Vodka
1 Copo meio vazio
Notas iniciais
Copo meio vazio
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Encheu outro copo. Uma dose grande e bem caprichada, sem gelo, pura e amarga. Virou de uma vez, em um único gole o copo estava vazio novamente. Sentiu o efeito do álcool em seu corpo, um arrepio em sua espinha, um pequeno delírio de prazer. Temporário.
Estava sozinho em sua casa, enquanto ainda podia chamar de sua, se é que um dia realmente chegou a ser. Esparramado no sofá, à sua frente uma pequena mesa de centro com marcas redondas e úmidas. Se esquecerá dos suportes para não manchar a mobília. Ah, que se foda! Ao lado do copo, uma garrafa de vodka incrivelmente barata pela metade, afinal, era tudo que podia comprar, e era tudo que comprava. Não se importava, vodka ou não, desde fosse alcoólico e lhe pudesse gerar algum alívio. A merda de um alívio.
Em meio as manchas e a garrafa, pilhas de papel estavam jogadas de qualquer maneira sobre a mesa e o chão. Com qualquer coisa escrita, que já não lhe era possível distinguir por causa do embaraço da visão. Porem, não faria diferença, não queria ler, nunca quis, sabia exatamente do que se tratava, cobranças, de todos os tipos e nenhuma que ele fosse capaz de liquidar. Fudido, apenas fudido.
“Talvez eu devesse me matar”, pensou de súbito, mas logo em seguida riu. Não apenas riu, gargalhou, um guinchado alto que eclodiu pelos cômodos vazios formando ecos, como se toda a casa risse com ele. Risse dele. “Como se eu fosse tolo ou corajoso o suficiente para isso”. Sempre achara que os corajosos eram tolos, mas nunca se declarou covarde. Mas era. Por que alguém se arriscaria? Quanta bobagem. A única vez em que fora corajoso, ou incrivelmente tolo, perdera tudo. “E veja só onde essa merda me trouxe...”
Torceu-se no sofá velho e duro. Estava apenas de calças, o tronco pálido com as costelas a saltar como se quisessem rasgar a pele, os braços finos pendendo ao lado com as mãos ossudas a tocar o chão frio. Olhou para seus pés “Até os sapatos eu perdi”. Teve vontade de se bater, lançar a cabeça contra a parede até que ela rachasse ou rachasse sua dura cabeça para os miolos escorrerem por ela. Mas não o fez.
Sentou-se, encheu as mãos com algumas das folhas de papel amassadas que estavam no chão, sem conseguir ler qualquer coisa escrita ali. Em meio a confusão e o dançar das letras, um nome surgiu: “Clarice... Eu também a perdi” murmurou, largando os papéis de novo no chão.
Fitou sua única companhia em semanas, uma vagabunda qualquer pela metade, como todos que um dia estiveram com ele. Pegou o copo e voltou a enchê-lo, mas antes que terminasse parou, algumas gotas do líquido transparente caíram em seus pés descalços. Queria poder encher aquele copo com suas lembranças, suas tristezas e mágoas, transborda-lo com seus medos e frustrações. Então o copo pareceu pequeno demais para acomodar todas elas, nem a garrafa parecia grande o suficiente para tal coisa. No entanto, uma garrafa seria suficientemente grande para deixar sua cabeça limpa e seu corpo leve de todos os problemas, uma noite que fosse, mesmo que no dia seguinte elas voltassem e lhe apedrejassem a cabeça, a cada pancada lembrando-lhe o quão estúpido era. Mas por alguns instantes se esqueceria de tudo, por alguns instantes estaria livre de todos.
Entornou.
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