Você lisossomo, eu amor vencido.
1 Do que tens medo, Ana?
Notas iniciais
Trilha sonora adequada - Bones, Ben Howard.
Os olhos vagos buscavam através do vidro embaçado a compreensão para todos os demônios que a deixam agitada. Lá fora, a chuva despencava do céu como frutos maduros de uma árvore, exibindo em suas gotas o perfeito equilíbrio da natureza. Os cílios cerravam repetidas vezes, demorando-se em seu ato, escondendo o castanho tristonho, confuso e inseguro, seriam comparáveis a persianas. Nem sempre foi assim. E não é exatamente assim. Ana Clara é o exemplo de malícia e vivacidade, sua existência leve afaga as inquietações alheias sem nenhum esforço. É como se com ela viesse o conforto de uma casa morna após um dia congelado e a percepção do que é real dentro da fantasia e a capacidade de extrair a fantasia daquilo que é real.
Ana sabia como fazer você se sentir vivo mesmo na morte, sabia como fazer você ver o caminho de volta mesmo estando milhas e milhas longe de seu destino, mesmo estando sem rumo. Ana… Ana é a realização do inesperado. E se você a consegue, se você a tem, não importa a ferocidade do tempo ou onde se encontra o ápice da estupidez humana ou a projeção do irreconhecível naquilo que usualmente é familiar, ela não desiste; porque desistir é se abandonar nas suas escolhas, é deixar-se fracassar, dissolver-se de dentro para fora. Mas o que exatamente mudou? Os fios caracolados de insônia caíam em suas costas na finitude de seus traços, a visão por entre as tábuas de madeira não era favorável, e Ana quis tocar. Ana gosta de tocar o indecifrável, não se apossando da metáfora devido o pretexto de estar com as mãos ocupadas. Segurava um suporte dourado, onde dentro encontrava-se uma vela, a cera sendo nitidamente consumida pela chama. Os dedos às vezes se aproximando da mesma na intenção de sentir a ardência. A íris assistia o tecido desvencilhar do laranja como resposta de um organismo aparentemente eficiente. A cabeça num curto giro trouxe para seus cristais graúdos a visão de seu inferno astral: o lençol caía em suas costas, os ombros largos estavam expostos, os músculos superiores visíveis como a nervura de uma folha. O travesseiro recoberto pelos cabelos embaraçados, possuía um certo brilho. Ana assistia atônita o conjunto de pintas que em sua cama se desmontavam. O seu desejo mais inerte era atrair para dentro de si tudo o que constituía nele, era fundir seu núcleo pequeno a uma eletrosfera que não a pertencia, mas não havia espaço, e então sentiu o ácido subindo do estômago a língua, o gosto amargo, pensou que talvez amar e se perder dentro do que é o amor pudesse ter esse sabor. Questionou então quantas sinapses seriam precisas para sua reação imediata ser segregar seu universo pequeno do dele extenso. Teve medo. Era tão lindo que, se seu tamanho fosse reduzido ao nada, e se pelo acaso mais impossível fosse parar na boca de lábios finos, ela não reagiria. Permaneceria estagnada, esperando pelo momento exato de cair em sua corrente sanguínea e nela se afogar, presa em suas veias saltadas. Ana não lutaria.
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