Você sabe quem eu sou?
5 Capítulo 5. Temporada de Caça ao Duende
Capítulo 5. Temporada de Caça ao Duende
“Se eu estou com você sob sua pele
Apenas respirar sozinho me faz feliz”1
Eu não estava louca!
Deus, como era bom saber disso. Entender isso, aceitar isso!
Tudo que podia pensar desde o momento em que encontrei o meu Ahjussi era que eu não era uma mentirosa patológica. Nem tinha dupla personalidade. Ou qualquer transtorno citado em meu relatório médico.
Eu não estava louca!
Havia todos aqueles sentimentos em ebulição dentro de mim. Uma revolta fervente pela incompreensão de todos a minha volta. Pelos remédios que tomei até perder a noção e o controle de mim mesma.
Se não estivesse tão feliz com o reencontro com o duende, eu certamente me deixaria dominar pela amargura.
Havia a alegria agridoce de me permitir mergulhar em nosso passado. Nos bons e nos maus momentos. Na alegria dos reencontros e na dor de cada separação.
A primeira vez que eu me apaixonei pelo Duende foi angustiante. Eu não entendia meus sentimentos. Apenas aceitava o meu destino. Eu era o destino dele e ele o meu.
Vivi o dilema de ser a única coisa entre ele e o fim de sua vida imortal.
Sofremos, nos machucamos e superamos. Eu não tinha dúvidas sobre o quanto ele me amava. Ou o quanto eu o amava.
A Eun Tak não era uma memória de tempos distantes. Ela era eu. Ouso dizer que sei muito mais e vivi muito mais como ela que como Yeon Woo. A Yeon Woo nunca teve nenhuma chance de ser alguém, se construir uma identidade, estava dando duro para sobreviver sobriamente num mundo insano aos seus olhos.
A vida como Yeon Woo para mim era um mero cumprimento de agenda. Era uma preparação para o dia em que eu poderia me tornar a senhora Kim Shin de fato. Eu mal podia esperar por esse dia.
Eu nasci com um único propósito: amar Kim Shin.
Era por isso que eu tinha pressa. Dessa vez eu não queria perder nada.
Eu entendia os sentimentos do Duende, para alguém nasceu há mais de mil anos, os nossos tempos deveriam parecer uma loucura.
Por carregar todas as lembranças da Eun Tak e pensar como uma garota do século XXI em muitos aspectos, mesmo eu ficava chocada diante da liberdade que as meninas de nossa idade tinham. Tive dificuldade de me adaptar e já era considerada estranha mesmo entre os colegas que não sabia do meu histórico médico.
Eu era uma das últimas virgens da escola. Ainda não se falava abertamente sobre sexo em todos os ambientes, isso era reservado aos amigos mais próximos, mas isso não nos impedia de fazer.
Ao nascer, toda a população era esterilizada. O planejamento familiar era uma das plataformas políticas mais sérias, com a longevidade humana, o controle populacional era uma questão primordial, assim, só podíamos engravidar com a autorização do governo. E os critérios para essa permissão eram rígidos.
O controle de doenças também era melhor. Um pouco de suor num aparelhinho mágico e em segundos sabíamos tudo sobre a saúde de alguém.
Não havia mais grandes barreiras para sexo nos nossos tempos.
Ou não deveria haver.
Por que minha vida tinha que ser tão complicada?
Bem, o que fazer quando seu namorado tem mil e quarenta e nove anos?
Mas estava pronta para ultrapassar qualquer barreira imposta.
Eu era teimosa com relação aos meus sentimentos e desejos. E me sentia obrigada a ser porque a maior parte da minha vida eu tive que me privar de tudo.
Se havia uma coisa que eu aprendi ao longo de dez anos de tratamento psiquiátrico, era que as pessoas precisavam entender exatamente o que eu sentia, pensava, queria. Também precisava fazer isso sem arroubos de ansiedade, sem gritos, crises nervosas.
Deixar claro meus sentimentos era uma prioridade inadiável, pois qualquer coisa que eu guardasse dentro de mim possuía um potencial explosivo.
Talvez por saber as consequências que minhas crises causavam, eu estivesse tão tranquila. Admito que as brigas constantes com o duende e minhas crises de ciúmes poderiam atestar o contrário, mas eu estava mostrando para ele um lado meu que eu escondia de todo mundo: da garota impulsiva, destemperada, imatura. Qualquer demonstração de raiva ou irritação colocava todos a minha volta alerta, logo, por pior que fosse a situação eu era obrigada a controlar a mim mesma e agir de forma sensata.
Com o Kim Shin, eu só precisava ser eu mesma. Eu não apenas falava de meus sentimentos, eu podia demonstrá-los. Podia vive-los.
Havia lógica no desejo do duende em deixar que as coisas entre nós fossem mais devagar? Claro, eu tinha apenas dezoito anos, era uma estudante do Médio, legalmente e até moralmente era impróprio um envolvimento entre nós. Se fosse um garoto da minha idade, não haveria problema algum, mas um relacionamento entre um homem mais velho e uma jovenzinha nunca era visto com bons olhos. Iriam nos julgar se descobrissem e perseguir se soubessem... meus pais... nem queria pensar na reação de meus pais.
Mas era justo depois de tudo o que passamos que eu precisasse esperar mais?
Havia algo que justificasse os anos que fui medicada e internada por conta de distúrbios que eu agora sabia que não possuía?
Por outro lado, como eu poderia convencer as pessoas a minha volta, sem comprometer os segredos milenares do duende? E pior, minha família estaria preparada para lidar com um genro sobrenatural?
Não. Eles surtariam e me levariam para o mais longe possível. E como menor de idade, eu teria que obedecer. Ainda faltavam meses para eu ter poder sobre minhas escolhas.
Meus pais precisariam estar por fora da equação por esse tempo, para o bem de todos.
Isso em absoluto significava que eu precisava esperar.
Eu tinha pressa de viver, por que tinha perdido muito tempo. Daquela vez, eu queria aproveitar cada segundo, cada mínimo instante ao lado dele. Que fossem duzentos anos ou um dia, eu queria viver plenamente, por que do amanhã, simplesmente é impossível saber.
Com esse firme propósito, desabotoei a minha blusa.
— Pare!
A ordem do duende foi ignorada.
Percebi que ele ia desaparecer, então parei o que estava fazendo e o segurei pelos ombros, enquanto montava da melhor forma possível sobre as pernas dele, encolhidas junto ao seu corpo.
— Não ouse fugir. — Exigi sentindo minha pele queimar sob a intensa luz azul que ele produzia.
— O que você pensa que está fazendo?
— Segurando você. Sei que está tentando fugir.
— Eun Tak...
— Yeon Woo.
Diante de minha teimosia ele mudou de estratégia.
— Não está quente?
— Está queimando, mas eu não vou deixar você escapar, então terei que suportar.
A luz sumiu, a ardência também. Suspirei aliviada. Não sabia quanto tempo mais teria suportado.
— Isso não é certo! — Ele queixou-se.
Eu entendia a hesitação dele, então propôs.
— Não vamos muito longe. Eu só quero ficar um pouquinho perto de você.
— E precisa tirar a roupa para isso?
— Sua pele na minha, eu preciso sentir. Eu preciso saber que você é real e não o produto da minha imaginação.
Ele me olhou com uma expressão de derrota, então ajeitou as pernas sob os meus quadris, para eu me sentar nos dele.
— E antes eu pensava que era constrangedor quando você ficava tocando o meu rosto sem parar. — O desabafo do duende soou engraçado aos meus ouvidos.
— Bem, acostume-se com a Eun Tak versão século XXII.
— E eu vou sobreviver a essa Eun Tak?
— Você é forte e poderoso, Duende, quem sou eu para colocar sua vida imortal em perigo?
Percebi que diante da minha teimosia, ele estava contendo a muito custo o sorriso, mas então o brilho desapareceu do olhar dele. Quando falou comigo, seu tom era quase triste.
— Perto de você, eu sempre estou em perigo.
Então era isso. Conhecia bem os sentimentos dele, por isso, retruquei.
— Mas é bom!
E fui surpreendida quando ele me corrigiu.
— É mágico.
Fiquei encantada com a escolha das palavras dele, mais ainda quando ele segurou minha nuca com força e atacou minha boca com a dele numa fome tão voraz que se não estivesse presa em seus braços, teria caído.
Finalmente compreendi, não era que ele não me quisesse. O duende fazia o impossível para se controlar. O sujeito que tentava a todo custo impor limites, estava brigando consigo mesmo antes de tudo.
Eu precisei interromper o beijo para recuperar o fôlego.
— Amo você!
Sussurrei, a testa encostada na dele. Não me importei quando ele não respondeu e apenas esmagou meus lábios nos dele. Ele não precisava dizer, eu sabia. Suas mãos deslizavam por minha pele nua. Eu era puxada para junto de seu corpo, parecia que seu desejo era nos fundir e de certo modo era verdade.
Meu corpo no dele, o corpo dele no meu. Nunca havia mágica maior que isso.
Minhas mãos passeavam por cada parte dele que alcançavam. Ombro, braços, peito, cintura... quando alcancei a barra do suéter dele, tive minhas mãos afastadas.
— Deixa...
— Não.
— Mas...
— Se você tirar a minha roupa, não haverá volta. Então o suéter fica. — O Ahjussi sussurrou conta meus lábios antes de mordisca-los.
— Eu quero...
— Esse é o único limite que vou impor. Eu faço o que você quiser, menos...
Ele ficou vermelho e não conseguiu completar a frase. É claro que entendi perfeitamente qual era a limitação. Eu aceitaria. Por hora.
Nos beijamos e nos acariciamos sem parar por muito tempo. Consegui arrancar o suéter, a camisa e alcançar o peito nu do Duende, mas não passamos disso.
Os últimos raios de sol do dia se infiltravam pela quando me vi deitada sobre seu peito. A pele nua sobre a pele nua. Acolhida por seu calor. Uma manta nos cobria.
Era tão bom... tão bom que mesmo que se passassem mil anos, eu queria estar ali.
Estava sonolenta e lutando para não dormir. Fugi da excursão com a desculpa de não estar me sentindo bem, logo quando o meu grupo escolar chegasse ao hotel, eu deveria estar em meu quarto, descansando.
A última atividade do dia seria jantar num restaurante tradicional de Quebec. Eu tinha meia hora no máximo.
— Você pode parar o tempo para nós?
— O quê?
— Eu preciso voltar para o meu quarto, mas não quero. Eu não quero ir ainda.
Ele nada me disse. Beijou minha fronte e me estreitou em seus braços. Eu não era a única que não queria que o tempo passasse.
De olhos fechados, ouvido o ritmado som do coração dele, diretamente contra o meu ouvido. Essa paz perfeita foi subitamente quebrada.
— Posso saber o que está acontecendo aqui?
A pergunta me tirou do paraíso e jogou de volta na mais fria e cruel realidade. Escondi meu rosto no pescoço do Duende.
Havia coisa pior que ser pega em minha situação?
Havia, ser pega em minha situação pelo jovem herdeiro Deok Hwa.
— Saia!
A ordem dura me fez estremecer.
— Tio, o que o senhor...
— Saia! — O grito do Duende foi seguido de trovões. Uma prova que o humor do meu marido também havia mudado.
Prudentemente, o sobrinho saiu sem qualquer outro comentário.
Eu percebi que estava tremendo quando meu Ahjussi me apertou em seus braços e perguntou:
— Você está bem?
Ainda estava escolhida contra seu pescoço. E murmurei minha vergonha.
— O quê? — O duende perguntou ao não entender minhas palavras.
Constrangida, levantei a cabeça, ainda com os olhos semicerrados e queixei-me num fio de voz.
— Ele viu a gente assim!
Rindo, o Duende me abraçou forte.
— Onde está a garota do século XXII?
— Como você pode brincar numa hora dessas? Eu nunca mais vou conseguir olhar para o Deok Hwa sem ficar morta de vergonha. Ele me viu nua!
O duende continuou rindo, para meu total desgosto.
— Ele não viu você nua. No máximo ele imaginou que debaixo da manta você estaria nua, mas nunca poderá ter certeza!
Como se aquilo servisse de consolo! Eu queria que surgisse um buraco no chão onde eu pudesse me esconder.
— Precisamos pedir ao ceifeiro para que ele apague a memória do Deok Hwa. Só assim ficarei aliviada.
Um tanto triste, o duende me informou.
— O Ceifeiro já pagou sua pena, deixou o trabalho e reencarnou há muitos anos.
Aquela nova informação fez meu coração doer. E a pergunta que escapou dos meus lábios expressou a minha dor.
— Há quanto tempo você está sozinho, Ahjussi?
Quando voltei ao quarto, nem tive tempo de sofrer por saber do quão solitária foi a vida de meu duende nos últimos anos, um novo problema esperava por mim.
— Aonde você foi? — A professora me interpelou assim que entrei.
Minhas amigas estavam sentadas aparentemente sendo interrogadas. Péssimo sinal.
— Eu saí para dá uma volta. — Sem entrar em pânico, respondi tranquilamente. Se parecesse suspeita, estaria sob vigilância serrada pelo resto da viagem. Isso não era do meu interesse.
— Você disse que estava com dor de cabeça. — A professora perguntou, ainda desconfiada.
— E estava. Por isso tomei um remédio e depois de deitar uns minutos fui dá uma volta para respirar um pouco de ar fresco. Tem um cemitério lá no topo do morro. É bem tranquilo. Fiquei lá nas últimas horas.
— Porque você não levou o celular?
— Esqueci.
Cada vez mais desconfiada, ela continuou o interrogatório.
— E ele não emitiu um alerta que você havia se afastado? Estranho, o radar dizia que você estava aqui no quarto.
— Sério? Essa porcaria está com defeito de novo. Preciso falar com a mamãe. Já pedi para ela trocar, mas ela acha que é por que eu quero um novo. Quando ela ligar, a senhora reforça que meu celular está ruim.
A professora me encarava intensamente, atrás de alguma evidência de que eu estava mentindo, mas eu era uma boa mentirosa. Na minha situação, esse era um recurso indispensável.
— Se sua mãe souber que a perdemos por algumas horas, você nunca mais terá autorização de viajar conosco. Ela fez muitas recomendações.
— Desculpe, mas é que eu realmente precisava de um pouco de ar fresco.
— Você precisa avisar sobre qualquer saída fora do programado.
Reprimi o suspiro de alívio. Não escaparia daquela situação se professora desconfiasse de mim.
— Desculpe, professora. Realmente não pensei que causaria tanto transtorno.
O bom de ter fama de moça comportada é que você escapa de situações como aquela com facilidade.
— Tudo bem Yeon Woo, eu sei que você é uma boa moça, ao contrário de suas amigas. — O tom de voz alterado era um tipo de advertência para todas nós. — O jantar de vocês será servido no quarto. Por hoje, a autorização das três para andar pelo hotel está revogada.
— Mas nós...
Yuna tentou contestar a professora, mas ela a interrompeu.
— Chega por hoje!
Diante da seriedade da situação, ninguém mais abriu a boca. Seríamos seriamente vigiadas até o fim da viagem.
Inferno. Como eu veria o meu duende com a professora no meu pé?
Quando ela finalmente nos deixou, com as mãos nos quadris, virei para minhas colegas de quarto e perguntei:
— O que vocês aprontaram?
Yuna foi pega numa situação comprometedora com um jovem nativo. Eun-Ha com um ex-namorado do nosso colégio. Após advertidas, foram devidamente reconduzidas ao hotel antes do fim do passeio e por esse motivo, eu quase fui pega com um homem aparentemente vinte anos mais velho que eu.
Diante do que elas fizeram, meu crime, se descoberto, seria de longe o mais grave.
Assim como a punição.
Minhas amigas interrogaram até descobrir exatamente até que ponto eu cheguei com meu marido. Eu nem mesmo tentei fazer mistério. Tudo o que eu queria é que elas fossem dormir para eu invocar o Ahjussi para debaixo de minhas cobertas.
No café da manhã eu estava com dificuldade de esconder o sorriso em meu rosto. Minha noite foi perfeita: após muitos beijos e carícias, dormimos de conchinha. Quando acordei pela manhã, ele ainda estava me olhando. Havia uma ruga de preocupação em sua testa, é claro, mas esse era um problema que eu iria ignorar por hora.
Depois de um beijo em minha fronte, ele se foi. Ainda tive algum tempo para reviver nossos momentos antes de minhas amigas acordarem.
Quando descemos para o café, quase todos os nossos colegas já estavam lá. Os olhares nos seguiam a cada movimento e como se as aventuras de minhas amigas no dia anterior não fosse o suficiente para nos tornarmos o centro das atenções, nosso caminho foi interrompido por um jovem e conhecido herdeiro coreano.
— Bom dia senhorita, como estão? — O cumprimento elegante de Deok Hwa, não escondia que nosso encontro seria desagradável. — Precisamos conversar, quero convidá-las a minha mesa.
Olhei para a minha professora que nos observava atentamente.
— Minha professora...
— Eu tenho negócios com o pai de sua amiga. Se as três vierem, não será estranho, me acompanhem.
Seguimos Deok Hwa obedientemente. Eu por receio de provocar uma cena. Minhas amigas por pura curiosidade.
Eu sentia os olhares sobre mim, mas não era algo que eu não pudesse lidar no momento. A vida inteira sempre estive sobre opressiva observação.
Quando alguém tem a vida que eu tive, há dois caminhos prováveis: ou a pessoa se retrai e se torna cada vez mais tímida, ou a pessoa se acostuma e encara os olhares com naturalidade.
Houve um tempo em que eu evitava lugares com muita gente, ou pelo menos reuniões onde as pessoas soubessem do meu problema. Por mais que elas tentassem ser discretas, o que quase nunca era o caso, eu sempre percebia a curiosidade.
— Onde vocês pensam que vão? — O tom severo da professora nos interrompeu.
— O CEO Yu é sócio de meu pai em alguns negócios. A família dele é dona deste hotel e nos convidou para juntarmos a ele. — Yuna explicou.
Um tanto sem graça pela aspereza empregada na voz, a professora se desculpou.
— Desculpe presidente. É que como professora, preciso estar atenta as meninas.
— É claro senhora. Entendo perfeitamente. Quero apenas compartilhar uma boa refeição a filha de meu sócio e suas amigas.
— É claro.
— Gostaria de convidá-la para se juntar a nós.
— Agradeço o convite, mas agora estou organizando os últimos detalhes de nosso passeio com os outros professores. Meninas, se comportem!
Quando nos sentamos, Deok Hwa examinou cuidadosamente cada uma de nós.
— Meninas travessas. O que vocês andam aprontando em terras estrangeiras? A professora parece bastante desconfiada.
— A professora é desconfiada por natureza, não fizemos nada. — Yuna tentou fazer nossa defesa.
Havia um sorriso de descrença no rosto do herdeiro.
— É claro, estou sentado diante das moças mais inocentes da Coreia.
E olhou diretamente para mim, o que meu remeteu a nosso último encontro.
Eu lutei para não corar, mas sabia que era uma missão impossível.
— Pare de provocar minha mulher, pirralho!
O duende ocupou a cadeira entre mim e o sobrinho dele, que estava vaga, vindo Deus sabe de onde.
— Ela não é uma mulher, tio. Ela é uma menina.
— Você está falando comigo descuidadamente?
Os dois homens se encararam friamente.
— Existem situações que nem mesmo eu posso resolver. Ou me sentiria confortável em estar envolvido. Ela é menor de idade e mesmo o senhor não pode ignorar isso.
Trovões ecoaram num dia claro assustando a todos na região. Mais tarde seria relatado que nuvens surgiram repentinamente no horizonte.
— Você está falando comigo descuidadamente? — Dessa vez a pergunta foi feita numa voz que era um rosnado.
Sabendo o que acontecia quando o humor do duende era alterado, sob a mesa segurei sua mão.
— Kim Shin. — Sussurrei na esperança de acalmá-lo. Deok Hwa tinha mesmo tato.
— Não tio, quero apenas respeitosamente alertá-lo para que volte aos seus sentidos.
Com uma serenidade adquirida nos anos em precisei esconder meus sentimentos, tomei a dianteira e respondi ao preocupado sobrinho de meu marido.
— Em primeiro lugar, Deok Hwa, não estamos fazendo nada de errado. Talvez a nossa diferença de idade torne a nossa relação inapropriada, mas não exatamente criminosa. Não aja como se seu tio fosse um sedutor. Você sabe que isso não é verdade.
— O que eu sei não importa, o que as pessoas pensarão sim.
A seriedade do herdeiro suscitou uma pergunta.
— Você sabe quem eu sou, Deok Hwa?
A pergunta ficou entre nós. Faria toda diferença se ele soubesse a importância do nosso encontro.
— Sei, mas eu sou a ligação dele com a realidade.
Eu entendia esse posicionamento, por isso fiz uma nova pergunta.
— Sabia quando nos encontramos da primeira vez?
Percebi que escolhi o caminho errado quando mais uma rajada de trovões se fizeram ouvir.
— Vocês já se encontraram?
— Falamos disso outra hora, Ahjussi.
Deok Hwa baixou o olhar antes de responder a minha pergunta.
— Desconfiava que era você. Ainda não havia finalizado as investigações quando soube que você veio para Quebec.
— Você sabia que ela tinha voltado? — Mais trovões assustaram a todos no restaurante.
— Ainda estava verificando. Essa moça tem um histórico psiquiátrico preocupante.
— Eu deveria ter sido informado.
— Seria, assim que eu pudesse confirmar que ela diz ser quem é.
— Eu seria essa confirmação.
— Ninguém aguentaria o seu mau-humor se fosse engano.
Mais trovões e então uma chuva violenta e repentina batendo contra as vidraças. O mundo desabava lá fora.
— Você sabe o quanto eu sofri todos esses anos? — Havia raiva, mas também havia tristeza na voz do duende.
Foi a primeira vez que as limitações de nossa situação de fato pesaram. O olhar dos curiosos sobre nosso grupo me impedia de consolá-lo apropriadamente, então apertei sua mão sob a mesa.
— Ahjussi, você sabe que seu sobrinho tem razão. Ele precisa ser cuidadoso com quem se aproxima de você.
— Eu não sou uma criança que precisa ser cuidada.
Eu sorri diante do tom de birra lembrando de momentos na minha vida anterior que atestaria o contrário.
— Ainda assim, fico feliz que você tenha alguém que se preocupe tanto com você. Deixa meu coração mais calmo.
Percebi que meu tom conciliador surtiu efeito. A chuva progressivamente diminuía e o olhar dele ficou preso no meu.
— Vocês são muito fofos juntos, mas se ficarem se encarando assim, vai chamar atenção indesejada.
Sabiamente, Eun-Ha quebrou nosso clima romântico.
Eu fui a primeira a quebrar o contato visual e olhar para o prato vazio sobre a mesa. Precisava me servir, mas ainda não estava pronta para me afastar do meu Duende.
Para tirar minha mão da dele.
— Eu estou feliz pelo reencontro de vocês, mas preocupado com o que pode acontecer. — O tom do sobrinho agora era conciliador. — Acredito que a família dela será um problema.
— Seremos discretos. — Prometi, afinal era eu que não estava sabendo aceitar as novas regras de nossa relação.
— Como foram ontem?
Novos trovões trouxeram silêncio a nossa mesa.
A chuva tão repentinamente como começou, foi embora, garantindo que o passeio do nosso grupo escolar acontecesse. Não demorou muito para que o sol começasse a brilhar.
Naquele dia, prometi a mim mesma aproveitar a viagem junto com meus colegas. Aquele era nosso último ano juntos e dessa vez era eu querida e acolhida na escola. Além disso, a professora me encarava com desconfiança. Obviamente desconfiava que havia algo mais por trás do encontro casual com os conhecidos. Mal o terminamos nossa refeição e ela estava ao nosso lado para nos conduzir até o ônibus da excursão.
Depois de dois dias como Eun Tak, era a vez da Yeon Woo.
E assim eu coloquei minha máscara de boa aluna, boa colega. Ri, brinquei, conversei, paquerei garotos... fiz tudo o que se espera de uma garota da minha idade. Era assim que eu vivia, fazendo exatamente o que se esperava de mim.
No horário do almoço, eu estava o maxilar dolorido de tanto ri forçadamente.
Isso era o que eu mais odiava em minha nova vida: está sempre usando alguma máscara.
Dali a dois dias eu estaria de volta para casa. Ao controle parental rígido e obsessivo de minha mãe. Cada suspiro meu, cada batida do coração seria analisada e catalogada.
A tarde fomos num passeio de barco pela Baia de Hudson. Nos afastamos da costa pois a professora queria nos mostrar uma vista marítima panorâmica dos lugares que visitamos nos dias anteriores.
Enquanto eu tentava fotografar a vista da cidade, meu celular caiu em águas profundas.
Não fiz de proposito, mas foi um momento estranho. Enquanto meus colegas lamentavam a perda, eu observava o aparelho afundar, sendo inundada pela sensação de liberdade. Brotava em mim o sentimento de estar livre de algemas depois de anos.
O resto do dia eu mergulhei em mim mesma. Pensado em todas as coisas que eu sabia, mas não deveria saber.
Uma mulher adulta, presa na vida de uma adolescente. Uma mulher que tinha um marido relutante.
Se eu fosse uma garota normal, namorando, teria uma vida sexual ativa. Talvez já estivesse em meu segundo parceiro. O tempo da Yeon Woo era outro, mas em muitos aspectos eu ainda vivia como a Eun Tak. Para meus pais eu seria eternamente a menina que precisava de cuidados especiais. Queriam que eu namorasse, mas sei como eles reagiriam se desconfiassem que eu queria aprofundar a relação: você ainda não está pronta.
E se eu dissesse que queria fazer isso com um homem vinte anos mais velho... seria internada outra vez.
Eu teria que esperar a maioridade para ser livre.
Não seria mais uma vítima em minha própria história. Se eu queria ser tratada com a adulta que seria em poucos meses, precisaria fazer escolhas de adulta.
Chegamos ao hotel exaustas. Yuna e Eun-Ha tentaram puxar assuntos, mas logo bocejavam, decidimos apenas descansar. Enquanto as meninas usavam o banheiro, liguei para minha mãe explicando o acidente com o celular. Ela não ficou feliz.
— Que irresponsabilidade, Yeon Woo. Como eu posso saber onde você está sem o celular?
— Pode ligar para a professora, ou uma das minhas amigas.
— Mas eu não vou poder monitorar aonde você vai!
— Por que a senhora precisa saber aonde estou o tempo inteiro?
— Você sabe porquê.
— Não. Não sei.
— Como não sabe? Você é uma pessoa doente.
Caiu entre nós um silêncio pesado. Minha mãe de certa forma me provocava. Queria uma reação violenta de minha parte para justificar suas ações.
Quando finalmente falei, era a serenidade em pessoa.
— É isso que me deixa doente. Mãe, a senhora me deixa doente. Talvez já não seja eu quem precise de tratamento.
Encerrei a ligação e desliguei o aparelho. Se fosse meu celular, mesmo que tirasse a bateria, havia uma reserva de energia que possibilitaria minha mãe me ligar e até me seguir se eu deixasse o aparelho para trás. O fundo do mar ainda era o melhor método para destruir os quase indestrutíveis aparelhos.
Ela tentou falar comigo por um bom tempo. Pelo celular de minhas amigas, pelo de minha professora. Se fosse o meu, ela poderia projetar a própria imagem a minha frente e me perturbar até que eu respondesse, mas seu controle sob o celular dos outros era uma questão de aceitação.
E pela primeira vez eu decidi não aceitar.
Passei muito tempo deitada no escuro, pensando. Quando finalmente chamei o duende, ele expressou sua queixa.
— Pensei que você me deixaria dormir hoje.
Dessa vez ele não apareceu em minha cama, mas encostado na parede junto a janela do quarto, não sorria e tinha uma lata de cerveja nas mãos. Ele não estava exatamente.
Eu ainda segurava o isqueiro apagado.
— Depois de amanhã, eu voltarei para casa. Não terei a liberdade que tenho aqui, meus pais são bem rígidos. Na verdade, minha mãe é muito rígida.
— Eu soube. Deok Hwa me colocou a par de sua situação.
Bingo. Esse era o motivo do mau-humor do meu Ahjussi.
— Se o ceifeiro estivesse ainda conosco, eu pediria ele para fazer com que me esquecesse por pelo menos um dia. Queria voltar a ser a Eun Tak por um dia, sem a pressão, sem saber que o exército seria mandado atrás de mim se desaparecesse algumas horas.
— Não precisamos do ceifeiro para isso.
— O que você quer dizer com isso?
— Lembra de quando resgatamos você das mãos do agiota.
— Sei, tivemos que andar quilômetros por aquela estrada que não passava carro.
— Não passava carro ali, porque apaguei a existência dela por dois dias.
— Como assim?
— Fiz a estrada sumiu dos mapas, da memória de quem a conhecia. Nunca tentei com uma pessoa, mas se você quiser um dia de paz, posso fazer.
— Incrível.
— Você tem um namorado incrível.
Solenemente, comecei a barganha entre nós.
— E nesse tempo você não negará qualquer pedido meu.
Uma ruga de preocupação surgiu na testa do duende. Pensei que havia ido longe demais, mas então, ele entornou o resto da cerveja. Colocando a lata vazia sobre o batente da janela, ele se aproximou, enquanto recitava o feitiço,
— Amanhã ninguém vai pensar em você, ou perguntar sobre esse dia depois que ele chegar ao fim, será como se nunca houvesse existido. Você sumirá das fotografias e qualquer registro onde é citada do nascer do sol de amanhã, até o nascer do sol do dia seguinte. Você será esquecida.
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