Volcano

1 Volcano


Notas iniciais
Uma fic minha depois de um longo e tenebroso inverno Enjoy yourself.

Não se segure dessa maneira

Você machucará os seus joelhos

Beijei a sua boca e costas

Isso é tudo que eu preciso

Não construa o seu mundo em volta, vulcões te derreterão

Amie aguardava ansiosa pelo seu pedido, sentada em meio àquele lugar tão aconchegante. Várias cadeiras altas acolchoadas vazias pousavam perto de si, e ela especialmente, escolhera a mais afastada da entrada daquele Café tão pitoresco. Ela sempre odiou correntes de ar.

Enquanto esperava, mexia as pernas em um movimento repetitivo de chutar levemente a bancada, em que estava apoiada. Tentava concentrar-se naquele tão vão movimento, enquanto seu aguçado olfato captava todas as essências presentes no ar. Chá de alecrim, café expresso, misturas das mais variadas entorpeciam seus outros sentidos, selando-os com o leve aroma de hortelã que teimava em pairar no ar.

Ah. Finalmente; pensou ela. Sentiu o forte aroma de café moído e torrado. Ela reconheceria aquele delicioso aroma em qualquer lugar. Café percolado. Sorriu infantilmente para aquela xícara pelando que se postava à sua frente. Agradeceu ao atendente e puxou as mangas de sua blusa de lã, cobrindo suas mãos e pegando timidamente – mas sedenta – sua bebida.

O primeiro gole sempre era como seu primeiro beijo. Inseguro. Lábios trêmulos. Um sentimento incerto. Estaria o café da maneira que ela mais apreciava? Seria bom para ele também? É ele?

O que eu sou para você, não é real

O que eu sou para você, você não precisa

O que eu sou para você, não é o que você significa para mim

Você me dá milhas e milhas de montanhas

E eu pedirei o mar

O café estava excelente.

- Amie...? – uma delicada mão pousou sob seu ombro, e ela virou-se rapidamente, de olhos arregalados. Quase caíra do pequeno banco em que estava instalada, em seu inesperado susto.

- Eu te conheço? – um fio de voz escapou. Havia já muito tempo desde que alguém se importava tanto com ela a ponto de apenas chamá-la.

Um amável sorriso apareceu nos carnudos lábios do ilustre desconhecido. Cabelos castanhos e curtos, olhos intrigantes esverdeados; uma barba mal-feita. De onde ela conheceria tal figura? Ela tinha que admitir, que mesmo a seus olhos, embaçados pelas desilusões de seu coração e pela fumaça de seu café, ele era bonito. Muito. E emanava algo muito gentil, se é que isso é possível.

- Não se lembra de mim? Bem, sou Dafnis. Acho que você fez mecatrônica juntamente comigo. Não, tenho certeza. Eu reconheceria você em qualquer lugar. – finalizou abrindo um amplo sorriso. – Principalmente essa tatuagem. O que significa?

Não se jogue dessa maneira

Na minha frente

Eu beijei a sua boca, as suas costas

Isso é tudo de que você precisa?

Não arraste o meu amor em volta, vulcões me derreterão

Alguém lembrar-se dela? Com tamanha gentileza, que chega a ser palpável? Ela remexeu suas pernas, comprimindo uma coxa na outra e desviando o olhar. Aquele rosto era muito para ela. Como magia. Mas uma magia possível. Algo que chega a ser impossível.

Lembrou-se de que, como seus cabelos estavam firmemente presos com um coque – embora que com uns fios ficassem de fora do penteado – sua tatuagem na nuca ficava à mostra. Era um símbolo japonês, significa liberdade. A clássica tentativa de se rebelar e querer algo diferente. Sempre se arrependeu de ter feito isso, por não ter credibilidade após o fato. Apenas deboches.

Abria e fechava seus carnudos lábios cor de carmim, insegura. Não sabia o que fazer. Ela fizera mecatrônica, mas desistira no meio do curso. Nunca levantou um olhar para seus colegas. Sempre sentava nas últimas carteiras, com receio de ser notada. Coisa de adolescente, mas que acabou perdurando até os atuais dias de seus vinte e três anos. Ele poderia ser um príncipe; pensou ela. Como pode ser um demônio. Apenas mais um candidato a quebrar seu tão puro e inocente coração, que sempre que se entregou, apenas sofreu da maneira mais cruel e vil possível para aqueles que nós denominamos humanos, embora de humanos não tenham nada. Brutos, indelicados, criaturas estranhas. E ela se incluía nisso. Ela se achava a pior deles. Dessa raça.

Como um vulcão, sua mente entrava em erupção com tudo aquilo. Não aguentava mais sofrer, mais rir, mais falar, mais se expor, mais reerguer-se, mais beijar, mais amar, mais entregar-se, mais chorar, mais abraçar, mais viver, mais aturar. Como um vulcão, suas lágrimas eram as cinzas. Aquelas que se acumulavam e apenas se soltavam após o ápice. E que demoravam a cessar, como uma represa que arrebentava, sem piedade do que fosse levado na enxurrada.

- Volcano... – ela sussurrou, apenas para si.

- O que disse? Significa vulcão?

- Ah... Não... Por favor, vá embora. – Recobrou a ciência de que se encontrava em mais de um lugar, além de sua obscura mente.

O rapaz permaneceu em dúvida por alguns segundos, mas tamanha certeza de Amie foi como uma flecha certeira. Não havia dúvidas, ele havia redondamente se enganado, era a única explicação. Ela respondera quando ele chamou por seu nome, mas devia ser apenas uma grande coincidência. Decidiu ignorar o quesito da tatuagem. Sentiu-se um bobo, por ser despejado com tanta segurança da moça. Desculpou-se humildemente e retirou-se, corado de vergonha.

O som estridente do sino que tocava quando se fechava a porta do estabelecimento estalou sobre seus ouvidos. Amie não ergueu os olhos até ter certeza de que ninguém mais a conferia, que ninguém mais olhava e importava-se com ela.

O que eu sou para você, não é real

O que eu sou para você, você não precisa

O que eu sou para você, não é o que você significa para mim

Você me dá milhas e milhas de montanhas

E eu pedirei...

Tomou mais um gole de seu café, o único que parecia continuar o mesmo, não importa que tempo fosse. Exceto pelo calor, acrescentou mentalmente.

Como seu café percolato, ela não suportaria trocar de sabor. Muito tempo para habituar-se à nova fragrância, e em pouco tempo se esqueceria da maravilha que era o percolato.

Ela não estava disposta a mudar sua postura perante o mundo. Por comodidade, talvez. Mas a maioria suporia que era por vontade própria.

Pegou um guardanapo para limpar as bordas de sua boca, com vestígios da revigorante bebida. Após passar delicadamente por sua boca, encarou-o. Muitos observariam essa estranha cena e veriam uma louca encarando um guardanapo. Porém, não era isso que precisamente acontecia. Ela enxergava o guardanapo. Ela enxergava marcas de seu batom de cor berrante. Ela enxergava vestígios de café. Ela enxergava algo proveitoso naquilo. Ela se enxergava. Ela se via o resto; o usado; o inutilizado. Os outros enxergariam um guardanapo. Apenas lixo. E, pela visão dos outros, se enxergava lixo.

- Volcano. – começou a repetir, como um mantra. – Volcano. É isso.

As pessoas começavam a encarar. Esquizofrênica?, deduziam.

Oh, não. Longe disso. Não a julguem mal. Ela é normal. Apenas conseguiu enxergar além da tão supérflua tela que existe de limitação daquela raça, os humanos. Atravessar essa barreira de ignorância é algo memorável.

Merecia um palco, uma apresentação. Digno de espectadores. Aplausos. Vamos, aplausos. Mas as cortinas se fechavam antes. E nada mais.

O que eu te dou

É somente o que estou passando

Isto não é nada novo

Não, só mais uma fase para descobrir

O que eu realmente preciso é o que me faz sangrar

De repente, aquele aroma que tanto ela adorava, de hortelã misturado com o aroma dos cafés, irritava seu nariz. Tentou ajeitar-se em seu banco, que agora lhe parecia apertado.

Antes ele era perfeito.

No meio da vã tentativa, desapoiou-se e caiu no chão com um baque surdo. As pessoas que estavam cerca da garota levantaram-se rapidamente para acudi-la. Tentavam levantá-la, mas ela insistia em ficar no chão. Forçava seu corpo para permanecer na mesma posição. Semelhante a uma posição fetal. Como se fizesse questão de ficar na sarjeta, como uma menina mimada que gosta de se mostrar fraca para receber atenção e bajulação.

Erupção.

E o mantra. Como se repetir aquilo a salvasse. De quê? Nem ela sabia. Mas iria.

E como uma nova doença, Deus, ela é ainda muito jovem para lidar

Vulcões te derreterão

Ela é ainda tão jovem

Ela repetia aquilo como que rezasse para que os príncipes se transformassem em demônios. Ou o contrário. Tanto faz.

Como se desejasse arduamente que todas as coisas importantes e palpáveis para ela se perpetuassem; imutáveis.

Tateava o chão com suas mãos trêmulas, procurando algum ponto de apoio. Algum ponto de partida. Mas a mão que ela precisava não estava lá. Nunca esteve.

Imagino que ela repetia a palavra-chave como uma esperança de que houvesse alguém esperando-a.

As cinzas começaram a surgir.

- Volcano.

Eu beijei a sua boca

Você não precisa de mim...

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