Volta?

6 A lágrima do medo


Ele está dormindo de novo. Sentado ao lado da cama, eu observo seu peito subir e descer lentamente. Há tantas coisas que eu queria lhe dizer. Mas ele estava desolado quando acordou. Eu nunca o tinha visto chorar tanto. Na verdade, eu nunca o vi chorar de verdade. Ele sempre foi orgulhoso. Sempre limpava as lágrimas teimosas o mais rápido que podia e engolia o choro. Em condições normais, ele jamais choraria na minha frente.

Acontece que essas não são condições normais. Ele quase foi morto. E perdeu um dos olhos. Para sempre. Eu conversei com todos os médicos, implorei para todos eles, mas, no fundo, já sabia a resposta. Certas coisas são irreversíveis. Kurapika terá de conviver com essa deficiência. Para sempre. Ele, que sempre lutou tanto para reunir os olhos de sua tribo, perdeu justamente o que tanto desejava proteger. A lembrança, a única lembrança, de sua origem, de seus entes queridos.

A enfermeira aparece pela terceira vez e não aceita minhas desculpas. Ela simplesmente pousa a bandeja sobre as minhas pernas, coloca os talheres nas minhas mãos e ordena que eu coma essa refeição gosmenta que o hospital chama de jantar. Eu até penso em argumentar, mas meu estômago escolhe justamente esse momento para se contrair, emitindo seus protestos em voz alta. Constrangido, murmuro um agradecimento e começo a devorar a comida. Satisfeita, minha nova babá deixa o quarto.

Eu termino de comer em menos de quinze minutos. Sei que deveria mastigar com calma, mas, depois que dei a primeira garfada, acho que virei um lobo faminto que não sabe quando poderá se alimentar de novo. Quando acabo meu jantar, coloco a bandeja em uma mesinha perto da porta. Sei que é bobagem, mas eu simplesmente me recuso a sair deste quarto enquanto Kurapika ainda estiver aqui. E se ele acordar chorando de novo?

Infelizmente, não posso controlar certas necessidades fisiológicas e sou obrigado a abandonar meu posto para ir ao banheiro. Felizmente, existe um logo no final do corredor e vou até ele praticamente correndo, o que me rende reclamações de uma mulher com uma criança de colo e de um enfermeiro que empurra a maca de um velhinho moribundo.

Quando retorno ao quarto, percebo que a bandeja sumiu e que o soro de Kurapika foi substituído. A eficiência dessa enfermeira é realmente admirável. Eu até me sinto mais seguro por meu melhor amigo estar sob os cuidados de uma pessoa como ela. Acho que posso confiar de verdade nela, e isso faz com que meu sentimento de culpa diminua um pouquinho. É claro que eu mesmo queria curá-lo, mas isso está fora de meu alcance no momento. Eu sequer consegui ligar para a ambulância, caramba! Se não fosse aquele policial...

Tenho um sobressalto. Kurapika acaba de mover a cabeça. Ele resmunga baixinho e abre o olho lentamente. A emoção domina meu peito. Por muito pouco não começo a chorar. Eu me aproximo dele, as mãos trêmulas, e pergunto se ele está bem, mas a minha voz sai arrastada.

Kurapika inspira profundamente e balança a cabeça para dizer que sim. Em seguida, volta a dormir. Sem ter o que fazer, eu desmonto na cadeira e retorno à minha posição desolada de antes. Cotovelos apoiados nas pernas, rosto enterrado nas mãos.

Na primeira vez que ele acordou, eu não consegui fazer nada. Eu fiquei tão... surpreso por vê-lo acordar. E, ao mesmo tempo, tão triste por vê-lo com aquele curativo enorme sobre o olho. Quando ele começou a chorar com a cabeça encostada em meu ombro, eu senti meu mundo ruir. Sem conseguir dizer nada, porque temia que eu mesmo rompesse em lágrimas caso tentasse dizer alguma coisa, fechei os olhos com força e me permiti sentir toda a dor que Kurapika sentia. Eu me permiti absorver tudo aquilo, alimentando minha desolação, aumentando esta culpa, este arrependimento por tê-lo abandonado.

Quando ele acordar pela terceira vez, com que cara será que eu vou olhá-lo? Eu... não posso chorar. Sou o único aqui que não pode chorar. Kurapika pode chorar. Kurode pode chorar. Senritsu pode chorar. Até a enfermeira pode chorar. Mas eu, não. Eu sou o único que não pode derramar uma lágrima sequer. Porque a culpa é toda minha. Eu mereço sofrer. Eu devo sofrer. Se eu pudesse, transferiria todos os ferimentos dele para mim, faria o olho dele voltar ao normal e ficaria para sempre cego de um de meus olhos. Eu não me importaria de usar curativos pelo resto da minha vida se ele pudesse ter suas íris escarlates novamente.

Eu adormeço sentado na cadeira. Apesar do meu forte desejo de permanecer em vigília, começo a sentir as consequências das noites mal dormidas naquele motel imundo dos subúrbios da cidade. Desperto com um som baixo, quase imperceptível. É Kurapika, chamando meu nome.

Emocionado, olho para ele e tento responder, mas minha voz não sai. Para minha surpresa, ele estende o braço. Ainda está muito fraco, e esse pequeno movimento parece exigir muito dele. Eu seguro sua mão e sinto meus olhos arderem. Uma lágrima rebelde desce por meu rosto. Eu penso em limpá-la o mais rápido possível, mas logo mudo de ideia. Porque Kurapika está sorrindo para mim. E, por mais que isso soe como um sonho de um tolo apaixonado, eu tento me convencer de que esse sorriso significa que ele me ama.