Volks
1 Volks
Na época eu era uma jovem guerreira, não tinha noção do quanto minha arrogância custaria caro. Meus próprios companheiros de tribo arrastaram o que sobrou de mim até a base da maior montanha de Gam-heer, o lugar aonde viviam os Volk. Ou pelo menos era nisso que a maioria da tribo acreditava. Ao pé da montanha ficava a estaca onde se amarra os traidores; a estaca na qual achavam que eu merecia ficar, e fiquei mesmo, contra a minha vontade, enquanto os assisti me deixando. As montanhas de Gam-heer sempre estavam cobertas de neve e o frio se tornava ainda mais impiedoso durante o inverno, a única coisa que me aquecia era meu próprio sangue, que encharcava os trapos que eu vestia. O mundo todo era cinzento e frio na base da montanha, a névoa fria deixava o horizonte apagado, sem que eu pudesse ver o limite entre a terra e o céu; seria nesse cenário fúnebre que eu suportaria minhas longas últimas horas... Horas para recordar todas as lembranças da minha vida, desde a infância, quando as coisas eram mais simples, quando perguntas não matavam as pessoas. Lembro-me principalmente do dia em que ele fechou para sempre seu olhos prateados, se foi, e eu perguntei à minha mãe: “Pra onde estão levando ele?”. Ela me lançou um olhar triste e me contou sobre a Sepultura de Arthas; o primeiro Volk. A sepultura que ficava congelada para sempre no coração de Gam-heer, perto de onde eu estava, bastava um olhar concentrado para perceber a ponta do enorme monumento se revelar no horizonte, e naquele dia ela me disse; não sei se pra me confortar ou me assustar:
“Quando os melhores caçadores da nossa tribo morrem, são levados até o coração de Gam-heer e enterrados junto do túmulo de Arthas, o primeiro Volk, então eles podem voltar... Para a caçada que nunca acaba”.
E eu sorri ingênua: “Então... O vovô vai voltar? Quando?”.
“Ele voltará, mas não para nós. Ele se reerguerá para caminhar ao lado de Arthas, e já não será o mesmo que eu e você conhecíamos... Ele voltará, mas para um outro propósito” Dizia ela, olhando para os lados, como se estivesse cometendo um crime do qual não queria ser flagrada cometendo. E se eu te dissesse que, assim como minha mãe, todos na tribo acreditavam firmemente que os Volks eram reais? Acreditavam com tal intensidade, que não ousavam nem dizer que duvidavam, mesmo quando a única coisa que a tribo pôde ter deles foi o som de seus uivos distantes durante as poucas madrugadas silenciosas, durante os breves intervalos da ventania. Acreditavam também, que quando um traidor era amarrado na estaca próxima à Sepultura de Arthas, os Volk, caçadores do gelo, apareciam para julgar tal traidor e lhe dar o fim que merecia... E era por isso que eu estava aqui. Mas diferente da minha mãe (E que ela um dia me perdoe pelo que eu fiz), eu nunca consegui levar essa história adiante... Simplesmente não conseguia acreditar; não depois do dia que eu descobri a verdade, não depois que vi que todas as lendas são criadas por um único propósito: Para que as pessoas continuem emaranhadas nas crendices e tradições, para que nunca ousem sair de seu eixo... Mas eu nunca gostei dos meus eixos, eu sempre quebrei os meus de um jeito ou de outro, e por causa disso eu estava amarrada na mesma estaca, onde eles esperavam que eu presenciasse o meu maior terror se provar real, onde “os Volks me julgariam”. Mas eu sei bem o que me aguardava... O frio do inverno, que viria para sufocar e me tirar a vida, seguido dos corvos que dariam conta do resto. Nada mais.
É incrível a maneira como o medo, a fome, o frio e a certeza de morte podem superar a sua sanidade. Era inútil, mas mesmo assim gritei o mais alto que pude, ouvi o eco nas montanhas, esperei uma resposta, uma reação, qualquer coisa. Continuei gritando e me debatendo nas amarras, esperando no mínimo um estalo, uma falha da qual eu pudesse me aproveitar, mas tudo o que fiz foi perder as forças. Durante a noite a tempestade se tornou calmaria, e eu me acalmei com ela, parei de me contorcer para admirar a bela aurora verde que adornava o céu, e foi a dança graciosa das luzes que me embalou, foi aquele mesmo brilho fantasmagórico que fez eu me sentir abençoada, como se eu não mais estivesse exilada em um inferno gelado, apenas sozinha em um paraíso esculpido em neve, um paraíso que ninguém jamais encontraria e nele eu podia descansar em paz para sempre. E se não fosse a beleza do céu e suas estrelas, quem acalmaria os demônios que correm em nós? Se os meus irmãos de tribo desejavam para mim um fim trágico, então que vingança melhor senão morrer com um sorriso no rosto, me sentindo agraciada pela natureza de modo que nem eles e seus “Volks” jamais foram? Se a tempestade já tinha passado, então o que temer nesse lindo lugar? Nessa calmaria branca e silenciosa na qual eu merecia descansar para sempre? Então quando o cansaço foi tomando conta de mim, eu não resisti, apenas admirei o céu por uma última vez e fui fechando os olhos, na esperança de não ter que forçá-los a se abrir de novo. Meu sangue congelou em cristais vermelhos bem debaixo dos meus pés. Minhas dores também congelaram. Minhas lutas acabaram.
O vento era forte no lugar onde acordei, era inexplicável... Como esse meu corpo quebrado resistiu ao frio da noite? Durante a manhã iluminado por uma luz metálica, aquele lugar não se parecia em nada com o da noite enfeitada por estrelas e um céu que brilhava em verde; agora era só uma montanha fria e cinzenta que não anunciava mudanças. Seria mais um dia me debatendo, mais um dia para a fome me devorar de dentro a fora, um dia em que as horas, assim como tudo em volta, estariam congeladas. Eu ri, mas não foi uma risada de alegria, era uma risada de escárnio àquela jovem que se sentira abençoada na noite passada, e que no dia seguinte se contorcia de medo, como uma criatura insignificante que a montanha gostava de ignorar, uma besta para a qual a montanha se recusava a dar paz, para a qual nunca lançaria uma voz ou um eco, pois esta só merecia o silêncio e o oblívio. E eu, a criatura moribunda que teve seus gritos ignorados, continuei a chamar a alguma vida na montanha, continuei a me debater, me arranhar, tentando me livrar das amarras de algum jeito.
Meu tormento só parecia durar mais e mais. Eu me perguntava como continuava a respirar depois de três dias, mas para meu alívio, não sobreviveria para ter um quarto dia amarrada, quando essa noite chegasse, teria de ser a última. Toda a tranquilidade que eu tive na primeira noite, (aquela que eu rezei para ser a última), morreu em mim, e desde então eu só consegui me sentir a pessoa mais injustiçada, a mais miserável, me sentia reduzida a nada, uma pequena mancha sangrenta que sujava o branco puro de Gam-heer. A névoa fria me sufocava, mas não fazia o favor de acabar comigo, o mundo ficava cada vez mais embaçado e cinza... Ou talvez fosse a minha própria visão? Que seja. Continuo amarrada. Eu errei. Eu tinha esse maldito hábito de questionar as coisas enquanto os outros calavam, mas acho que nem o pior dos erros merecia uma sentença dessas: Uma morte que se recusa a chegar. Quando eu voltava furiosa para casa, meu avô sempre repetia uma frase que eu adorava ouvir:
“As verdades podem ser abaladas, já o silêncio não.”
Ele saiba, mas nunca lhe incomodou que a verdade permanecesse oculta. Se os anciões contassem a verdade aos outros, então quem saberia mais? Quem estaria no comando? Quem estaria em cima ou embaixo? Ele nunca diria, mas eu sim e é por isso que minha boca teve que ser calada. Que mal eu fiz para o mundo quando eu... Esqueça. Que diferença faz? Eu não lhe dei uma explicação, mas o que passou, passou e pronto. Eu poderia desperdiçar o seu tempo e o meu contando o que houve, mas acredite a parte interessante da história é a que está por vir, não a que já aconteceu então não me olhe assim... Preste atenção.
A terceira noite chegou e passou e não foi nem um pouco acolhedora como fora a primeira. Meu corpo ainda resistia, mesmo tento sangrado tanto, mesmo quando amanhecia e o vento uivava mais forte, anunciando a nova tempestade de neve que viria para me engolir. O vento soprou no meu rosto fazendo-o se contrair, estreitando meus olhos ainda mais por causa do frio, da tristeza e arrependimento conforme eu me lembrava de cada palavra dita, de cada olhar lançado, e jurei que; caso eu alcançasse uma próxima vida, jamais diria a verdade para aqueles que não a merecem ouvir, morreria com a verdade enterrada na garganta. A névoa tomou conta de Gam-heer mais uma vez, eu fechei os olhos para que o vento não os rasgasse, mas ao não poder ver meus arredores eu só me senti mais desesperada que antes, tentei lutar contra as lágrimas, mas elas escorreram do mesmo jeito, escorreram quentes e no mesmo ritmo do meu pulsar, que ia se enfraquecendo, mas esse não foi o único som que ouvi. O som vindo de longe era da neve, que era tocada por passos leves; ergui a cabeça devagar e procurei por alguma figura no meio dos ventos caóticos, até finalmente encontrar um vulto cinzento que emanava uma luzinha fraca no meio da tempestade... E depois mais vultos foram surgindo.
Essas aparições me deixaram em dúvida; eu arregalei os olhos e tentei me erguer mais para ver com clareza, e percebi que os vultos eram grandes o suficiente para serem homens, como meus irmãos da tribo, mas... Meus irmãos não tinham quatro patas. Não, não eram... Não poderiam ser porque lendas não vivem, não posso começar a delirar a ponto de achar que esses são... Os Volks...? Seria esse o momento que me prometeram? O momento de ser “julgada”? Só podia ser minha imaginação criando formas na ventania que rodopiava na minha frente, mas... Lendas não me olham nos olhos... Eu não suportava mais aquilo me encarando, então eu gritei o mais alto possível, fiz minha voz abalar a montanha a fim de aquietar minha imaginação trapaceira, mas ao invés do que eu esperava, os vultos correram em círculos e grunhiram, como se rissem de mim, sobrando na minha frente apenas aquele que me encarava, com calma ele piscava bem devagar seus olhos brilhantes, dava passos lentos sumindo e reaparecendo na nevasca, me lançando vislumbres de seu aspecto fantasmagórico como a aurora, enquanto eu respirava pesado, tremia e não desviava os olhos nem por um segundo, acompanhando cada passo de seu avanço.

Me ajeitei na estaca, ergui o queixo com empáfia e o encarei nos olhos, como se fosse ele quem devesse me temer, pois era assim que eu esperava encarar minha morte: Com o pouco da coragem que me restou, como se eu precisasse me redimir do drama das noites anteriores. Eu já me considerava pronta para toda a dor que precedia a morte, mas eles fizeram algo que doeu ainda mais: Me fizeram esperar. Preferiam me encarar, grunhir e correr a acabar com minha dor. Eles achavam divertido o meu tormento e não tinham pressa para acabar com ele, o tempo passava, eu perdia a paciência, e eles não. O céu já ficava mais claro na madrugada, mesmo quando a tempestade amainava ver era muito difícil, mas eu os escutava correndo, rolando na neve, rosnando e ameaçando uns aos outros com fúria para logo depois trocarem lambidelas, como se pedissem perdão. Aquele a minha frente, que era branco como a própria nevasca, resolveu se aproximar um pouco mais, e mesmo sendo enorme, ele caminhava com toda a graça e leveza dos mais habilidosos caçadores, avançava com elegância mesmo quando o vento lhe bagunçava os pelos. Os outros se agitaram ainda mais, então percebi que esse era o aviso de que a cena que tanto esperavam estava prestes a acontecer... A calma em seu olhar sumiu. De repente ele já estava tão perto que pude sentir sua respiração quente bafejar no meu rosto, pude observar o contorno dos dentes que estavam a apenas uns centímetros do meu rosto, escutei um rosnado que mesmo baixo fez tremer até minha alma, ele me olhou no rosto, eriçou os pelos das costas, fez as garras arranharem o gelo sob suas patas, indicando que estava pronto para saltar e acabar comigo, e eu suspirei, fechei os olhos, esperando a mordida.
Ele mordeu de baixo de meu pescoço e puxou com força... E arrebentou uma das cordas que me prendia à estaca. Nem uma gota de sangue, nenhuma dor... Ele errou? Antes que eu abrisse os olhos de novo ele mordeu as cordas mais uma vez, e com um puxão forte ele estilhaçou a estaca atrás de mim, que caiu junto comigo num emaranhado de cordas, trapos encardidos e madeira. Do chão eu olhei pra cima, sem ter forças pra correr, me contentei em observá-lo e ele também me encarou, com a intenção de nunca desviar os olhos dos meus. Com suas orelhas voltadas pra frente e o rabo levantado, ele rosnava e ameaçava os outros que corriam em volta, tentando mantê-los a uma distância respeitosa; eu não sabia se ele fazia isso pra me proteger deles, os simplesmente porque a agitação deles o irritava. O tempo continuou a passar, a dor e o frio continuavam a me destruir, eu estava cercada de bestas com o dobro do meu tamanho, munidas de garras e dentes capazes de estilhaçar meus ossos como gelo, mas por algum motivo, eles... Os Volks se recusavam a me matar. Isso já durava a tanto tempo que eu não sentia mais medo, apenas vontade de sair dali, mas quando ousei fazer um esforço pra me levantar o Volk branco que estava na minha frente me deu um empurrão e rosnou mais alto, e eu de tão fraca caí de uma vez só, batendo o lado do corpo contra os pedaços da estaca quebrada, meus ferimentos abriram de novo e eu chorei mais uma vez. Eu já tinha me conformado em não voltar para a tribo, mas sofrer por três dias já não era o suficiente? Me matem ou me deixem ir! Depois do empurrão, a criatura deu meia volta e se sentou para me observar, a expressão ameaçadora que tinha há apenas alguns instantes tinha sumido, mas eu não conseguia mais ficar calma, não conseguia suportar o frio, a fome e essa brincadeira de mau gosto que chamavam de “julgamento”. Ainda no chão, chorando e com raiva eu gritei pra ele:
“Que tipo de algoz é você? Um que tem dó de matar?! Ou será que não mereço um fim digno?” Nenhum deles esboçou reação, o que me deixou mais irritada ainda. Enfurecida, eu me debati espalhando neve pra todo lado e aos tropeços me forcei a ficar de pé, ele reagiu com um rosnado baixo de novo, mas eu avancei na direção dele, ergui a cabeça, lhe dei o mais ameaçador dos olhares, arreganhei os dentes assim como os Volks que se agitavam a minha volta, e gritei:
“SE NÃO QUEREM ME MATAR, ENTÃO ME DEIXEM IR!”
E mais uma vez minha arrogância me custou caro. Com um único avanço o Volk branco me mordeu, seus dentes bateram no meu braço com tanta força que eu fui arremessada para trás, fazendo uma trilha de sangue se espalhar enquanto eu rolava na neve. Eu olhei com espanto para a marca da mordida, e vi um reflexo distorcido se formar em uma das poças de sangue escuro... Eu vi a mim mesma, a imagem horrível do que sobrou de mim, uma coisa que não parecia mais viva, mas que inexplicavelmente continuava a respirar. A feiura em mim, a feiura no espelho de sangue me tirou toda a coragem dos últimos avanços, então eu me encolhi no chão, segurando em vão o braço que não parava de sangrar e pensei: “Vou morrer da mesma forma que vim ao mundo: Coberta de sangue”.
A neve foi pesando em cima do meu corpo, me soterrando, mas eu não me importava mais, não mexi um músculo, nem mesmo quando o Volk se sentou próximo de mim e assim ficou por vários minutos. A neve caía devagar, o sol começava a pintar os céus uma luz tênue; a alcateia já tinha se distanciado, deixando para trás apenas o Volk branco, que ainda aguardava ao meu lado. Eu ouvi suas patas remexendo a neve quando ele ficou de pé, depois ele empurrou meu ombro com o focinho... “O que está fazendo?” Eu abri os olhos e o vi mordiscando a minha roupa, tentando me puxar pra cima com um gesto delicado. Ele me deixou sentada, de cabeça baixa, lhe olhei de soslaio... Eu não mais via a besta que me ameaçara há alguns minutos, eu via um ser de olhar sereno e paciente, vi uma enorme criatura que, apesar das garras e dentes, conseguia até ser... Bonita. Eu senti que dessa vez ele não me impediria de levantar, e quando fiz uma tentativa de me ajoelhar ele se aproximou e... Abaixou a cabeça servindo de apoio para as minhas pernas frágeis; eu tomei coragem e passei o braço por cima de suas costas, sentindo com a mão o pelo macio do Volk e ele, sem se incomodar, acompanhou meu ritmo lento, porém vez ou outra ele me mostrava os dentes de novo, o que me deixava confusa já que eu não sabia que erro cometera dessa vez, cada passo me deixava mais tensa. Num piscar de olhos ele se virou na minha direção, grunhindo com a boca aberta e eu me encolhi instintivamente para me proteger de uma mordida que, pra minha surpresa, desapareceu, sem atingir seu alvo, e foi naquele momento que eu entendi meu erro, aquele que tanto o irritava, uma coisa tão sutil, mas muito significativa para o Volk: Eu não devia olhá-lo nos olhos. A resposta era imediata. Ao encará-lo, ele encarava de volta mostrando os dentes e estreitando ameaçadoramente seus olhos de caçador, enquanto ao abaixar a cabeça e fitar o chão, com timidez, ele se acalmava. Respirei fundo e sem medo algum acompanhei os passos da criatura que ditava as regras, pois finalmente tinha entendido seu estranho jeito de dizer “Não me desafie”. Nós dois paramos antes de descer a trilha de pegadas deixada pelos outros Volks, e observamos lado a lado, a estranha família que descia correndo o vale branco, saltando e brincando a seu próprio modo que oscilava entre bruto e carinhoso. Eu me aproximei com respeito, encostei a testa em suas costas e sussurrei: “Obrigada”. Não pude conter a curiosidade. Mesmo sabendo que não devia, ousei um olhar discreto em seus olhos, e ele não se incomodou. Num gesto nobre, ergueu a cabeça e deixou que a primeira luz da manhã lhe tocasse os olhos, que ao invés de se fecharem refletiram uma luz ainda mais forte, uma luz prateada.
Fale com o autor