Volta?

7 Gratidão


Eu nunca estive tão feliz por voltar para casa. Até deixo que Leorio me carregue no colo como se eu fosse sua noiva. Ah, não que exista qualquer motivo para eu pensar nessa comparação estranha. Ele só faz isso porque eu ainda estou fraco demais para andar sozinho. Normalmente, meu orgulho me forçaria a usar minhas próprias pernas, por mais doloroso e humilhante que fosse cair no chão a cada dois passos.

Mas essa não é uma situação normal. Eu devo minha vida ao Leorio, então acho que deixar que ele me mime um pouquinho não vai acabar com minha dignidade. Eu só mudo de ideia quando a porta da sala se abre sozinha e nós somos cumprimentados pelo rosto preocupado de Senritsu. Ela lança um olhar horrorizado para mim, e lágrimas surgem em seus olhos. Isso me deixa bastante constrangido, e eu luto para ficar de pé, mas acabo caindo assim que meus pés tocam o chão.

Quando Kurode aparece, eu percebo que a reação de Senritsu foi até bastante tranquila. O cachorro começa a uivar e a correr em círculos com a cauda entre as patas traseiras. Ele enfia o focinho em meu pescoço, chorando alto, e eu faço carinho em seu pelo dourado, murmurando palavras de consolo. Leorio afasta o pobre animal com a perna e me pega no colo de novo, levando-me, que vergonha, direto para sua cama.

Eu penso em protestar, dizendo que tenho meu próprio quarto, mas Leorio se antecipa, afirmando que ele está sendo ocupado por Senritsu temporariamente. Isso a deixa bastante sem graça, e eu a vejo se afastar de mansinho antes de Leorio encostar a testa dele na minha para se certificar de que não estou com febre. Eu sinto o rubor dominar meu rosto e começo a proferir blasfêmias, mas meu pediatra apenas afaga meus cabelos e vai até a cozinha preparar um almoço para mim. Ao menos não é macarrão instantâneo.

Senritsu vai embora no final do dia, deixando-nos sozinhos. Eu peço para Leorio me levar até a sala para que possamos assistir televisão juntos sentados no sofá. No começo, ele se recusa, mas eu insisto, dizendo que estou cansado de ficar deitado. E eu sou exigente. Peço refrigerante e pipoca salgada com leite condensado para acompanhar o filme. Apesar de ele resmungar bastante, tenho certeza de que um sorriso surge no canto de seus lábios.

Durante o filme, eu deito a cabeça em seu ombro. Não é algo muito confortável para mim. Não estou acostumado a demonstrações de carinho, e me parece muito mais natural brigar com Leorio e ameaçar dar um soco em seu rosto convencido do que ficar encostado nele como se fosse sua... Sua...

A timidez cede espaço para o alívio. Com astúcia, eu o encaro sem que ele perceba e vislumbro aquele rubor familiar em seu rosto. Finalmente. Finalmente ele recuperou alguma cor. Estava ficando preocupado. A palidez não combina com o gênio forte e extrovertido de Leorio.

E eu estava me sentindo culpado. Porque, se eu não tivesse fugido de casa, se não tivesse ido atrás daquele assassino, se não tivesse chegado tão perto da morte, Leorio não estaria assim. Não estaria sempre nervoso e desamparado. Não estaria com olheiras tão profundas. Não estaria dormindo em uma cadeira, sem conforto nenhum, enquanto eu babo em um travesseiro. Não estaria sofrendo por causa de uma pessoa egoísta e mesquinha como eu.

Mas... Por que eu fico feliz por ele estar tão preocupado? Por que eu fico feliz por ele ser a primeira pessoa que eu vejo ao acordar? Por que eu fico feliz com a possibilidade de esse homem louco que se diz meu pediatra só para me irritar nutrir algum sentimento por mim? Será que isso me torna ainda mais egoísta e mesquinho? Será que é errado eu gostar de saber que ele sempre cuidará de mim, por mais que eu não o mereça? Será que eu sou uma pessoa cruel por sentir essa alegria estranha diante da possibilidade tão ínfima de ele... me amar?

Esses sentimentos contraditórios inundam meu ser. Por um lado, eu sinto essa culpa imensa, essa culpa que chega a me esmagar. Por outro, eu me sinto aliviado por ele ter voltado, por ele não me odiar mesmo depois de tudo o que eu fiz. Será que eu ainda posso me considerar um bom amigo quando o Leorio está sofrendo tanto por minha causa?

Eu tento buscar as respostas. Tento de verdade. Mas o sono pesa minhas pálpebras, e eu adormeço. E, quando acordo horas mais tarde, não me surpreendo por estar na cama de Leorio. Mas, pela primeira vez, fico triste por ele estar sentado na cadeira da escrivaninha, olhando a lua enquanto pensamentos secretos circundam sua mente.