Você já foi Escolhida

1 Primeiro Dia Após as Férias


*Helena*

Segunda-feira sempre teve um gosto estranho.

Para algumas pessoas, era o gosto ruim do despertador cedo demais. Para outras, o gosto seco do café tomado com pressa, da roupa social apertada no corpo, do trânsito, do elevador lotado, das metas, dos e-mails marcados como urgentes às oito da manhã. Para Helena, naquela segunda-feira específica, tinha gosto de fim.

Não de morte.

De fim.

Fim de descanso, fim do ar leve das férias, fim daquela pequena mentira que ela contava a si mesma quando saía da cidade por alguns dias e fingia que voltar seria fácil. Porque nunca era. Não quando a vida que a esperava parecia boa no papel e insuficiente por dentro.

Ela acordou antes do marido.

Ficou alguns segundos deitada, olhando para o teto escuro do quarto, sentindo o ar do ar-condicionado bater leve na pele e ouvindo a respiração tranquila de Rafael ao lado. Ele dormia de barriga para cima, um braço jogado para o lado dela, bonito de um jeito limpo, correto, familiar. Era um homem bom. Esse era o problema.

Seria mais fácil justificar o vazio se ele fosse cruel.

Mais fácil apontar a falta se ele fosse ausente.

Mais fácil odiar o casamento se existisse traição, mentira, desrespeito, algo objetivo que coubesse numa conversa amarga entre amigas ou numa sessão de terapia. Mas Rafael não era nada disso. Rafael era gentil. Presente. Trabalhador. Carinhoso nas medidas que o mundo entendia como suficientes. Ele lembrava datas. Perguntava como havia sido o dia dela. Levava o carro para revisão sem precisar ser lembrado. Mandava mensagem no almoço. Não gritava. Não traía. Não quebrava nada.

Só não a alcançava.

Helena fechou os olhos por um instante.

A pior fome era aquela que ninguém via.

Virou o rosto e observou o perfil dele na penumbra. O casamento deles tinha sete anos. Sete anos de rotina afinada, de fotos bonitas em viagens, de jantares em família, de domingos organizados, de cumplicidade socialmente admirável. Sete anos de uma vida que funcionava tão bem que fazia parecer ingratidão querer mais.

Mas ela queria.

Não mais luxo. Não mais atenção. Não outro homem.

Mais vida.

Mais febre.

Mais risco.

Mais aquela sensação de estar inteira dentro da própria pele, e não apenas atravessando os dias com elegância.

Levantou sem fazer barulho. No banheiro, acendeu a luz baixa, prendeu o cabelo, lavou o rosto, escovou os dentes e se olhou no espelho por tempo demais. Tinha trinta e dois anos, uma beleza que nunca precisou gritar para ser notada, olhos castanhos que guardavam cansaços silenciosos e a expressão de quem havia aprendido a sorrir sem mostrar tudo.

Passou um hidratante leve, escolheu uma camisa de seda azul-clara, calça de alfaiataria preta e um salto médio que sabia ser confortável para o dia inteiro. Quando voltou ao quarto, Rafael já estava sentado na cama, o cabelo bagunçado, o rosto ainda marcado de sono.

— Você saiu de férias mais bonita do que entrou — ele disse, com a voz rouca.

Helena sorriu de lado enquanto colocava os brincos.

— Essa frase é ensaiada?

— Não. Essa é sincera. As ensaiadas eu deixo pra mais tarde.

Ela riu baixo. Aproximou-se, inclinou-se para beijá-lo de leve. Rafael segurou sua cintura e prolongou um pouco o toque, os dedos firmes sobre o tecido da camisa. Havia carinho. Havia desejo também. Mas até nisso eles pareciam seguir um roteiro conhecido demais.

— Hoje vai ser puxado? — ele perguntou.

— Primeiro dia depois das férias. Vai ter reunião, relatório atrasado, gente me perguntando se eu descansei como se isso fosse mudar alguma coisa.

— Quer que eu te busque?

— Não precisa.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ele soltou sua cintura devagar.

— Então boa sorte, Helena.

Boa sorte.

Ela não sabia, mas seria a última frase normal que ouviria antes do mundo virar do avesso.

O prédio da Vértice Biotech, em Campinas, tinha vinte e três andares de vidro, aço escovado e segurança privada cara o suficiente para transmitir uma sensação confortável de inviolabilidade. Helena trabalhava no setor administrativo estratégico, uma função bonita de descrever e exaustiva de viver. Era boa no que fazia. Tão boa que, aos olhos dos outros, tinha tudo muito no lugar: carreira sólida, casamento estável, boa aparência, inteligência, educação, controle.

Controle.

Essa era a palavra.

Ela chegou pouco depois das oito e vinte. Cumprimentou o pessoal da recepção, ouviu duas piadas sobre o bronzeado discreto de férias, respondeu com a educação de sempre e subiu para o décimo quarto andar. Sua mesa ainda tinha o pequeno cacto sobrevivente no canto, a foto com Rafael em Tiradentes, uma caneca com a frase “não é urgência só porque você escreveu em caixa alta” e uma pilha nada pequena de documentos que haviam crescido em sua ausência.

Mal havia aberto o notebook quando Camila se jogou na cadeira ao lado.

— Você voltou. Eu já tava considerando denunciar seu sumiço como abandono emocional.

Helena sorriu.

Camila era expansiva, falava rápido, usava brincos enormes e tinha uma alegria quase teimosa. Casada, dois filhos, vida barulhenta, sempre cansada e sempre viva.

— Bom dia pra você também.

— Bom dia nada. Você tá ótima, isso me irrita. Descansou?

— O suficiente pra fingir que sim.

— Perfeita. Ainda consegue ironizar às oito e meia. Eu, se alguém respirar alto perto de mim, eu choro.

Logo depois veio Júlia, com sua calma doce, o cabelo preso num coque impecável e um copo de café como se segurasse ali a última esperança da humanidade.

— Eu trouxe pão de queijo — ela anunciou, pousando um saco pardo sobre a mesa de Helena como quem entrega uma oferenda.

— Você é oficialmente a melhor pessoa desse prédio — Helena disse.

— Eu sei.

As três riram.

Era um momento banal. Pequeno. Quase tolo em sua normalidade.

Helena se lembraria dele depois com uma violência emocional absurda.

Às nove e doze, o alarme não tocou.

Nenhuma sirene anunciou perigo. Nenhuma voz no sistema de som pediu evacuação. Não houve aquele segundo cinematográfico de suspensão em que todo mundo percebe ao mesmo tempo que algo está errado.

O que houve foi um ruído seco, abafado, vindo do corredor.

Depois outro.

Depois gritos.

Helena levantou a cabeça devagar demais, como se o cérebro se recusasse a interpretar. Camila franziu a testa. Júlia pousou o café.

E então a porta de vidro do setor explodiu para dentro.

Não em fogo. Em estilhaços.

Dois homens com fuzis entraram primeiro, vestidos com preto tático, máscaras parciais, movimentos rápidos e disciplinados demais para qualquer assaltante improvisado. Um terceiro surgiu logo atrás, mais alto, sem arma erguida, apenas observando, como se comandasse o ritmo do pânico.

O escritório inteiro congelou por meio segundo.

Depois veio o caos.

Gente se jogando no chão. Cadeiras arrastando. Um segurança tentando reagir e sendo derrubado com brutalidade. Um disparo para o teto. Outro contra o balcão ao lado. Um homem gritando para todos abaixarem a cabeça. Alguém chorando. Um teclado quebrando no chão. O som fino de vidro ainda caindo.

Helena ficou de pé por um segundo a mais do que devia.

Não por coragem.

Por incredulidade.

O comandante olhou direto para ela.

Não como um homem olha para uma mulher.

Como um predador avalia uma peça específica num tabuleiro.

— Você. — O sotaque dele não era brasileiro. — E aquelas duas.

A arma apontou para Camila e Júlia.

— Levantem.

O corpo de Helena gelou inteiro.

— Por quê? — Camila deixou escapar, a voz estrangulada.

O homem mais próximo atravessou a distância e a puxou pelo braço com tanta força que o grito saiu antes que ela pudesse engolir. Júlia começou a tremer.

— Agora — disse o líder, ainda calmo. Calmo demais. — Ou eu começo a matar o resto.

Helena ergueu as mãos devagar.

O escritório inteiro virou um mosaico de rostos no chão, olhares arregalados e impotência. Ela sentiu uma vertigem breve, mas se obrigou a respirar. Camila chorava sem barulho. Júlia mal conseguia ficar em pé. O homem alto se aproximou mais e Helena viu os olhos dele por trás da máscara parcial: frios, cinzentos, calculistas.

Ele sabia exatamente o que estava fazendo.

Não era um assalto.

Não era improviso.

Era uma coleta.

Foram levadas pelos corredores sob a mira de armas, por escadas de serviço, por um trajeto interno que contornava o pânico principal do prédio. Em algum ponto, Helena ouviu mais disparos no andar de baixo. Em outro, ouviu alguém gritar em inglês. O coração dela batia tão forte que chegava a doer.

— Helena... — Júlia sussurrou atrás dela, quase sem voz.

Ela virou o rosto um pouco.

— Olha pra mim — Helena disse, firme, mesmo sentindo o próprio corpo querer ceder. — Respira. Só respira. Não faz nada impulsivo.

— Meu Deus...

— Eu sei.

Camila andava do outro lado, tropeçando, o rosto molhado, repetindo os nomes dos filhos como se fossem oração.

Chegaram ao subsolo três.

Lá havia uma van escura com placas falsas, mais dois homens e um corpo caído perto da guarita de segurança. Helena não conseguiu olhar por muito tempo. O líder a empurrou para dentro primeiro, depois Camila e Júlia. Um dos homens aplicou nelas abraçadeiras de plástico com uma eficiência revoltante.

A porta bateu.

Escuro parcial.

Motor.

E foi assim, sem qualquer cerimônia, que a vida dela saiu dos trilhos.

As próximas duas horas foram fragmentos.

A van correndo em alta velocidade.

Mudança de veículo.

Capuz.

Cheiro de gasolina, ferrugem e tecido úmido.

Uma escada.

Um galpão ou algo parecido.

Uma cadeira de metal.

O som abafado de um televisor ligado ao longe.

Quando tiraram o capuz, Helena precisou piscar várias vezes.

Estavam num cômodo amplo, de teto alto, paredes de concreto e luz branca excessiva. Havia três cadeiras fixadas no chão, câmeras em pelo menos dois cantos, caixas metálicas empilhadas e uma televisão ligada em um canal de notícias sem som. Uma repórter falava em frente ao prédio da Vértice, com a legenda urgente correndo na tela. Helicópteros. Viaturas. Imagens aéreas.

Aquilo já estava em todos os lugares.

Camila começou a chorar de novo.

Júlia tremia tanto que a cadeira estremecia junto.

Helena forçou a si mesma a observar.

Dois guardas armados na porta. Um terceiro andando pelo espaço. O líder ausente por enquanto. Um relógio industrial preso alto na parede marcando onze e vinte e quatro.

Na televisão, sua empresa ocupava o centro da tragédia nacional.

Logo depois, internacional.

Uma nova legenda surgiu em inglês, dividindo a tela com imagens do prédio e com um retrato antigo e granulado de um homem de barba curta e olhos de gelo.

Nikolai Soren.

O nome apareceu na tarja.

Helena não conhecia o rosto, mas sentiu o medo no modo como os homens no galpão reagiram. Como se até para eles o nome pesasse.

Minutos depois, ele entrou.

Sem pressa.

Mais alto do que parecia, sem a máscara dessa vez, terno escuro sob o colete, cabelo claro penteado para trás, rosto marcado por uma elegância cruel. Havia algo de europeu nele, talvez leste europeu, talvez impossível de localizar de propósito. Ele tinha o tipo de presença que não precisava gritar para dominar uma sala.

Veio direto até Helena.

Abaixou-se na altura dela.

— Senhora Duarte.

O português dele era surpreendentemente bom.

— Eu prefiro Helena.

Um canto da boca dele subiu.

— Eu imagino.

Ele olhou para Camila e Júlia, depois voltou para ela.

— Você é a mais estável das três.

— Que observação encantadora.

— E afiada também.

A proximidade fez Helena sentir o cheiro discreto do perfume dele misturado a pólvora fria. Não demonstrou que isso a incomodou.

— O que você quer? — ela perguntou.

— Muitas coisas. Hoje, especificamente, cooperação.

— Eu nem sei o que está acontecendo.

— Vai saber.

Ele ficou de pé e fez um sinal. Um dos homens trouxe um tablet. Nikolai tocou na tela e virou o aparelho para elas. Havia uma transmissão em diversos idiomas, logotipos de jornais estrangeiros, comentaristas falando sobre o ataque em Campinas, sobre o histórico de Nikolai Soren, sobre células dispersas, financiamento clandestino, bioengenharia, mercados paralelos, operações nos Estados Unidos, na Europa e agora no Brasil.

Helena sentiu o estômago afundar.

— Isso não é um sequestro comum — ele disse, quase gentilmente. — Vocês, infelizmente, tiveram o azar de trabalhar onde trabalham.

Ela ergueu o queixo.

— Eu sou do administrativo.

— Todo mundo acha que entende pouco até perceber o valor do que assina, do que aprova, do que vê passar.

Helena prendeu a respiração.

Então era aquilo.

A Vértice não era o alvo apenas pelo prédio. Era pelo que podia carregar dentro.

Informação.

Protótipos.

Gente.

Nikolai observou o rosto dela e pareceu satisfeito ao notar que ela começava a entender.

— Inteligente — ele murmurou.

Camila falou, soluçando:

— Por favor... eu tenho filhos...

Júlia começou a pedir a Deus em voz baixa.

Nikolai se aproximou delas, ouviu as súplicas como quem escuta chuva na janela e depois virou-se para Helena outra vez.

— Você, ao contrário delas, não implora.

— Ainda é cedo.

A sombra de um sorriso voltou ao rosto dele.

— Talvez você seja útil.

No mesmo instante, uma das telas num canto da sala chiou. Um homem se aproximou de Nikolai e disse algo rápido em russo. Helena não entendeu as palavras, mas entendeu a alteração no ambiente. O corpo dos guardas endureceu. Nikolai pegou um rádio, ouviu uma transmissão e o olhar cinza ficou mais frio.

Invasão externa? Rastreamento? Alguma coisa havia saído do roteiro.

Nikolai desligou o rádio e voltou os olhos para Helena.

— Parece que temos companhia.

Ela não respondeu.

Mas naquele exato momento, do outro lado da cidade, um homem acabava de pousar em solo brasileiro com uma ordem simples e impossível:

encontre Nikolai Soren antes que ele transforme o sequestro de três mulheres num espetáculo global.

O nome dele era Ethan Vale.

E Helena ainda não fazia ideia de que, antes do fim daquele dia, a voz dele seria a única coisa firme o bastante para segurá-la inteira.