Void - A Corte Da Carnificina
2 "não é sonho"
Notas iniciais

Acordo um tempo depois na enfermaria, minha cabeça doía e rodava, sinto uma dor aguda na parte esquerda do rosto, olho pro lado e vejo o garoto novo me observando atentamente, eu o encaro, olhando dentro de seus lindos olhos vermelhos, eles eram fora do comum e incríveis, nunca tinha visto nada igual, ergo minha mão num movimento involuntário para acariciar seu rosto, mas ele não se move, permitindo a carícia, vejo que ele estava gostando, pois sua ele fecha os olhos expressão se suaviza, permanecemos por um tempo assim, até que me dou conta de minha ação e recolho minha mão depressa envergonhado, ele abre os olhos e olha pra mim, um pouco triste:
—Porque parou?
ele não espera resposta e levanta parecendo um pouco chateado, dá as costas e sai, momentos depois ele volta acompanhado da enfermeira que começa a me examinar, ela me libera fazendo várias recomendações pois o trauma havia sido forte, sento na cama, tento me levantar mas minha cabeça começa a vibrar e a girar, minhas pernas cedem, mas o garoto me ampara e me ajuda a voltar para a cama da enfermaria, eu balbucio um obrigado, nossos olhares se cruzam, nos encaramos por alguns segundos antes de eu desviar o olhar, eu não podia, por mais que ele fosse bonito e gentil eu tinha de respeitar meu relacionamento e ser fiel ao Sam, mas ao menos podíamos ser amigos, tento iniciar um diálogo:
—Muito obrigado por me ajudar...
eu percebo que não sei o nome dele, mas quando estou quase perguntando ele completa, depois de se sentar na poltrona ao lado da cama
—Edmund, meu nome é Edmund.
responde ele indiferente desviando o olhar
—O meu é Jack, desculpa estar te dando trabalho
—Não é trabalho algum, apenas estou ajudando quem precisa de ajuda
ele responde com indiferença e sem me encarar
—mesmo assim obrigado—continuo insistindo em continuar aquele diálogo sem futuro mas depois disso desisto, ficamos em silêncio por um tempo e ele se levanta, um sinal bate e eu pergunto de qual horário era o horário daquele sinal, quando sou respondido que aquele era o do retorno do almoço levanto desesperado e calço meus tênis e corro, não me importando com a tontura, pelo corredor lotado de pessoas que voltavam à suas respectivas salas de aula, entro na sala e neste instante o burburinho aumenta, sinto olhares de esguelha pra mim, ignoro eles e sento em uma das duas cadeiras disponíveis que estavam em sequência, Edmund chega em seguida, ele senta bem atrás de mim, na mesa vazia, o professor de filosofia entra em seguida e começa a dar a aula normalmente, fazendo algumas piadinhas sobre meu hematoma, ele não deve ter sido informado do que aconteceu, ninguém na verdade parecia ter sido informado, eu agradeceria a ele, mas parecia que ele não queria conversa comigo, meu pensamento vai até Sam, eu estava bem preocupado com ele, as aulas passam rápido, era apenas o dia de introdução aos novatos pelos professores, o sinal final bate e eu trato de sair dali o mais rápido possível, chego no pátio procurando Sam, estava com saudade, e irritado também, pois fazia uma semana que ele não falava comigo ”cadê você Sam, já faz uma merda de semana, uma semana inteirinha, dá pra acreditar?” penso retoricamente comigo mesmo, encontro ele próximo ao portão com os amigos e corro até ele o abraçando assim que me aproximo dele, os amigos dele riem de meu grude nele, ele finge me ignorar e eles riem mais ainda, o que me irrita:
—Calem a boca hienas—reclamo irritado, viro meu rosto para ele e o solto, cruzo os braços encarando-o— hey, não me ignore, você passou uma maldita semana sem falar comigo e sem dar sinal de vida, eu estava preocupado com você, e você ainda me ignora quando eu finalmente te acho?
Ele se vira para mim, irritado
—eu estou conversando, não está vendo? Você está me atrapalhando
Com aquela ele conseguiu me magoar, eu saio, um pouco cabisbaixo, me encosto no muro pra esperar o ônibus algumas lágrimas começavam rolar pelo meu rosto, Edmund chega e se encosta próximo a mim, mas não olha pra mim nem sequer parece me notar, enxugo as lágrimas, entro no ônibus quando este chega, vou pro meu lugar no fina dele, maria não estava ali, ela devia estar em uma das atividades extraescolares, desço no mesmo lugar onde eu tinha entrado no ônibus aquela manhã, Edmund também desce e atravessa o parque, enquanto eu sigo pra minha casa, abro a porta silenciosamente, não queria que meu pai me visse naquele estado e começasse a fazer perguntas, só queria ir para o meu quarto e deixar tudo sair, mas ao chegar na sala me deparo com uma cena um pouco, inusitada e constrangedora, meu pai no sofá apenas com um short com um rosto extremamente vermelho e fragilizado, e Phil, de terno e gravata, já vestido pro trabalho, em cima dele com um sorriso malicioso, tento passar despercebido, Phil me percebe e olha pra mim, um tanto desapontado, mas mesmo assim sorri e me cumprimenta, sai de cima de meu pai, que se levanta e me olha um pouco temeroso, ele não sabia que eu também era gay, só Philip sabia, mas mesmo assim ele mantinha segredo, porque eu tinha pedido, não queria que meu pai soubesse ainda, olho pra eles de um modo que não tivesse que virar muito meu rosto pra eles não verem o hematoma na parte esquerda de meu rosto, digo que não estava muito afim de conversa no momento e subo, me tranco no quarto e choro por um tempo, não sei quanto, adormeço chorando, não sei quanto tempo depois acordo, eu estava na arena, não levanto, não queria levantar, não queria viver aquilo de novo, percebo que tem uma cama ao meu lado, olho pra ela e lá estava Edmund, me pergunto mentalmente, ele se levanta, tira um anel do dedo, põe na palma de sua mão e o amassa, uma gosma preta sai da mão dele e começa a cobrir seu corpo e tomar forma, e de repente ele está vestido com um sobretudo que ia até seus pés, mas sem mangas, seus braços estava coberto de bandagens, seu cabelo estava loiro e seus olhos cinzentos, ele agacha, põe a mão no chão e dele tira algo prateado, formando uma bola prateada que pairava a sua frente, ele toca a bola e ela vira uma foice enorme, aquela coisa era desproporcional e parecia ser pesada, eu observei aquilo tudo boquiaberto, me levanto para ir até ele, mas percebo que não deveria ter feito isso, pois as duas camas desaparecem e a torcida que estava vibrando e gritando, grita ainda mais, percebo uma anormalidade na arena, uma espécie de camarote de onde um homem nos observava, ele estende os braços e a multidão se acalma aos poucos, e então ele começa uma espécie de apresentação com uma voz grave e penetrante que ecoava no silencioso estádio:
—Povo de Void, hoje tem início o 3.000º torneio das almas—as arquibancadas explodem em palmas, vivas e assobios, ele estende os braços e a multidão se cala novamente—hoje, temos aqui, os primeiros competidores do dia, um mévet cujo nome é desconhecido naturalmente, e um humano de nome Jack, eles lutarão por suas vidas aqui, na arena das lâminas negras, então, sem mais delongas; que comece o torneio!!! Lutadores, às armas!
Assim que ele termina de falar aparece o arsenal, como sempre, pego uma espada de aparência fina, mas afiada, um florete, pego mais algumas facas antes de a mesa desaparecer e me viro, indo pra perto do garoto que agora tremia de raiva:
—Oi, o que você ta fazendo em meu sonho?
pergunto enquanto brincava com a espada, ele parece ficar com mais raiva ainda
—Não é sonho.
fico um pouco confuso, vou tentar esclarecer isso, mas quando abro a boca um alçapão se abre bem na nossa frente, sinto-me puxado pra trás, caio de bunda no chão, me levanto ao ver que vários guerreiros saiam do alçapão, a luta começa e de primeira eu levo uma bordoada de um homem gigante, mas rápido, que tinha uma espada curta na cintura mas não usava , ele estava com as mãos enfaixadas e braçadeiras de metal, parecia que ele ia lutar comigo apenas com as mãos, ele tenta socar meu rosto, mas eu dou um passo pro lado, ele passa direto e acaba socando o chão, ele emenda um chute e eu pulo, dou uma estocada nas suas costas que estavam abertas, o florete penetra profundamente ele urra de dor mas não se abala e continua a me atacar, enquanto eu lutava com o gigante Edmund lutava com os outros, ele era veloz e preciso em cada golpe, que de uma vez levavam consigo 1 ou 2, ele dava piruetas e saltos a todo instante, a foice girava com ele trespassando os inimigos como uma faca corta manteiga ou empalando-os, finalmente consigo dar um jeito no lutador e ele cai no chão, deixando um pequeno frasco com um líquido verde no chão, o vaso tinha uma etiqueta na qual se lia “apenas passe na lamina e deixe secar, considere isso um presente” olho para o camarote e vejo, um homem magro com uma roupa cinzenta, apenas ele prestava atenção em mim, o que era estranho, pois todos os outros olhavam deslumbrados para Edmund, o homem acena com a cabeça pra mim, de repente ouço um grito que ficava cada vez mais alto, olho na direção e vejo que era um homem que corria na minha direção com uma enorme espada em minha direção, ele golpeia na direção de minha cintura, eu me agacho e enfio o florete na barriga dele fazendo-o sair no seu pescoço, faço o que dizia no bilhete, ao passar o liquido na lamina ele chia e fumaça, e aos poucos vai secando, quando isso acontece começo a correr pra cima dos guerreiros restantes, desvio do golpe do primeiro e o corto no braço, o homem cai de joelhos, sua pele secava e saia uma fumaça verde do ferimento, parecia ser algum tipo de veneno estranho, continuo correndo e atacando todos pelo caminho, em pouco tempo a arena estava lotada de corpos, e o fluxo de inimigos que saiam do alçapão começa a diminuir, quando o ultimo sai eu perfuro seu crânio com a lamina num movimento rápido, e ao mesmo tempo Edmund corta seu corpo ao meio com a foice, as duas metades demoram um pouco a se separarem, neste momento, o homem que antes havia dado início ao torneio se levanta e acalma a multidão que agora estava enlouquecida e gritava nossos nomes e começa a discursar agradecendo a presença de todos, então edmund se vira para mim, abre a boca para falar mas eu o atropelo:
—Cara como assim? Seu cabelo e seus olhos mudaram de cor! Como isso é possível? Antes disso me explica agora o que você quis dizer com “não é um sonho” agora!
Edmund de início parece surpreso, mas logo retoma sua postura indiferente de sempre
—Essa é minha verdadeira aparência, aquilo era apenas uma forma para me misturar entre os humanos e esconder minha energia, e é como eu disse, isso não é um sonho, é... como posso dizer isso de um jeito que acredite em mim? Vou ser direto. Estamos num mundo chamado Void, que fica numa dimensão adjacente a dimensão humana, e neste exato momento estamos participando de um torneio organizado por pessoas que são condenados, caçados pelo conselho supremo dos mévets, eu sou um mevet, e agora seu corpo está em animação suspensa, seu coração não bate, seu corpo não funciona, mas você não está morto, o que está aqui é apenas a sua alma, que já está muito acabada por sinal, e você tem que sair daqui o mais rápido possível, pois se sua alma morrer você não vai pra lugar nenhum, você apenas deixará de existir, agora você precisa dar o fora daqui o mais rápido possível, me entendeu?
era muita coisa pra processar, eu não estava entendendo mais nada, abro a boca para falar algo mas a fecho novamente, tentando digerir mentalmente tudo que estava acontecendo, mas que merda estava acontecendo ali? Eu resolvo deixar isso para outra hora, ele havia dito que eu poderia desaparecer, morrer definitivamente, eu tinha de sair dali o mais rápido possível como ele havia dito:
—Ta, supondo que isso tudo seja verdade, como é que eu saio daqui?
edmund segura a foice mais forte e olha pra ela, depois olha pra mim, a ergue como se fosse me cortar e eu me desespero
—Espera, calma aí cara! Que merda você vai fazer? Me matar? Mesmo depois de ter dito que eu posso morrer para sempre? Vai à merda, mas que porra, quero sair daqui vivo
edmund avança decidido e fala
—Se acalme, lâminas mévet não ferem humanos, você não corre perigo, eu só vou te enviar de volta para a terra
—E você? O que vai acontecer com você, vai conseguir voltar?
—Sim, não se preocupe, apenas fique quieto e não se mexa ok?
—É bom você voltar mesmo, tenho muitas perguntas, e quero respostas, e aposto que você pode me dar essas respostas, então espero que esteja falando a verdade. Vou confiar em você...
fecho os olhos e junto os braços ao corpo, ouço um grito de uma voz grossa, uma explosão, o som de uma lâmina cortando o ar, e depois apenas silêncio...
Acordo completamente suado e desesperado, tudo girava, sento na cama e uma gota de sangue cai, levo as mãos ao pescoço, e estas voltam cheias de sangue, corro para o banheiro e olho no espelho, havia sangue nele, como se alguém tivesse cortado minha garganta, vasculho meu pescoço em busca de ferimentos, mas não acho nada, apenas uma fina linha branca que circundava todo meu pescoço, e que não estava lá antes, olho através do espelho para o relógio de parede, eram 03:46 A.M. eu só deveria acordar por volta das 5 horas, tiro minhas roupas e tomo um banho enquanto penso sobre aquilo tudo, processando cada pergunta em minha mente, cada dúvida, e repassando cada coisa que havia acontecido em todos os “sonhos” que por um motivo que eu desconhecia conseguia lembrar de cada detalhe. Saio do banheiro e vou para o meu quarto, me visto e começo a percorrer o quarto de um lado a outro impacientemente, minha cabeça estava a mil, por fim acabo me convencendo a tentar ficar calmo, pois não iria adiantar de nada ficar daquele jeito, desço, pego um pacote de pipoca de micro-ondas e coloco no aparelho, ligo a TV enquanto a pipoca estourava, coloco os episódios de minha série favorita que estavam gravados para passar, o micro-ondas apita, pego a pipoca, sento e dou play na série, Teen Wolf era para mim uma das melhores séries que já foram feitas, e rivalizava com hannibal e supernatural, só não chegava perto de game of thrones, além de os atores serem uma delícia, e as atrizes divas, eu já tinha assistido dois episódios e estava terminando o terceiro quando Phil chegou, ele estava animadíssimo, sentou no sofá e começamos a assistir juntos, fazendo comentários, conversando e rindo, eu não entendia como ele podia acordar cedo, passar o dia e maior parte da noite acordado e ainda ter aquele gás todo, já estava amanhecendo quando acabamos de assistir a terceira temporada da série, ele subiu para o quarto e eu fiquei ali, deitado no sofá, pensando em tudo que havia acontecido, e assim eu adormeci.
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