Volta?
9 Epílogo
Eu sempre acreditei que morreria sozinho, vingando os membros da minha tribo. Nunca me permiti imaginar como seria conhecer alguém que pudesse trilhar os caminhos ao meu lado. Alguém que fosse mais do que um amigo. Alguém que me mostrasse que o amor ainda está dentro das minhas possibilidades.
Por isso, eu fiquei surpreso quando descobri que essa pessoa existe, e que ela é aquele que eu sempre considerei meu melhor amigo. E fiquei mais surpreso ainda quando percebi que minha rotina continuava igual ao que sempre foi, exceto pelo fato de que agora eu não tenho mais meu olho esquerdo.
Nós ainda assistimos a filmes sentados no sofá da sala. Ainda comemos pipoca com leite condensado e saímos para passear com o Kurode. Ainda brigamos por motivos idiotas, e ele ainda me provoca dizendo ser meu pediatra. Ainda estudamos no mesmo cômodo, e eu ainda o censuro por comer macarrão instantâneo com frequência.
Mas, em meio a essa rotina aparentemente normal, existem algumas novidades. Eu ainda durmo na cama dele. Mas não durmo sozinho. Ele ainda passa horas com o rosto enterrado nos livros de Medicina. Mas interrompe os estudos de bom grado sempre que eu apareço com alguns sanduíches e uma ou duas barrinhas de chocolate. Eu ainda leio no sofá. Mas deito a cabeça sobre as pernas dele para receber um pouco de carinho. Ele ainda me tranca no banheiro quando eu estou com febre e me recuso a tomar banho frio. Mas entra no chuveiro comigo e faz de tudo para me deixar constrangido enquanto eu luto de mentirinha para escapar.
E nós não olhamos mais para a lua procurando por respostas.
Depois de alguns meses, eu estava tão acostumado a essa nova realidade, que estranhei quando aqueles três apareceram. Killua, Gon e Alluka. Eles fizeram bastante estardalhaço quando Leorio me deu um beijo na bochecha dizendo que tínhamos visitas. Eu tinha acabado de acordar e meu cabelo estava todo bagunçado. E aquele idiota ainda teve a audácia de fazer aquilo comigo! Era para ser segredo! Agora o Killua nunca vai me deixar em paz!
Na hora, eu fiquei bem irritado, mas vários pares de mão me empurraram até o sofá, e eu ralhei, perguntando o que estava acontecendo. Eles sorriram para mim, cúmplices. Então, Alluka deu um passo à frente, e seus olhos tornaram-se tão negros quanto os de meu assassino. Ela tocou meu rosto com seus dedos delicados.
E, de repente, eu estava completo de novo.
Com um suspiro, guardo a última muda de roupa dentro da minha mochila. Partir desta casa nunca pareceu tão doloroso, mas eu consegui uma pista ótima sobre o possível paradeiro de um dos pares de olhos e simplesmente tenho de ir atrás dele. Leorio não ficou muito satisfeito quando eu expliquei que precisaria partir em uma nova missão, mas se acalmou um pouco quando eu disse que Senritsu irá me acompanhar. Ele abriu um sorriso preocupado, afagou meus cabelos e pediu para eu tomar cuidado.
Normalmente, nós vamos juntos a essas missões e deixamos Kurode sob os cuidados de Gon, Killua ou Senritsu. Desta vez, porém, Leorio não pode vir comigo. Ele está no último período da faculdade de Medicina e tem muito o que estudar. É claro que ele largaria tudo no mesmo instante por minha causa, mas eu acho que ele já sacrificou muitas coisas por mim.
Antes de sair do quarto, olho meu reflexo, admirando meu olho curado. É estranho não ter de usar mais curativos. Mais estranho ainda é me lembrar do meu algoz e não sentir tanto medo. Acho que é porque estou passando muito tempo com o Leorio, e ele, de alguma forma, faz com que eu me sinta seguro.
Chegando à sala, permito que ele me abrace. Eu sei que estamos juntos há um bom tempo agora, mas raramente tomo a iniciativa. Ele não se importa muito, desde que possa me fazer carinho e me beijar e me mimar de todas as formas possíveis e imagináveis. Isso me faz lembrar a época em que eu vivia no vilarejo Kuruta e tinha uma família. O Leorio me faz feliz.
Quando alcanço a porta, é minha vez de me despedir. Eu tento dar um beijo rápido, mas ele me abraça de novo, reivindicando mais. Eu me afasto, um pouco tímido, e abro um sorriso. Está na hora de dizer adeus, mas eu não estou triste. Porque eu sei que ele me ama. Porque eu sei que vou voltar.
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