Você já foi Escolhida

5 Variáveis Humanas


*Ethan*

Se havia uma coisa que Ethan odiava em Nikolai Soren, não era a violência.

Violência era simples. Tinha forma, impacto, consequência.

O que Ethan odiava era o prazer estético que Nikolai encontrava em transformar horror em espetáculo. Como se a dor precisasse ser moldada, enquadrada, iluminada. Como se não bastasse destruir alguém; era preciso organizar a queda, coreografar o desespero, dar à vítima uma posição exata dentro da cena.

Na tela, Nikolai parecia exatamente isso: um homem em pleno controle da própria peça.

— Você está ficando previsível — Ethan disse em inglês, sem alterar o tom.

Ao seu lado, Helena lançou um olhar rápido, tentando acompanhar a mudança de idioma, tentando entender o que havia por trás dela. Ethan não se virou. O bip agudo da bomba ainda parecia preso no ar, vibrando dentro das paredes, dentro dos nervos, dentro do peito dela.

Nikolai inclinou a cabeça, divertido.

— Ainda não. Se eu estivesse previsível, você já teria me matado.

— Ainda posso corrigir isso.

— Não hoje.

Os olhos claros de Nikolai deslizaram para Helena outra vez. Não com desejo. Pior.

Com posse conceitual. Como se ela já não fosse uma pessoa, mas uma peça reposicionada com exatidão dentro de um jogo maior.

O maxilar de Ethan travou.

— Não olha pra ela.

O sorriso de Nikolai se abriu um pouco mais.

— Interessante. Já chegamos nisso?

Ethan não respondeu. Não podia desperdiçar energia. Não com o monitor da bomba ainda instável. Não com Helena sentada na maca, pálida, os ombros tensos, a camisa aberta o suficiente para expor a estrutura negra presa ao tórax, respirando com um cuidado quase cruel.

Ele sabia o que precisava fazer. Pensar em circuitos. Padrões cardíacos. Janelas de acionamento. Travas. Saídas. Só que havia um problema.

Nikolai sabia exatamente o que estava fazendo.

— O que você quer? — Ethan perguntou.

— Você ainda faz essa pergunta como se não soubesse.

— Quero ouvir da sua boca.

Nikolai cruzou as mãos diante do corpo, casual demais para alguém que segurava vidas pelo fio e começou a falar em português.

— Ótimo. Então ouça. Você vai parar de me perseguir como soldado e vai começar a me seguir como homem. Vai entrar onde eu mandar, com quem eu permitir, e vai fazer escolhas sob as minhas regras. Se não fizer... Helena Duarte morre.

Helena falou antes que Ethan respondesse.

— Não faz.

A voz saiu baixa, mas cortou o quarto inteiro. Ethan virou o rosto. Ela estava pálida, com o pulso correndo na base do pescoço e os olhos presos nos dele com uma firmeza desesperada que só tornava tudo pior.

— Não faz nada por minha causa — ela disse.

— Admiro a nobreza — murmurou Nikolai. — Principalmente em quem ainda não entendeu o próprio papel.

— Cala a boca — Ethan disse, sem tirar os olhos dela.

Nikolai ignorou o comando como se fosse ruído.

— Em quinze minutos você vai receber as coordenadas. Vai sozinho. Sem reforço visível. Sem improviso heroico. Se eu detectar qualquer variação, o dispositivo dela sai do modo contido para o modo terminal.

— E se eu for?

— Então talvez eu permita que ela continue respirando. Talvez.

Ethan conhecia aquele tipo de palavra. Era a favorita de homens que gostavam de manter todos suspensos um centímetro acima do abismo.

— Você podia simplesmente me chamar — ele disse. — Não precisava arrastar civis.

— Podia. Mas civis revelam coisas sobre você que você mesmo esconde melhor.

Os olhos de Nikolai brilharam com aquele prazer frio que Ethan conhecia bem demais.

— Por exemplo... eu nunca tinha visto você chegar tão perto assim de uma variável.

Helena falhou na respiração por meio segundo. A luz do módulo oscilou. O corpo de Ethan reagiu antes do pensamento. Ele já estava perto dela quando falou:

— Respira.

— Ele quer isso — ela sussurrou.

— Eu sei.

Nikolai os observava com interesse clínico, como um cientista vendo um experimento se comportar exatamente como previa.

— A matemática humana sempre foi mais elegante que a digital.

— Você está perdendo tempo — Ethan disse, voltando a encará-lo. — Manda a localização.

— Ah, vou mandar. Mas antes... uma gentileza.

A tela mudou.

Uma segunda imagem surgiu ao lado do rosto dele.

Granulada. Escura. Tirada em algum lugar subterrâneo.

Um homem sentado no chão, preso pelos pulsos. A cabeça inclinada. A barba por fazer. Uma linha de sangue seco descendo da têmpora.

Noah.

O impacto foi imediato e absoluto.

Não houve surpresa barulhenta. Não houve exclamação. Não houve reação visível além de um pequeno endurecimento no rosto de Ethan, tão mínimo que quase ninguém notaria.

Quase ninguém. Mas Helena notou.

Ethan sentiu o próprio corpo fazer uma coisa perigosa: gelar e incendiar ao mesmo tempo. Uma inversão brutal. Por um segundo, teve vontade de atravessar a tela com as mãos.

— Você o queria vivo, não queria? — a voz de Nikolai veio suave, quase amigável. — Agora quer mais.

A transmissão caiu antes que Ethan respondesse. O monitor escureceu. O silêncio que ficou parecia mais pesado que concreto. Foi Helena quem falou primeiro.

— Era ele?

Ethan manteve os olhos na tela apagada por alguns segundos, como se ainda pudesse arrancar dali alguma coisa além da ausência.

— Meu irmão.

A palavra saiu baixa, áspera, como ferrugem raspando metal. Helena engoliu em seco.

— Ele está vivo.

— Talvez.

— Não. — Ela respirou com cuidado, medindo o próprio coração. — Se ele te mostrou, é porque quer que você vá quebrado. Isso significa que vivo ainda vale mais.

Ethan virou o rosto devagar.

Mesmo assustada. Mesmo presa a uma bomba. Mesmo com todo o corpo tendo motivos para entrar em colapso, ela ainda pensava. Ainda ligava ponto a ponto. Ainda enxergava estrutura dentro do pânico.

Aquilo era irritantemente admirável.

— Você sempre faz análise estratégica no meio do inferno? — ele perguntou.

— Só quando o homem encarregado de não me deixar explodir parece prestes a arrancar uma parede no soco.

— Não era uma parede.

— Pior ainda.

Quase contra a própria vontade, Ethan soltou um ar curto pelo nariz. Não chegava a ser riso. Mas era o mais perto disso que seu corpo permitiria naquele momento.

Ela estava certa.

Nikolai havia mostrado Noah para desalinhar o jogo. Queria emoção à frente do cálculo. Queria vingança antes de estratégia. Queria Ethan fora do próprio eixo.

Não podia permitir. Só que o relógio estava correndo. E a bomba continuava ali.

Ethan baixou os olhos para o dispositivo mais uma vez. Depois para a pequena seleção de ferramentas arrancadas de um armário técnico ao entrar naquela sala. Pouco. Insuficiente. Melhor do que nada.

— Certo — ele disse.

— Certo o quê? — Helena perguntou.

— Nós temos um problema maior do que eu gostaria e menos tempo do que eu aceitaria.

— Inspirador.

— Você precisa continuar calma.

— Eu estou absurdamente calma para alguém usando um coração de metal homicida.

— Não o suficiente.

Ela apertou os lábios.

— E você precisa me ouvir com atenção absoluta.

— Isso soou mandão.

— Porque foi.

Helena soltou o ar devagar.

— Tá.

Ethan se aproximou de novo, agora sem margem para fingir distância. Ajoelhou-se diante dela para alinhar o olhar ao mecanismo. Ficou perto demais. A altura do peito dela, o calor da pele, a tensão no ar — tudo se tornou excessivamente concreto de um jeito que não ajudava em nada.

A voz de Helena saiu mais baixa.

— Você vai mexer nisso agora?

— Vou tentar descobrir se existe uma desativação parcial manual.

— “Tentar descobrir” continua sendo uma frase horrível.

— Concordo.

— Ethan.

— O quê?

Ela hesitou. Não por falta de coragem, mas porque algumas frases exigiam atravessar alguma coisa dentro de si antes de nascer.

— Se você achar que não dá... não vai atrás dele quebrado por minha causa.

Ele ergueu os olhos para ela.

Não havia heroísmo falso naquilo. Não havia drama bonito. Havia medo real. Medo de se tornar a razão pela qual ele pisaria exatamente onde Nikolai queria.

Aquilo mexeu com Ethan mais do que devia.

— Helena.

— Eu estou falando sério.

— Eu também. Fica quieta por trinta segundos.

Ela soltou uma risada curta, sem humor.

— Que gros—

— Trinta segundos.

Helena fechou a boca, obedecendo por necessidade, mas ainda com aquela centelha irritantemente viva no olhar. Ethan quase agradeceu por ela existir. Irritação mantinha gente acordada. Pânico puro, não.

Ele voltou ao mecanismo. Dessa vez, com mais pressão técnica.

Sentiu a carcaça. Os pinos. A base colada ao corpo. Os microparafusos quase invisíveis. A película flexível que imitava sensores médicos para monitorar vida e converter qualquer erro em morte.

Inteligente. Compacto. Cruel.

— Filho da mãe — ele murmurou.

— O que foi?

— Ele combinou engenharia limpa com sadismo teatral. Duas travas de pressão, um falso circuito de remoção e um sensor bioelétrico lendo contato superficial.

— Isso significa?

— Que alguém muito inteligente projetou isso. Ou muito doente.

— Você está descrevendo o seu amigo?

Ethan parou por um segundo.

— Ele não é meu amigo.

— Você fala dele com intimidade suficiente.

Ele não respondeu de imediato. Continuou examinando os encaixes, mas a resposta veio mesmo assim, baixa e seca:

— Quando você passa tempo demais perseguindo um homem, aprende a odiar o modo como ele pensa antes mesmo de acertar o rosto dele.

Helena ficou em silêncio.

Ethan sentiu sem precisar olhar que ela ainda o observava.

Aquela atenção quieta. Sem defesa. Errada demais para aquele cenário.

— Para de me olhar assim — ele disse, antes de conseguir impedir.

— Assim como?

— Como se eu fosse uma resposta.

Helena ficou imóvel. Quando falou, foi quase num sussurro.

— E se você for?

O quarto inteiro pareceu contrair. Ethan ergueu os olhos devagar. Medo. Exaustão. Lucidez. Tudo estava ali no rosto dela. Mas havia outra coisa também. Pequena ainda. Negável ainda. Inadequada em todos os níveis possíveis. E viva. Ele deveria ter cortado aquilo na hora. Deveria ter levantado uma parede.

Deveria ter lembrado a si mesmo que ela era casada, traumatizada, vulnerável, recém-sequestrada, e que qualquer coisa emocional nascida ali estaria contaminada por adrenalina, terror e falta de chão. Em vez disso, ouviu a própria voz sair mais baixa do que queria.

— Não sou.

Helena sustentou o olhar dele.

— Não acredito.

Ethan soltou o ar devagar.

— Esse é o problema.

Por um instante muito curto, a boca dela ameaçou sorrir. Mas o módulo bipou de novo e os dois voltaram ao inferno na mesma hora. Ethan baixou a cabeça e retomou o foco.

— Preciso mudar sua posição.

— Isso também soou pior do que devia.

— Você faz esforço pra me atrapalhar?

— Está funcionando?

— Mais do que deveria.

Ele segurou com cuidado a lateral da cintura dela para girá-la alguns centímetros sobre a maca e ter acesso melhor à base do dispositivo. O toque foi preciso. Necessário. Nada além. Só que os dois sentiram. Foi só um segundo. Um tensionamento curto, quase elétrico, atravessando o gesto técnico e transformando-o em consciência. Helena prendeu o ar.

— Não faz isso — ele murmurou.

— Eu não fiz nada.

— Seu coração discorda.

— Meu coração está literalmente preso numa bomba, Ethan.

Ele fechou os olhos por meio segundo, exausto.

— Você é impossível.

— Você ainda está aqui.

— Ainda.

As mãos dele contornaram a estrutura até encontrar um pequeno painel semioculto sob o encaixe lateral. Ele puxou a ponta de uma lâmina fina, forçou o espaço milimétrico, ouviu um clique quase imperceptível.

Ali dentro havia dois fios escuros, um transparente revestido e um chip de resposta encaixado na placa central. Não era uma solução. Era uma janela.

— Certo — ele murmurou. — Eu consigo atrasar o modo terminal.

— Só atrasar?

— Helena.

— Tá. Desculpa. Continua.

— Vou precisar encostar aqui. Pode doer.

— A essa altura, surpresa seria se não doesse.

Ethan lançou a ela um olhar curto. Quase admirado. Quase humano demais. Então introduziu a ponta metálica no microencaixe. O dispositivo vibrou. Helena mordeu o lábio inferior para conter o som.

— Solta a boca — ele disse automaticamente.

Os olhos dela subiram para o rosto dele.

— O quê?

— Você prende o lábio quando está tentando não sentir.

— Agora você me conhece?

— O suficiente.

O silêncio que veio depois foi breve, mas denso. Helena soltou o lábio devagar. Ethan desviou os olhos de volta para o mecanismo com uma violência mental maior do que gostaria de admitir. Mexeu no chip. Uma luz vermelha virou âmbar. Não era vitória. Era só fôlego.

— Pronto — ele disse.

— Pronto bom ou pronto horrível?

— Pronto temporário.

— Quanto tempo?

— Talvez uma hora. Talvez menos, se houver gatilho remoto.

— Fantástico.

Ele se levantou devagar. O joelho reclamou do piso duro. O ombro ferido puxou mais do que deveria. Helena notou na mesma hora.

— Você está pior do que fala.

— E você está pior do que admite.

— Ótimo. Formamos uma dupla mentirosa.

— Não uma dupla.

Ela disse, com ironia leve demais para esconder o que havia por baixo:

— Não?

Ethan olhou para ela por um segundo mais longo do que devia.

— Ainda não sei no que isso vai nos transformar.

O som que veio em seguida não foi da bomba.

Foi da parede à esquerda deslizando com um estalo hidráulico.

Os dois se viraram ao mesmo tempo.

Onde antes havia concreto liso, abriu-se um retângulo estreito. Atrás dele, um corredor de luz fria descia para algum lugar invisível. Na entrada, preso por um suporte magnético, havia um pequeno comunicador e uma tela embutida.

O rosto de Nikolai reapareceu.

— Hora de avançar — ele disse, como se os convidasse para jantar. — Ethan, você queria uma chance. Helena, você queria entender seu papel. Parabéns. A próxima camada está pronta.

A imagem mudou. Plantas geométricas. Salas cúbicas. Portas em sequência. Números. Símbolos. Uma arquitetura impossível de concreto, aço e cálculo. O estômago de Ethan virou antes mesmo de a mente fechar o círculo.

Não. Pior que uma lembrança. Uma aplicação real. Uma versão operacional.

O cubo.

Ao lado dele, Helena encarava a tela como quem olha para a planta de um pesadelo.

— O que é isso?

Ethan não tirou os olhos do projeto. Quando respondeu, a voz saiu mais dura.

— Um filtro.

— Filtro de quê?

Dessa vez, ele olhou diretamente para ela.

— De sobreviventes.

Na imagem seguinte, por apenas dois segundos, apareceu Noah em outra cela. Vivo. Exausto. Esperando. Depois sumiu. Nikolai sorriu pela última vez.

— Traga o coração, Ethan. E talvez eu devolva o sangue.

A transmissão caiu. O comunicador emitiu um som seco. Em seguida, uma voz automática falou em inglês e depois em português:

Entrada liberada para dois participantes. Janela de acesso: sessenta segundos.

Helena virou o rosto para Ethan.

— Ele quer que a gente entre nisso?

— Sim.

— E se a gente não entrar?

Ethan olhou para a bomba presa ao peito dela. Depois para o corredor. Depois de volta para ela.

— Acho que ele já respondeu isso.

Helena respirou fundo uma única vez, com todo o cuidado do mundo.

— Então vamos.

Ele a encarou.

— Você nem sabe o que é isso.

— Não. Mas sei que se eu ficar aqui, viro cadáver decorativo. E sei também que seu irmão está lá em algum lugar.

— Helena—

— Não perde tempo tentando me deixar pra trás, Ethan. Você já sabe que eu sou teimosa.

Ele soltou um ar curto, sem humor.

— Isso não é teimosia. Isso é insanidade funcional.

— Ótimo. Combina com o seu perfil.

Por um segundo, os dois apenas se olharam. O corredor aberto. O tempo correndo. A bomba entre eles e dentro dela. A atração existindo exatamente onde não devia. E alguma coisa parecida com um pacto se formando sem que nenhum dos dois precisasse dizer a palavra.

Ethan estendeu a mão. Não como flerte. Não como ordem. Como escolha. Helena olhou para aquela mão grande, firme, marcada. Depois ergueu os olhos para o rosto dele. E colocou a dela na dele. Os dedos se fecharam. Quentes. Fortes. Reais demais.

— Não me solta — ela disse, baixo.

A resposta veio imediata.

— Não pretendo.

E juntos, com menos de um minuto antes que a entrada se fechasse, eles avançaram para o corredor que levava ao cubo.