Você não me engana

1 Os prazeres de uma pizza


Porque mesmo diante de todos os eventos sobrenaturais, dentes, garras ao excesso, ameaças de mortes constantes e um perigo eminente, Stiles Stilinski não conseguia abandonar sua personalidade única e tão questionável que lhe agregava, de certo modo, nas diversas odisseias que vivera e estava para viver. Não que ele houvesse piorado, de modo algum! Ele apenas estava extravasando de uma maneira pouco ortodoxa naquele momento, no qual ele girava fortemente a cadeira de rodas de seu quarto e falava consigo mesmo.

Ficara estranhamente pensativo naquela tarde. Tudo começou quando Scott o avisou que não poderia ir á sua casa naquela tarde de sábado, tal coisa deixou Stiles um tanto quanto decepcionado, pois ultimamente tudo que Scott fazia era cancelar suas atividades extracurriculares e “extra-vida-maluca-cheia-de-lobisomens-e-pack”, e aquilo realmente o deixava chateado. Deitado em sua cama começou a recapitular tudo que havia acontecido de anormal em sua vida e após relembrar todos os acontecidos chegou á conclusão de que: suas chances de chegar aos vinte anos e conseguir fazer algo realmente relevante eram mínimas.

Certo, com tal pensamento ele parecia estar sendo egoísta, e essa não era bem a realidade, a verdade era que ele gostava muito de tudo que passava em sua vida, apreciava o fato de ter um amigo lobisomem e participar instintivamente da Pack, onde se sentia importante; apreciava o fato de pensar que quando chegasse – se chegasse – a sua idade avançada teria as estórias mais diversas e surreais para contar a seus netos; e principalmente, apreciava o fato de saber que não era um adolescente de dezessete anos comum. Na verdade, sim, ele era comum – ou quase, porque não são todos os adolescentes de dezesseis anos que tem o corpo possuído por um espirito de sabe-se lá quantos anos e sobreviver para contar estória, mas enfim – mas, sua vida não era comum; diga-me, quem você conhece que tem um melhor amigo lobisomem? Resposta difícil, não?

Entretanto, tudo aquilo estava torrando com sua lucidez e seu autocontrole, que já era escasso. Às vezes ele podia jurar que estava ficando realmente louco ou psicótico diante de tudo, que as coisas não passavam de um sonho muito louco e que iria acordar em breve e retornar á rotina. Mas ele sabia que isso era impossível, até porque se fosse um sonho, as coisas deveriam estar mais... favoráveis para seu lado. De qualquer forma, ele ainda não conseguia pensar em tudo aquilo, sem ter um mini ataque de pânico. Então, simplesmente surtou.

Mas se você está pensando que pelo fato de Stiles ser um tanto quanto hiperativo em seu estado normal, ele fica o oposto de tal coisa quando acha que está com algum tipo de psicose cerebral está redondamente enganado. Estava tagarelando sozinho á mais de uma hora, em sua mão havia um copo de café que estava lutando bravamente para não cair do copo devido aos giros incessantes da cadeira. Ele precisava espairecer, e aquela parecia ser a melhor forma.

Porém, aquilo atrapalhou sua visão e escureceu seus sentidos á ponto de faze-lo não perceber a figura que adentrara em seu quarto á poucos minutos e estava parada em frente a sua cama, questionando-se provavelmente se 1) o garoto finalmente havia enlouquecido de vez e 2) se ele ainda não havia realmente notado sua presença.

Mas Derek Hale não era exatamente o tipo de pessoa indicada para se cuidar de um provável paciente de psicose mental e com isso, ele apenas ficou de pé, com sua costumeira posição seria que constituía em: braços cruzados, postura ereta e face ilegível – além da jaqueta de couro preta para finalizar o visual.

Em quinze minutos o garoto travou a cadeira ficando de frente para tela de seu computador – e de costas para Hale, – bebericando dois ou três goles profundos de seu café carregado de açúcar – com as mãos sobre a nuca e a respiração ofegante, além da tontura inevitável e um enjoo iminente após engolir o liquido já gélido.

O grito de surpresa misturado ao olhar surpreso que continha olhos arregalados e a boca aberta em um perfeito “o” foi totalmente esquecida ao sentir o liquido gelado sobre sua blusa. Em seguida um gemido de insatisfação e irritação chegou. Ergueu novamente os olhos para encarar aquele que julgava o causador de sua situação “molhada”.

– Senhor! – exclamou – Será que você não consegue, ao menos uma vez na sua vida, não chegar de fininho desse jeito e assustar os outros?! Já parou para pensar no que poderia ter acontecido se este café – apontou para sua camisa – estivesse quente? Eu poderia ter levado uma queimadura de segundo grau, segundo grau, cara! – esperneou – Oh merda, porque justamente essa camisa? Eu gostava muito dela, sabia disso? Porque vocês sempre conseguem estragar minhas melhores roupas? Sabia que depois de entrar nessa loucura toda eu perdi dezoito camisas manchadas de sangue? Dezoito!

E quando o rapaz finalmente aquietou-se e levantou-se da cadeira indo até o roupeiro, provavelmente á fim de trocar a blusa, Derek não sabia se estava mais surpreso com o fato de Stiles estar agindo “normalmente”, mesmo depois de sua “cena” á pouco, ou com o fato dele ter feito sete perguntas em uma frase.

O rapazote caminhou até o roupeiro e retirou outra blusa, dessa vez uma de mangas compridas negra com o símbolo do super-homem em seu centro. Retirou a peça húmida sem ligar para a presença do Alfa que o encarava, e em seguida vestiu a roupa. Retornou para a cadeira onde antes estava sentado e encarou Derek, que não movera um musculo.

– Sei que sou lindo, não-tão-gostoso e tudo mais, mas, não acho que você esteja aqui para apreciar minha beleza. – gracejou com um meio sorriso enquanto via Hale rolar os olhos – O que quer em minha tão humilde casa? Ah, mas antes disso, você não quebrou a porta, não é mesmo? Sabe você não tem a chave e não seria nada legal se você tivesse quebrado, meu pai iria achar estran-

– Entrei pela janela. – esclareceu o homem.

– Ata, então nesse caso tudo bem. – ironizou – Olha, você deveria ser um pouco mais sutil, sabia? Já parou para pensar em, sei lá, usar a campainha? Sabe, aquele negocio pequeno que fica ao lado da porta e que quando você aperta emite um som que faz os moradores da casa perceberem sua prensa e irem atender a porta.

– Eu apertei a campainha. – esclareceu presenciando o olhar surpreso contido de Stiles – Depois da sexta vez resolvi entrar da minha maneira. – deu ombros.

– Tá tá, que seja. – murmurou – O que você quer me importunando?

– Scott me disse que estava com problemas. – falou – Me pediu para vir aqui e ver se você estava bem.

– Achei que fosse você quem dava as ordens. – comentou. – Mas como você pode ver eu estou ótimo, excelente, bem ou qualquer outro adjetivo. Então, se não for muito incomodo você poderia se retirar porque eu estou realmente ocup-

– Isso é ridículo. – cortou o rapaz – Você ficou girando nessa cadeira enquanto falava sozinho durante vinte minutos. Isso não me assusta vindo de você, mas realente foi estranho.

– Nossa! Você vem na minha casa, entra pela janela e aproveita a oportunidade para me dar uma criticada básica, não? – disse se pondo de pé – Você é um amor, Derek, realmente um amor. Mas eu dispenso.

O homem revirou os olhos e ficou a encarar o rapaz andar até sua cama e deitar-se sobre a mesma, abraçando o travesseiro.

– Você está estranho. – falou – E isso não é bom vindo de você.

– O que você quer que eu diga? – perguntou – Cara, qual é? Você não parece o tipo de pessoa com quem a gente senta, conversa, desabafa e termina tudo com um abraço cumplice.

O homem a sua frente não respondeu, caminhou até a cama e sentou-se confortavelmente sob o colchão. Stiles o encarou surpreso. Primeiro pelo fato de Derek estar em sua casa num sábado á tarde, segundo pelo fato de ele estar em sua casa num sábado á tarde disposto a ouvir o desabafo do rapaz. Ele sabia o quão o lobisomem podia ser atencioso quando queria, apenas não entendia o porquê do mesmo estar sendo literalmente atencioso com ele, Stiles Stilinski, o mesmo a quem o homem já havia ameaçado de morte, no mínimo, umas vinte vezes! Porém, o Alfa já havia salvado sua vida mais de uma vez e vice-versa, mas ainda sim, era estranho. E suspeito!

– Ok. – suspirou – O que Scott disse ou fez á ponto de fazê-lo vir aqui? Digo, ele sempre foi muito bom em chantagens e tudo, mas eu não sabia que estava ficando melhor. Para falar a verdade eu meio que sabia sim, semana passada ele m-

– Será que você não consegue ficar quieto? – o homem perguntou, cortando o jovem novamente – Ele não e chantageou, apenas disse que você não estava bem, resolvi vir aqui conferir, porque acha isso tão impossível assim? – arqueou uma das sobrancelhas.

– Porque você é Derek Hale, duh! – respondeu como se fosse obvio e em seguida recebeu um olhar ofendido do lobo, que na verdade não o deixou com remorso, e sim, com medo – Não leve para o lado pessoal, lobão. Temos uma relação linda e já salvamos a vida um do outro, mas é só que parece meio improvável você dar uma de terapeuta para cima de mim. Mas até que você tem talento, ficar ai sentadão apenas ouvindo os outros e ainda ganhar bem pra caramba!

– Não entendo seu pensamento. Eu me preocupo com o bem-estar de meus companheiros. – murmurou em resposta.

Stilinski não pode evitar um sorriso de canto ao ouvir a frase dita com certa timidez pelo homem, mas em sua seriedade de sempre. Sim, ele sabia que Derek era capaz de se preocupar com alguém e na verdade, aquilo era mais comum do que se possa pensar. Mas ainda sim, a frase lhe soou tão bem, que não pode deixar de perguntar:

– Você está preocupado comigo? – questionou com seu costumeiro sorriso “enraposado”, como Scott abençoou.

– Estou. – disse simplesmente – Porque é tão difícil acreditar?

– Na verdade, não é difícil, apenas meio improvável. – esclareceu – Não precisa ficar ofendido, sei que vocês lobisomens são meio sensíveis quando se trata de sentimentos e tudo mais, mas eu apenas acho isso meio estranho. Quer dizer, nós somos amigos, pelo menos eu acho, mas não sei... não me imagino falando com você nesse sentido.

– Nós somos amigos, Stiles. – esclareceu.

– Que bom! – falou – Seria meio estranho ainda estarmos naquela fase de conhecidos, que eu na verdade acho bem chata, porque você não sabe se tem intimidade suficiente com a pessoa para lhe cumprimentar na rua e lhe contar as coisas ou apenas falar com ela quando necessário.

– Então isso quer dizer que você pode me contar o que está acontecendo. – respondeu astuto. – Somos amigos.

O mais novo encarou o homem a sua frente, irritado por ter se contradito, mas ainda sim feliz por saber que Derek realmente lhe considerava um amigo. Certo, aquilo soou estranho, “feliz por Derek lhe considerar um amigo”? Mas tudo estava tão estranho ultimamente que já havia parado de tentar distinguir. Havia algum que ele estivera interessado – de certo modo – no Alfa, não interessado do tipo “serei seu stalker particular e irei seguir seus passos”, interessado do tipo “serei seu stalker particular, mas você é um lobisomem com uma super-aldição e visão que pode notar meus movimentos, então farei tudo de forma sutil e não-tão-viciada”. Não sabia como explicar a atração que sentia em relação ao Hale, era tudo tão inóspito e confuso que ele não conseguia descrever, mas estava ali. Ele sentia que estava ali e não era algo ruim.

– Então...

– Não é nada, tá legal? – esboçou Stlies – É só que... só tudo isso parece improvável de mais! Tenho aguentado tudo isso e, por Deus eu não estou reclamando, mas é que nós humanos não podemos virar um lobo mal quando queremos extravasar e sair correndo e uivando por ai, nós temos que achar jeitos diferentes de “uivar”, algumas pessoas usam drogas, álcool até sexo, mas eu acho que isso não é pra mim. – despejou, recebendo um olhar franzido de Derek – Ótimo! Agora você acha que eu sou um maldito mal agradecido, não é isso é só q-

– Não ponha palavras na minha boca. – apressou-se o homem – Eu não acho que você seja algum tipo de mal agradecido, Stiles.

– Hm, sei. – murmurou.

– Você é irritante. – comentou – Mas, acho que entendo. Passou por muitas coisas nesses últimos meses, é compreensível que esteja abalado. Porém, isso pode lhe trazer alguns problemas, assim como está trazendo.

– Ah, qual é hein? Você aparece aqui do nada e diz estar preocupado comigo e fica falando essas coisas do nada, nem parece você Derek. – disse.

– Já disse que vim aqui apenas porque Scott me pediu. – falou.

E Stiles pode jurar ouvir certo ar de emburramento vindo do lobo.

– É, agora parece você. – comentou – Cá entre nós Derek, – levantou-se e se pôs a ficar sentado na cama, aproximando-se do homem e pondo a mão ao do de sua boca, como se fosse contar um segredo – você não precisa ficar se fazendo de durão para sempre. Essa sua cara de lobo-mau até que atrai algumas pessoas – em sua maioria masoquistas de plantão – mas normalmente dá medo. Não que eu tenha medo de você, eu sei que por trás dessa jaqueta de couro tem um filhotinho pronto para ser adotado e amassado. – sorriu.

– Porque você fica me comparando a um cachorro?

– Prefere gatos? – recebeu uma carranca em resposta e deitou-se novamente, risonho – Você me lembra aqueles cachorrões grandes que ficam em frente as casas latindo para todos, mas quando o dono chega só consegue balançar o rabo e pedir para fazerem cocegas em sua barriga. – terminou com uma piscadela.

– Cocegas na barriga? – arqueou a sobrancelha recebendo um aceno positivo e animado do adolescente – Certo, acho que Scott se enganou você me parece normal. Nesse caso, já vou indo.

– Ahh, isso não é justo! Logo agora que o papo estava começando a ficar interessante você vai embora? Não seja tão evasivo, lobão. – brincou – Fique. Nós podemos jogar uns jogos e pedir umas pizzas, é, eu sei que são seis da tarde, mas mesmo assim, pizza e pizza! Eu normalmente não peço porque meu pai não pode ficar comendo esses tipos de coisa, então eu meio que entro nessa coisa de “vida saldável” com ele, se bem que quando não estou em casa eu não ligo para isso, mas agora ele não está em casa de qualquer forma. Aliás, você gosta de pizza ou você, sei lá, come?

– Claro que eu como.

– Oh, certo! – assentiu, sentando-se na cama de forma desajeitada – Podemos pedir uma de calabresa ou bacon, talvez franco, eu gosto. – falou se pondo de pé e pegando o celular – Não sei você, mas, eu gosto de praticamente todos os sabores, inclusive aqueles de brócolis que a maioria não come. Acho que vou pedir metade calabresa, bacon, frango, queijo – falava enquanto ligava para uma possível pizzaria – ah, tem tantos!

Derek Hale tinha apenas uma pergunta em sua mente: porque não fora embora quando teve chance?

. . .

Stiles era um humano incomum. Não que Hale tivesse algum tipo de preconceito quanto a humanos, ele não era nenhum ser de outro planeta como os filmes retratavam que tinham algum tipo de arrogância perante outros seres, mas depois todos os anos de sua vida, sendo quem era e “o que” era, havia poucas coisas que o surpreendiam.

Stiles Stilinski era uma delas.

Não sabia se era pelo fato do garoto abocanhar seis pedaços de pizza em dez minutos, falar tanto e tão retoricamente que o moreno não sabia distinguir quando uma pergunta lhe era dirigida ou respondida pelo próprio rapaz, quem sabe também pelo humor acido e pouco convencional que o rapaz demonstrava – mas que talvez não tivesse nada de tão incomum, apenas astuto demais para outras pessoas compreenderem, também havia as analogias para com filmes e personagens de quadrinhos e o tal de RPG, mas de todas as peculiaridades que rondavam o rapaz, a que mais incomodava o lupino certamente era aquele olhar que o adolescente lhe dirigia quando um assunto era acabado.

Sim, olhos castanhos era provavelmente a coloração mais comum para uma íris. Mas a coloração castanha de Stiles lhe recordava a coloração de uma castanha daquelas propagandas de nutella que passavam na televisão. Era um castanho amistoso e de uma profundidade pouco percebida aos olhos menos críticos, completamente verdadeiros e consentes com a personalidade do rapaz. Aos olhares rasos e primeiros contatos o garoto era um nerd qualquer que falava de coisas que ninguém intendia e brincava ao excesso e abusava de comentários recheados de ironia da mais pura qualidade. Aos que se aprofundavam, o garoto era apenas alguém que gostava de piadas e alto calão e proteger-se de futuros descasos desnecessários. Inteligente e resguardado. Isso se claro, o conhecesse há tempos como Scott, mas Derek não conhecia Stiles há tempos e nem convivera com o mesmo diariamente – tirando os treinos onde ele mais corria do que prestava atenção no garoto – e mesmo assim conseguia enxergar essa autodefesa que o mesmo impunha aos outros. E mesmo que ele falasse demais, talvez – talvez! – fosse agradável para Derek ficar observando Stilinsk em seu cotidiano.

– Sabe Derek, acho que Scott que está com problemas e já impôs isso para cima de mim – pois a mão sobre o queixo numa feição pensativa –, desde que a Allison... – suspirou frustrado sendo acompanhado pelo lobo – enfim, desde que ela foi para um ”lugar melhor” como categorizam os cristãos, ele tem estado desanimado sabe? Foi um baque e tanto para ele, sei que já fazem alguns meses, mas esse tipo de coisa é difícil de superar.

– Realmente é. – comentou o lobo com olhos húmidos do passado.

Ao notar o remeter das lembranças de Derek, Stiles também baixou o olhar automaticamente tendo a mente invadida pelas lembranças de sua falecida mãe. Desde que a mesma morrera os problemas em sua curta vida começaram. Os déficits de atenção e a hiperatividade foram apenas o breve inicio. Mas ainda sim, não gostava de pensar nesse tipo de coisa, o fato da realidade em que sua mãe estava morta era algo que lhe machucava, mas quando se lembrava dela, mesmo que em seu estado terminal, sempre via o ar doce que ela carregava, os sorrisos que ela lhe dirigia, a personalidade forte e rechiada de boas intensões... essas lembranças lhe davam apenas mais vitalidade.

E vendo o lobo tão imerso em pensamentos desgostosos e tristonhos ele não conseguiu ficar de boca calada, como sempre...

– Ótimo, acho que nós não precisamos ficar nos remoendo em nossos passados igualmente trágicos, de qualquer forma, acho que vou conversar com o Scott, essa coisa dele de sempre ser tão calmo e controlado é irritante e acaba o deixando pior. – suspirou.

– Concordo.

Após alguns minutos em silencio por parte de Derek e mais um texto não ensaiado de Stiles o moreno resolveu se pronunciar:

– Você realmente não para de falar nunca? – perguntou num tom quase que atordoado.

Stiles, ao olhar as sobrancelhas franzidas e o tom usado pelo lobo não pode deixar de soltar uma risada.

– Acho que falo por nós dois. – disse ele – Você fica ai, nesse silencio sem fim me encarando com cara de lobo-mau que vai atacar a chapeuzinho vermelho.

– Acho que você fala pela cidade inteira. – ignorou o ultimo comentário do rapaz.

– O que falam sobre você é mentira, sabia? – recebeu um olhar de questionamento – A verdade é que você tem sim senso de humor, sourwolf. – riu-se.

O moreno suspirou ao ouvir as palavras e ainda mais – principalmente mais – o apelido. Nunca havia recebido um apelido tão ridículo e estupido antes, mas de certa forma aquilo combinava bastante com Stiles, não apenas por ser ridículo e estupido, mas por saber que nenhum outra pessoa teria coragem o suficiente para 1) lhe dar um apelido que 2) era de certa forma ofensivo e continuar 3) lhe dando outros novos apelidos e orgulhando-se cada vez mais de tal feito. Realmente, isso só podia ser coisa de Stiles Stilinski.

– Às vezes eu fico me perguntando... – começou Hale totalmente incerto de suas palavras e ainda se perguntando de onde elas estavam vindo – o que passa nessa sua cabeça oca quando você está sozinho.

Stiles que antes tinha os olhos sob o pedaço de pizza de calabresa, já meio gélido, encarou o lupino com ar nítido de surpresa. A verdade é que nem o próprio Derek esperava ter essas palavras proferidas por si mesmo. Sentiu um desconforto sobre a boca do estomago e a já conhecida sensação de calor lhe subir o pescoço até resolver instalar-se sobre suas bochechas, fazendo encarar o lado oposto ao rapaz.

– Acho que mais coisas do que você imagina. – disse ele com um sorriso de canto tímido enquanto observava o lupino e em seguida, abocanhava a pizza.

Derek desviou o olhar da pia da cozinha que antes encarava com orbes tão profundas, que quem o visse a primeiros olhos poderia jurar que lhe era algo completamente interessante. Na verdade ele podia imaginar a rotina do filho do xerife, escola, casa, Scott, pack, casa, sono. Mas ainda sim, o rapaz lhe emergia uma curiosidade quase incredível. Quem era Stiles quando não estava rodeado de lobos e todas as “estranhezas” que circulavam sua vida.

Um clima estranho pairava no ar. Derek não conseguia distinguir se era algo exatamente desconfortável, pois ainda podia ver o olhar calmo e sereno de Stiles, além de poder também sentir que o mesmo estava um tanto quanto satisfeito perante toda a situação. Tudo aquilo soava de uma forma muito nova para o moreno que não sabia mais como agir diante daquela situação.

Bem, enquanto Derek se perdia em pensamentos mesclados e medo e curiosidade, Stiles lhe encarava com divertimento puro a uma boa dose de carisma. Jamais pensara que realmente por trás de toda a atuação Derek Hale, o mesmo que lhe ameaçara cortar a garganta com o uso dos dentes já tantas vezes, podia ser apenas um cara tímido. Todos sabiam que o comportamento arisco do alpha era uma casca, apenas não sabiam que aquela casca tão dura e de aparência tão impermeável guardava algo tão simplório e assustado. E por mais que seu pensamento soasse incomum, estranho, duvidoso ou qualquer coisa do gênero, ter o lupino encarando o chão, bochecha com resquícios de um vermelho corado e ar encabulado era um tanto quanto... adorável – ele se recusava a usar a palavra “fofo.

Depois do silencio constrangedor – para Derek – e do termino da pizza, Stiles arrastou o lobisomem até seu quarto novamente enquanto tagarelava sobre a importância dos cursos após ou durante os anos letivos. O lupino tratou de se acomodar com as costas sobre a parede gélida do quarto do rapaz enquanto o mesmo atirava-se em sua cama.

– Você não me engana Derek. – comentou ele risonho.

O moreno se limitou a arquear uma das sobrancelhas.

– Não adianta me olhar assim. Sei que você não quer demonstrar, mas você me adora. – riu-se. – ãh-ãh, não diga nada. Acho que eu poderia me acostumar com isso. Eu, você, pizza – bocejou –... me parece uma boa ideia.

O alpha cruzou os braços na altura do peito, delineando ainda mais os músculos já visíveis perante o tecido fino da camiseta, e riu pelo nariz, sustentando um pequeno sorriso sobre a barba rala.

– É, acho que sim. – respondeu baixo.

– Uau, uma demonstração de afeito vinda de Derek Hale, parece que tivemos um progresso hoje. – falou rindo – Acho que se continuar a aparecer posso lhe transformar em uma versão menos bizarra do Bozo, e para sua sorte, as consultas são de graça.

– Você é uma criatura estranha Stiles, estranha demais. – falou.

– Desse jeito você me desanima. – comentou com um falso muxoxo enquanto agarrava-se ao travesseiro. Beirava às sete da tarde e aquela pizza fora de hora lhe pedia um sono.

– Não diga isso... é um sinônimo de unanimidade. – sussurrou torcendo para que o rapaz não o ouvisse, mas não eram apenas os lupinos que tinham uma audição aguçada. Um Stiles interessado e curioso podia muito bem dar conta do recado.

– Estou sendo surpreendido hoje. – comentou encarando livremente o rapaz – Primeiro estou tendo um ataque nervoso, depois Derek Hale aparece na minha janela, ainda por cima aceita passar à tarde comigo, ah e adivinhem só senhoras e senhores: Derek Hale come pizza! Também recebi dois, dois elogios! – riu – E para completar, acabei de descobrir que Derek Hale é um péssimo mentiroso.

– O que? – o lupino perguntou.

– Scott está fora da cidade. Você saberia disso se tivesse realmente falado com ele hoje, na verdade ele está ao lado da Melissa, numa daquelas viagens de mãe e filho onde a senhora confisca o celular do filho para que ele passe mais tempo com ela. Acho que eles voltam hoje à tarde. – comentou pensativo – Mas bem, acho que você deveria melhorar seus argumentos.

De todas as situações cômicas e auto favoráveis em que Stiles já se metera aquela era sem duvida a melhor! Ou estava entre as primeiras. O lobisomem tinha o rosto completa e visivelmente corado, a boca abria diversas vezes e fechava e o punho apertando fortemente o tecido da camisa era algo impagável. Nunca imaginara vê-lo em uma situação constrangedora, mas tinha que admitir, estava sendo melhor do que poderia imaginar; o que lhe dava uma vontade extrema de repetir a dose, e também lhe envolver em um pensamento: “talvez eu seja algum tipo de sádico quando se trata de Derek”, riu internamente.

– Isso... i-isso, eu não... – aparentemente nenhuma frase conexa se formava na mente do lobo.

– Não precisa se envergonhar sourwolf. Eu sou alguém totalmente irresistível e sei disso, todos querem um tempo á sós com Stiles Stilinksi, você não é exceção. Ah, mas da próxima vez você pode ser sincero comigo, até que fazemos uma boa dupla, tipo o Salsicha e Scooby.

– Isso é ridículo. – murmurou o lobo com feições serias tentando encobrir a vermelhidão da face – Não tenho nada a dizer sobre isso. – completou baixinho.

Dessa vez Stiles deixou o riso sair solto pelo território de seu quarto.

– Você não me engana, Derek, definitivamente não me engana. – uma piscadinha maliciosa fora sua cumplice para deixar o lobisomem ainda mais constrangido.

Notas finais
E depois de quatro ou sinco meses de um vicio da mais pura qualidade para com Stiles e Derek eu finalmente - finalmente!! - resolvi postar um fanfic. Tudo bem que são. ãhn... 01h14 da manhã e poucas pessoas irão ler, o que importa é o meu sentimento de paz comigo mesmo por ter escrito algo - que em minha opnião está - aceitável e legivel. Para os que irão me castigar nos rewies: sim, eu adoro lemon e leio muito por sinal, mais do que o padrão "aceitáve" pode concordar, mas eu simplesmente não conseguia escrever um lemon entre Stiles e Derek numa One. Futuramente em uma fanfic maior com os detalhes e tudo mais pretendo lhes dar algo mais... quente para que os safadinhos de plantão aproveitem. Estória bobinha e meio fofa. Tentei ser bastante apropriada ao interpretar os personagens, me corrijam se eu estiver errada. Fanfic não betada, por tanto, ao encontrarem algum erro me avisem, por favor!Espero rewies, favoritos e recomendaçoes, tudo será muito bem vindo, além de deixar meu ego mais alto irá me inspirar para escrever mais fics sterek, entãao, os dois lados ganham... rsrs...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!