho pedi para falar com Elena.
– Sabe que precisamos falar com Ric né? – Pergunto.
– Eu sei, mesmo estando bancando com nosso dinheiro ele precisa saber – Diz.
Ligamos o computador e abrimos o Skype e logo ele “atende”.
Ric: Ei pessoal, algum problemas?
Acho que nossas caras, dizem por si.
Damon: precisamos te contar algo.
Ric: Já ia me esquecendo, como foi lá posto?
Elena: Foi perfeito Ric! É muito diferente de tudo que vi na faculdade.
Ric: Imagino, mas agora contem porque chamaram?
Damon: Bom, temos companhia...
Ric: Não acredito que você engravidou a Elena! Pelo amor de Deus, vocês não sabem o que é camisinha? Pílula do dia seguinte?
Enquanto eu ria do chilique do Ric, que não parava de falar de gravidez e métodos contraceptivos, Elena estava completamente vermelha.
Damon: Não! Ric, você está a deixando sem graça.
Elena se levantou e foi até a mini geladeira.
Ric: Que alivio cara! Mas então quem é a companhia?
Rio e balanço a cabeça negativamente. Só ele para pensar nisso!
Ric: Alias vocês já...?
Perguntou baixo e agora eu fiquei vermelho e ele riu.
Damon: Não!
Ric: Uffa
Elena volta a sentar ao meu lado.
Elena: Já contou a ele?
Damon: Não.
– Elena – Leona grita e Elena sai novamente.
Ric: Quem está ai?
Damon: Ela é nossa convidada, ela... Como posso explicar?
Elena se senta ao meu lado de novo.
Elena: Ela vai passar uns dias conosco, até eu falar com meu pai, quero comprar uma casa para ela, ou alugar, pra ela não ir de novo para rua.
Damon/Ric: O que?
Nós dois nos espantamos. Elena não me contou que esse era o plano.
Ric: Você ao menos a conhece? Porque estou sabendo disso hoje? E como ela está ai? Quantos anos essa pessoa tem? E a família?
Elena: Ela tem 15 anos, seus pais morreram, ela é emancipada, mas não tem condições de se manter, Ric, eu preciso fazer isso, só a deixe ficar conosco.
Ric: Não dá Elena, precisamos checar tudo, se algo der errado, eu também respondo.
Damon: Você pode verificar, Ric, somos nós que estamos pagando, não estamos usando seu dinheiro.
Elena: Por favor, Ric! É importante pra mim!
Algo me diz, que Elena se identificou com algo nessa menina. O que será?
Ric: Eu vou verificar, preciso dos dados dela.
Elena: Eu mando por e-mail.
Damon: Então tudo ok?
Ric: Até eu verificar tudo, ok! Se tiver algo errado...
Elena: Já sabemos!
Ric: Cuidado pessoal!
Elena se levanta e vai fazer alguma coisa.
Damon: O que te preocupa Ric?
Ric: Nada, cuide dela Damon, não a deixe se apegar a menina!
Damon: Ela só quer ajuda-la, posso perguntar algo sobre Elena?
Ric: Se eu puder responder...
Damon: Há algo familiar na história delas?
Ric: Não sei dizer, mas se quiser essa resposta, pergunte a Elena! E se por um acaso vocês forem... Você sabe... Previnam-se!
E antes que eu possa retrucar ele desliga. Filho de uma mãe! Fecho o notebook e vejo Elena rindo com Leona. Será que? Não... Sei que os pais da Leona morreram, e que a mãe dela morreu! Mas tem algo que eu não sei da Elena, que ela viu em Leona uma familiaridade e quer ajuda-la. Preciso saber o que é! Olho novamente para elas e suspiro e vou até elas.
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