Você e Eu

1 "You and me" - do S.O.J.A. (Soldiers of Jah Army)


Eu me lembro de quando tudo começou
Foi no nosso baile de formatura.
Eu já era apaixonado por ela.
Nunca havia tido coragem de me declarar. Naquela época, eu ainda era inseguro, tímido. Não sabia como me aproximar dela.
Ela era linda. Extrovertida. Divertida. Inteligente.
Perfeita.
Acho que ela nunca me notou, até aquele dia.
Seria minha última chance. Meu sentimento por ela crescia cada vez mais; eu não seria capaz de segurá-lo muito tempo.
Não sei de onde tirei coragem. Devo ter sido impulsionado pelo desespero. Desespero de nunca mais vê-la, de nunca mais nos encontrarmos.
Hoje, eu penso que talvez tivesse sido melhor assim.
Talvez.
Ao mesmo tempo, eu não consigo enxergar minha vida sem ela, sem a sua presença...
Bem, naquele dia, o dia em que ela deve ter percebido que eu existia... Eu fui até ela apavorado. Eu sabia que a chance de ser rejeitado era imensa. E ser rejeitado pela garota por quem eu me via perdidamente apaixonado doeria mais do que eu seria capaz de suportar. Mesmo assim, resolvi arriscar. Era preciso.
Quando fui falar com ela, notei que seus olhos me encararam, a princípio, muito interrogativos. Era visível que ela nem mesmo sabia quem eu era. Depois, quando comecei a tentar falar, os olhos dela eram curiosos. Por fim, quando finalmente consegui fazer o pedido, ela me olhou incrédula. Sim; naquele momento, o mundo caiu sobre a minha cabeça. Aquele olhar dela me foi devastador. Ela não podia acreditar que alguém como eu tivesse a ousadia de convidar alguém como ela para o baile.
Creio que ela me teve até mesmo pena. Por isso, não foi rude. Da forma mais educada que lhe foi possível, ela recusou o meu convite.
Doeu, sim. Ainda dói. Impressionante como, mesmo depois de tanto tempo e mesmo depois de tanta história entre nós dois... Essa lembrança ainda fere.
Na noite do baile, eu estava lá. Não sei por que eu fui. Talvez eu seja um pouco masoquista. Começo a acreditar com força nessa possibilidade. Fui porque queria ver se ela não havia mentido. Afinal, a desculpa para recusar minha companhia era o fato de já ter um par para o baile. Seria verdade? Eu queria ver com meus próprios olhos.
Certo, eu confesso. O que eu sentia era obsessão, sim. E isso me fazia mal.
Isso me faz mal.
Enfim; lá estava eu. Ridiculamente agitado. Olhava para todos os lados, à procura dela. O que eu esperava ver? Será que eu realmente queria vê-la acompanhada? Ora, isso significaria que ela não me mentiu. Contudo, uma parte minha gostaria que ela tivesse mentido. Se ela estivesse sozinha...
Essa é a parte mais ridícula. E se ela estivesse sozinha? O que eu faria? Iria convidá-la para ficar comigo uma vez mais? Se ela recusou uma vez, o que a impediria de fazê-lo de novo? Por que ela mudaria de ideia?
Eram pensamentos assim que povoavam minha mente conturbada quando, depois de dar umas cinco voltas no salão, eu resolvi olhar lá fora. Estava já ansioso demais. Precisava vê-la. Já chegava ao ponto de não me importar se ela estaria com alguém ou sozinha. Eu queria vê-la, apenas isso. Como sempre fiz durante tanto tempo. O simples ato de vê-la, mesmo que à distância, fazia-me bem. Trazia-me paz.
O sorriso dela iluminava a minha vida.
A presença dela dava sentido à minha existência.
Eu só queria que ela continuasse existindo para mim...
Mesmo que eu não passasse de uma sombra para ela.
Eu estava do lado de fora do ginásio onde o baile estava acontecendo. Era uma noite muito bonita, eu me lembro bem. Não; não era uma noite estrelada, ou com uma bela lua cheia. Não, eu nunca gostei desses clichês. Minha concepção de noite bonita eram justamente as noites escuras, sombrias. Se fossem tempestuosas, melhor ainda.
Tinham muito a ver com o meu estado de espírito.
Até hoje eu não sei se me conheço por inteiro. É praticamente certo que há muitas partes de mim mesmo que permanecem adormecidas, das quais eu nunca tomei conhecimento...
Eu nem sei se quero despertar esse lado.
Tenho medo de me descobrir. Não sei o que essas descobertas poderiam ocasionar.
Então é como se uma sombra encobrisse esse meu lado mais secreto, mais obscuro.
E é preferível que continue sendo assim.
Naquela noite escura, ventava muito. Era o prenúncio de uma tempestade.
Eu estava fitando o céu, observando as nuvens muito negras aglomerando-se cada vez mais no céu sem estrelas nem luar.
Foi quando eu vi.
Ou melhor, ouvi.
Primeiro, a porta de um carro se fechando violentamente.
Depois, vozes agitadas.
Uma garota.
Um rapaz.
A voz dela eu reconheci imediatamente.
A voz masculina não me interessava.
Era difícil entender o que eles diziam. Apesar de estarem praticamente gritando, a noite era furiosa e a natureza parecia querer que a sua voz fosse mais ouvida que todo o resto.
Mesmo assim, eu consegui compreender algumas palavras.
Ela dizia que não acreditava no que ele havia feito, que não iria perdoar... Algo assim.
E ele... Acho que apenas discutia de volta. Não me parecia que ele estivesse interessado em uma reconciliação.
Eu fui caminhando na direção de onde vinham as vozes e, abrigado por uma árvore, pude presenciar o término daquela discussão.
Depois de mais palavras acaloradas, o rapaz voltou a entrar no carro e saiu dali, parecendo revoltado.
Ela ficou sozinha, olhando para a pista, até ver o carro sumir.
Começou a chover.
Ela não se moveu, não saiu do lugar. Devia estar ainda assimilando o que acabava de acontecer.
Mas a chuva era pesada e eu não poderia deixá-la ali, com seu vestido de gala ficando completamente encharcado.
Corri até ela. Retirei meu paletó e coloquei sobre ela, para protegê-la.
Nesse instante, ela pareceu despertar daquele estado de transe. Voltou aqueles olhos castanhos para mim, surpresa.
Eu sorri para ela. Um sorriso espontâneo e verdadeiro.
Ela estava me vendo, de fato, pela primeira vez.
E sorriu-me de volta.
Não precisamos trocar qualquer palavra. Houve uma comunicação entre nós dois que tornava desnecessária qualquer outra coisa que não fossem os nossos olhares.
Entramos no salão.
Dançamos juntos.
Olhos nos olhos.
As músicas começavam, terminavam, e não saíamos dali.
Sequer notávamos a presença dos outros.
Era como se existíssemos apenas um para o outro.
Foi o momento mais mágico da minha vida.
Não sei quanto tempo estivemos ali. Sei apenas que, de repente, o mundo inteiro pareceu desaparecer à minha volta e eu senti que dançávamos no infinito, em um espaço muito além de tudo o que parecia ser real... Foi ali, naquele instante, que eu vi um brilho único nos olhos dela. Um brilho especial e convidativo. Sim, ela me permitia. E eu não hesitei.
Eu a beijei. E naquele beijo, eu coloquei todo o meu ser, toda a minha alma, todo o meu amor.
Ela retribuiu e esse beijo tem sido a razão de tudo.
Após o beijo que, em poucos segundos, concentrou toda uma eternidade, ela subitamente se afastou. Ela pareceu se dar conta de tudo o que estava se passando e me olhou confusa, perdida, até mesmo arrependida.
Eu me lembro de que ela balbuciou algum pedido de desculpas, mas não consegui ouvir ao certo o que ela falou. Nem deu tempo. Logo em seguida, ela havia partido e me deixado ali, sozinho.
Nos dias seguintes, eu não tive muitas notícias dela. E não tive coragem de ir atrás, embora a ansiedade em que eu me via estivesse me devorando por dentro.
Não sabia até quando eu iria suportar ficar naquele estado.
Não precisei descobrir.
Um dia, para a minha surpresa, ela me ligou.
Foi totalmente inesperado.
Eu nem sabia que ela tinha o número do meu telefone.
Bom, na verdade, ela não tinha. Deu um jeito de descobrir e isso me fez sentir ainda mais especial.
Fiquei tão sem palavras quando ouvi a voz dela do outro lado da linha, que consegui apenas dizer "sim", quando ela me pediu que a encontrasse. Ela escolheu o lugar e eu apenas concordei.
Nós nos encontramos no parque. Era já fim de tarde. Eu cheguei antes, o que é compreensível, tamanho o meu nervosismo. E quando ela apareceu... Era como se o dia voltasse a raiar na minha vida.
Ela estava triste. Seu semblante denunciava isso. Eu fui até ela, mas, quando me aproximei o bastante, fiquei sem saber o que fazer.
Novamente, não precisei agir. Foi ela quem tomou a iniciativa.
Então ela me abraçou.
E logo começou a chorar.
Ficamos ali um bom tempo, até que ela se acalmasse.
Daí, ela passou a me contar o que tinha havido.
O cara do baile da formatura era uma espécie de namorado... Eu digo "espécie" porque a relação deles era um tanto confusa... De qualquer maneira, depois daquela noite que, para mim, foi tão incrível, ela voltou com ele.
Ela não me explicou em detalhes e preferi não cobrar tantas explicações. O fato é que eles tinham voltado, haviam se reconciliado depois daquela briga.
No entanto, ela agora vinha chorar no meu ombro, dizendo-se profundamente arrependida. Contou-me que ele não prestava, que a havia traído de novo, entre outras reclamações do tipo.
Fui um ótimo ouvinte. Escutei tudo o que ela tinha para me dizer. Concordava com o que percebia que deveria concordar e assim fui me fazendo a pessoa ideal para ela naquele momento.
Quando nos separamos, já era noite.
Era uma noite estrelada.
E não houve beijo.
Eu não sabia o que esperar. Nem sabia se deveria ou poderia procurá-la.
Outra vez, ela tomou a decisão por mim. Em menos de uma semana, ela voltou a me ligar.
Estava muito feliz; sua voz era alegre e eu conseguia perceber isso.
Marcamos de nos encontrar novamente no parque. Ela queria muito me ver.
Eu me preparei para aquele encontro com tanto esmero... e para quê?
Quando cheguei lá, eu a vi.
Sorridente.
Com outro rapaz.
Abraçada a ele.
Ela me apresentou o cara, como sendo o novo namorado.
E me apresentou para ele como um amigo especial.
Era isso o que eu representava para ela.
Um amigo.
Especial, que seja.
Mas ainda assim, apenas um amigo.
Tem sido assim desde então.
É ridículo, é patético.
Eu me tornei o seu melhor amigo.
Cada vez mais, eu sinto que a amizade que ela tem por mim aumenta.
E, quanto maior a amizade, menor a chance de me tornar algo mais. Ao menos, é o que me parece.
Eu já quis me afastar. Isso, obviamente, não me faz bem.
Entretanto, como eu já disse, devo ser meio masoquista. Não há outra explicação. Eu não apenas continuo seguindo nesse papel, como tenho me especializado nele.
Odeio que ela me apresente aos novos caras que conhece. Eu sei que ela faz isso porque quer que eu faça parte de sua vida. Ela diz que os apresenta para mim, pois precisa da minha opinião. Contudo, quando ela me pergunta o que acho deles, ela mesma já me dá sinais de que quer ouvir isso ou aquilo. E aí eu apenas danço conforme a música.
E me mantenho por perto, como ela quer que eu faça. Fico sempre próximo, às voltas dela, pronto para executar o papel de melhor amigo no momento em que ela termina com mais um namorado.
Acho que passei a viver para esses momentos.
Sempre aguardando o instante em que, de todos os homens do mundo, somente eu seja aquele de quem ela precise. O único para ela.
Nós nunca conversamos sobre o beijo naquele baile.
Já faz tanto tempo... Às vezes, chego a me perguntar se aquilo realmente aconteceu, ou se foi fruto da minha imaginação.
Entretanto, quando ela está nos meus braços, quando eu a estou consolando...
A sensação, o calor, o sentimento... Tudo isso me remete àquela noite.
É aí que eu sei que foi real.
Quando estamos assim, tão próximos... Eu sempre sinto o "quase".
Quase conseguimos nos aproximar daquele momento que desencadeou o beijo.
Mas sempre ficamos no "quase".
Ela sempre interrompe o momento; não nos deixa ir além.
Em seus olhos, eu vejo... Ela tem medo. Mas medo de quê?
Não importa. Interessa apenas que eu estou me cansando.
Sei que tenho minha parcela de culpa. Ora, é bem provável que a culpa seja toda minha. Eu continuo indo atrás dela. Continuo me fazendo presente para ela.
Se alguém tem de dar um basta, esse alguém sou eu.
Porém, é tão difícil...
É complicado entender. Como eu disse, não me conheço bem. Há partes em mim que me são obscuras. Por que eu não consigo mudar? Por que me mantenho preso? Eu sei que não vale a pena todo esse sacrifício. Eu sei que ela não vai mudar o modo de me tratar. Então... Por que eu continuo?
O meu celular toca. Reconheço o toque; é ela quem está me ligando.
Eu já sei do que se trata.
Mais um namoro que não deu certo.
Ela me liga chorando. Percebo que ela está péssima.
Ela me pede para ir buscá-la. O namorado brigou com ela e foi embora. Ela até poderia pedir para que outros a fossem buscar no lugar em que está, mas ela prefere que seja eu a ir resgatá-la.
Pego o endereço. É um pouco distante de onde estou. Mesmo assim anoto num pedaço de papel.
Ela chora muito, eu não digo nada. Lá no fundo, eu sinto que gostaria de dizer "não". Eu quero dar um fim a isso. Não posso continuar assim.
Acho que ela percebeu o meu silêncio. Então me pergunta se está tudo bem. Mas ela me pergunta não porque queira saber a verdade. Ela me pergunta de um modo no qual a única resposta cabível é que "sim", eu estou bem. É o que ela quer ouvir.
E é a única palavra que consigo dizer.
Desligo o celular e entro dentro do meu jipe. Olho para o céu. Noite de tempestade.
Tempestade assim como eu.

******

You And Me

S.O.J.A. (Soldiers of Jah Army)

It's you and me
And it's always been
And how I feel about you
There's no end

But you made me
Chase you around
And then you need me again
When you fall down

And when this dance is done
You and me are still
The only ones

Yeah since time begun
And I'm still with you
Even when you're gone

And when this dance is done
You and me are still
The only ones

Yeah since time begun
And I'm still with you
Even when you're gone

SoI start it, and you stop it
SoI want it
Knowing that you're walking away

It's you and me and we're
Back again
Don't introduce me to all
Your "new friends", man
Why do you make me
Chase you around?
Why do your words make me
Not make a sound

And when this dance is done
You and me are still
The only ones

Yeah since time begun
And I'm still with you
Even when you're gone

And when this dance is done
You and me are still
The only ones

Yeah since time begun
And I'm still with you
Even when you're gone

SoI start it, and you stop it
SoI want it
Knowing that you're walking away

[TRADUÇÃO:]

Você E Eu

É você e eu

E sempre vai ser

E como eu me sinto por você

Não tem fim

Mas você me fez

Ficar ao seu redor

E então você precisa de mim novamente

Quando você cai

E quando essa dança acabar

Você e eu ainda seremos

Os únicos

Yeah, desde o começo dos tempos

E eu ainda estou com você

Mesmo quando você se for

E quando essa dança acabar

Você e eu ainda seremos

Os únicos

Yeah, desde o começo dos tempos

E eu ainda estou com você

Mesmo quando você se for

Então eu começo, e você para

Então eu quero isso

Sabendo que você está indo embora

É você e eu e nós estamos

De volta novamente

Não me apresente a todos os

Seus "novos amigos", cara

Por que você me faz

Ficar ao seu redor?

Por que suas palavras me fazem

Ficar sem voz?

E quando esta dança acabar

Você e eu ainda seremos

Os únicos

Sim, desde o tempo começou

E eu ainda estou com você

Mesmo quando você vai embora

E quando esta dança acabar

Você e eu ainda seremos

Os únicos

Sim, desde o tempo começou

E eu ainda estou com você

Mesmo quando você vai embora

Então eu começo e você para

Então, eu quero isso

Sabendo que você está indo embora.

******

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